A arara vermelha

Charles Kiefer

Contrabandista não é bandido, é? Nunca roubei, nunca matei. Tenho ficha limpa, pode examinar. Se eu pudesse, tinha feito uma faculdade, ia ser advogado, andava de terno e gravata, como o senhor. Trabalho com quinquilharia paraguaia, mas não sou traficante. Relógio Jean Vernier, Tissot, Girard Perregaux. Sim, sei dizer o nome direitinho, aprendi com uma dona chique. Trabalho perto dos hotéis de luxo, lá na Paulista, e no Teatro Municipal. Tem gente endinheirada que compra de dúzia. Dão de presente? Revendem? Por encomenda, trago máquina fotográfica, computador de bolso, GPS, mas tem que fazer um adivance, me falta capital pra bancar produto muito caro.

Hoje se negocia qualquer coisa, cocaína, crack, rim, fígado. Já me ofereceram uma boa grana pra ser mula, pra carregar pasta de coca, pedra, papelote. Não topei. Tenho os meus limites, lido com muamba, e só. Dinheiro é bom, faz a gente feliz, mas não compra tudo, minha mãe já dizia.

Fui de ônibus, como sempre, a Foz do Iguaçu. Atravessei a fronteira a pé, sobre a ponte internacional, e voltei com a cota. Fiz a travessia várias vezes, pra que valesse a pena. Deixava a muamba na mala, no hotel, e voltava pra Ciudad del Este.

Numa dessas idas e vindas, encontrei a arara. Não, viva não. Era uma arara empalhada. De longe, parecia que ela ia levantar vôo, tinha o olho brilhante, as penas do peito eram vermelhas, quase sangue, e das pontas das asas e do rabo, pretas.

Retornei a São Paulo em ônibus de linha intermunicipal, fugindo da fiscalização, por estradas esburacadas, comendo poeira e pastel de rodoviária, e pensando na arara vermelha. Imaginava aquele bicho na floresta, nas árvores, comendo frutinha, longe da maldade dos homens. Até que alguém a caçasse, abrisse a barriga e enchesse tudo de palha seca. É triste. É triste pensar que uma ave linda, que nasceu pra andar pelas estrelas, que tinha visto o mundo de cima, agora olhava a gente com um olho de vidro, sem poder se mexer. Sinto um arrependimento danado de não ter comprado a arara. Só não fechei o negócio porque não teria coragem de passar adiante depois, eu me apego às coisas bonitas, e o dinheiro já andava curto. E agora, sem mercadoria pra revender, encurtou de vez. Eu tinha prometido a mim mesmo que ia trazer o pássaro empalhado na semana seguinte, quando voltasse. Só que eu ainda não sabia que tudo ia acabar numa delegacia de polícia, em Cascavel, no Paraná.

Às vezes, eu fico lembrando a voz da mulher, a beleza do rosto, o cabelo escuro e liso, mas penso, também, na criança que ela trazia no colo, penso muito. E era, mesmo, uma menina, como ela me disse. Assim que olhei pra ela, no ônibus, eu me lembrei da Virgem de Guadalupe. As duas tinham a pele morena e aquele sorriso manso no rosto. Se eu encontrasse a mulher noutro lugar, no Horto Florestal, por exemplo, ou na Praça Quinze, eu ia me apaixonar por ela, mas encontrei na viagem, e deu no que deu. Fui chamado pra ser testemunha do flagrante de prisão e vou levar processo por contrabando. Quando a polícia abriu uma das minhas malas, encontrou a montanha de relógios suíços, fabricados no Paraguai. Perdi tudo e ainda vou me incomodar com o inquérito. A dona da pensão onde eu moro me aconselhou a falar com o senhor.

“Um bom advogado, você vai precisar de um bom advogado”, ela me disse.

Depois de algumas horas, senti vontade de ir ao banheiro. Quando estava me levantando, vi, meio sem querer, que a mulher, essa que se parecia muito com a Virgem, borrifava perfume no rosto da criança. Entrei no reservado e enquanto sacolejava e tentava acertar o vaso, pensei em tudo. Ela embarcou na primeira parada que o ônibus fez, logo que saímos de Foz. Entrou com a criança no braço esquerdo, e com uma sacola plástica dependurada no direito. Tenho certeza, porque ela bateu aquela sacola no meu rosto, quando passou no corredor.

Durante a viagem, ela não saiu nunca do assento. Nem pra almoçar, nem pra jantar, naquelas paradas mais longas que o ônibus sempre faz. Teve uma hora que eu quase perguntei se ela não queria alguma coisa do restaurante, mas desisti quando vi ela tirar um sanduíche da sacola plástica.

Voltei pro meu assento e passei a observar a criatura com mais cuidado. Uma hora depois, se tanto, ela borrifou perfume sobre a criança outra vez. Uma coisa óbvia como que tilintou na minha cabeça: nunca, em nenhum momento, o bebê tinha chorado. Horas e horas de viagem, num caminho esburacado e lento, sob um calor dos diabos, e uma criança de colo ficava o tempo inteiro quieta, adormecida, sem chorar ou mamar?

Entrei na cabine do motorista e comentei que havia algo estranho no assento vinte e um. Um pouco depois, ele parou.

“Estamos com um problema no motor. Peço a todos que desçam. O conserto será rápido”, ele disse, na porta do corredor.

Depois que todos saíram, menos a mulher, voltei pra dentro do ônibus e perguntei:

– Não quer descer?

– Prefiro ficar aqui.

Vi que um lenço cobria o rosto da criança.

– Não vai se afogar com esse calor?

– Não, ela está bem – a mulher disse e sorriu.

E é esse sorriso que eu não esqueço. No quarto da pensão, quando eu lembro tudo que aconteceu, quando eu penso na mala de relógios que perdi, no bicho empalhado que não comprei, o que salta diante de mim feito uma arara enlouquecida, grasnando, é o sorriso e a doçura de santa que a mulher tinha.

– Então, é uma menina… – eu disse.

– Sim, e se chama Luísa – ela respondeu.

Falei com o motorista. Ele disse que não podia obrigar a mulher a se levantar, que ia dar rolo, depois, na empresa.

Recomeçamos a viagem. Eu estava cansado. Dormi um pouco, acordei, voltei a ficar de olho na mulher. E ela lá, sentada, quieta, uma santa no nicho.

Paramos em Cascavel. No posto da Polícia Rodoviária descobriram que a criança não só estava morta há muitas horas como vinha recheada de cocaína.

Tão cedo não conseguirei viajar outra vez. Será que o senhor não conseguia recuperar a minha mercadoria? Se eu vendesse os relógios, teria dinheiro pra voltar pro Paraguai e encontrar a minha arara vermelha. Meti na cabeça que eu quero aquele bicho. Sim, eu sei, se eu tivesse trazido, seria pior, ela estaria agora recolhida no depósito da polícia, no escuro, sozinha, empoeirada, atacada por ratos e cupins.

Charles Kiefer é natural de Três de Maio (RS), onde nasceu em 1958. Estreou na ficção em 1982 com “Caminhando na Chuva”, novela de temática adolescente que, em 19 edições, vendeu 100.000 exemplares, e que recentemente ganhou nova edição pela Editora Ática, transformou-se num clássico da literatura infanto-juvenil. Em 1985 Kiefer ganhou projeção nacional com a novela “O pêndulo do relógio”, agraciada com o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro. Em 1993, com o livro de contos “Um outro olhar” e com “Antologia Pessoal”, o escritor recebeu novamente dois prêmios Jabuti. O autor vem acumulando nos últimos anos uma série de outras premiações, entre elas o Prêmio Guararapes, da União Brasileira de Escritores, para “O pêndulo do relógio”, Prêmio Afonso Arinos 1993, da Academia Brasileira de Letras, por “Um outro olhar”, e Prêmio Altamente Recomendável para Adolescentes 1986, pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, para o livro infanto-juvenil “Você viu meu pai por aí?”, entre dezenas de outros prêmios. A Editora Record reeditou “Valsa para Bruno Stein”, “Quem faz gemer a terra”, “Logo tu repousarás também”, “O escorpião da sexta-feira” e “Você viu meu pai por aí?”, entre outros. Charles Kiefer é professor da PUCRS e orientador de oficinas literárias. Recentemente, a Editora Leya lançou dois livros seus: “Para ser escritor” e “A poética do conto”.

Leia a seguir o conto Eles não moram mais aqui.

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Eles não moram mais aqui

Ronaldo Cagiano

Voltei para casa com a sensação

de uma absoluta solidão.

 

“O túnel”

Ernesto Sábato

…mas aparecem todos os finais de semana, de bus, van ou metrô até chegar ao outro lado da cidade, a imensa ilha cujo mar é o céu infinito, pássaro nascido da prancheta, com suas enormes asas abertas sobre o cerrado.  O sono despertado pelo interfone, eu ali, semi-acordado da madrugada que ainda me prostrava com seu chumbo na manhã ociosa. Eles, pontuais e esperançosos, esperavam o meu abraço, o beijo, uma festa nos olhos conspurcando o endereço inóspito. Antes de entrarem, apesar de terem a chave, bolinavam a campainha num toque prolongado, acho que o pai ainda está dormindo, Bebel, talvez por temerem invadir a privacidade, era sempre bem cedo, como se não quisessem perder um minuto do direito de visita, eu percebia pelo olho mágico a face (e)terna, deve estar se vestindo, ela falava ao Dudu, eles vinham para o lugar que um dia foi deles, e meu sorriso tentava empanar a face ainda desfigurada, a garganta congestionada por hálito e emoção, a impossibilidade de tantas perguntas, apenas os filhos ali – um casal, mocinhos já – e não se lembrariam mais dos primeiros choros, as cólicas abreviando as noites, seus corpos buscando afagos enquanto a febre latejava, e agora são eles numa sondagem silenciosa e aflita com um olhar-escafandro penetrando o insondável do meu coração, bateia no aluvião de minhas tristezas, mergulhados mais fundo do que nunca numa água desconhecida, mas o que são os filhos senão o barco que lançamos rumo ao mar existencial, lá onde não podemos mais chegar e alcançá-los, onde a fúria da vida impõe suas fadigas e descaminhos. Sim, fomos filhos um dia, mas em que águas me lancei, que a mesma distância entre mim e seus avós parece multiplicada entre nós, agora esses corpos frágeis, tão cedo carregando o peso da realidade? Acho que jamais soube o que era tudo isso, ainda mais agora, longe do seu tempo de febres e choros ensurdecendo a casa, quando esse outono consterna a cidade com a prostração das cores, a janela é um convite para uma fronteira que não conheço, os olhos apertados, não querendo ceder lugar às lágrimas, procuram procuram procuram e, extenuados, só pescam lembranças no lago turvo de um tempo que a gente não reconstrói mais pois vai embora como a vida, como vão a poeira e a folhagem seca sob o telhado escoiceadas pelas chuvas de dezembro, esse acúmulo de epidermes mortas, jazigo de guerras conjugais, e amanhã é domingo, pé de cachimbo, (e as cidades morrem aos domingos, como morre nosso espírito calejado de ausência e silêncios), o apartamento está vazio como habitada por fantasmas está a Esplanada dos Ministérios, esses inexpugnáveis caixotes que albergam tantos segredos, e quando eles entram, são as perguntas de sempre, são os laços rompidos, são seus olhares inertes sobrevoando os cômodos, esquadrinhando as retratos sobre a cristaleira, é a alma um pomar de lacunas e lá embaixo é o asfalto, o burburinho de carros, as superquadras e seus blocos residenciais (pombais que o velho Euclides detestava habitar), enfileirados como um dominó, as cigarras de agosto e o pregão de seu canto histriônico, e a urgência de tudo nas coisas, é o que sobra, é o que miro na estante com a foto da primeira viagem à praia, ele grudado às minhas pernas, ela no colo, ali estávamos, no parapeito do grande belvedere do Cristo Redentor que dava para a Baía de Guanabara, e já não é aquele tempo que vejo, é o pranto reprimido que se dissipa com o barulho do caminhão de gás se enviesando sinfônico pelos setores povoados de siglas e sua vinheta imutável, a respiração um pouco mais forte, a água que eu havia esquecido esquentando na chaleira, tudo parece imperfeito, eles me beijam quando chegam, acomodam-se solenes e calados na velha poltrona como se desconhecessem o lugar, o dia livre, os móveis, os passeios, enquanto as bonecas apodrecem numa gaveta da cômoda travestida em museu de entulhos, o autorama enguiçado (lembro-me do dia em que ele, brilhando como um cometa, o recebeu de minhas mãos – É meu, pai?) denuncia que a existência acumula perdas e riscos além das mentiras e ofensas na Vara de Família – tudo agora parece acabar antes de começar, o abraço deles, demorado e insubstituível, ainda penetra minha consciência como um punhal em brasa, o quarto os espera como sempre, como se nunca tivessem saído de lá e voltassem de férias, mas os cadernos, suas caixinhas de pertences, a mochila, as roupas espalhadas, as folhas de desenhos coladas na parede, os deveres por fazer – onde estão? Braços apascentam a saudade e eu percebo que a realidade, imperturbável, sequestrou seus rostos de criança. A casa é a mesma, mas a solidão imperativa os recebe como um estranho. Estrangeiros na própria terra, já não reconhecem os desenhos a lápis de cor que ainda adormecem nas paredes do quarto da empregada. Onde andará dona Zenaide, que ensinou-lhes em nossa ausência as muitas coisas da vida, as sofrências do ver? Há uma sombra pretérita escurecendo os cômodos. Como a pergunta lâmina que não tem resposta, apenas uma lágrima esconsa. Pai, o que é saudade? Ainda me lembro quando ele a me cravou, à queima-roupa. E nunca imaginei que um dia seria mais difícil sentir do que explicar. Naquele tempo os passeios ao Jardim Zoológico se revestiam de tamanha aventura, como se juntos flagrássemos o reino da fantasia que nos isolava do mundo e da fugacidade dos infortúnios que a vida prepararia sem postergação nem dó, eles ainda tinham seus heróis enquanto os meus não sobrevieram a 68 e a plena efervescência da vida em seus poros, a vida, a vida, a vida com suas garras bisonhas é o que nos cabe, quando tudo já é sem a ilusão e a gente vai matando um leão por dia, nas entressafras de dores inesperadas, de inventário do pouco que tínhamos. Agora é mais um fim de semana como outro qualquer, tudo se repete como as folhas exiladas que a cada outono atapetam o gramado, como as caminhadas à beira do Lago Paranoá, os lanches após as sessões vespertinas nos cinemas do shopping, imutável como o que há de compulsório nas agendas de trabalho, já não há mais o gibi, nem os brinquedos espalhados na sala ou os desenhos trêmulos riscados a batom no espelho do banheiro (primeiros esboços de sonhos). O sol insiste em esconder-se lá, dominado por nuvens negras que caluniam a paisagem nessa estação sem graça atropelada pela intransponível secura do Planalto Central, mais suportável que a que instaura o deserto íntimo, soberana e indesviável sentença que parece nunca apartar de nós quando o rio bêbado do tempo, veloz e pleno de fúria, irrompe em nossas vidas como as tantas enchentes de verão que irrompiam como uma tsunami na minha infância em Cataguases. E esse rio imóvel entre paredes não conduz a lugar algum, apenas reproduz a cada domingo o ritual dos rostos colados que se afastam antes de recriarem a soberania de outras despedidas, enquanto os vejo pela janela se dissipando no altiplano rumo à parada de ônibus, até se transformarem num ponto minúsculo ao longe, um cisco na paisagem do horizonte longínquo.

Agora o apartamento é um sarcófago que hiberna outras vidas (terão vivido a minha exaustão? carregam o minério bruto de outras frustrações? dão ouvidos à vizinha evangélica que tentava salvar os homens do mundo e só ofendia a gramática?), na vasta planície um vago teor de nuvens, o mofo ampliou seus mapas no terraço do condomínio; as janelas – há tempo fechadas – denunciam o imponderável que há nas coisas. E o olho mágico vislumbra outras criaturas, mas nele resiste a presença invisível de seus rostos, a substância clara de suas almas. Brasília já é um deserto onde só resistem as caliandras.

Ainda me lembro daquelas mãos albergando o afago pressuroso, guardando para o último minuto a despedida formatada no adeus definitivo que não muito longe dali o tempo se encarregaria de um dia amalgamar.  E os chicletes coreografando estruturas no ar, a última lembrança da estação deixada nos degraus da escada, uma rodovia desavergonhada implementando o longo sono.

E um ronco do motor, uma trava, uma cancela, o asfalto molhado, os olhos inchados, um gigante ruminando a alma e no fundo, no fundo do cerrado, onde tentei enterrar minhas dúvidas, a dispersão das cinzas em que se converteram as estrelas de seus olhos.

Ainda me lembro: eles apareciam todos os finais de semana, de bus, van ou metrô até chegar ao outro lado da cidade, a imensa ilha cujo mar é o céu infinito, pássaro nascido da prancheta, com suas enormes asas abertas sobre o cerrado.

Ainda me lembro.

Este conto ficou 2º lugar no Concurso de Contos Cidade de Araçatuba (2010)

Mineiro de Cataguases, viveu em Brasília e reside em São Paulo. Colabora em alguns jornais e revistas com artigos e resenhas. Entre os livros publicados, “Palavra engaja” (poesia, 1989), “Dezembro indigesto” (contos, vencedor do Prêmio Bolsa Brasília de Produção Literária 2001) e “Dicionário de pequenas solidões” (Língua Geral, Rio, 2006). Organizou as coletâneas “Poetas mineiros em Brasília” (2003), “Antologia do conto brasiliense” (2004) e “Todas as gerações – conto brasiliense contemporâneo” (2006).