Qualquer coisa pode ser transformada em literatura

Vamos começar com a tradicional primeira pergunta da Outros Ares: como e quando você começou a escrever? Em que gênero escreveu suas primeiras linhas?

Comecei a escrever cedo, porque meus pais eram escritores e essa parecia ser a minha herança natural. E eu provavelmente já sabia, desde adolescente, que escrever seria uma coisa séria para mim. Com 12 anos comecei a manter um diário que acabou se tornando o lugar onde eu tentava escrever histórias, praticar descrições e testar ideias. Então, minha primeira experiência mais extensa com a escrita foi escrevendo um diário.

Seus pais eram ligados à linguagem e literatura (seu pai era crítico literário e professor de inglês, e sua mãe foi escritora), mas você primeiro se interessou por música em vez de literatura. Como foi isso? E quando e por que você colocou a música de lado e priorizou a literatura em sua vida? Outra pergunta: como é a sua relação com a música? Você normalmente escreve ouvindo música ou escreve em silêncio?

Meu primeiro amor foi a música, mas a minha primeira ambição foi ser escritora. Eu nunca considerei seriamente compor ou tocar como uma carreira. E nunca fui boa o bastante no piano, ou cantando, e certamente não no violino, apesar de eu ter me esforçado muito para ser. Escuto bastante música, sempre escutei, com muita atenção. Por essa razão, eu nunca escrevo enquanto ouço música, é sempre uma coisa ou outra de cada vez.

Algumas de suas narrativas são sobre assuntos que muitos leitores sequer imaginam que poderiam virar literatura. A narrativa “As vacas”, por exemplo… Enquanto eu a lia, perguntava a mim mesmo: “onde essa mulher está tentando me levar?”. Há também as cartas para empresas… e outras narrativas não “comuns”. Quando você começou a desafiar os limites da literatura? Quando você se tornou a “Rainha Midas” da escrita? (“Rainha Midas da escrita” é um apelido que dei a você, se você me permitir.)

Gostei do apelido “Rainha Midas” – exceto pelo fato de o Rei Midas ter acabado numa situação ruim! Eu não tenho “pré-intenções” quando começo a trabalhar num escrito. “As vacas” não começou com a ideia que você teve à sua frente enquanto lia. Eu simplesmente estava muito interessada em observar as vacas que eu via pela minha janela. Eu escrevia uma observação, e então depois escrevia outra, talvez semanas depois da anterior. Passado um tempo, percebi que eu tinha muitas anotações, e então as reuni e encontrei um bom encadeamento para elas. Eu sempre escrevo a partir do que me interessa. A história nasce do meu interesse num determinado material (como em “As vacas”, por exemplo). E então eu trabalho intensamente na linguagem para expressar o que eu vejo ou penso.

Aproveitando a pergunta anterior: podemos transformar qualquer coisa em literatura? Tenho pensado muito sobre “os limites da literatura” nos últimos meses (e você é uma das causas disso). Penso, por exemplo, sobre como transformar um par de tênis que tenho, e que esteve comigo em muitos episódios importantes da minha vida, em literatura. Isso é bobagem ou é possível transformar qualquer coisa em (boa) literatura?

Sim, eu penso que qualquer coisa pode ser transformada em literatura, não existem limites. (Bem, preciso dizer que, para mim, existem limites morais, que têm a ver com obscenidade ou sofrimento gratuito e assim por diante – penso que sempre temos que lembrar da nossa humanidade.) Mas isso depende de quão concentrado o escritor é, e do quão sua mente é refinada – o que nos leva, novamente, à questão da reflexão. Livros e boas conversas são úteis, mas não são necessários. Questionar, pensar… isso é necessário.

Quais escritores você mais lê? Quais autores mais te influenciaram?

Eu leio todo o tipo de literatura, e tenho o mau hábito de começar um livro, ou ler até a metade, e colocá-lo de lado para começar a ler outro. Posso começar a ler um escritor do século XVIII ou XIX e então ler contos de Clarice Lispector ou Regina Ullmann. Agora vou ler algumas páginas de um diário espetacular chamado “The Gray Notebook”, do catalão Josep Pla. A lista das minhas primeiras influências é longa: Hemingway, Kafka, Beckett, Dos Passos, Nabokov, Grace Paley, Jane Bowles. Influências mais recentes: Roland Barthes, o livro “Under the Volcano”, do Malcolm Lowry, uma obra incrível. É uma lista sem fim: Peter Handke (!), Knut Hamsun (ambos problemáticos politicamente, mas escritores maravilhosos).

Você poderia falar sobre o mercado literário nos Estados Unidos? Aqui no Brasil temos a impressão de que há escritores demais e leitores de menos. Também é assim nos EUA?

É provavelmente a mesma coisa aqui, muitos dos melhores leitores também são aspirantes a escritor. Por outro lado, preciso dizer que vejo muitas pessoas lendo e elas provavelmente não desejam ser escritoras, mas os livros que elas leem não são necessariamente grandes livros. Mesmo assim, sempre fico feliz em ver alguém absorvido por um romance, especialmente se for um livro impresso, de capa dura, não importa qual seja. Adoro assistir a essa completa absorção, a esse completo alheamento do que está ao redor da pessoa. Isso é mágico.

Aqui no Brasil, com algumas exceções, os contos não são populares entre os leitores, e nós – escritores, editores, jornalistas – não sabemos exatamente o porquê. A sensação que tenho é que nos EUA os contos são bem lidos e comentados. Estou certo? Ou a situação é igual à nossa?

Não estou na melhor posição para opinar, já que não estou no ramo editorial. Mas minha impressão é que apesar de os contos, e especialmente os contos curtos, estarem ganhando um novo público e maior popularidade, o romance continua sendo a forma de ficção mais desejada por editores e leitores. Eu acho que isso acontece porque as pessoas amam mergulhar num mundo ficcional, o que as faz parar de pensar e indiretamente viver uma outra vida por um longo tempo, sem ter que voltar para o presente, para as suas próprias vidas. E somente um romance permite que uma pessoa vá tão longe por tanto tempo.

Recentemente percebi que sempre li muito mais livros escritos por homens do que por mulheres. Parece que sempre fui levado a ler mais homens, então decidi mudar isso e ler mais mulheres, e estou gostando muito. Tenho descoberto tantas grandes autoras, como você, Alice Munro, Lucia Berlin, Selva Almada e várias autoras brasileiras… Então eu queria falar sobre “Lydia Davis, a leitora”. Você, como mulher, se sentiu compelida a ler mais mulheres? Ou os homens também dominaram suas leituras?

Oh… Sinto dizer que nunca fui uma feminista ardente enquanto jovem escritora em formação. Minha mãe foi uma mulher muito independente, e meu pai foi um homem muito respeitável com as mulheres (inclusive com minha mãe), então, como eu tinha esses modelos em casa, não sentia a necessidade de lutar para ser reconhecida ou respeitada. Mas, independentemente disso, penso agora que eu deveria ter lido mais escritoras. Naquele tempo eu lia, vou admitir, mais homens, porque eles eram alguns dos grandes escritores, alguns dos quais mencionei acima – Kafka, Beckett etc. Eu entendia o interesse que havia e há sobre as obras de, por exemplo, Virginia Woolf e Gertrude Stein (duas das escritoras mais importantes e inovadoras que “conheci”), mas eu me sentia um pouco incomodada pela maneira que elas tinham de ver e viver o mundo, então não senti a necessidade ou obrigação de imitá-las ou mesmo admirá-las.

Mudando um pouco de assunto… Os EUA têm, agora, um presidente horrível que, dizem, não lê absolutamente nada. Aqui no Brasil, temos um presidente que aparentemente também não lê, pois seu livro de poemas é tão ruim (nem queira saber…) e ele tem tão pouca empatia pelas pessoas comuns… Você acha que a literatura, a ficção e a poesia podem mudar políticos – e, consequentemente, a política – de alguma forma? Para você, a literatura pode ser um sinônimo de esperança? Enfim: o que é a literatura, para você?

Essa é uma pergunta difícil. Eu gostaria de pensar que a literatura pode mudar os políticos – e a política. Mas isso aconteceria através do indivíduo, uma pessoa de cada vez sendo movida pela empatia e pela iluminação provocada por um romance, um livro de ensaios, contos ou poemas. Nosso presidente Jimmy Carter foi (e continua sendo) um homem de muitas boas ideias e lia poesia – e, claro, Barack Obama não apenas é um leitor, mas também um bom escritor. Às vezes acontece. Tenho receio de que nosso atual presidente tenha muito pouco conhecimento, muito pouco entendimento do que é ser humano. Mas sempre há esperança – não para ele, eu acho, mas para mudanças que podem vir nas eleições de novembro, por exemplo, e para a força de mobilização criada pelo nosso receio por sua presidência. Vamos ter esperança!

Leia a seguir três narrativas curtas de Lydia Davis.

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Três narrativas de Lydia Davis

O pelo do cachorro

O cachorro se foi. Temos saudades dele. Quando toca a campainha, ninguém late. Quando chegamos tarde em casa, não tem ninguém nos esperando. Ainda encontramos seus pelos brancos pela casa e nas nossas roupas. Catamos todos os pelos que encontramos. Deveríamos jogar tudo fora. Mas é só o que nos resta dele. Não jogamos os pelos fora. Temos uma esperança irracional – a de que se conseguirmos juntar bastante pelo, conseguiremos remontar o cachorro pelo a pelo.
[página 16]

Homens

Há também homens no mundo. Nos esquecemos, às vezes, e pensamos haver apenas mulheres – infinitas colinas e planícies de mulheres lassas. Fazemos piadinhas e nos consolamos umas às outras e nossa vida passa fugaz. Mas de vez em quando, é verdade, um homem emerge inesperadamente entre nós, como um pinheiro, e nos olha selvagem, e nos dispersa correndo, claudicantes, desaguando em enchentes, escondendo-nos em cavernas e desfiladeiros até que ele parta.
[página 116]

Escrever

A vida é séria demais para eu continuar a escrever. A vida era mais fácil antigamente, e também mais agradável, e na época escrever era bom, mesmo que também parecesse sério. Hoje, a vida tornou-se muito séria e a escrita, por comparação, parece tolice. Escrever nem sempre é sobre coisas reais e, mesmo quando é, muitas vezes toma o lugar da realidade. Escrever é muitas vezes sobre pessoas que não dão conta de sua vida. Agora, me tornei uma dessas pessoas. O que eu deveria fazer, em vez de escrever sobre pessoas que não dão conta de sua vida, é parar de escrever e tratar de dar conta. E prestar mais atenção na vida. O único jeito de eu ficar mais inteligente é parar de escrever. Deveria estar fazendo outras coisas em vez de escrever.
[página 266]

(Do livro “Nem vem”, tradução de Branca Vianna.)

Comece a ler os contos escolhidos desta edição:nuvens com vista para o mar“.

nuvens com vista para o mar

[Assis Freitas]

Edyara usava cabelos encaracolados, óculos quadradinhos e tinha uns lábios que sopravam idiossincrasias.

Mariângela eu conheci numa viagem de pesquisa, ela namorava outra garota. Uma noite sonhei que ela estava ao meu lado na cama e que nos beijávamos e transávamos.

Algum tempo depois ela me disse que o sonho acontecera.

As minhas mulheres sempre foram flutuantes, nuvens benfazejas que pairavam no céu. Algumas viraram realidade, outras sempre foram desejo. Mas eu nunca consigo discernir as fronteiras deste paradoxo.

Houve a Goly, Ivonize, Verônica. A Soraya desfilava o corpo bronzeado na praia em frente ao apartamento que eu morava. Tinha passos doces, olhava para as pessoas com ar de realeza. Na vez que cingi aquele corpo delgado
contra o meu pude perceber a delicadeza de coxas, seios e uma boca que aspergia anseios.

Um dia Nívia amanheceu sorrindo estrelas. Deitou desejos sobre a estrada do tempo e me fez contemplar a florescência de loucas luzes. Eu sempre tinha silêncios a oferecer, às vezes uma ou outra palavra de fervor. Mas
a intensidade dos gestos não permitia elucubrações. Era sentir e sentir e sentir. Até se dissiparem todas as amarras dos quereres. Sabe esses ventos que os lábios sopram. Essas delicadezas que brotam das mãos. O úmido recanto da língua em epifania.

Há outras que não posso nomear por puro desconhecimento.

Como a que encontrei no restaurante do hotel durante o café da manhã e enquanto fazíamos o desjejum trocávamos olhares. Horas depois, estava à porta fumando um cigarro e a vi se aproximando no banco traseiro de
um carro que contornava lentamente a curva da avenida.

De repente, ela virou o rosto na minha direção e deixou cair uma bola de papel sorrateiramente. Eu me arrisquei entre os carros e consegui pegar aquele mimo que o vento teimava em distanciar. Quando desfiz a bola de papel, havia um número de telefone desenhado numa caligrafia apressada. Tentei ligar uma vez, mas do outro lado da linha reinou um silêncio de respiração ofegante.

Assis Freitas, poeta, escritor e jornalista, mora em Feira de Santana (BA). É autor de vários livros, sendo o mais recente “há um poema morto na sala”.

Leia a seguirQuaresmal“.

Quaresmal

[Ernane Catroli]

(…) to live with my mother in her old age, and mine.
(Raymond Carver)

Conhece-os de outras paragens e os procura pelos cômodos da casa. Tão pálidos. Espectros. E trazem todos as mãos ocupadas. Uma gaiola, um anzol, uma bússola, um isqueiro aceso. Borboletas de asas urticantes voejam ou pousam nas paredes, nos móveis. Já antes, as estampas de santos em molduras, entremeadas de espinhos e cacos de vidro – como dentes afiados – no chão que pisava. E não sei se já lhe disse que tomamos conta de um menino! Um menino inquieto. Agora ele deve estar na escola.  E não esqueça que preciso ir para a minha casa. Por que ainda estamos aqui?

Que perdeu dois filhos, a coragem, os dentes, o brilho dos olhos. Dois filhos. Era tarde avançada quando fui buscá-los seguindo a linha do trem até aquela primeira meia curva. Tinham saído muito cedo para pescar e armar arapuca para passarinhos. Paixão por passarinhos. Passava muito da hora do almoço. O bambuzal tombado pelo vento. O zumbido do vento. Um temporal. Ainda assim os meus gritos. Quanto às alianças de noivado, ali mesmo na loja colocamos nos dedos. Sábado. Manhã de sábado. Agora elas estão aqui. Dentro da minha viuvez. Dentro do pesadelo.

Antes de dobrar a esquina me virei. Ela acenava da entrada do beco sob a luz amarela de um poste da avenida. Madrugada. Último horário do ônibus.  E o Rio. O Rio quando ainda os visitantes não haviam chegado.

Anoitecia quando deixamos o consultório do médico. Enquanto esperávamos um táxi, ela baixou a cabeça, brincou com um botão frouxo da minha camisa; secou uma lágrima. Depois procurou meus olhos. De mãos dadas ficamos em silêncio. Um misto de dor e compaixão. O amor mais forte agora.  A revolta. Também ódio. E o medo maior. Algo muito grave nos aconteceu. Foi quando comecei a me despedir.

Ernani Catroli é natural de Sant’Anna de Cataguases, MG, onde passou infância e adolescência. Há muitos anos reside no Rio de Janeiro. Bioquímico de formação, exerce atividades científicas e acadêmicas na área de Saúde. Publica regularmente em alguns blogs dedicados à cultura.

Leia a seguirLigeia“.

Ligeia

[Roberto Prado]

Caríssimo, desculpe-me a ausência, mas essa missiva traz-lhe boas novas.

Conheci acidentalmente uma moça muita linda. Encontrei-a numa inesperada ida minha à praia. Sabe bem o bom amigo sobre o que penso do sol na cabeça, isso me remete à desgraça de Mersault, mas o Destino – sim, com “D” maiúsculo – sempre nos prega peças… Sim, estava a andar a esmo, pensando na falta de sentido da vida, quando – Louvado seja Deus! – a vi dentro d’água (quase ouso dizer que eu a ouvi antes de vê-la)!

Sem pensar e sem dar por mim, me vi pulando ondas, mergulhando, nadando como se tivesse feito isso toda a minha vida. Não sei por quanto tempo dei braçada e mais braçadas até que me aproximei dela – e ela cheirava a sal…

Faltam-me palavras, verbos, substantivos, adjetivos, falta-me toda uma gramática, um alfabeto para descrevê-la (dominasse eu o grego!), e por isso não o farei aqui e nem em meu último suspiro, por isso peço-lhe: SIMPLESMENTE CREIA EM MIM!

Ficamos horas a conversar boiando nas ondas, mas meus olhos, minha alma, todo meu eu afundava-se naqueles olhos verdes…

Nesse mister passou-se todo o meu dia, e somente ao pôr do sol despedi-me dela.

Perguntei onde ela morava, como poderia encontrá-la outra vez, e ela, olhando para o horizonte sem fim, respondia com doces negativas e um sorriso que levaria qualquer outro homem à loucura. Qualquer outro homem que não este seu amigo versado em ciências do absurdo e do oculto à vista de todos…

Arrisquei-me a inquirir seu nome. A resposta veio junto com um sorriso lindo:

– Ligeia.

O sol já começava a se pôr, seu reflexo na água me ofuscava, e quando cheguei perto para abraçá-la, num pirueta mergulhou e desapareceu… As gaivotas grasnavam em coro, elas riam de minha angústia, de minha dor, e lembrei-me nesse instante a razão de minha antipatia pelo mar.

Caríssimo, esse tempo sumido se deve à minha insensata busca por ela. Ando de praia em praia, ora gritando:

– Ligeia!

Ora murmurando:

– Ligeia!

Assim passo meus dias n’água, ando mais enrugado do que deveria nessa minha provecta idade. Acho que já estou ficando com meus cabelos verdes… Meu bronzeado já está transformando minha pele em papiro. Há vezes em que, chegando em casa após o dia inteiro na praia, não me reconheço em frente ao espelho.

Caríssimo, o amor na nossa idade é realmente um risco fatal!

Minha vida mudou, estou irreconhecível, e, sem perceber, alterei drasticamente meu modo de viver e de me alimentar. Duvida?

Veja a receita que lhe envio:

SALADA DE ALGAS E PEPINO

Ingredientes:
– 25g de mistura de algas secas
– 1 pepino pequeno
– 75ml de mirin
– 75ml de vinagre de vinho de arroz
– 2 colheres de sopa de açúcar amarelo
– 2 colheres de sopa de sumo de limão

Faça assim:

1. Ponha as algas de molho numa taça com água fria e deixe repousar 15-20 minutos para amolecerem;

2. Corte o pepino ao meio no sentido do comprimento e depois em meias-luas muito finas; em seguida, ponha as algas, grosseiramente picadas, e o pepino numa tigela;

3. Misture o mirin com o vinagre de vinho de arroz e o açúcar num tacho pequeno e leve a lume brando até o açúcar dissolver. Retire do lume e deixe arrefecer. Junte-lhe o sumo de limão;

4. Deite o molho de vinagre sobre as algas e o pepino e envolva cuidadosamente. Sirva em taças pequenas ou pratos individuais.

A princípio você deve estranhar, mas com o tempo e uma paixão avassaladora, logo se adaptará.

Caríssimo, estou um homem muito velho para tais emoções. Enquanto traço estas linhas, uma voz doce canta em meus ouvidos, a dúvida me rói. Será Ligeia? Será a loucura que já me come pelas beiradas?

Aguardo resposta.

P.S.: Envio-lhe estas conchinhas. Uma de cada praia a que vou.
P.S².: Espero que goste da salada.

Abraços salgados.

Roberto Prado tem vários livros publicados, entre eles “Gringa & outras histórias”, “Contos” e “Das doidas desventuras de Doidinho & Dona Dedé”. É Membro Correspondente da Academia de Letras de Teófilo Otoni (MG) e mantém o blog Etc & Basta.

Leia a seguirDependência literária“.

Dependência literária

[Rafael Rodrigues]

Se as grandes nações realmente se preocupassem com o bem-estar de todos, já existiria algum tipo de terapia — ou mesmo clínicas de reabilitação — para dependentes literários.

E ela seria importada por psicólogos brasileiros, é claro. Haveria até mesmo um Globo Repórter dedicado ao tema. O que é a dependência literária? Quem pode ser acometido por ela? Como vivem os dependentes? O que vestem? Do que se alimentam?

“A dependência literária, ou o vício desenfreado em livros”, diria a repórter, “é um transtorno obsessivo compulsivo que se apodera de praticamente todo apaixonado por literatura”. “Os atingidos por esse distúrbio têm como lema”, revelaria a jornalista, “uma frase do filósofo holandês Erasmo de Roterdã: ‘Quando tenho um pouco de dinheiro, compro livros. Se sobrar algum, compro roupas e comida’”.

Em seguida, seria mostrado o primeiro depoimento da matéria. O rosto da dependente seria mantido em segredo com um efeito de luz e sombra. Sua voz também seria alterada. Como uma pata rouca, ela diria: “Eu ia comprar um sapato mas, em vez de comprar um de duzentos, trezentos reais, comprava um de setenta, oitenta, no máximo cem. O resto eu gastava na livraria. Fazia isso de quinze em quinze dias”.

Um corte de imagem e a jornalista agora estaria numa livraria. Ela mostraria um expositor de livros de bolso e faria as contas: “com duzentos reais um dependente pode comprar de dez a vinte livros”.

Mais um corte e a pata rouca falaria novamente: “Da última vez, eu comprei doze livros de bolso. O sapato eu comprei para ir a uma festa, nem sei quando vou usar de novo. Esses livros vão passar o resto da minha vida comigo. Eu amo meus livros”.

Novo corte. Um outro repórter estaria numa cidade do interior de algum estado. Ele não revelaria a localidade para não comprometer a identidade do dependente que seria entrevistado. Também com o rosto escondido e a voz alterada para a tonalidade do que poderia ser um urso de boca cheia, ele diria: “Como aqui não tem livraria, eu compro muito pela internet. O carteiro passou a entregar tanto pacote que às vezes já chegava reclamando. Ele dizia que a nossa casa fica fora do roteiro, mas isso não é problema meu”.

A reportagem prosseguiria, e o rapaz faria outra denúncia: “Depois de um tempo, os Correios começaram a me boicotar. Não é paranoia: nunca mais encontrei frete grátis para a minha cidade, faz um tempão que eu não compro nada. O último pedido que eu fiz tem quase dois meses! E só comprei porque o site estava em promoção”.

A equipe do jornal solicitaria aos Correios um pronunciamento sobre as acusações do rapaz. A empresa afirmaria, em nota, que a empresa “busca servir a comunidade da melhor maneira possível” e que não comentaria “a atitude do carteiro”. No último parágrafo, a nota destacaria que “esse rapaz necessita de ajuda psicológica”.

Novo corte e a equipe do Globo Repórter agora entrevistaria um psicólogo. “Como curar a dependência literária?”, perguntaria o repórter. O psicólogo responderia: “O primeiro passo é o paciente admitir que tem um problema. O segundo é querer passar pelo tratamento. Nos casos mais graves, é mesmo necessário ser internado em uma clínica de reabilitação. Lá, eles têm acesso à internet, mas apenas para se comunicar com a família. Os computadores são bloqueados para acessar sites de jornais, livrarias, redes sociais e até mesmo blogs literários — sejam eles nacionais ou estrangeiros”.

Enquanto o psicólogo fala, seriam veiculadas imagens da área de recreação da clínica, repleta de homens e mulheres atônitos, com o olhar fixo no horizonte. De repente, um deles se desesperaria e gritaria “Amazon! Submarino! Saraiva! Americanas! Estante Virtuaaaaaaalllllll” e sairia correndo, numa tentativa de fuga, mas os enfermeiros o deteriam, mesmo que não houvesse necessidade: os muros e portões seriam altíssimos, intransponíveis.

A imagem voltaria para o psicólogo: “O terceiro passo é desintoxicar os pacientes. Para isso, eles são submetidos a sessões diárias de audições de trechos de livros ruins. É preciso deixar claro que essas leituras são realizadas por uma gravação. Jamais submeteríamos nossos profissionais ao contato diário com obras desse tipo. Além disso, os pacientes são submetidos a audições dos piores lançamentos da música nacional e internacional. E também a sessões de filmes vencedores do Framboesa de Ouro, aquele prêmio concedido aos piores filmes do ano. Porque não se trata apenas de livros. Um dependente literário geralmente também é viciado em filmes e músicas ‘cult’. O processo de desintoxicação pode parecer desumano, para alguns, mas é absolutamente necessário”.

“Esse tratamento tem dado resultados?”, questionaria o repórter. “Sim”, responderia o psicólogo, “temos um alto índice de reabilitados. Meu filho, inclusive, passou por esse tratamento. Foi um choque para mim e para a minha esposa, mas não tivemos escolha. Ele só comprava CDs e DVDs originais, só queria ouvir Radiohead, Belle and Sebastian, Interpol e bandas desse tipo, só assistia a filmes de Terrence Malick, Charlie Kaufman, Paul Thomas Anderson e outros cineastas melancólicos. Foi uma fase muito complicada para nós, mas conseguimos superar. Hoje, ele já consegue assistir a filmes de comédia”.

O programa encerraria com uma mensagem de otimismo, conclamando aos pais e amigos dos dependentes literários a convencê-los a procurar ajuda. E os créditos finais subiriam com as imagens de um paciente recuperado assistindo, empolgado, a um show de música pop.

Rafael Rodrigues, editor da Outros Ares, nasceu em Feira de Santana (BA), onde vive. “Dependência literária” é parte integrante do livro “Mais um para a sua estante”.

A ameaça comunista

[Rafael Rodrigues]

(Brasil, 2017, numa escola sem partido)

“Vocês precisam entender o seguinte: nosso objetivo não é vencer as discussões com argumentos. Não temos o menor interesse em debater com o adversário. O nosso objetivo é vencer o interlocutor pelo cansaço.”

“Professor, uma pergunta: o que é interlocutor?”

“É aquele com quem você está dialogando, Jair. Por exemplo: se você e o Carlos Alberto estão conversando, um é o interlocutor do outro.”

“Ah, tá, obrigado.”

“Continuando, eu quero que vocês entendam o seguinte: o quanto antes o interlocutor desistir da conversa, melhor. Quando isso ocorre, vai ficar a impressão, para os outros, de que a sua palavra prevaleceu, e que o interlocutor ficou sem argumentos, ou seja, que ele foi vencido. Entenderam?”

(Coro) “Sim, professor.”

“Vamos lá, um exemplo prático. Vamos supor que eu publique, no Facebook, o depoimento de um pai falando que seus dois filhos entraram numa onda comunista e que, para resolver a situação, ele decidiu confiscar os celulares, os computadores, os tênis, as roupas de marca dos garotos, e deu-lhes pijamas, sandálias de couro e material para eles fazerem artesanato e vender na rua. E que, após ter feito isso, os garotos desistiram das ideias comunistas. Logo em seguida, um comunista comenta: ‘Isso não é um pai, é uma cavalgadura’. O que vocês fariam?”

“…”

“Ninguém arrisca?”

“…”

“Emílio, Carlos Alberto, Jair?”

“…”

“Ok, vamos lá. As respostas devem ser breves, curtas e enfáticas. O ideal…”

“Professor, o que é enfática?”

“É quando você é taxativo, veemente, Jair.”

“…”

“Firme, Jair. Quando você diz alguma coisa com firmeza, digamos assim.”

“Ah, tá, entendi.”

“Como eu ia dizendo, o ideal é que seu comentário tenha apenas uma linha, para que fique a impressão de que você não tem dúvidas quanto a sua opinião. E também para não arriscar escrever alguma coisa que possa ser utilizada contra você. Além disso, é importante desafiar a paciência do interlocutor. O quanto antes ele perder a paciência e parar de contra argumentar, melhor. Portanto, a resposta ideal nesse caso seria dizer alguma coisa do tipo ‘nem todo herói usa capa’. Entendido?”

“Mas e se a pessoa responder de novo, professor?”

“Bem, digamos que o interlocutor conheça o caso do pai que matou o filho por discordâncias políticas e traga isso à tona. Você…”

“Professor, o que quer dizer ‘traga isso à tona’?”

(Chutando a mesa.) “PORRA, JAIR! PORRA! CARALHO! Trazer à tona significa revelar, mostrar, colocar isso na conversa, cacete.”

“Desculpa, professor, é que eu…”

“É que eu nada, Jair. Você precisa ler mais, porra. Você precisa ler mais. Bem, continuando, vocês devem responder a esse comentário com algo do tipo ‘Por trás de todo jovem comunista tem um pai capitalista dando duro para sustentá-lo’. Percebam que, dizendo isso, vocês levarão a conversa para outro rumo. O post do pai já não será o foco da discussão, e sim o capitalismo e o comunismo. É até possível que, nesse momento, o assunto seja encerrado.”

“Mas e se alguém comentar novamente, professor?”

“Comentar o quê, por exemplo, Reinaldo?”

“Ah, sei lá, algo tipo ‘pai que dá duro não é capitalista, é trabalhador’, por exemplo. Ou que não existe mais comunismo no Brasil.”

“Reinaldo, você está com umas ideias muito perigosas… Precisamos conversar sobre suas leituras e companhias depois. Mas, bem, nesse caso, a melhor resposta seria ‘então o trabalhador não pode ser capitalista?’ ou ‘todo trabalhador é comunista, então?’. A partir daí temos dois cenários: ou o interlocutor desiste da conversa, ou ele insiste e argumenta que o trabalhador pode ser capitalista, desde que monte seu próprio negócio, por exemplo. Percebam que, nesse caso, temos um interlocutor astuto… Inteligente, Jair.

O melhor a fazer, caso a conversa chegue nesse nível, é desviar do assunto e utilizar uma frase infalível, que fará nosso adversário desistir de dialogar e nos deixará com a última palavra. A frase é curta, e vocês já conhecem: ‘o importante é que os heróis de 64 acabaram com os comunistas’. Entenderam?”

(Coro) “Sim, professor.”

“Ótimo. Agora vamos falar sobre a ameaça da invasão russa ao Brasil.”

Rafael Rodrigues, editor da Outros Ares, é autor de “O escritor premiado e outros contos” e “Mais um para a sua estante”.