Qualquer coisa pode ser transformada em literatura

Vamos começar com a tradicional primeira pergunta da Outros Ares: como e quando você começou a escrever? Em que gênero escreveu suas primeiras linhas?

Comecei a escrever cedo, porque meus pais eram escritores e essa parecia ser a minha herança natural. E eu provavelmente já sabia, desde adolescente, que escrever seria uma coisa séria para mim. Com 12 anos comecei a manter um diário que acabou se tornando o lugar onde eu tentava escrever histórias, praticar descrições e testar ideias. Então, minha primeira experiência mais extensa com a escrita foi escrevendo um diário.

Seus pais eram ligados à linguagem e literatura (seu pai era crítico literário e professor de inglês, e sua mãe foi escritora), mas você primeiro se interessou por música em vez de literatura. Como foi isso? E quando e por que você colocou a música de lado e priorizou a literatura em sua vida? Outra pergunta: como é a sua relação com a música? Você normalmente escreve ouvindo música ou escreve em silêncio?

Meu primeiro amor foi a música, mas a minha primeira ambição foi ser escritora. Eu nunca considerei seriamente compor ou tocar como uma carreira. E nunca fui boa o bastante no piano, ou cantando, e certamente não no violino, apesar de eu ter me esforçado muito para ser. Escuto bastante música, sempre escutei, com muita atenção. Por essa razão, eu nunca escrevo enquanto ouço música, é sempre uma coisa ou outra de cada vez.

Algumas de suas narrativas são sobre assuntos que muitos leitores sequer imaginam que poderiam virar literatura. A narrativa “As vacas”, por exemplo… Enquanto eu a lia, perguntava a mim mesmo: “onde essa mulher está tentando me levar?”. Há também as cartas para empresas… e outras narrativas não “comuns”. Quando você começou a desafiar os limites da literatura? Quando você se tornou a “Rainha Midas” da escrita? (“Rainha Midas da escrita” é um apelido que dei a você, se você me permitir.)

Gostei do apelido “Rainha Midas” – exceto pelo fato de o Rei Midas ter acabado numa situação ruim! Eu não tenho “pré-intenções” quando começo a trabalhar num escrito. “As vacas” não começou com a ideia que você teve à sua frente enquanto lia. Eu simplesmente estava muito interessada em observar as vacas que eu via pela minha janela. Eu escrevia uma observação, e então depois escrevia outra, talvez semanas depois da anterior. Passado um tempo, percebi que eu tinha muitas anotações, e então as reuni e encontrei um bom encadeamento para elas. Eu sempre escrevo a partir do que me interessa. A história nasce do meu interesse num determinado material (como em “As vacas”, por exemplo). E então eu trabalho intensamente na linguagem para expressar o que eu vejo ou penso.

Aproveitando a pergunta anterior: podemos transformar qualquer coisa em literatura? Tenho pensado muito sobre “os limites da literatura” nos últimos meses (e você é uma das causas disso). Penso, por exemplo, sobre como transformar um par de tênis que tenho, e que esteve comigo em muitos episódios importantes da minha vida, em literatura. Isso é bobagem ou é possível transformar qualquer coisa em (boa) literatura?

Sim, eu penso que qualquer coisa pode ser transformada em literatura, não existem limites. (Bem, preciso dizer que, para mim, existem limites morais, que têm a ver com obscenidade ou sofrimento gratuito e assim por diante – penso que sempre temos que lembrar da nossa humanidade.) Mas isso depende de quão concentrado o escritor é, e do quão sua mente é refinada – o que nos leva, novamente, à questão da reflexão. Livros e boas conversas são úteis, mas não são necessários. Questionar, pensar… isso é necessário.

Quais escritores você mais lê? Quais autores mais te influenciaram?

Eu leio todo o tipo de literatura, e tenho o mau hábito de começar um livro, ou ler até a metade, e colocá-lo de lado para começar a ler outro. Posso começar a ler um escritor do século XVIII ou XIX e então ler contos de Clarice Lispector ou Regina Ullmann. Agora vou ler algumas páginas de um diário espetacular chamado “The Gray Notebook”, do catalão Josep Pla. A lista das minhas primeiras influências é longa: Hemingway, Kafka, Beckett, Dos Passos, Nabokov, Grace Paley, Jane Bowles. Influências mais recentes: Roland Barthes, o livro “Under the Volcano”, do Malcolm Lowry, uma obra incrível. É uma lista sem fim: Peter Handke (!), Knut Hamsun (ambos problemáticos politicamente, mas escritores maravilhosos).

Você poderia falar sobre o mercado literário nos Estados Unidos? Aqui no Brasil temos a impressão de que há escritores demais e leitores de menos. Também é assim nos EUA?

É provavelmente a mesma coisa aqui, muitos dos melhores leitores também são aspirantes a escritor. Por outro lado, preciso dizer que vejo muitas pessoas lendo e elas provavelmente não desejam ser escritoras, mas os livros que elas leem não são necessariamente grandes livros. Mesmo assim, sempre fico feliz em ver alguém absorvido por um romance, especialmente se for um livro impresso, de capa dura, não importa qual seja. Adoro assistir a essa completa absorção, a esse completo alheamento do que está ao redor da pessoa. Isso é mágico.

Aqui no Brasil, com algumas exceções, os contos não são populares entre os leitores, e nós – escritores, editores, jornalistas – não sabemos exatamente o porquê. A sensação que tenho é que nos EUA os contos são bem lidos e comentados. Estou certo? Ou a situação é igual à nossa?

Não estou na melhor posição para opinar, já que não estou no ramo editorial. Mas minha impressão é que apesar de os contos, e especialmente os contos curtos, estarem ganhando um novo público e maior popularidade, o romance continua sendo a forma de ficção mais desejada por editores e leitores. Eu acho que isso acontece porque as pessoas amam mergulhar num mundo ficcional, o que as faz parar de pensar e indiretamente viver uma outra vida por um longo tempo, sem ter que voltar para o presente, para as suas próprias vidas. E somente um romance permite que uma pessoa vá tão longe por tanto tempo.

Recentemente percebi que sempre li muito mais livros escritos por homens do que por mulheres. Parece que sempre fui levado a ler mais homens, então decidi mudar isso e ler mais mulheres, e estou gostando muito. Tenho descoberto tantas grandes autoras, como você, Alice Munro, Lucia Berlin, Selva Almada e várias autoras brasileiras… Então eu queria falar sobre “Lydia Davis, a leitora”. Você, como mulher, se sentiu compelida a ler mais mulheres? Ou os homens também dominaram suas leituras?

Oh… Sinto dizer que nunca fui uma feminista ardente enquanto jovem escritora em formação. Minha mãe foi uma mulher muito independente, e meu pai foi um homem muito respeitável com as mulheres (inclusive com minha mãe), então, como eu tinha esses modelos em casa, não sentia a necessidade de lutar para ser reconhecida ou respeitada. Mas, independentemente disso, penso agora que eu deveria ter lido mais escritoras. Naquele tempo eu lia, vou admitir, mais homens, porque eles eram alguns dos grandes escritores, alguns dos quais mencionei acima – Kafka, Beckett etc. Eu entendia o interesse que havia e há sobre as obras de, por exemplo, Virginia Woolf e Gertrude Stein (duas das escritoras mais importantes e inovadoras que “conheci”), mas eu me sentia um pouco incomodada pela maneira que elas tinham de ver e viver o mundo, então não senti a necessidade ou obrigação de imitá-las ou mesmo admirá-las.

Mudando um pouco de assunto… Os EUA têm, agora, um presidente horrível que, dizem, não lê absolutamente nada. Aqui no Brasil, temos um presidente que aparentemente também não lê, pois seu livro de poemas é tão ruim (nem queira saber…) e ele tem tão pouca empatia pelas pessoas comuns… Você acha que a literatura, a ficção e a poesia podem mudar políticos – e, consequentemente, a política – de alguma forma? Para você, a literatura pode ser um sinônimo de esperança? Enfim: o que é a literatura, para você?

Essa é uma pergunta difícil. Eu gostaria de pensar que a literatura pode mudar os políticos – e a política. Mas isso aconteceria através do indivíduo, uma pessoa de cada vez sendo movida pela empatia e pela iluminação provocada por um romance, um livro de ensaios, contos ou poemas. Nosso presidente Jimmy Carter foi (e continua sendo) um homem de muitas boas ideias e lia poesia – e, claro, Barack Obama não apenas é um leitor, mas também um bom escritor. Às vezes acontece. Tenho receio de que nosso atual presidente tenha muito pouco conhecimento, muito pouco entendimento do que é ser humano. Mas sempre há esperança – não para ele, eu acho, mas para mudanças que podem vir nas eleições de novembro, por exemplo, e para a força de mobilização criada pelo nosso receio por sua presidência. Vamos ter esperança!

Leia a seguir três narrativas curtas de Lydia Davis.

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2 comentários em “Qualquer coisa pode ser transformada em literatura”

  1. Parabéns pela ótima entrevista. Não sabia que Lydia Davis tinha considerado a música como forma de expressão. No meu caso, sou um musicólogo e pianista com uma paixão incontrolável por literatura e poesia. Devo também confessar o mesmo hábito de ler vários livros ao mesmo tempo, o que me permite estar sempre em contato com os autores que me atraem. Há alguns anos, li a tradução que Lydia Davis fez de para o inglês e achei de uma elegância suprema.

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