Gente demais e qualidade de menos

Nascido em Belo Horizonte, em 1945, Jaime Prado Gouvêa é um dos mais talentosos escritores brasileiros contemporâneos. Seus contos – boa parte deles reeditados há pouco tempo no volume “Fichas de vitrola & outros contos” (Record, 2007) – misturam delicadeza e crueldade de uma maneira muito peculiar, rara de ser encontrada. Seu romance (um belíssimo romance, aliás), “O altar das montanhas de Minas“, também reeditado recentemente (Record, 2010), traz, além da já citada mistura, outras características da prosa de Jaime Prado: o humor refinado, sutil; a beleza e o lirismo; as referências literárias e musicais, que dão um quê de boemia a alguns de seus escritos.

Sobre “Fichas de vitrola…”, disse o jornalista e escritor Humberto Werneck: “Nada do que ele [Jaime] põe na tela, no papel, está ali por acaso ou descuido, nada escorregou dos dedos. Cada vírgula é capaz de justificar presença, e o que se busca, incansavelmente, não é menos que a perfeição.”

Sobre “O altar das montanhas de Minas”, disse o também escritor e jornalista Caio Fernando Abreu: “é um dos livros mais fortes, belos e comoventes que li nos últimos anos”.

Ambos estão cobertos de razão. Difícil encontrar – é um desafio, e talvez seja impossível – algo “sobrando” nos contos ou no romance de Jaime. Seus livros parecem alvos de uma quase interminável revisão, de uma incessante reescritura.

Na entrevista abaixo, o autor, que atualmente é superintendente do Suplemento Literário de Minas Gerais, fala sobre o início de sua carreira, nos anos 1970 e, claro, sobre a literatura brasileira contemporânea.

Outros Ares: Vamos começar com a já tradicional pergunta inicial aqui da Outros Ares: como e quando você começou a escrever? Em qual gênero você arriscou suas primeiras linhas? Chegou a cometer poesias?

Jaime Prado Gouvêa: Paulo Mendes Campos disse certa vez que “o adolescente não é um poeta, é uma vítima da poesia”. Concordo com ele. Também fui vítima disso e cometi uma série de poemas necessariamente juvenis que ainda hoje me acusam do fundo de uma gaveta, mas que, como muito tempo depois desconfiei, serviram de exercício de linguagem, de controle da sonoridade do texto, de concisão e síntese, de harmonia, exercícios que, acredito, me ajudaram a ter um texto mais maleável do que o de muitos escritores que nunca se aventuraram nas dificuldades de compor um verso. Como poemas, não valem nada, mas meu texto de maturidade deve muito a eles.

OA: Seus primeiros livros foram publicados na década de 1970, correto? Hoje a publicação de um livro é bastante facilitada pelos novos meios de edição, como as edições sob demanda, mas há trinta, quarenta anos era bem diferente. Como era ser escritor e publicar naquele tempo não tão longínquo?

Jaime Prado Gouvêa: Tive a sorte de começar a escrever na época em que o Suplemento Literário do “Minas Gerais” foi criado. Como muitos caras da minha geração, então muito novos e extremamente pretensiosos — como é comum aos 20 e poucos anos que tínhamos —, pudemos aproveitar a editora da Imprensa Oficial (à qual o SLMG pertencia), para editar nossos livros. Mas editora de verdade eu só consegui quando Wander Piroli, já escritor consagrado, entregou meu livro “Fichas de vitrola” ao editor Pedro Paula Sena Madureira, então na Nova Fronteira, que o leu e o editou. Quatro anos antes, em 1982, esse livro tinha vencido o Prêmio Guimarães Rosa, da Secretaria de Cultura do Estado, o que não adiantou nada em termos de conseguir uma editora. O difícil — e que só consegui através da atitude do Piroli — é o livro chegar às mãos de um grande editor e fazer que este o leia. O negócio é complicado.

OA: Atualmente você é superintendente do lendário Suplemento Literário de Minas Gerais, criado pelo não menos mítico Murilo Rubião. E você teve a oportunidade de trabalhar para e com o Murilo, no Suplemento, também na década de 70 (confere?). Como foi participar “daquele” Suplemento, com Rubião ainda vivo? Como era conviver com ele? E como está sendo editar o SLMG nos dias de hoje? Sabemos que não é nada fácil manter um veículo literário…

Jaime Prado Gouvêa: Foi uma curtição. O Murilo nos dava liberdade para criar, a Imprensa Oficial facilitou a impressão de uma antologia com 22 (!) contistas novos (“Contos gerais”, 1971) — da qual participaram também gente que seriam hoje o que são Luiz Vilela, Sérgio Sant’Anna, Humberto Werneck, Duílio Gomes e até um contista que viria a ser Ministro da Justiça e membro do Supremo Tribunal Federal, José Francisco Rezek —, saindo daí a Geração Suplemento, que foi bastante comentada em certa época. Hoje, como superintendente do SLMG, tento manter a filosofia do Murilo de fazer um jornal de qualidade e de dar oportunidade a escritores iniciantes, como ele fez conosco.

OA: Ao ler “Fichas de vitrola & outros contos” (2007) e “O altar das montanhas de Minas” (2010) o leitor se depara com várias referências musicais, com quase odes à boemia e também com alguns episódios sombrios – referências aos anos de chumbo. Mas o que surpreende, mesmo, é seu estilo, que mistura de forma invejável simplicidade e objetividade com belas passagens líricas, poéticas. É até difícil encontrar escritores brasileiros que façam isso com semelhante competência – um deles é Flávio Moreira da Costa. Dito isso, perguntamos: quais escritores – brasileiros ou estrangeiros – que mais te influenciaram?

Jaime Prado Gouvêa: Esse negócio de influência, para mim, é um pouco complicado, pois minhas leituras sempre foram caóticas. Posso dizer que sempre gostei da literatura de Scott Fitzgerald, Julio Cortázar, Albert Camus e quetais. Se peguei algum cacoete deles, ótimo. Mas desconfio que não.

OA: Ainda sobre leituras: o que você tem lido nos últimos tempos? Tem acompanhado a produção contemporânea? O que acha da literatura produzida atualmente no Brasil?

Jaime Prado Gouvêa: Tenho lido muito pouco, talvez em virtude de estar editando o SL, e certamente por preguiça. Mas posso recomendar, com o entusiasmo, o novo livro de Sérgio Sant’Anna, “O livro de Praga”. Acho que a literatura do século XXI deverá ter um enfoque desse tipo.

OA: Outro questionamento “tradicional” da Outros Ares é o seguinte: você compartilha da opinião de que o Conto é um gênero menosprezado no Brasil? Se sim, arriscaria dizer por que isso acontece?

Jaime Prado Gouvêa: Posso ilustrar essa questão com um diálogo que tive com Pedro Paulo Sena Madureira, que editou “Fichas de vitrola” (contos) e, mais tarde, meu romance “O altar das montanhas de Minas”. Quando saiu este último, veio, sob o título, a palavra “romance”; na capa do “Fichas…”, não havia nada. Perguntei a ele por que não saiu a palavra “contos” sob o título. Ele, editor experiente, respondeu: “porque se escrever ‘contos’ na capa não vende”. É assim que o mercado enxerga o problema. E ainda é melhor do que livro de poesia, que aí não vem nem título, nem livro, nem poemas, nem poeta…

OA: Por fim, mais uma pergunta que fazemos – e continuaremos fazendo – a todos os entrevistados: fala-se muito de baixas vendas, pouco investimento nacional, pouca divulgação a escritores locais e baixa escolaridade – fatores que juntos ou separados formam o “problema” da literatura brasileira atual. Antes de tudo, a literatura tem problemas? Quais são os principais, na sua opinião, e quais seriam as soluções?

Jaime Prado Gouvêa: O problema é que no Brasil as poucas pessoas alfabetizadas leem pouco ou leem mal. A produção atual que chega ao SLMG através de colabores ou de concursos literários tem um nível muito baixo, muitos com sotaque de novelas de TV ou marcadas pela ligeireza e falta de cuidado da geração internet. A verdade é que muita porcaria está sendo editada. Gente demais e qualidade de menos. Ou sou eu que estou ficando velho e exigente. Pode ser.

Leia a seguir um conto do autor: Guardando roupa suja.

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