A literatura brasileira se divorciou da maior parte dos leitores

Crédito da imagem: Maria Mendes

Mineiro radicado no Rio de Janeiro, o escritor Sérgio Rodrigues carrega consigo duas das características mais marcantes dos naturais de cada estado: a perspicácia dos mineiros e a simpatia dos cariocas.

Tais características se refletem em seus livros. Não há como não rir com os contos tragicômicos de “Sobrescritos” (Arquipélago Editorial, 2010), ou afeiçoar-se a Molina, jornalista carioca que protagoniza o romance “Elza, a garota“. São também obras de ficção do autor o livro de contos “O homem que matou o escritor” (Objetiva, 2000) e “As sementes de Flowerville” (Objetiva, 2006), um dos melhores romances brasileiros dos últimos anos.

Na entrevista abaixo, o autor, que em junho deste ano foi premiado, pelo conjunto da obra, com o Prêmio de Cultura do Estado do Rio de Janeiro na categoria Literatura (ex-Golfinho de Ouro), fala sobre o início de sua carreira como escritor, sobre o seu blog – o Todoprosa, referência na blogosfera brasileira – e, claro, sobre literatura.

Outros Ares: Vamos começar com a já tradicional pergunta inicial aqui da Outros Ares: como e quando você começou a escrever? Em qual gênero você arriscou suas primeiras linhas? Chegou a cometer poemas?

Sérgio Rodrigues: Até onde a memória alcança, sempre gostei de escrever, mas a decisão de seguir a carreira de escritor surgiu aos 14 anos. Era ali pelo meio dos anos 70, o Brasil vivia o que era chamado de “boom do conto” e foi esse o gênero que me lancei a escrever com muita dedicação e entusiasmo. O “contista mineiro” era um personagem meio lendário nessa época. Eu pensava: mineiro já sou, tenho meio caminho andado. Ganhei alguns concursos pelo país afora, todos de pequena projeção, mas, como eram concursos adultos, recebi cada um deles como uma prova de que estava no caminho certo. Mais tarde, na faculdade, escrevi muita poesia também, porque era esse o ar dos tempos: estava na Escola de Comunicação (Eco) da UFRJ, que alguns anos antes tinha sido um dos berços da poesia marginal carioca. Escrever poesia dava prestígio social e ajudava nas conquistas amorosas. Foi ótimo, porque considero o verso um excelente exercício para prosadores. Mas nunca me vi exatamente como poeta.

OA: Todos os contos de “Sobrescritos” (Arquipélago Editorial, 2010) podem ser lidos através do seu blog. Por que a ideia de se publicar essas histórias em papel? Sabemos que você tem um Kindle e gosta do aparelho, mas o papel ainda o atrai mais? Ou para você não importa o suporte, mas sim a leitura e o conteúdo? E, para não deixar de fazer a pergunta fundamental e repetitiva: para você, qual será o futuro dos livros impressos?

Sérgio Rodrigues: O livro de papel continua sendo, disparado, o principal veículo de literatura. Principalmente no Brasil, onde o livro digital ainda engatinha. E mesmo quando o digital estiver totalmente estabelecido, não acredito que o livro impresso desapareça. Talvez lhe reste um mercado de nicho, talvez mais do que isso, mas, de todo modo, duvido que deixe de existir. Eu queria reunir os “Sobrescritos” num só lugar porque a leitura dispersa dos textos no blog, ao longo dos anos, não favorecia a visão de conjunto. Postos lado a lado, aqueles minicontos sobre a tragicomédia da vida literária formam um todo que é maior do que a soma das partes.

OA: Uma pergunta sobre o Todoprosa: antes, você resenhava mais livros e publicava trechos de obras que estavam sendo lançadas – ou mesmo com exclusividade, antes de elas chegarem às livrarias. Mas, nos últimos anos, diminuiu o número de resenhas e trechos publicados, optando por fazer mais reflexões sobre a literatura, o ato de ler e de escrever. Você poderia falar sobre isso, sobre o que o levou a mudar um pouco o rumo dos seus textos? Ou foi uma mudança involuntária?

Sérgio Rodrigues: O Todoprosa já tem cinco anos e meio de existência, uma eternidade no mundo internético, e nesse período passou por muitas variações, mas os temas básicos são os de sempre. Não é verdade que haja menos resenhas hoje. Resenhas nunca foram o principal item da pauta, e hoje, publicando mais ou menos uma por mês, estou até bem acima da média histórica do blog. A seção “Primeira Mão”, sim, anda na geladeira, porque nos últimos anos o mercado avançou muito e banalizou esse adiantamento de trechos. Também os “Começos Inesquecíveis”, que fizeram grande sucesso de público, chegaram a um certo esgotamento. Em compensação, estão em alta neste momento os “Sobrescritos” e os links comentados para textos de vários partes do mundo. No fundo, como Minas Gerais na famosa tirada do Otto Lara Resende, o Todoprosa está onde sempre esteve. As variações nunca foram muito planejadas, obedecem aos meus interesses do momento. É da natureza dos blogs essa marca pessoal. Embora tenha se destacado justamente por surgir com um tom mais sóbrio e analítico numa época em que o umbiguismo dominava a blogosfera literária, o Todoprosa nunca deixou de ser pessoal ao seu modo.

OA: Você, como crítico, já foi algumas vezes mal-interpretado, inclusive no seu blog. Diria que é perigoso – até mesmo para a integridade física do crítico – exercer a crítica literária no Brasil?

Sérgio Rodrigues: Em primeiro lugar, não me considero bem um crítico literário. Nas últimas décadas, a dinâmica das especializações fez a atividade se estreitar, se verticalizar, como tantas outras, e confesso que esse mergulho me interessa pouco. Sou atraído pelo caminho contrário, o de alargar o campo de visão, traduzir a conversa literária para um público mais amplo. Sou um escritor que, entre outras coisas, escreve resenhas, comentários críticos, e por isso se expõe mais do que a média. Mas acho que tenho mais sorte – ou mais juízo – do que Paulo Francis: esse problema da integridade física nunca se apresentou. Fazer inimizades, sim, é do jogo, e muitas vezes você nem sabe que fez, só vai descobrir tempos depois. Num meio de muita vaidade, de egos à flor da pele, isso é natural até certo ponto. No caso do Brasil, o clima de cordialidade (na definição de Sérgio Buarque de Hollanda) complica tudo porque ninguém jamais vai interpretar um comentário crítico, mesmo o elogioso, como algo desinteressado, baseado num sistema de valores que está acima das relações sociais: tudo é tomado como pessoal. Não tenho dúvida de que, como escritor, pago um preço por me expor dessa forma, mas acho saudável tentar tirar a conversa literária do campo da cordialidade, levá-la além de grupinhos e pactos. Gosto de imaginar que aos poucos a gente esteja evoluindo nesse aspecto. De qualquer modo, no Todoprosa eu dou preferência àquilo que me agrada. Na maior parte das vezes só o silêncio indica que não gostei de alguma coisa.

OA: Outro questionamento “tradicional” da Outros Ares é o seguinte: você compartilha da opinião de que o conto é um gênero menosprezado no Brasil? Se sim, arriscaria dizer por que isso acontece?

Sérgio Rodrigues: As editoras têm um claro pé atrás com os contos, por motivos que me parecem estritamente comerciais. Livros de contos costumam ter apelo para menos leitores, e confesso que não sei se esse apelo poderia ser muito maior, mesmo que as editoras investissem no formato. A mística do romance é muito forte. O que me parece fazer mais falta no Brasil é um circuito de publicação e consumo de contos avulsos como o que há nos Estados Unidos, profissional, baseado em revistas especializadas no gênero ou não. Testado e aprovado num mercado desse tipo, um contista acabaria chegando naturalmente ao livro.

OA: Como autor, o que é pior, em sua opinião: ter seu livro resenhado negativamente ou ver sua obra não receber resenha nenhuma? Aliás, como você lida com as críticas? Procura ler todas? Qual sua reação a elas?

Sérgio Rodrigues: Procuro ler tudo que escrevem sobre os meus livros e não responder a nada. Tenho tido sorte com a crítica, mas também já levei umas pauladas. Muito pior do que uma resenha negativa é resenha nenhuma, sem a menor dúvida. Isso sempre foi uma verdade e fica cada vez mais evidente, à medida que cresce o número de lançamentos e encolhem os espaços tradicionais de recepção. Só que é muito difícil convencer disso um escritor que acabou de ter seu livro espinafrado, principalmente quando há sinais de má-fé na crítica, o que infelizmente não é incomum. Qualquer escritor publicado tem que aprender a lidar com isso. Como? Ficando cascudo, não tem outro jeito. Com o tempo, você descobre que não vai ser destruído por uma crítica negativa nem consagrado por uma crítica elogiosa. Para de oscilar feito um maluco entre a depressão e a euforia e cai num pragmatismo que tem alguma medida de distanciamento. Se acredita de fato na literatura que está fazendo, sabe que ela não é perfeita e aprende então a tirar proveito de cada comentário. Críticas negativas equilibradas e sagazes, que também existem, são muito mais úteis para um autor do que um elogio bobinho.

OA: Na última edição da Outros Ares entrevistamos o escritor Nelson de Oliveira e fizemos duas perguntas que gostaríamos de também fazer a você. Eis a primeira: nos últimos anos, houve um crescimento dos cursos de formação de escritores, sejam oficinas, cursos de redação criativa etc., sendo que você é considerado um dos melhores “oficineiros”. E esta é uma tendência geral em outras partes do mundo, seguindo mais ou menos o modelo norte-americano de “Creative Writing”. Já dá para fazer um balanço desse crescimento? Ou seja, as oficinas melhoram a qualidade dos escritores?

Sérgio Rodrigues: Estou longe de ser um “oficineiro”. A verdade é que recuso a maioria dos convites para dar oficinas. Como blogueiro profissional, tenho a sorte de não depender disso para fechar o orçamento, e sempre que possível prefiro guardar o tempo livre para escrever literatura. Mas não tenho nada contra as oficinas. Gosto do princípio subjacente a elas, que de certa forma contraria a inclinação natural da cultura brasileira: o de reconhecer que qualquer atividade artística tem uma medida inevitável de trabalho, de exercício, de suor. Dominar a técnica não significa matar a espontaneidade, o espírito puro, pelo contrário, e isso ainda é uma ideia meio subversiva na nossa cultura. O limite da oficina é e sempre vai ser, claro, o limite do talento de cada um.

OA: Agora, a segunda: por outro lado, isso não vai aumentando o paradoxo brasileiro de mais e melhores escritores com estruturas débeis de edição (poucas editoras se dedicam à literatura nacional e menos ainda a novos escritores) e divulgação (pouquíssimo espaço em jornais e revistas – na verdade, zero espaço para novos escritores)? Como resolver essa equação?

Sérgio Rodrigues: Não acho que as oficinas sejam agentes dessa explosão do número de pessoas que escrevem. Elas são só uma das consequências da explosão, que tem a ver com a cultura digital e a facilidade de publicar na rede. As editoras tradicionais abriram mais espaço para novos escritores nos últimos dez anos do que nunca em sua história, mas são remanescentes de uma outra ordem, não têm como dar conta dessa nova demanda. E a tendência é que elas se tornem cada vez menos decisivas no futuro, à medida que o meio digital se consolidar. Com os e-books, a impressão sob demanda, as redes sociais, novas formas de veiculação e avaliação de literatura já começam a surgir e tendem a se consolidar.

OA: Seu penúltimo livro, “Elza, a garota”, é um romance histórico que traz à luz uma história pouco conhecida dos brasileiros, de uma menina morta injustamente pelos comunistas. Aparentemente, durante o ensino médio, alguns fatos importantes da História Contemporânea do Brasil não têm o destaque que merecem. Fala-se muito sobre “Descobrimento” e pouco sobre a Ditadura, por exemplo. Você concorda? Isso não prejudica o desenvolvimento da nação e o entendimento da nossa situação social e política?

Sérgio Rodrigues: Acho que a falta de interesse pela história é uma das marcas mais tristes e preocupantes do século XXI. A culpa é em parte do ensino tradicional, mas não se resume a isso. Às vezes parece que, quando aquele bobo do Francis Fukuyama apregoou o fim da História, dizendo que o capitalismo havia enterrado os conflitos de uma vez por todas, o pessoal botou fé. Não é raro encontrar quem acredite que pode escrever sem ter lido nada, quem duvide que o homem tenha pisado na Lua, quem diga que no tempo da ditadura militar é que era bom. Tudo isso de forma avoada, tolinha. Vive-se um pouco a ilusão de um presente eterno. Não sei muito bem a que atribuir isso. Talvez o culto excessivo da juventude e da novidade nos meios de massa, que já estourou o limite da neurose coletiva para entrar no campo do ridículo, explique em parte o problema.

OA: Por fim, mais uma pergunta que fazemos – e continuaremos fazendo – a todos os entrevistados: fala-se muito de baixas vendas, pouco investimento nacional, pouca divulgação a escritores locais e baixa escolaridade – fatores que juntos ou separados formam o “problema” da literatura brasileira atual. Antes de tudo, a literatura tem problemas? Quais são os principais, na sua opinião, e quais seriam as soluções?

Sérgio Rodrigues: A literatura brasileira se divorciou litigiosamente da maior parte dos leitores. É daqueles tipos de divórcio em que um lado fica falando mal do outro eternamente. Nem sempre foi assim. Nossa educação, que é uma das grandes vergonhas nacionais, parece ser uma das razões desse descompasso. O jogo pesado da indústria editorial internacional é outra. Mas não acho que nós, escritores locais, possamos posar só de vítimas. E não me refiro apenas à anemia da nossa literatura comercial. É claro que a literatura dita séria, esteticamente ambiciosa, vai sempre falar para pouca gente, mas o natural é que de vez em quando, por motivos difíceis de prever, um livro pule o cercadinho e ganhe o mundo, como aconteceu com “O filho eterno”. Por que isso não ocorre com mais frequência? Estou longe de ser pessimista, vejo muitos sinais de amadurecimento na postura dos escritores, mas a tarefa à nossa frente não é fácil. No dia em que reconquistarmos pelo menos um pedacinho das listas de mais vendidos, todo o sistema vai se beneficiar, porque um mundo literário que exclui de antemão o leitor abre a porta para relações viciadas, deturpações e, no limite, para uma acusação de futilidade que é difícil de rebater.

Leia a seguir um conto do autor: “O relato de Stapfnunsk, um homem de bem“.

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