A literatura nos põe um espelho diante da cara

Outros Ares: Vamos começar com a já tradicional pergunta inicial aqui da Outros Ares: como e quando você começou a escrever? Em qual gênero você arriscou suas primeiras linhas? Chegou a cometer poemas?

Luís Henrique Pellanda: Na infância, entre outras coisas, eu brincava de escrever. Rabiscava contos ilustrados em cadernos de caligrafia. Uma mistura de fábula e história em quadrinhos. Meus personagens eram animais, super-heróis, mutantes. Fantasmas e monstros locais. Uma ou outra sereia. Acho até que havia mais ilustração que texto, mas minha ideia era mesmo escrever. Queria ser escritor, mais ou menos como outros sonhavam com a carreira de astronauta. Mas só fui descambar para a poesia quando a adolescência me tornou oficialmente pretensioso. Só digo isso, vejam bem, porque considero a poesia algo dificílimo de fazer. De qualquer modo, nunca marquei gol nesse campo e logo pedi para sair. Já na entrada dos vinte, mais surrado, continuei a rascunhar, agora muito seriamente, os meus contos “literários”. Confesso que, na época, naufraguei junto a dois romanções furados. Fiz por merecer; meu negócio parecia ser mesmo o conto e/ou a crônica. Canoa, e não galé. Remei, mas não tive pressa, embora a ansiedade sempre tenha viajado comigo. Passei mais de uma década me testando na imprensa, aqui e ali, esperando a escrita encorpar. Eu me exercitava tanto em jornais — publiquei de reportagem a folhetim — quanto em casa. Mas, um dia, o treino acaba. E você amadurece ou morre antes, não tem jeito.

OA: Outro questionamento “tradicional” da Outros Ares é o seguinte: você compartilha da opinião de que o conto é um gênero menosprezado no Brasil? Se sim, arriscaria dizer por que isso acontece? E a crônica? Ela parece que vem sendo mais valorizada nos últimos anos, depois de um período em baixa, não?

Luís Henrique Pellanda: Menosprezada, no Brasil, é toda a literatura. E a leitura também. Nós, escritores brasileiros, nos habituamos a recitar, mentalmente, esta máxima infeliz: aqui, quem nos desdenha não quer nos comprar. Aumentaram os leitores? Sim, mas aumentou também a população do país. O acesso ao livro foi facilitado, a distribuição supostamente melhorou. Há esquemas mais ou menos profissionais de divulgação. Tudo em nome dos lucros, claro, e não em favor deste ou daquele ideal romântico; são negócios, afinal. Mas dizer que um livro de contos do Rubem Fonseca venderá menos que um romance do Raimundo Carrero, por exemplo, é tolice. Ou que um romance do Fernando Monteiro venderá mais que um volume de crônicas do Carpinejar. Quem vende mais: um romance do Cony ou um livro de poemas de Adélia Prado? Vender? Grana? A régua não é essa. No fundo, é tudo a mesma coisa. Pois todos acabam vendendo bem menos do que poderiam vender se o Brasil fosse mesmo um país de leitores, e se o chamado mercado editorial se preocupasse em trabalhar melhor os nichos reservados ao que não pode ser considerado um best-seller. Ou seja, quase toda a literatura que existe. O que quero dizer, acho, é o seguinte: tanto faz se você escreveu contos, romances, poemas ou novelas. O problema é bem maior. Fala-se da questão dos contos, hoje, porque as editoras têm se manifestado até publicamente em relação a isso. Dizem que os romances vendem e que o resto é fracasso de vendas. São termos realmente espantosos.

Quanto à crônica, parece que ela está vivendo um momento melhor, sim, mas está muito longe de receber a atenção merecida, principalmente se lembrarmos da atração que os escassos leitores brasileiros sentem pelo gênero. Puxa, mas o critério não era o interesse comercial? Vá entender. Hoje, quando tanto valor se dá às premiações literárias, qual é o bom prêmio nacional dedicado à crônica? Nesse sentido, o surgimento da coleção Arte da Crônica, da Arquipélago, é uma bênção. De resto, a impressão positiva que temos acerca da boa fase da crônica talvez se deva ao aquecimento geral do “mercado” de publicações e eventos literários. Às feiras e às festas. Muita gente tem ido a eventos, mas nem todos leem ou compram livros. Temos discutido a nossa literatura, sim. Produzimos e publicamos bastante. Mas não vendemos o suficiente para interessar pauteiros de telejornais ou profissionais de mídia, por exemplo.

OA: Você poderia nos dizer quais são os cronistas, e também os contistas, que mais admira?

Luís Henrique Pellanda: É sempre difícil entregar a gangue, mas vamos lá. Cronistas: entre o fim da infância e o início da adolescência, li muito Verissimo, Stanislaw Ponte Preta e o bastante esquecido Leon Eliachar. Estou me referindo aos primórdios, fique claro. Anos depois, vieram caras como Rubem Braga, Paulo Mendes Campos e Fernando Sabino. Não sou original nessas leituras. Sou da geração que cresceu com a coleção Para Gostar de Ler. Drummond, por exemplo, me pegou antes como cronista, e mais tarde como poeta. Quem mais? Bem, logo no início da faculdade de jornalismo, fechei com Nelson Rodrigues, talvez o meu preferido. Se há gênios da linguagem, creio que o Nelson foi um. Antônio Maria o seguiu de perto. E, se vocês me pedem para citar admirações no duro, me vejo obrigado a apontar meu par de colegas de coleção na Arquipélago, Humberto Werneck e Ivan Angelo [em breve a Arquipélago Editorial publicará um livro de crônicas do autor]. Dois dos grandes. Dos novos, como não falar do Antonio Prata?

Sobre os contistas, fica ainda mais difícil não esquecer nomes importantes. No Brasil: Machado de Assis, Dalton Trevisan, Sérgio Sant’Anna, João Antônio, Rubem Fonseca, Rubens Figueiredo, Luiz Vilela, Murilo Rubião, Aníbal Machado, Lima Barreto, José J. Veiga e Samuel Rawet. Só recentemente, falha minha, descobri Jaime Prado Gouvêa. Fora do Brasil: Flannery O’Connor, Poe, Tchekhov, Kafka, Wilde, Hawthorne, Melville, Borges, Hemingway, Dickens, Carver, Conan Doyle. Uma lista imensa. Mas não sou um leitor limitado aos gêneros com que trabalho. Odeio compartimentar a leitura. Na minha estante afetiva, o romance e a poesia, o conto e a crônica, o teatro e o ensaio, todos têm pesos parecidos.

OA: Certa vez, parafraseando Mário de Andrade, Fernando Sabino disse que “crônica é tudo aquilo que o autor chama de crônica”. Qual seria, em sua opinião, a melhor definição para esse gênero tão peculiar? Para você a crônica deve ser estritamente real, relatar algo que realmente aconteceu, ou pode ter algo de ficcional, ficando no limiar entre a crônica e o conto?

Luís Henrique Pellanda: Em literatura, quase tudo que um autor chamar de real pode acabar se tornando real. Pelo menos enquanto experiência concreta de leitura. Acho que a crônica retrata realidades, sim, mas as retrabalha com ferramentas tão impalpáveis quanto eficientes. Nem nos jornais — ou muito menos neles — você vai encontrar a verdade sobre determinado fato, por mais objetivo que um jornalista busque ser ou parecer. Uma versão nunca é fiel ao seu fato de origem, mas sim ao narrador daquele fato. A crônica, em especial, será ainda mais promíscua, pois estará livre para flertar com a subjetividade, a imaginação, a mentira, a graça, a poesia, qualquer coisa que o cronista determine. Creio, inclusive, que a crônica é mais assanhada que o próprio conto, ou mesmo que o romance, gêneros que, na maioria dos casos, precisam construir um ambiente complexo de verossimilhança em torno de si próprios para que estabeleçam, com seus leitores, alguma forma de pacto. A crônica, não. É volúvel demais para isso, indefinível, indecisa, dengosa. Paquera o ficcional e o documental e renega a ambos. Para caracterizá-la de alguma forma, gosto de pensar que, no meu caso, o narrador da crônica se confunde, sim, com o seu autor. Respondo pelo que o meu narrador faz, pelo que ele diz. Suas piadas são as minhas. Suas crenças também. Seus medos, sua insegurança, sua arrogância, seus defeitos. No conto, a coisa muda. Posso me distanciar dos meus narradores, inclusive eticamente — não somos o mesmo cara. Posso matá-lo, se eu quiser. Mas eu não quero morrer, não agora. Luto pela sobrevivência. Fora isso, acho que um cronista — assim como um contista ou um romancista — deve escrever de si para si, mas fazendo uma tabela obrigatória, significativa, com o seu tempo, com a sua cidade, com o seu mundo e os seus leitores.

OA: Por fim, mais uma pergunta que fazemos – e continuaremos fazendo – a todos os entrevistados: fala-se muito de baixas vendas, pouco investimento nacional, pouca divulgação a escritores locais e baixa escolaridade – fatores que juntos ou separados formam o “problema” da literatura brasileira atual. Antes de tudo, a literatura tem problemas? Quais são os principais, na sua opinião, e quais seriam as soluções?

Luís Henrique Pellanda: Já fiz essa pergunta tantas vezes a tantos entrevistados, já ouvi tantas respostas — quase todas muito parecidas — e, recentemente, tenho sido chamado a opinar sobre a questão em vários eventos e entrevistas. Apesar disso, ainda não sei o que dizer de proveitoso. Não sou muito otimista, embora jamais tenha me sentido tentado a desertar da batalha. Acalento alguns palpites, que têm a ver, sim, com o baixo nível da educação no país, com a má formação dos professores, com a ignorância e a tradição rapineira de nossa classe política, com o desinteresse da família brasileira pelo livro e por qualquer outra atividade ligada ao intelecto, com a aposta mundial no pragmatismo como atalho seguro à prosperidade, com a crença na felicidade ininterrupta como prêmio para uma vida de trabalho e pensamentos positivos, com o avanço vitorioso do marketing do sucesso em todos os setores da sociedade, e com a influência supostamente amiga da propaganda e da mídia sobre todos nós. Promessas de facilidades e alegrias. Isso tudo é nocivo. É como consumir só açúcares e gorduras a vida toda, em quantidades imensas, levando uma existência extremamente sedentária: não adianta, você nunca terá vontade de acordar, calçar um tênis confortável e bater uns cinco quilômetros de corrida.

Não sei como solucionar o caso e, para falar a verdade, acho que o caso não tem muita solução. Podemos ajudar um pouco escrevendo e falando sobre o assunto, erguendo os punhos e a voz. Talvez tudo não passe de teatro. Se eu tiver uma grande ideia, uma em que realmente acredite, não deixarei de registrá-la, não deixarei de compartilhá-la ou de lutar por ela. Sobre os problemas da literatura, acho que são os mesmos da vida. E a literatura também não nos oferece soluções, não. Só nos apresenta os problemas sob outro ponto de vista. Nos põe um espelho diante da cara. Quebrá-lo não é a coisa mais inteligente a fazer.

Leia a seguir: “Meia hora de vida real“.

Publicidade

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: