A régua do mundo é masculina

Vamos começar com a já tradicional pergunta inicial aqui da Outros Ares: como e quando você começou a escrever? Em qual gênero você arriscou suas primeiras linhas? Chegou a cometer poesia?

Antes de ser alfabetizada, já sonhava em ser escritora. Liam muito para mim em casa e bastante cedo entrei em contato com o poder encantatório das palavras. Eu viajava com elas e logo me imaginei tecendo meu próprio tapete mágico.

Comecei a escrever pequena. Aos nove anos, pelo que me lembro: uns poeminhas de rimas fáceis e historietas de fadas. Eu tocava piano e compus, nessa época, várias peças de tom erudito. Uma delas, “A cavalgada das vassouras” – um misto de Wagner e Paul Dukas, versão Disney, do “Aprendiz de Feiticeiro”. Aos 12, escrevi uma peça para teatro, fortemente influenciada pelo clássico “Mulherzinhas”, da norte americana Louisa May Alcott. Aos 13 anos, aprendi violão e compunha canções de protesto. Aos 17 anos, época do cursinho, deixei a música.

Entrei para a Faculdade de Direito da USP, a legendária São Francisco, tão importante para o romantismo brasileiro, com Castro Alves e Álvares de Azevedo entre os alunos. Aos 19 anos fui admitida na Academia de Letras da Faculdade, na cadeira 13, cujo patrono era exatamente este último, o mais byroniano dos românticos. Do concurso de admissão constavam duas provas (além da arguição oral). Um ensaio (escrevi o meu sobre a poesia simbolista no Brasil) e uma produção artística. Apresentei um conjunto de poemas, inspirados na leitura dos “Quatro Quartetos” de T.S. Elliot. Pretensão e água benta… Passei a escrever poesia de modo compulsivo.

Depois de uns meses, um colega pediu para ler meus versos. Era o Regis Bonvicino, que desancou meus poemas, do começo ao fim. Nunca mais escrevi poesia nem nada. Voltei à escrita literária só muitas décadas depois, encarando de frente o gênero romance.

Quais são as suas influências? Quais autores mais a influenciaram e continuam influenciando?

Meu pai era muito culto, adorava ler, sempre interessado por tudo. Aconselhava-me a escrever como a Clarice Lispector. Com medo da influência, nunca li Clarice. Conheço pouco dela. Por outro lado, sempre fui uma leitora compulsiva. Acredito que, de uma forma ainda que inconsciente, guardamos estilos, passagens e até cacoetes dessas leituras. Porém, durante a escrita do meu romance de estréia, “As netas da Ema” – vencedor do Prêmio Sesc de Literatura –, procurei ser absolutamente eu mesma, não me espelhei em ninguém.

Depois do romance publicado, comecei a escrever contos. Um desafio, porque eu pensava não ter nem os enredos nem a técnica necessária, segundo a qual no conto a vitória é por nocaute (contos como os de Lydia Davis ou da Alice Munro não haviam sido publicados no Brasil até então…). Desde moça, admirava os contos da Katherine Mansfield. Reli sua obra. Dissequei os contos de Tchekhov. E tornei a ler os contos da Lygia Fagundes Telles – uma grande escritora, subestimada entre nós. Imagino que essas vozes encontram eco em meus contos, recentemente publicados na coletânea “Harém”, editada pela Patuá e lançada em dezembro passado.

Você foi a vencedora, na categoria Romance, do Prêmio Sesc de 2004, com “As netas da Ema” (Record, 2005). Esse prêmio, de alguma maneira, afetou a sua escrita? Você se sentiu mais pressionada, mais cobrada – ainda que por si mesma?

Vencer o Prêmio Sesc de Literatura resgatou-me de uma incerteza: será que eu escrevo de verdade? Parece que sim… Recebi boas críticas, o livro chegou a uma segunda reimpressão. Mas, o principal: a vitória transformou-se em um bom cartão de visita. Depois dela, quando procurei editoras, para outras obras, ou as redações, para divulgação do meu trabalho, ao menos me atendem ao telefone, ou aceitam minha amizade no Facebook (risos).

Um de nossos entrevistados, o escritor mineiro Jaime Prado Gouvêa, nos disse que há “gente demais e qualidade de menos”. A sensação é de que a quantidade de escritores é inversamente proporcional à qualidade do que é publicado. Por outro lado, com a avalanche de livros publicados, muita coisa boa acaba ficando escondida, não tem a chance de chegar a uma quantidade maior de leitores. Como você vê essa situação?

Publica-se em demasia. Basta uma visita a uma livraria de qualquer capital para conferir a avalanche de títulos. O fenômeno não é brasileiro, é mundial. Publica-se, na maioria das vezes, levando-se em conta o mercado. As editoras colocam-se como empresas. Publica-se muitas vezes de modo precipitado, não se respeitando o tempo de maturação da obra em uma gaveta. No nosso tempo, entretanto, as coisas funcionam assim.

Sim, acredito que muita coisa boa – até ótima – fica submersa, sob uma pilha de bobagens. Meu consolo é indagar se sempre não foi assim (guardadas as proporções): na história, quantas obras importantes ficaram esquecidas – e não só em termos de literatura, mas na pintura, na música –, aguardando a descoberta desavisada de um pesquisador? Em certos casos, nem isso. Um dos riscos da vida.

Nos últimos anos as discussões sobre gênero ganharam força, e, em 2015, foi lançado o projeto “Leia Mulheres”, para difundir a literatura escrita por mulheres e incentivar sua leitura. Você, como escritora, sentiu/sente alguma resistência maior dentro do mercado editorial, ou mesmo por parte dos leitores, por ser mulher? Se sim, o que podemos fazer para mudar essa situação?

Participarei do Mulherio das Letras, em João Pessoa, em outubro. Apoio o movimento #leiamulheresvivas, criado pela professora, pesquisadora e escritora infantil Susana Ventura. A verdade é que as mulheres entraram tarde no jogo. A régua (no sentido de medida) do mundo é masculina.

Este ano, a FLIP está na sua 15ª edição e, pela primeira vez, tem uma curadora, Josélia Aguiar. Foram necessários 15 anos para se darem conta? A posição da mulher na literatura integra um quadro maior, institucional e político. O voto feminino, no Brasil, foi admitido pelo Código Eleitoral de 1933. E até 1961, pelo Código Civil, as mulheres não eram pessoas plenas de direito. Sua capacidade civil era relativa (igual a dos índios). Necessitavam ser assistidas em todos os atos da vida civil (pelo pai, quando solteiras; pelo marido, se casadas; por um irmão ou por um filho maior, quando viúvas). Não poderiam, assim, nem assinar o contrato de edição… Precisa dizer mais alguma coisa?

Nasci em uma família esclarecida. Não tive pai machista nem mãe tradicional. Mas sempre me perseguiu a ideia de que eu precisava ser tão inteligente como um homem. É a introjeção involuntária do modelo masculino. Isso só passou quando eu me tornei mãe: minha filha, uma mulher do século XXI, não merecia esse legado.

Mais um questionamento “tradicional” da Outros Ares: você compartilha da opinião de que o conto é um gênero menosprezado no Brasil? Se sim, arriscaria dizer por que isso acontece?

Dizem que quando um escritor publica um livro de contos depara-se sempre com a pergunta: e quando vem o romance? Nas editoras existe o mito de que conto não vende. Eu não entendo essa discriminação com relação ao gênero. Publiquei um romance, escrevi umas duas dúzias de contos, meu próximo projeto é um romance biográfico, voltei a me interessar por escrever poesia… acredito que os autores não têm que se acomodar, aceitando o fato de que têm que escrever o que realmente tem vontade. E, novamente, correr os riscos.

Por fim, outra pergunta que fazemos – e continuaremos fazendo – a todos os entrevistados: fala-se muito de baixas vendas, pouco investimento nacional, pouca divulgação a escritores locais e baixa escolaridade – fatores que juntos ou separados formam o “problema” da literatura brasileira atual. Antes de tudo, a literatura tem problemas? Quais são os principais, na sua opinião, e quais seriam as soluções?

O Brasil tem aproximadamente 211 milhões de habitantes. Nas grandes editoras, a praxe é fazer edições de 3.000 exemplares. Essa proporção é um absurdo. Um estudo publicado no jornal Folha de São Paulo, em 2016 (estudo esse promovido pelo Instituto Paulo Montenegro e pela ONG Ação Educativa), mostrou que, em nosso país, apenas 8% da população é proficiente (nível mais alto da alfabetização, ou seja, pessoas que se expressam com clareza em diferentes situações e entendem de modo hábil). Nos cursos superiores, pesquisas publicadas no início deste ano indicam que apenas 20% dos alunos entendem os conteúdos em classe e respondem com eficácia e maturidade aquilo que lhes é cobrado.

Nesses números ficam resumidos os problemas que circundam a literatura no Brasil. Pouca verba para educação e para a cultura, ensino sem qualidade, vulnerabilidade econômica. A tudo isso se somam o fascínio do digital e o poder das imagens sobre os jovens. A nova geração tem pressa; é desatenta e indisciplinada para ler um livro. Além disso, nutrem profundo desinteresse por tudo o que foi criado antes da internet.

Hoje, tenho dificuldade de antever uma saída para esses impasses.

Leia a seguir um conto de Eugenia Zerbini:O rei de todos os naipes“.

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A literatura não tem problemas, quem tem problemas é o Brasil

Foto: André Viana

Outros Ares: Vamos começar com a já tradicional pergunta inicial aqui da Outros Ares: como e quando você começou a escrever? Em qual gênero você arriscou suas primeiras linhas? Chegou a cometer poesia?

Antonio Carlos Viana: Voltando muito no tempo, me lembro de uns poeminhas que escrevi quando ainda estava no segundo grau, mas coisas muito esparsas, sem nenhuma convicção do que estava fazendo. Era mais uma imitação do que eu lia nos livros didáticos. Depois, já no curso de letras, escrevi minha primeira crônica sobre uma velha sentada numa calçada, que encontrei no meio do caminho. Era meio-dia, o sol muito quente e tive pena dela. Cheguei em casa e botei para fora toda essa pena em forma de palavras. Devia ser uma coisa muito ruim. Tive a coragem de colocar esse texto no jornal da faculdade. Felizmente ninguém o salvou para a posteridade. Quem leu me perguntou se eu lia muito Cony e eu nem sabia ainda quem era Cony. Escrevi ao acaso, sem pensar que estava fazendo um texto literário. A poesia, eu logo abandonei, mas continuei escrevendo uma prosa bem ruinzinha. Um dia juntei os vários escritos que tinha e mostrei a uma colega. Ela simplesmente caiu na risada. Disse que aquilo não era nada, nem conto, nem crônica, nem poesia em prosa. Devia ser mesmo uma bela porcaria. Mas o riso dela não me intimidou. Nesse momento eu já queria escrever algo mais consistente e dei para ler os grandes contistas, mas sem saber que seria um deles algum dia. Foi quando me deparei com “Os cavalinhos de Platipanto”, de José J. Veiga, e vi que um bom conto é capaz de nos deixar tão extasiados quanto um bom romance, um bom poema. José Veiga me deu o impulso que me faltava.

OA: Pode-se dizer que você rodou o mundo: morou no Rio de Janeiro, em Porto Alegre, na França, lugares que são chamados de “centros culturais” do Brasil e do mundo, mas voltou para sua terra natal, Aracaju. É uma pergunta cuja resposta é pessoal demais, mas ainda assim a fazemos: por que não se estabeleceu em um desses outros lugares, que, dizem, são mais propícios à literatura? Por que voltar?

Antonio Carlos Viana: Tive o privilégio de morar em lugares que foram capitais em minha vida. Saí do Rio de Janeiro quando a cidade perdeu o seu encanto e virou um foco de grande violência. Fui para Porto Alegre, onde ainda cheguei a dar aulas na Unisinos, mas motivos familiares me trouxeram de volta a Aracaju. Foi quando apareceu concurso para professor da UFS (Universidade Federal de Sergipe). Sempre quis ser professor universitário e ali estava minha chance. Passei e fiz carreira, como se diz. Voltei a Porto Alegre para fazer o mestrado. Tive o privilégio de ser aluno e orientando da professora Regina Zilberman, que foi uma grande incentivadora da minha carreira como contista. Meu segundo livro, “Em pleno castigo”, foi ela que o indicou a uma editora, a Hucitec, e ainda fez a orelha. Mais privilégio, impossível. Dois anos depois de ter concluído o mestrado, ganhei uma bolsa da CAPES para fazer doutorado na França e foram quatro anos de novas descobertas literárias, sobretudo do pensamento de Paul Valéry. Minha tese versou sobre a poética dele e a a poesia de João Cabral. Gostei, claro, da França, mas jamais moraria no exterior. A sensação de ser sempre estrangeiro magoa, deixa-nos sempre inseguros, inferiorizados. O fato de ter voltado e continuado em Aracaju se deveu muito a esse sentimento de ter o pé no lugar em que me sinto seguro. E aqui continuo até hoje sem nenhuma lamentação. Pelo contrário. A luminosidade de Aracaju me faz muito bem. Não a trocaria por nenhuma outra.

OA: Outra “pergunta padrão” da Outros Ares é a seguinte: Um de nossos entrevistados, o escritor mineiro Jaime Prado Gouvêa, nos disse que há “gente demais e qualidade de menos”. A sensação é de que a quantidade de escritores é inversamente proporcional à qualidade do que é publicado. Por outro lado, com a avalanche de livros publicados, muita coisa boa acaba ficando escondida, não tem a chance de chegar a uma quantidade maior de leitores. Como você vê essa situação?

ACV: A quantidade de gente publicando é enorme mesmo e, como não poderia deixar de ser, há coisas ótimas e coisas muito ruins. O pior é que as resenhas não dão conta dessa produção e nossas escolhas vão meio às cegas, nas livrarias. Muitos livros bons podem ficar escondidos de nossos olhos. Todo ano fico meio angustiado quando vem a lista de livros inscritos no Prêmio Telecom e vejo que li só alguns poucos. Na edição deste ano temos de indicar três obras de cada gênero: poesia, romance, conto/crônica (não entendo por que colocar no mesmo balaio conto e crônica; o Jabuti também faz isso). Assim a premiação ficará mais justa. Quando li a lista deste ano, fiquei perdido. Sei que vou ser injusto com alguém porque não li nem 10% daqueles livros todos. E eu só indico o que li, não vou pelo nome do autor. Então, retomando sua pergunta, não vou dizer que “a quantidade de escritores é inversamente proporcional à qualidade do que é publicado”, porque nunca conseguiremos ler tudo o que se publica. Acho que falta nos jornais mais espaço para a crítica literária a fim de dar conta dessa produção e nos conduzir aos melhores livros. Hoje temos só o “Rascunho”, de Curitiba.

OA: Uma das mais famosas frases de escritores é “Se queres ser universal, comece por pintar a tua aldeia”, de Tolstói. E você consegue fazer isso, abordar temas universais a partir de uma realidade aparentemente restrita, como poucos. Como você faz para escapar do chamado “regionalismo”? É uma preocupação sua?

ACV: Regionalismo é sempre uma preocupação. Quando vejo um livro enfeitado de palavras locais e se compraz com isso, abandono. Há escritores assim, que pensam que devem ser fiéis ao seu lugar de origem e colocar em sua obra só palavras e personagens que tornem sua aldeia conhecida. Se for por aí, vai fracassar. O importante é abrir essa aldeia e dela tirar o que é comum a todos os homens. Fazer com que mesmo o leitor mais distante dela, nela se reconheça porque, no fundo, as questões que nos assomam a existência são sempre as mesmas: a vida, a morte, a luta pela subsistência, os traumas, o amor, a paixão… Lendo um dia desses um conto do nosso Tolstoi, minha admiração por ele cresceu mais ainda. Ele conta a história de um patrão e seu empregado durante uma viagem sob a neve. Como algo que não tem nada a ver conosco como o frio das estepes russas nos toca tão profundamente? Porque, no fundo, o que ele expõe é algo universal: a relação entre patrão e servo, a luta pela vida, o medo da morte. Todos nós passamos por isso com maior ou menor intensidade.

OA: Aproveitando a menção a Tolstói, quais são as suas influências? Quais autores mais o influenciaram e continuam influenciando?

ACV: O importante das influências é você saber quais são para poder se livrar delas. Geralmente começamos a escrever por admirar a forma de determinado escritor. Escrever tem mais a ver com isso do que com vocação. Eu nunca pensei que tinha vocação para contista. Só descobri a vontade de escrever, como já disse mais acima, quando li José J. Veiga. E meus primeiros contos têm muito a ver com o universo infantil que ele explorou tão bem. Mas precisei descobrir a minha forma. Depois foi a vez de Clarice Lispector. “A paixão segundo G.H.” me tirou o sono. Passei a noite lendo. Vi que, por mais que a admirasse, imitá-la era impossível. O máximo a que se pode chegar imitando alguém é fazer uma literatura de segunda linha. Ainda escrevi algumas coisas sob a inspiração dela, mas logo joguei fora. É preciso descobrir a própria voz e isso leva tempo. O bom mesmo é você ter lido um monte de gente e o leitor não descobrir pegadas de ninguém no seu texto.

OA: Outro questionamento “tradicional” da Outros Ares é o seguinte: você compartilha da opinião de que o conto é um gênero menosprezado no Brasil? Se sim, arriscaria dizer por que isso acontece?

ACV: Eu nunca senti que haja esse menosprezo pelo conto. O que acontece é que a nossa produção contística é pequena e nem sempre de boa qualidade. Criou-se o mito de que o conto é apenas um estágio antes do grande momento de escrever um romance. Escrever um bom conto é tão difícil quanto escrever um bom romance, um bom poema, uma boa crônica. Não há gênero fácil quando se busca a perfeição. Vá escrever uma crônica e veja como é difícil transferir para as palavras o tom que se pretende. Quanto às editoras, vejo que elas estão apostando mais nos contistas hoje em dia do que antes. Talvez faltem bons contistas. É que muita gente pensa que escrever um conto é só contar uma boa história. O gênero exige uma carpintaria das mais complicadas.

OA: Você lê os autores brasileiros em atividade? Como vê a nossa literatura hoje? Destacaria alguns escritores que, na sua opinião, são diferenciados? E entre os estrangeiros, quais você tem lido?

ACV: Tenho acompanhado nossa produção literária dentro das minhas possibilidades. Como moro em Aracaju, que só tem duas livrarias de porte médio, nem sempre os lançamentos chegam. Temos que encomendar. Só quando vou a São Paulo é que me abasteço das novidades. Como no ano passado fiz parte do júri do Telecom, deu pra ler muita gente que não conhecia. E descobri muitos escritores ótimos. O vencedor mesmo, Rubens Figueiredo, é excelente. Todo mundo precisa ler “Passageiro do fim do dia”. No Rio Grande do Sul tem um contista fabuloso mas desconhecido no resto do país: Aldyr Garcia Schlee, autor de “Os limites do impossível”. Não dá para falar de todos, a lista é imensa. Na poesia, temos o Paulo Henriques Britto. Seu último livro, “Formas do nada”, é uma obra-prima. Quanto aos estrangeiros, leio muito os americanos, com ênfase na obra de Philip Roth. Para quem nunca o leu, indico “Nêmesis”, um de seus últimos livros. Aos que gostam de uma teoria literária light, aconselho “Como funciona a ficção”, de James Wood. É um livro fundamental tanto para quem lê quanto para quem escreve.

OA: Por fim, mais uma pergunta que fazemos – e continuaremos fazendo – a todos os entrevistados: fala-se muito de baixas vendas, pouco investimento nacional, pouca divulgação a escritores locais e baixa escolaridade – fatores que juntos ou separados formam o “problema” da literatura brasileira atual. Antes de tudo, a literatura tem problemas? Quais são os principais, na sua opinião, e quais seriam as soluções?

ACV: A literatura não tem problemas, quem tem problemas é o Brasil, que investe mal em educação e prepara mal seus professores. Isso vai dar, lógico, em poucos leitores e vendas insignificantes de livros. Quando tivermos uma boa educação, as coisas talvez mudem. Mas até que hoje em dia há muita divulgação da produção literária, haja vista o número de festas e festivais. Mas isso não significa supervenda de livros. Essas festas alimentam mais o ego dos escritores que suas contas bancárias. No entanto, sou a favor delas, porque de qualquer forma se fala da literatura por alguns dias e pode-se assim ganhar um ou outro novo leitor. O despertar para a leitura vem mais da escola e, em segundo lugar, da família. Digo isso porque venho de uma família de não leitores. Foi o bom ensino dos salesianos que me levaram a ler compulsivamente. Minha casa nunca teve estante. Fui leitor de bibliotecas. Este é um outro fator que contribui para o surgimento de novos leitores. Mas sabemos muito bem, com raras exceções, como são as bibliotecas públicas de nosso país: acervo pobre, livros defasados, quase nenhum lançamento. Geralmente só encontramos os clássicos. E sempre digo que não é pelos clássicos que se deve começar a incentivar a leitura dos jovens, mas por algo mais próximo deles, não importa que seja “Harry Potter”. Ler os clássicos é algo bem posterior, quando o sabor da leitura já está consolidado. Se quiser matar nos jovens o gosto pela leitura, obriguem-nos a ler José de Alencar e Machado de Assis aos treze, catorze anos. É tiro mortal.

Leia a seguir um conto de Antonio Carlos Viana:Princesinha“.

A literatura brasileira, por um desejo de raridade, não forma leitores

Outros Ares: Vamos começar com a já tradicional pergunta inicial aqui da Outros Ares: como e quando você começou a escrever? Em qual gênero você arriscou suas primeiras linhas?

Como boa parte dos escritores brasileiros, comecei escrevendo poemas, nas crises da adolescência, mas eu já queria escrever romance naquela época. Faltava a vida, faltava a linguagem. O internato, estudei em colégio agrícola, me jogou no mundo, depois morei sozinho no Mato Grosso, em Curitiba e em Florianópolis, e estas experiências longe do solo familiar me deram alguma bagagem. Meu primeiro livro foi “Inscrições a giz”, de poesia, e ganhou o Prêmio Nacional Luis Delfino de 1989, da Fundação Catarinense de Cultura. Eu já escrevia contos neste período. Mas minha estreia só aconteceu de fato com o romance “Chove sobre minha infância” (Record, 2000). Foi quando comecei a me sentir escritor.

OA: Você é um dos mais prolíficos escritores em atividade no Brasil. De onde vêm tantas ideias para tantas histórias? Você tem muitos originais prontos, guardados? Se sim, como lida com a ansiedade para vê-los publicados, se é que tem essa ansiedade?

Sou uma pessoa disciplinada, escrevo todos os dias, leio todos os dias, tomo nota de possíveis cenas ou de histórias e tenho alguma capacidade imaginativa. E como também colaboro em jornais e revistas, sempre há textos escritos que podem se organizar em forma de livro. Mas não sou ansioso. Antes não resistia a convites para publicar, agora estou selecionando mais. Cada livro tem um editor certo, é preciso esperar que se dê o encontro. Se não sou ansioso, também não tenho medo de publicar.

OA: Sobre isso de “cada livro tem um editor certo”, você vem sendo publicado por algumas das maiores editoras do país, o grupo Record e a editora Objetiva. Mas também foi publicado pela pequena Arte e Letra (“Primeiros contos”, 2008). Como é esse processo de escolha de editora ou convites que são feitos? Você poderia falar um pouco sobre o métier literário? E poderia também dar alguns conselhos para autores ainda não publicados sobre como publicar seus livros? A autopublicação é uma boa saída ou ainda é melhor ter um pouco mais de paciência e procurar uma editora?

A primeira decisão de um escritor é se ele quer ser profissional ou não. Há escritores deslumbrantes e que recusam ou recusaram editoras comerciais. Um exemplo aqui no Paraná é o falecido Jamil Snege, autor de uma obra pequena e de alta qualidade, e que nunca quis ser editado por outros, dizia que era e gostava de ser um autor autoimpresso. No meu caso, eu sei exatamente qual livro meu tem alguma chance de venda e qual não tem. Justamente por escrever em vários gêneros, e não abrir mão desta possibilidade, eu posso percorrer toda a pirâmide editorial. Há livros que funcionam bem em pequenas editoras; e outros que só funcionam em grandes. “Um camponês na capital”, publicado pela curitibana Aymará, foi comprado pelo PNBE e talvez nem tivesse despertado o interesse de uma editora maior. Agora, vamos lançar minha poesia reunida pela Ficções – a expectativa inicial é vender de 300 a 500 exemplares. No meu caso, optei ser um escritor profissional em pequena e em média escala. Ou seja, não vou escrever ao gosto do público apenas para vender, mas tento ter um perfil minimamente rentável.

OA: Interessante você comentar sobre a escolha de Jamil Snege, porque existem diversos autores talentosos que têm aquilo que passou a ser chamado de “síndrome” ou “mal” “de Salinger”, que vem a ser a escolha pela reclusão. Exemplos clássicos são Rubem Fonseca e Dalton Trevisan (a quem você conhece muito bem…). Um outro exemplo é Luiz Vilela, e poderíamos citar outros tantos. Nos casos citados, todos são donos de obras consolidadas, e não “precisam” aparecer em eventos, dar entrevistas, porque já têm seus leitores fieis (além de seus livros já serem adotados em vestibulares…). Dito isso, fica a pergunta: o escritor do século XXI, além de escrever obras de qualidade, precisa ser uma espécie “showman”?

Esses são casos diferentes. Rubem e Dalton não dão entrevistas, mas continuam escrevendo, o que me parece um pouco fácil, pois bombardeiam o mundo e não querem ser incomodados. Vilela, de quem sou amigo, apenas vive longe da vida literária, mas não foge ao debate, e está sempre disposto ao diálogo. Acredito que o escritor, na sua condição de homem público, deve se expor em seus livros e ao vivo, e que é fundamental que ele aceite a sua condição de alguém que intervém socialmente. Ficar escondido mandando torpedos contra o mundo me parece comodismo. No caso do Jamil, ele apenas não queria entrar no processo comercial do livro. Matinha um romantismo típico dos anos 70, quando escrever era resistir ao sistema capitalista. Mas ele dava entrevista, participava das discussões. Hoje, quando quase não há crítica literária, quando o jornalismo está interessado apenas no entretenimento audiovisual, o escritor deve assumir-se como uma voz que se dirige aos auditórios os mais diversos. Ou ele se faz um showman ou a própria literatura desaparece.

OA: Outra “pergunta padrão” da Outros Ares é a seguinte: Como você vê a atual situação da literatura brasileira? Um de nossos entrevistados, o escritor mineiro Jaime Prado Gouvêa, nos disse que há “gente demais e qualidade de menos”. A sensação é de que a quantidade de escritores é inversamente proporcional à qualidade do que é publicado. Por outro lado, com a avalanche de livros publicados, muita coisa boa acaba ficando escondida, não tem a chance de chegar a uma quantidade maior de leitores. Como você vê essa situação?

Quanto mais gente escrevendo, melhor, pois há mais possibilidade de surgir o grande, o novo, o incontornável. Então, quantidade não é pecado. O que é pecado é a ansiedade. Todo mundo quer fazer sucesso, viver de literatura, viajar pelo mundo sempre em disponibilidade artística. Mas o ideal de um jovem escritor é estar no meio das forças ativas da sociedade, estar num trabalho, qualquer que seja ele, para conhecer a vida por dentro. Esta ideia do sucesso instantâneo, sim, é criminosa, pois suspende os princípios éticos, incomoda as pessoas e cria ilusões. Sobre os livros de qualidade, ninguém esconde por muito tempo um livro de qualidade. Uma hora ou outra ele aparece. É preciso apenas fazer o melhor que se pode fazer, buscando ombrear-se com os grandes. E deixar que o mundo abra um pequeno caminho até o seu livro, mesmo que ele esteja na mais remota estante de um sebo.

OA: Os intelectuais brasileiros de uma forma geral, especialmente os escritores, vêm sendo “acusados”, já há algum tempo, de fugirem do debate do político, de não se engajarem mais em alguma causa. Como você vê essa questão do engajamento? Essa cobrança por uma maior atuação política dos escritores faz sentido?

O engajamento do escritor se dá não pela adesão a ideias, mas pela adesão a linguagens. Quando eu escolho usar uma linguagem mais próxima da oralidade dos personagens, quando eu coloco um menino favelado falando, ou um homossexual contando sua história, ou um interiorano relatando a sua vida na cidade grande, e faço isso dotando-os de discursos que lhe são próprios, estou me engajando pela palavra, e não por ideologias. O escritor não deve se ligar a propostas políticas, mas deve se sentir solicitado a assumir uma linguagem outra a cada livro que escreve. É aí que ele se faz mais político, mais atuante socialmente. Guimarães Rosa, ao usar a linguagem dos sertanejos, ampliando-a estilisticamente, foi mais engajado do que um Jorge Amado, que queria expressar o drama dos excluídos. É a linguagem que determina o lugar social do escritor, e não suas crenças políticas.

OA: Outro questionamento “tradicional” da Outros Ares é o seguinte: você compartilha da opinião de que o conto é um gênero menosprezado no Brasil? Se sim, arriscaria dizer por que isso acontece?

Não, não é um gênero menosprezado, há uma produção contínua de contos, uma estrutura de oficinas e publicações literárias com espaço para ele. Poderíamos até dizer que, desde Machado de Assis, o conto é o gênero mais aclimatado ao Brasil. Sempre tivemos mestres em abundância nesta área. O que ocorre é que o conto não tem um mercado igual ao do romance. E isso não é culpa nossa. O romance se tornou o gênero da integração do planeta pelo consumo. Formatados por narrativas mais longas (telenovelas, séries televisivas e filmes), o consumidor não especializado de literatura se identifica com o romance, e tem dificuldade para acompanhar outros formulários narrativos. É um problema de época e não de país. É um problema de código. A tendência do conto, no entanto, é atingir o leitor mais literário, criando audiências mais seletas. Estas audiências podem ser ampliadas, mas serão sempre numericamente inferiores ao grande público do romance.

OA: É quase impossível fazer uma entrevista com você e não fazer uma pergunta sobre Dalton Trevisan, que inspirou um dos personagens principais do seu último romance “Chá das cinco com o vampiro”. Considerado um dos maiores contistas brasileiros de todos os tempos, Trevisan influenciou e ainda influencia muitos autores. Mas e você, que conviveu com ele durante algum tempo, em que você foi influenciado – tanto para o bem quanto para o “mal”?

Eu sofri muita influência de Dalton Trevisan. Alguns textos de “Primeiros contos” (Arte e Letra, 2008) pagam tributo ao contista. Conheço bem a obra dele, absorvi muitas opiniões dele sobre literatura, e por um tempo tentei corresponder ao seu ideal de vida e de arte. O preço disso era a anulação de minha voz. Eu resolvi não pagar este preço, construindo um estilo próprio, apostando em coisas que não tinham valor para ele. Mudei de gênero literário, iniciando-me no romance depois de um desejo inicial de ser apenas contista. A tese básica da psicologia é que temos que matar os pais, principalmente os pais simbólicos. Ao publicar “Chá das cinco com o vampiro”, que não trata diretamente de Dalton Trevisan, e sim de alguns arquétipos de escritores, eu matei este pai. Mas é claro que sou ainda muito devedor. Mantenho preferências literárias herdadas de Trevisan. Uma delas é Charles Bukowski, de quem comecei a gostar por intermédio dele. O importante neste processo de relacionamento com obras muito poderosas, como é o caso da obra de Trevisan, é saber herdar sem se anular. Caso contrário, tornamo-nos epígonos.

OA: Por fim, mais uma pergunta que fazemos – e continuaremos fazendo – a todos os entrevistados: fala-se muito de baixas vendas, pouco investimento nacional, pouca divulgação a escritores locais e baixa escolaridade – fatores que juntos ou separados formam o “problema” da literatura brasileira atual. Antes de tudo, a literatura tem problemas? Quais são os principais, na sua opinião, e quais seriam as soluções?

O principal problema é que, no Brasil, acreditamos que escrever é se afastar da linguagem e das tensões do homem comum. Ou seja, nossos livros, em geral, não querem ser confundidos com as pessoas que habitam o nosso país. Nós escrevemos ainda para um leitor ideal, como na época do Brasil colônia. Escrevemos para os que estão num lá inalcançável, nos países onde localizamos a nossa alma. A literatura em geral tem dificuldade de se aceitar como uma linguagem ao rés do chão. Com isso, elevamos o tom de nossos livros e nos afastamos dos leitores comuns, da grande massa que poderia ser o nosso público. Ou seja, a literatura brasileira, por um desejo de raridade, não forma leitores. O gênero que forma leitores no Brasil é a crônica. Mas a poesia e a literatura de ficção querem se afastar do tom de crônica. Querem experimentações. Querem linguagens artificiais. Querem distinção. São sequelas de uma mentalidade elitista visível mesmo naqueles que se julgam de esquerda. Um exemplo: a universidade pública brasileira, essencialmente de esquerda, insiste em valorizar apenas a linguagem de exceção. Não vejo solução para isso, pois o sistema literário brasileiro tem esta marca. E já destruiu tantos autores que lutaram contra a literaturalização do texto. O maior mártir foi sem dúvida Lima Barreto, que se opôs programaticamente a isso. Esta outra literatura brasileira, a que dialoga com a linguagem real de homens comuns, tem em Lima Barreto o seu mestre, e não em Machado de Assis. Dizer isso, é claro, soa como heresia.

Leia a seguir “Memória da escrita“, conto de Miguel Sanches Neto.

Não educamos as pessoas para ler

Outros Ares: Vamos começar com a já tradicional pergunta inicial aqui da Outros Ares: como e quando você começou a escrever? Em qual gênero você arriscou suas primeiras linhas?

Comecei ainda criança, recontando para colegas de escola os episódios das séries de tevê; alguns eu inventava, porque nem sempre eu havia assistido ao episódio e não queria decepcioná-los. Na escrita, minha “estreia” foi mais tarde um pouco, na adolescência, com meus primeiros poemas.

OA: Atualmente você é Diretor do Livro e da Leitura da Fundação Pedro Calmon, na Bahia. Você poderia nos contar um pouco sobre o seu trabalho e da Fundação como um todo? Quais as conquistas e quais os dissabores de se trabalhar com a difusão do livro e da leitura no Brasil?

Basicamente a Diretoria do Livro e da Leitura tem uma única atribuição: fomentar, promover e divulgar o livro e a leitura. Estamos conseguindo, através de Feiras de Livros, encontros com escritores, publicação de livros raros e administração de editais de Pontos de Leitura, Agentes de Leitura, Biblioteca Comunitárias e Modernização de Bibliotecas Municipais, fazer com que os baianos descubram seus autores e suas editoras e, com isso, despertem para a leitura, que é fonte de conhecimento e prazer… Mas não é algo fácil, já que, ao menos na Bahia, o livro não é prioridade. Prioridade é o Carnaval, a praia, a novela das nove, o Bahia (e também o Vitória), a gravidez da Ivete Sangalo, o novo-mesmo hit do Chiclete com Banana, os quilos a mais da Cláudia Leitte etc.

OA: Como você vê a atual situação da literatura brasileira? E a literatura baiana? Um de nossos entrevistados, o escritor mineiro Jaime Prado Gouvêa, nos disse que há “gente mais e qualidade de menos”. A sensação é de que a quantidade de escritores é inversamente proporcional à qualidade do que é publicado. Por outro lado, com a avalanche de livros publicados, muita coisa boa acaba ficando escondida, não tem a chance de chegar a uma quantidade maior de leitores. Como você vê essa situação?

A impressão que tenho é a de que hoje muitas pessoas estão escrevendo porque é “algo solene ser escritor”, “algo chique, que sempre comparece aos filmes estrangeiros, notadamente aos de Woody Allen”; estão escrevendo para ter o nome “impresso em letras garrafais” na capa do livro e pela badalação que isso pode suscitar, não necessariamente por vocação. Escrever, e em especial escrever Literatura, requer talento, dedicação extrema, escolhas nem sempre agradáveis, leituras intermináveis ao longo de anos, muito trabalho, resignações e, sobretudo, abdicação da vaidade pessoal em favor do texto. De resto, sempre foi assim: milhares de escritores e, entre eles, os poucos necessários que, naturalmente deslocados da Literatura para o campo da Cultura, serão lidos em geral por todos os leitores: Jorge Amado, Drummond, Saramago, Pessoa, Bandeira, Cecília, Clarice, Quintana, Zé Lins, Erico Verissimo, Graciliano, Machado de Assis… Entre os que estão entre nós, vivos, creio que já possuem este “passaporte para a eternidade” Sérgio Faraco, Rubem Fonseca, Ronaldo Correia de Brito, Antônio Carlos Viana, Miguel Sanches Neto, Nelson de Oliveira, Iacyr Anderson Freitas e Ruy Espinheira Filho. São autores que brilham, entre os demais. Mas obviamente que não li todos os autores brasileiros da atualidade. E estes que cito representam meu gosto pessoal.

OA: Você vem publicando livros há mais de vinte anos (o primeiro foi “Pequena antologia antecipada”, de 1989, confere?), por editoras pequenas, médias e grandes. Nessas duas décadas, quais os avanços e os recuos do mercado editorial brasileiro, em sua opinião?

Gostaria de resumir minha resposta dizendo que o autor brasileiro é sempre tratado como “artigo secundário”, tanto pelos editores quanto pelos leitores. E que Paulo Coelho tornou-se um mal absoluto, não pelo que escreve, que é irrelevante, mas porque, com a sua “aparição”, passou-se a exigir que todo autor brasileiro alcance o que ele alcançou, em fama e venda de livros. Ora, começa que ele nem faz Literatura. E, por fim, se é para sermos iguais a ele, o simulacro dele, é melhor não escrevermos. Foi o que eu disse a um editor que me perguntou se eu não possuía “algo como o Paulo Coelho, algo de autoajuda”. Falei que eu preferia me autoajudar, não sendo Paulo Coelho.

OA: Agora uma pergunta mais amena: quais autores você mais admira? Quais mais te influenciaram e influenciam?

São muitos. Muitos mesmo. E de muitos países! Mas o autor que mudou minha vida foi Albert Camus, com “O estrangeiro”, que li numa tarde de verão, aos 18 anos, e à noite já era outra pessoa, sabia que seria escritor, ou melhor, literato, mas também sabia que o percurso seria muito árduo, como é. A Humanidade não brinca. Mas tento extrair o melhor disso, com a consciência de que a satisfação do autor está na criação do texto, no seu trabalho solitário com as palavras. Tudo o mais, para o bem e para o mal, é consequência daquele instante.

OA: Outro questionamento “tradicional” da Outros Ares é o seguinte: você compartilha da opinião de que o conto é um gênero menosprezado no Brasil? Se sim, arriscaria dizer por que isso acontece?

Menosprezado? Não. Apenas não é muito lido. O leitor cultural e o leitor eventual preferem romances. Só o leitor ideal, de Literatura, aprecia os contos. Mas isso é compreensível: um romancista muda de tom e de ritmo, de dicção e forma, de um romance para outro e, ao fim de uma vida, ele “terá sido dez autores diferentes”, ao passo que o contista se transforma de um conto para outro, tornando-se inúmeros, uma Legião, o que exige dos leitores muito mais concentração e uma grande capacidade de adaptação às diferenças de registro verbal. E, psicologicamente, o leitor comum quer ler “sempre o mesmo livro”, como as crianças, que eventualmente dizem “me conta aquela história”, a história que ela já conhece… Talvez o leitor de literatura ainda esteja, no Brasil, em estado primitivo, infantil.

OA: Por fim, mais uma pergunta que fazemos – e continuaremos fazendo – a todos os entrevistados: fala-se muito de baixas vendas, pouco investimento nacional, pouca divulgação a escritores locais e baixa escolaridade – fatores que juntos ou separados formam o “problema” da literatura brasileira atual. Antes de tudo, a literatura tem problemas? Quais são os principais, na sua opinião, e quais seriam as soluções?

Não é um problema da Literatura Brasileira atual. É um problema da Educação. Não educamos as pessoas para ler, mas para servir ou subir na escala social. E isso é pouco. Eu me contentaria, naturalmente, em ser sempre pobre, ganhar apenas o suficiente para o meu sustento, contanto que estivesse, como estou, cercado de livros, meus e alheios. A qualquer momento, posso ir à estante e pegar a esmo um ótimo livro para ler, como fiz recentemente, e estou alternando a releitura de “Quincas Borba”, que é maravilhoso, um tratado delicioso sobre a existência humana, com a leitura dos contos de Simenon. Aliás, Machado e Simenon são para mim dois dos mais benéficos vícios existentes, pois são ao mesmo tempo tão simples e tão brilhantes, tão fluidos e tão poéticos, tão incomuns e tão exatos. Borges estava certo. Provavelmente, o Paraíso é uma biblioteca. Ou, como disse Dalila Machado recentemente: a biblioteca é um paraíso.

Comece a ler os contos escolhidos deste mês: “1 79’91”16“.

A literatura nos põe um espelho diante da cara

Outros Ares: Vamos começar com a já tradicional pergunta inicial aqui da Outros Ares: como e quando você começou a escrever? Em qual gênero você arriscou suas primeiras linhas? Chegou a cometer poemas?

Luís Henrique Pellanda: Na infância, entre outras coisas, eu brincava de escrever. Rabiscava contos ilustrados em cadernos de caligrafia. Uma mistura de fábula e história em quadrinhos. Meus personagens eram animais, super-heróis, mutantes. Fantasmas e monstros locais. Uma ou outra sereia. Acho até que havia mais ilustração que texto, mas minha ideia era mesmo escrever. Queria ser escritor, mais ou menos como outros sonhavam com a carreira de astronauta. Mas só fui descambar para a poesia quando a adolescência me tornou oficialmente pretensioso. Só digo isso, vejam bem, porque considero a poesia algo dificílimo de fazer. De qualquer modo, nunca marquei gol nesse campo e logo pedi para sair. Já na entrada dos vinte, mais surrado, continuei a rascunhar, agora muito seriamente, os meus contos “literários”. Confesso que, na época, naufraguei junto a dois romanções furados. Fiz por merecer; meu negócio parecia ser mesmo o conto e/ou a crônica. Canoa, e não galé. Remei, mas não tive pressa, embora a ansiedade sempre tenha viajado comigo. Passei mais de uma década me testando na imprensa, aqui e ali, esperando a escrita encorpar. Eu me exercitava tanto em jornais — publiquei de reportagem a folhetim — quanto em casa. Mas, um dia, o treino acaba. E você amadurece ou morre antes, não tem jeito.

OA: Outro questionamento “tradicional” da Outros Ares é o seguinte: você compartilha da opinião de que o conto é um gênero menosprezado no Brasil? Se sim, arriscaria dizer por que isso acontece? E a crônica? Ela parece que vem sendo mais valorizada nos últimos anos, depois de um período em baixa, não?

Luís Henrique Pellanda: Menosprezada, no Brasil, é toda a literatura. E a leitura também. Nós, escritores brasileiros, nos habituamos a recitar, mentalmente, esta máxima infeliz: aqui, quem nos desdenha não quer nos comprar. Aumentaram os leitores? Sim, mas aumentou também a população do país. O acesso ao livro foi facilitado, a distribuição supostamente melhorou. Há esquemas mais ou menos profissionais de divulgação. Tudo em nome dos lucros, claro, e não em favor deste ou daquele ideal romântico; são negócios, afinal. Mas dizer que um livro de contos do Rubem Fonseca venderá menos que um romance do Raimundo Carrero, por exemplo, é tolice. Ou que um romance do Fernando Monteiro venderá mais que um volume de crônicas do Carpinejar. Quem vende mais: um romance do Cony ou um livro de poemas de Adélia Prado? Vender? Grana? A régua não é essa. No fundo, é tudo a mesma coisa. Pois todos acabam vendendo bem menos do que poderiam vender se o Brasil fosse mesmo um país de leitores, e se o chamado mercado editorial se preocupasse em trabalhar melhor os nichos reservados ao que não pode ser considerado um best-seller. Ou seja, quase toda a literatura que existe. O que quero dizer, acho, é o seguinte: tanto faz se você escreveu contos, romances, poemas ou novelas. O problema é bem maior. Fala-se da questão dos contos, hoje, porque as editoras têm se manifestado até publicamente em relação a isso. Dizem que os romances vendem e que o resto é fracasso de vendas. São termos realmente espantosos.

Quanto à crônica, parece que ela está vivendo um momento melhor, sim, mas está muito longe de receber a atenção merecida, principalmente se lembrarmos da atração que os escassos leitores brasileiros sentem pelo gênero. Puxa, mas o critério não era o interesse comercial? Vá entender. Hoje, quando tanto valor se dá às premiações literárias, qual é o bom prêmio nacional dedicado à crônica? Nesse sentido, o surgimento da coleção Arte da Crônica, da Arquipélago, é uma bênção. De resto, a impressão positiva que temos acerca da boa fase da crônica talvez se deva ao aquecimento geral do “mercado” de publicações e eventos literários. Às feiras e às festas. Muita gente tem ido a eventos, mas nem todos leem ou compram livros. Temos discutido a nossa literatura, sim. Produzimos e publicamos bastante. Mas não vendemos o suficiente para interessar pauteiros de telejornais ou profissionais de mídia, por exemplo.

OA: Você poderia nos dizer quais são os cronistas, e também os contistas, que mais admira?

Luís Henrique Pellanda: É sempre difícil entregar a gangue, mas vamos lá. Cronistas: entre o fim da infância e o início da adolescência, li muito Verissimo, Stanislaw Ponte Preta e o bastante esquecido Leon Eliachar. Estou me referindo aos primórdios, fique claro. Anos depois, vieram caras como Rubem Braga, Paulo Mendes Campos e Fernando Sabino. Não sou original nessas leituras. Sou da geração que cresceu com a coleção Para Gostar de Ler. Drummond, por exemplo, me pegou antes como cronista, e mais tarde como poeta. Quem mais? Bem, logo no início da faculdade de jornalismo, fechei com Nelson Rodrigues, talvez o meu preferido. Se há gênios da linguagem, creio que o Nelson foi um. Antônio Maria o seguiu de perto. E, se vocês me pedem para citar admirações no duro, me vejo obrigado a apontar meu par de colegas de coleção na Arquipélago, Humberto Werneck e Ivan Angelo [em breve a Arquipélago Editorial publicará um livro de crônicas do autor]. Dois dos grandes. Dos novos, como não falar do Antonio Prata?

Sobre os contistas, fica ainda mais difícil não esquecer nomes importantes. No Brasil: Machado de Assis, Dalton Trevisan, Sérgio Sant’Anna, João Antônio, Rubem Fonseca, Rubens Figueiredo, Luiz Vilela, Murilo Rubião, Aníbal Machado, Lima Barreto, José J. Veiga e Samuel Rawet. Só recentemente, falha minha, descobri Jaime Prado Gouvêa. Fora do Brasil: Flannery O’Connor, Poe, Tchekhov, Kafka, Wilde, Hawthorne, Melville, Borges, Hemingway, Dickens, Carver, Conan Doyle. Uma lista imensa. Mas não sou um leitor limitado aos gêneros com que trabalho. Odeio compartimentar a leitura. Na minha estante afetiva, o romance e a poesia, o conto e a crônica, o teatro e o ensaio, todos têm pesos parecidos.

OA: Certa vez, parafraseando Mário de Andrade, Fernando Sabino disse que “crônica é tudo aquilo que o autor chama de crônica”. Qual seria, em sua opinião, a melhor definição para esse gênero tão peculiar? Para você a crônica deve ser estritamente real, relatar algo que realmente aconteceu, ou pode ter algo de ficcional, ficando no limiar entre a crônica e o conto?

Luís Henrique Pellanda: Em literatura, quase tudo que um autor chamar de real pode acabar se tornando real. Pelo menos enquanto experiência concreta de leitura. Acho que a crônica retrata realidades, sim, mas as retrabalha com ferramentas tão impalpáveis quanto eficientes. Nem nos jornais — ou muito menos neles — você vai encontrar a verdade sobre determinado fato, por mais objetivo que um jornalista busque ser ou parecer. Uma versão nunca é fiel ao seu fato de origem, mas sim ao narrador daquele fato. A crônica, em especial, será ainda mais promíscua, pois estará livre para flertar com a subjetividade, a imaginação, a mentira, a graça, a poesia, qualquer coisa que o cronista determine. Creio, inclusive, que a crônica é mais assanhada que o próprio conto, ou mesmo que o romance, gêneros que, na maioria dos casos, precisam construir um ambiente complexo de verossimilhança em torno de si próprios para que estabeleçam, com seus leitores, alguma forma de pacto. A crônica, não. É volúvel demais para isso, indefinível, indecisa, dengosa. Paquera o ficcional e o documental e renega a ambos. Para caracterizá-la de alguma forma, gosto de pensar que, no meu caso, o narrador da crônica se confunde, sim, com o seu autor. Respondo pelo que o meu narrador faz, pelo que ele diz. Suas piadas são as minhas. Suas crenças também. Seus medos, sua insegurança, sua arrogância, seus defeitos. No conto, a coisa muda. Posso me distanciar dos meus narradores, inclusive eticamente — não somos o mesmo cara. Posso matá-lo, se eu quiser. Mas eu não quero morrer, não agora. Luto pela sobrevivência. Fora isso, acho que um cronista — assim como um contista ou um romancista — deve escrever de si para si, mas fazendo uma tabela obrigatória, significativa, com o seu tempo, com a sua cidade, com o seu mundo e os seus leitores.

OA: Por fim, mais uma pergunta que fazemos – e continuaremos fazendo – a todos os entrevistados: fala-se muito de baixas vendas, pouco investimento nacional, pouca divulgação a escritores locais e baixa escolaridade – fatores que juntos ou separados formam o “problema” da literatura brasileira atual. Antes de tudo, a literatura tem problemas? Quais são os principais, na sua opinião, e quais seriam as soluções?

Luís Henrique Pellanda: Já fiz essa pergunta tantas vezes a tantos entrevistados, já ouvi tantas respostas — quase todas muito parecidas — e, recentemente, tenho sido chamado a opinar sobre a questão em vários eventos e entrevistas. Apesar disso, ainda não sei o que dizer de proveitoso. Não sou muito otimista, embora jamais tenha me sentido tentado a desertar da batalha. Acalento alguns palpites, que têm a ver, sim, com o baixo nível da educação no país, com a má formação dos professores, com a ignorância e a tradição rapineira de nossa classe política, com o desinteresse da família brasileira pelo livro e por qualquer outra atividade ligada ao intelecto, com a aposta mundial no pragmatismo como atalho seguro à prosperidade, com a crença na felicidade ininterrupta como prêmio para uma vida de trabalho e pensamentos positivos, com o avanço vitorioso do marketing do sucesso em todos os setores da sociedade, e com a influência supostamente amiga da propaganda e da mídia sobre todos nós. Promessas de facilidades e alegrias. Isso tudo é nocivo. É como consumir só açúcares e gorduras a vida toda, em quantidades imensas, levando uma existência extremamente sedentária: não adianta, você nunca terá vontade de acordar, calçar um tênis confortável e bater uns cinco quilômetros de corrida.

Não sei como solucionar o caso e, para falar a verdade, acho que o caso não tem muita solução. Podemos ajudar um pouco escrevendo e falando sobre o assunto, erguendo os punhos e a voz. Talvez tudo não passe de teatro. Se eu tiver uma grande ideia, uma em que realmente acredite, não deixarei de registrá-la, não deixarei de compartilhá-la ou de lutar por ela. Sobre os problemas da literatura, acho que são os mesmos da vida. E a literatura também não nos oferece soluções, não. Só nos apresenta os problemas sob outro ponto de vista. Nos põe um espelho diante da cara. Quebrá-lo não é a coisa mais inteligente a fazer.

Leia a seguir: “Meia hora de vida real“.

A crônica é uma conversa aparentemente fiada

Outros Ares: Vamos começar com a já tradicional pergunta inicial aqui da Outros Ares: como e quando você começou a escrever? Em qual gênero você arriscou suas primeiras linhas? Chegou a cometer poemas?

Humberto Werneck: Comecei aos 15 anos. Fazia contos inteiramente esquecíveis – um deles, para que se tenha uma ideia, era ambientado no Nordeste, região que eu não conhecia. O camponês Matias (vê se isso é nome de camponês brasileiro…), homem puro e batalhador, era vilmente explorado pelo horrendo latifundiário. Felizmente já tinha superado essa fase de literatura “participante” quando, aos 17 anos, fiz minha estreia tipográfica – no jornalzinho do Colégio Estadual de Minas Gerais, “A Inúbia”, no qual escrevera anos antes o ex-aluno Fernando Sabino. A notável peça literária chamava-se “Férias no Paraíso”. Poemas? Vários. Quando aprendi metrificação, desandei a fazer sonetos, e desembestei ao descobrir, na obra de Augusto Frederico Schmidt, que rimar não era obrigatório. Volta e meia me assombra a ideia de que andei transcrevendo meus versos em cadernos de recordação de moças, alguns dos quais podem ainda estar por aí…

OA: Outro questionamento “tradicional” da Outros Ares é o seguinte: você compartilha da opinião de que o conto é um gênero menosprezado no Brasil? Se sim, arriscaria dizer por que isso acontece? E a crônica? Ela parece que vem sendo mais valorizada nos últimos anos, depois de um período em baixa, não?

Humberto Werneck: Em toda parte, e não só no Brasil, há uma tendência a ver o conto como um gênero situado degraus abaixo do romance. Como se tamanho fosse documento. Como se um conto fosse um romancinho. Já a crônica, o prestígio dela é ainda menor que o do conto. Para muita gente, esse é um gênero vira-lata. Não vejo utilidade nessa conversa, que provavelmente nunca terá fim. Apenas constato que no Brasil a crônica – importada da França na metade do século 19 – se aclimatou maravilhosamente. Não inventamos o gênero, mas demos a ele uma cintura muito especial. Um pouco como o futebol, que foi inventado pela rígida cintura dos ingleses e aqui veio a ganhar uma ginga. Brasileiro adora crônica, este é um fato. Quanto a estar sendo revalorizada… será? Nunca mais tivemos outra safra como aquela, notável, dos anos 50 e 60 – Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino, Antônio Maria, Drummond, Nelson Rodrigues, Rachel de Queiroz, Manuel Bandeira, Clarice, Stanislaw Ponte Preta, Carlos Heitor Cony… Toda semana a revista Manchete trazia quatro cronistas: Braga, Sabino, Paulo Mendes Campos e, menorzinho, Henrique Pongetti. A revista concorrente, O Cruzeiro, tinha Rachel de Queiroz. Hoje, temos muito colunista – e pouco cronista.

OA: Você poderia nos dizer quais são os cronistas, e também os contistas, que mais admira?

Humberto Werneck: Várias das minhas admirações estão no time acima citado. Em especial, Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino e Antônio Maria. Do pessoal hoje em atividade, gosto muito do Ivan Angelo, do Luis Fernando Verissimo, do Joaquim Ferreira dos Santos, do Antonio Prata e do Luiz Henrique Pellanda, de quem acaba de sair uma coletânea muito boa, “Nós passaremos em branco”. Em Belo Horizonte tem o Eduardo Almeida Reis. Em Pernambuco, o Joca Sousa Leão. E deve ter mais gente boa por aí.

OA: Certa vez, parafraseando Mário de Andrade, Fernando Sabino disse que “crônica é tudo aquilo que o autor chama de crônica”. Qual seria, em sua opinião, a melhor definição para esse gênero tão peculiar? Para você a crônica deve ser estritamente real, relatar algo que realmente aconteceu, ou pode ter algo de ficcional, ficando no limiar entre a crônica e o conto?

Humberto Werneck: Estou para ver uma boa definição de crônica. Perguntado, Rubem Braga jogou a toalha e saiu-se com esta maravilha: quando não é aguda, é crônica. Logo ele, agudíssimo. Antonio Candido, autor de um ensaio notável sobre o gênero, disse que a crônica é “uma conversa aparentemente fiada”. É um pouco por aí. Sem a pretensão de definir, vejo a crônica como uma boa conversa, uma conversa amigável em que se estabelece um clima de cumplicidade entre autor e leitor. A leitura de uma crônica genuína me dá a impressão de que o autor está sentado a meu lado num meio-fio. Bem diferente do artigo ou do editorial que tantas vezes é vendido como sendo crônica, cujo autor fala comigo do alto de um caixotinho. A crônica, por seu caráter subjetivo, pega uma contramão dentro da objetividade jornalística.

OA: Por fim, mais uma pergunta que fazemos – e continuaremos fazendo – a todos os entrevistados: fala-se muito de baixas vendas, pouco investimento nacional, pouca divulgação a escritores locais e baixa escolaridade – fatores que juntos ou separados formam o “problema” da literatura brasileira atual. Antes de tudo, a literatura tem problemas? Quais são os principais, na sua opinião, e quais seriam as soluções?

Humberto Werneck: Não sei se o panorama é muito diferente em outros países, mesmo os desenvolvidos. Também lá, uma tiragem inicial costuma estar em torno dos 3.000 exemplares. E olha que a escolaridade, nesses países, é bem mais elevada. O fato é que no Brasil se lê muito pouco. Diante do volume de texto que desaba o tempo todo nos blogs e sites, chego a me perguntar se o pessoal não lê pouco porque está ocupado em escrever…

Leia a seguir: entrevista com Luís Henrique Pellanda.

A literatura brasileira se divorciou da maior parte dos leitores

Crédito da imagem: Maria Mendes

Mineiro radicado no Rio de Janeiro, o escritor Sérgio Rodrigues carrega consigo duas das características mais marcantes dos naturais de cada estado: a perspicácia dos mineiros e a simpatia dos cariocas.

Tais características se refletem em seus livros. Não há como não rir com os contos tragicômicos de “Sobrescritos” (Arquipélago Editorial, 2010), ou afeiçoar-se a Molina, jornalista carioca que protagoniza o romance “Elza, a garota“. São também obras de ficção do autor o livro de contos “O homem que matou o escritor” (Objetiva, 2000) e “As sementes de Flowerville” (Objetiva, 2006), um dos melhores romances brasileiros dos últimos anos.

Na entrevista abaixo, o autor, que em junho deste ano foi premiado, pelo conjunto da obra, com o Prêmio de Cultura do Estado do Rio de Janeiro na categoria Literatura (ex-Golfinho de Ouro), fala sobre o início de sua carreira como escritor, sobre o seu blog – o Todoprosa, referência na blogosfera brasileira – e, claro, sobre literatura.

Outros Ares: Vamos começar com a já tradicional pergunta inicial aqui da Outros Ares: como e quando você começou a escrever? Em qual gênero você arriscou suas primeiras linhas? Chegou a cometer poemas?

Sérgio Rodrigues: Até onde a memória alcança, sempre gostei de escrever, mas a decisão de seguir a carreira de escritor surgiu aos 14 anos. Era ali pelo meio dos anos 70, o Brasil vivia o que era chamado de “boom do conto” e foi esse o gênero que me lancei a escrever com muita dedicação e entusiasmo. O “contista mineiro” era um personagem meio lendário nessa época. Eu pensava: mineiro já sou, tenho meio caminho andado. Ganhei alguns concursos pelo país afora, todos de pequena projeção, mas, como eram concursos adultos, recebi cada um deles como uma prova de que estava no caminho certo. Mais tarde, na faculdade, escrevi muita poesia também, porque era esse o ar dos tempos: estava na Escola de Comunicação (Eco) da UFRJ, que alguns anos antes tinha sido um dos berços da poesia marginal carioca. Escrever poesia dava prestígio social e ajudava nas conquistas amorosas. Foi ótimo, porque considero o verso um excelente exercício para prosadores. Mas nunca me vi exatamente como poeta.

OA: Todos os contos de “Sobrescritos” (Arquipélago Editorial, 2010) podem ser lidos através do seu blog. Por que a ideia de se publicar essas histórias em papel? Sabemos que você tem um Kindle e gosta do aparelho, mas o papel ainda o atrai mais? Ou para você não importa o suporte, mas sim a leitura e o conteúdo? E, para não deixar de fazer a pergunta fundamental e repetitiva: para você, qual será o futuro dos livros impressos?

Sérgio Rodrigues: O livro de papel continua sendo, disparado, o principal veículo de literatura. Principalmente no Brasil, onde o livro digital ainda engatinha. E mesmo quando o digital estiver totalmente estabelecido, não acredito que o livro impresso desapareça. Talvez lhe reste um mercado de nicho, talvez mais do que isso, mas, de todo modo, duvido que deixe de existir. Eu queria reunir os “Sobrescritos” num só lugar porque a leitura dispersa dos textos no blog, ao longo dos anos, não favorecia a visão de conjunto. Postos lado a lado, aqueles minicontos sobre a tragicomédia da vida literária formam um todo que é maior do que a soma das partes.

OA: Uma pergunta sobre o Todoprosa: antes, você resenhava mais livros e publicava trechos de obras que estavam sendo lançadas – ou mesmo com exclusividade, antes de elas chegarem às livrarias. Mas, nos últimos anos, diminuiu o número de resenhas e trechos publicados, optando por fazer mais reflexões sobre a literatura, o ato de ler e de escrever. Você poderia falar sobre isso, sobre o que o levou a mudar um pouco o rumo dos seus textos? Ou foi uma mudança involuntária?

Sérgio Rodrigues: O Todoprosa já tem cinco anos e meio de existência, uma eternidade no mundo internético, e nesse período passou por muitas variações, mas os temas básicos são os de sempre. Não é verdade que haja menos resenhas hoje. Resenhas nunca foram o principal item da pauta, e hoje, publicando mais ou menos uma por mês, estou até bem acima da média histórica do blog. A seção “Primeira Mão”, sim, anda na geladeira, porque nos últimos anos o mercado avançou muito e banalizou esse adiantamento de trechos. Também os “Começos Inesquecíveis”, que fizeram grande sucesso de público, chegaram a um certo esgotamento. Em compensação, estão em alta neste momento os “Sobrescritos” e os links comentados para textos de vários partes do mundo. No fundo, como Minas Gerais na famosa tirada do Otto Lara Resende, o Todoprosa está onde sempre esteve. As variações nunca foram muito planejadas, obedecem aos meus interesses do momento. É da natureza dos blogs essa marca pessoal. Embora tenha se destacado justamente por surgir com um tom mais sóbrio e analítico numa época em que o umbiguismo dominava a blogosfera literária, o Todoprosa nunca deixou de ser pessoal ao seu modo.

OA: Você, como crítico, já foi algumas vezes mal-interpretado, inclusive no seu blog. Diria que é perigoso – até mesmo para a integridade física do crítico – exercer a crítica literária no Brasil?

Sérgio Rodrigues: Em primeiro lugar, não me considero bem um crítico literário. Nas últimas décadas, a dinâmica das especializações fez a atividade se estreitar, se verticalizar, como tantas outras, e confesso que esse mergulho me interessa pouco. Sou atraído pelo caminho contrário, o de alargar o campo de visão, traduzir a conversa literária para um público mais amplo. Sou um escritor que, entre outras coisas, escreve resenhas, comentários críticos, e por isso se expõe mais do que a média. Mas acho que tenho mais sorte – ou mais juízo – do que Paulo Francis: esse problema da integridade física nunca se apresentou. Fazer inimizades, sim, é do jogo, e muitas vezes você nem sabe que fez, só vai descobrir tempos depois. Num meio de muita vaidade, de egos à flor da pele, isso é natural até certo ponto. No caso do Brasil, o clima de cordialidade (na definição de Sérgio Buarque de Hollanda) complica tudo porque ninguém jamais vai interpretar um comentário crítico, mesmo o elogioso, como algo desinteressado, baseado num sistema de valores que está acima das relações sociais: tudo é tomado como pessoal. Não tenho dúvida de que, como escritor, pago um preço por me expor dessa forma, mas acho saudável tentar tirar a conversa literária do campo da cordialidade, levá-la além de grupinhos e pactos. Gosto de imaginar que aos poucos a gente esteja evoluindo nesse aspecto. De qualquer modo, no Todoprosa eu dou preferência àquilo que me agrada. Na maior parte das vezes só o silêncio indica que não gostei de alguma coisa.

OA: Outro questionamento “tradicional” da Outros Ares é o seguinte: você compartilha da opinião de que o conto é um gênero menosprezado no Brasil? Se sim, arriscaria dizer por que isso acontece?

Sérgio Rodrigues: As editoras têm um claro pé atrás com os contos, por motivos que me parecem estritamente comerciais. Livros de contos costumam ter apelo para menos leitores, e confesso que não sei se esse apelo poderia ser muito maior, mesmo que as editoras investissem no formato. A mística do romance é muito forte. O que me parece fazer mais falta no Brasil é um circuito de publicação e consumo de contos avulsos como o que há nos Estados Unidos, profissional, baseado em revistas especializadas no gênero ou não. Testado e aprovado num mercado desse tipo, um contista acabaria chegando naturalmente ao livro.

OA: Como autor, o que é pior, em sua opinião: ter seu livro resenhado negativamente ou ver sua obra não receber resenha nenhuma? Aliás, como você lida com as críticas? Procura ler todas? Qual sua reação a elas?

Sérgio Rodrigues: Procuro ler tudo que escrevem sobre os meus livros e não responder a nada. Tenho tido sorte com a crítica, mas também já levei umas pauladas. Muito pior do que uma resenha negativa é resenha nenhuma, sem a menor dúvida. Isso sempre foi uma verdade e fica cada vez mais evidente, à medida que cresce o número de lançamentos e encolhem os espaços tradicionais de recepção. Só que é muito difícil convencer disso um escritor que acabou de ter seu livro espinafrado, principalmente quando há sinais de má-fé na crítica, o que infelizmente não é incomum. Qualquer escritor publicado tem que aprender a lidar com isso. Como? Ficando cascudo, não tem outro jeito. Com o tempo, você descobre que não vai ser destruído por uma crítica negativa nem consagrado por uma crítica elogiosa. Para de oscilar feito um maluco entre a depressão e a euforia e cai num pragmatismo que tem alguma medida de distanciamento. Se acredita de fato na literatura que está fazendo, sabe que ela não é perfeita e aprende então a tirar proveito de cada comentário. Críticas negativas equilibradas e sagazes, que também existem, são muito mais úteis para um autor do que um elogio bobinho.

OA: Na última edição da Outros Ares entrevistamos o escritor Nelson de Oliveira e fizemos duas perguntas que gostaríamos de também fazer a você. Eis a primeira: nos últimos anos, houve um crescimento dos cursos de formação de escritores, sejam oficinas, cursos de redação criativa etc., sendo que você é considerado um dos melhores “oficineiros”. E esta é uma tendência geral em outras partes do mundo, seguindo mais ou menos o modelo norte-americano de “Creative Writing”. Já dá para fazer um balanço desse crescimento? Ou seja, as oficinas melhoram a qualidade dos escritores?

Sérgio Rodrigues: Estou longe de ser um “oficineiro”. A verdade é que recuso a maioria dos convites para dar oficinas. Como blogueiro profissional, tenho a sorte de não depender disso para fechar o orçamento, e sempre que possível prefiro guardar o tempo livre para escrever literatura. Mas não tenho nada contra as oficinas. Gosto do princípio subjacente a elas, que de certa forma contraria a inclinação natural da cultura brasileira: o de reconhecer que qualquer atividade artística tem uma medida inevitável de trabalho, de exercício, de suor. Dominar a técnica não significa matar a espontaneidade, o espírito puro, pelo contrário, e isso ainda é uma ideia meio subversiva na nossa cultura. O limite da oficina é e sempre vai ser, claro, o limite do talento de cada um.

OA: Agora, a segunda: por outro lado, isso não vai aumentando o paradoxo brasileiro de mais e melhores escritores com estruturas débeis de edição (poucas editoras se dedicam à literatura nacional e menos ainda a novos escritores) e divulgação (pouquíssimo espaço em jornais e revistas – na verdade, zero espaço para novos escritores)? Como resolver essa equação?

Sérgio Rodrigues: Não acho que as oficinas sejam agentes dessa explosão do número de pessoas que escrevem. Elas são só uma das consequências da explosão, que tem a ver com a cultura digital e a facilidade de publicar na rede. As editoras tradicionais abriram mais espaço para novos escritores nos últimos dez anos do que nunca em sua história, mas são remanescentes de uma outra ordem, não têm como dar conta dessa nova demanda. E a tendência é que elas se tornem cada vez menos decisivas no futuro, à medida que o meio digital se consolidar. Com os e-books, a impressão sob demanda, as redes sociais, novas formas de veiculação e avaliação de literatura já começam a surgir e tendem a se consolidar.

OA: Seu penúltimo livro, “Elza, a garota”, é um romance histórico que traz à luz uma história pouco conhecida dos brasileiros, de uma menina morta injustamente pelos comunistas. Aparentemente, durante o ensino médio, alguns fatos importantes da História Contemporânea do Brasil não têm o destaque que merecem. Fala-se muito sobre “Descobrimento” e pouco sobre a Ditadura, por exemplo. Você concorda? Isso não prejudica o desenvolvimento da nação e o entendimento da nossa situação social e política?

Sérgio Rodrigues: Acho que a falta de interesse pela história é uma das marcas mais tristes e preocupantes do século XXI. A culpa é em parte do ensino tradicional, mas não se resume a isso. Às vezes parece que, quando aquele bobo do Francis Fukuyama apregoou o fim da História, dizendo que o capitalismo havia enterrado os conflitos de uma vez por todas, o pessoal botou fé. Não é raro encontrar quem acredite que pode escrever sem ter lido nada, quem duvide que o homem tenha pisado na Lua, quem diga que no tempo da ditadura militar é que era bom. Tudo isso de forma avoada, tolinha. Vive-se um pouco a ilusão de um presente eterno. Não sei muito bem a que atribuir isso. Talvez o culto excessivo da juventude e da novidade nos meios de massa, que já estourou o limite da neurose coletiva para entrar no campo do ridículo, explique em parte o problema.

OA: Por fim, mais uma pergunta que fazemos – e continuaremos fazendo – a todos os entrevistados: fala-se muito de baixas vendas, pouco investimento nacional, pouca divulgação a escritores locais e baixa escolaridade – fatores que juntos ou separados formam o “problema” da literatura brasileira atual. Antes de tudo, a literatura tem problemas? Quais são os principais, na sua opinião, e quais seriam as soluções?

Sérgio Rodrigues: A literatura brasileira se divorciou litigiosamente da maior parte dos leitores. É daqueles tipos de divórcio em que um lado fica falando mal do outro eternamente. Nem sempre foi assim. Nossa educação, que é uma das grandes vergonhas nacionais, parece ser uma das razões desse descompasso. O jogo pesado da indústria editorial internacional é outra. Mas não acho que nós, escritores locais, possamos posar só de vítimas. E não me refiro apenas à anemia da nossa literatura comercial. É claro que a literatura dita séria, esteticamente ambiciosa, vai sempre falar para pouca gente, mas o natural é que de vez em quando, por motivos difíceis de prever, um livro pule o cercadinho e ganhe o mundo, como aconteceu com “O filho eterno”. Por que isso não ocorre com mais frequência? Estou longe de ser pessimista, vejo muitos sinais de amadurecimento na postura dos escritores, mas a tarefa à nossa frente não é fácil. No dia em que reconquistarmos pelo menos um pedacinho das listas de mais vendidos, todo o sistema vai se beneficiar, porque um mundo literário que exclui de antemão o leitor abre a porta para relações viciadas, deturpações e, no limite, para uma acusação de futilidade que é difícil de rebater.

Leia a seguir um conto do autor: “O relato de Stapfnunsk, um homem de bem“.