O relato de Stapfnunsk, um homem de bem

Sérgio Rodrigues

A testemunha Olaf Stapfnunsk, natural de Estocolmo, naturalizado brasileiro, com quarenta e oito anos, empresário, residente à rua… da cidade de …, compromissada na forma da lei, respondeu: – que por volta das oito horas da manhã de quinta-feira, 7 de outubro deste ano, chegou à academia de ginástica de sua propriedade, situada em…, e foi direto ao escritório, quando então deu pela ausência de Totó, seu funcionário, de nome completo Alceu Gouveia Nunes, que lá já devia estar; que tal fato o deixou irritado, motivo pelo qual chegou a proferir um palavrão em sueco, e que o dito palavrão era subba, reputado intraduzível pelo depoente; que a irritação com a ausência do funcionário Totó o fez passar a mão no telefone e dar início ao trabalho agendado para todas as manhãs daquele mês, qual seja, o telemarketing pela vizinhança; que tal ação de telemarketing consistia em oferecer ao cliente em potencial uma semana de academia grátis, trabalho do qual não gostava, ainda que já o tivesse executado em outras ocasiões, sendo Totó um empregado pouco confiável; que pela próxima hora, até as nove horas da manhã, falou com cinco clientes em potencial, dos quais dois se interessaram por sua oferta e dois disseram não; que o quinto cliente, aliás cronologicamente o segundo, não disse nem sim nem não, guardou um silêncio que em seguida pareceu cortado por um baque, e não desligou o telefone; que o depoente ficou na linha por mais alguns segundos, repetindo “alô” sem obter resposta; que então cortou a ligação e partiu para as próximas, feitas as quais inspecionou o salão da academia por algumas horas e só depois, já pensando em almoçar, voltou ao escritório para espiar o computador; que nesse momento tomou ciência, num portal de notícias, da morte por infarto do famoso escritor Ettore Luxemburgo, encontrado duro no chão ao lado da cama, de pijama, telefone na mão; que, não sendo um homem de letras, admite nunca ter ouvido falar do famoso escritor Ettore Luxemburgo até aquele momento, mas identificou o nome como o de um dos clientes em potencial para quem ligara aquela manhã, servindo a estrangeirice da sonoridade de Ettore e Luxemburgo, ainda mais juntos, como garantia de memorização; que, no mesmo portal, leu a notícia do anúncio do Prêmio Nobel de Literatura, notícia na qual, mesmo não sendo homem de letras, passou os olhos e achou divertido ver que a outorgadora do prêmio se intitulava Academia Sueca, o mesmo nome de sua academia de ginástica; que viu-se, então, entre a gratidão àqueles conterrâneos pela publicidade espontânea e o rancor por ter seu nome copiado; que logo abandonou tal curso vadio de pensamento porque lhe ocorreu de repente com aguda clareza, ou “caiu a ficharada”, nas palavras textuais do depoente, aquilo que ocorrera aquela manhã no quarto do finado escritor Ettore Luxemburgo, sendo tais coisas que o telefone tocou e o dito escritor ouviu uma voz que falava português com sotaque nórdico dizer: “Sr. Ettore Luxemburgo? O senhor ganhou o prêmio da Academia Sueca!”; que, sim, abrira com a mesma frase todas as cinco ligações; que considera o ocorrido uma fatalidade, e assim espera que a Justiça o julgue, mas sua consciência de homem de bem não lhe permitiria omitir tal ocorrido das autoridades, visto saber-se, mesmo que involuntariamente, causador da morte de um homem; que se alguma coisa o consola de tais sentimentos sombrios, é pensar que Ettore Luxemburgo morreu feliz em seu engano, ainda que às custas de virar piada na posteridade.

* Conto publicado no blog Todoprosa. Reprodução autorizada pelo autor.

Comece a ler os contos escolhidos deste mês: O som da nuvem.

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