Princesinha

Antonio Carlos Viana

Nossa saída foi procurar Jesus, só ele mesmo para nos salvar. O homem chegou e falou que o terreno era dele e tal e tal. Minha mãe botou o dedo melado no papel, ela não sabia assinar nada, nem o nome com letra graúda ela sabia. Ela disse que se fosse sozinha ia ganhar o fim do mundo e desaparecer para sempre, mas tinha aquela récua de filho atrás, uma cruz pra carregar por bem ou por mal. Pra quem só tinha mesmo a roupa do corpo, não foi difícil pegar o caminho sem saber para onde. Nossa irmã filmou tudo com o celular.

Chegar na cidade não foi difícil. Cada um levava sua sacola de plástico com o pouco das coisas que tinha. Entramos na primeira igreja que vimos, aquela coisa no coração, que faz a pessoa ir sem saber como. A mulher não queria chamar o pastor, que ele estava muito ocupado, que a gente ia ter de esperar muito, ele estava em sessão de descarrego. Ela tapava o nariz, como se dissesse que a gente estava fedendo. E estava mesmo.

Depois de muito tempo o pastor apareceu e disse que não tinha onde botar tanta gente, cinco meninos mais uma mãe. “Mas Jesus salva”, ele falou, “é só crer que ele salva”. Logo se encantou com os olhos de minha irmã, que chamou de princesinha. “Como se chama a princesinha?” Aí ele foi lá dentro conversar a mulher que tinha tapado o nariz. Quando voltou, disse que nossa irmã podia ficar, estava precisando de alguém para ajudar na limpeza do salão. “Deixa ela aqui”, ele falou, “dona Iraci toma conta dela direitinho”, a nossa irmã tão bonita, que já estava passando da hora de usar sutiã. “Todos os seus filhos nasceram lá no manguezal?”, ele perguntou. “A última a nascer, a derradeirinha, não vingou, mora hoje num cemiteriozinho de areia fofa, de onde vinha um cheirinho chato quando a gente ia enfeitar a cova.” Foi assim que nossa mãe falou.

O pastor botou a mão na cabeça de cada um de nós, e foi orando, e foi orando, de olhos fechados, a gente sentindo que a mão dele passava uma quentura boa, passava uma calma boa. Mão de santo devia ser assim. Depois abriu os olhos e disse que, se minha mãe aceitasse, a princesinha ficava. Os outros, ela ia achar logo quem quisesse, que a gente tinha cara de menino bom. Choramos mas nos conformamos. Saímos de lá sem nem olhar para trás. Acho que minha irmã nem filmou a gente saindo.

Conto gentilmente cedido pelo autor. Publicado originalmente na Folha de São Paulo, em maio de 2010.

Comece a ler os contos escolhidos desta edição: “O assessor“.

Publicidade

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: