A ameaça comunista

[Rafael Rodrigues]

(Brasil, 2017, numa escola sem partido)

“Vocês precisam entender o seguinte: nosso objetivo não é vencer as discussões com argumentos. Não temos o menor interesse em debater com o adversário. O nosso objetivo é vencer o interlocutor pelo cansaço.”

“Professor, uma pergunta: o que é interlocutor?”

“É aquele com quem você está dialogando, Jair. Por exemplo: se você e o Carlos Alberto estão conversando, um é o interlocutor do outro.”

“Ah, tá, obrigado.”

“Continuando, eu quero que vocês entendam o seguinte: o quanto antes o interlocutor desistir da conversa, melhor. Quando isso ocorre, vai ficar a impressão, para os outros, de que a sua palavra prevaleceu, e que o interlocutor ficou sem argumentos, ou seja, que ele foi vencido. Entenderam?”

(Coro) “Sim, professor.”

“Vamos lá, um exemplo prático. Vamos supor que eu publique, no Facebook, o depoimento de um pai falando que seus dois filhos entraram numa onda comunista e que, para resolver a situação, ele decidiu confiscar os celulares, os computadores, os tênis, as roupas de marca dos garotos, e deu-lhes pijamas, sandálias de couro e material para eles fazerem artesanato e vender na rua. E que, após ter feito isso, os garotos desistiram das ideias comunistas. Logo em seguida, um comunista comenta: ‘Isso não é um pai, é uma cavalgadura’. O que vocês fariam?”

“…”

“Ninguém arrisca?”

“…”

“Emílio, Carlos Alberto, Jair?”

“…”

“Ok, vamos lá. As respostas devem ser breves, curtas e enfáticas. O ideal…”

“Professor, o que é enfática?”

“É quando você é taxativo, veemente, Jair.”

“…”

“Firme, Jair. Quando você diz alguma coisa com firmeza, digamos assim.”

“Ah, tá, entendi.”

“Como eu ia dizendo, o ideal é que seu comentário tenha apenas uma linha, para que fique a impressão de que você não tem dúvidas quanto a sua opinião. E também para não arriscar escrever alguma coisa que possa ser utilizada contra você. Além disso, é importante desafiar a paciência do interlocutor. O quanto antes ele perder a paciência e parar de contra argumentar, melhor. Portanto, a resposta ideal nesse caso seria dizer alguma coisa do tipo ‘nem todo herói usa capa’. Entendido?”

“Mas e se a pessoa responder de novo, professor?”

“Bem, digamos que o interlocutor conheça o caso do pai que matou o filho por discordâncias políticas e traga isso à tona. Você…”

“Professor, o que quer dizer ‘traga isso à tona’?”

(Chutando a mesa.) “PORRA, JAIR! PORRA! CARALHO! Trazer à tona significa revelar, mostrar, colocar isso na conversa, cacete.”

“Desculpa, professor, é que eu…”

“É que eu nada, Jair. Você precisa ler mais, porra. Você precisa ler mais. Bem, continuando, vocês devem responder a esse comentário com algo do tipo ‘Por trás de todo jovem comunista tem um pai capitalista dando duro para sustentá-lo’. Percebam que, dizendo isso, vocês levarão a conversa para outro rumo. O post do pai já não será o foco da discussão, e sim o capitalismo e o comunismo. É até possível que, nesse momento, o assunto seja encerrado.”

“Mas e se alguém comentar novamente, professor?”

“Comentar o quê, por exemplo, Reinaldo?”

“Ah, sei lá, algo tipo ‘pai que dá duro não é capitalista, é trabalhador’, por exemplo. Ou que não existe mais comunismo no Brasil.”

“Reinaldo, você está com umas ideias muito perigosas… Precisamos conversar sobre suas leituras e companhias depois. Mas, bem, nesse caso, a melhor resposta seria ‘então o trabalhador não pode ser capitalista?’ ou ‘todo trabalhador é comunista, então?’. A partir daí temos dois cenários: ou o interlocutor desiste da conversa, ou ele insiste e argumenta que o trabalhador pode ser capitalista, desde que monte seu próprio negócio, por exemplo. Percebam que, nesse caso, temos um interlocutor astuto… Inteligente, Jair.

O melhor a fazer, caso a conversa chegue nesse nível, é desviar do assunto e utilizar uma frase infalível, que fará nosso adversário desistir de dialogar e nos deixará com a última palavra. A frase é curta, e vocês já conhecem: ‘o importante é que os heróis de 64 acabaram com os comunistas’. Entenderam?”

(Coro) “Sim, professor.”

“Ótimo. Agora vamos falar sobre a ameaça da invasão russa ao Brasil.”

Rafael Rodrigues, editor da Outros Ares, é autor de “O escritor premiado e outros contos” e “Mais um para a sua estante”.

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A régua do mundo é masculina

Vamos começar com a já tradicional pergunta inicial aqui da Outros Ares: como e quando você começou a escrever? Em qual gênero você arriscou suas primeiras linhas? Chegou a cometer poesia?

Antes de ser alfabetizada, já sonhava em ser escritora. Liam muito para mim em casa e bastante cedo entrei em contato com o poder encantatório das palavras. Eu viajava com elas e logo me imaginei tecendo meu próprio tapete mágico.

Comecei a escrever pequena. Aos nove anos, pelo que me lembro: uns poeminhas de rimas fáceis e historietas de fadas. Eu tocava piano e compus, nessa época, várias peças de tom erudito. Uma delas, “A cavalgada das vassouras” – um misto de Wagner e Paul Dukas, versão Disney, do “Aprendiz de Feiticeiro”. Aos 12, escrevi uma peça para teatro, fortemente influenciada pelo clássico “Mulherzinhas”, da norte americana Louisa May Alcott. Aos 13 anos, aprendi violão e compunha canções de protesto. Aos 17 anos, época do cursinho, deixei a música.

Entrei para a Faculdade de Direito da USP, a legendária São Francisco, tão importante para o romantismo brasileiro, com Castro Alves e Álvares de Azevedo entre os alunos. Aos 19 anos fui admitida na Academia de Letras da Faculdade, na cadeira 13, cujo patrono era exatamente este último, o mais byroniano dos românticos. Do concurso de admissão constavam duas provas (além da arguição oral). Um ensaio (escrevi o meu sobre a poesia simbolista no Brasil) e uma produção artística. Apresentei um conjunto de poemas, inspirados na leitura dos “Quatro Quartetos” de T.S. Elliot. Pretensão e água benta… Passei a escrever poesia de modo compulsivo.

Depois de uns meses, um colega pediu para ler meus versos. Era o Regis Bonvicino, que desancou meus poemas, do começo ao fim. Nunca mais escrevi poesia nem nada. Voltei à escrita literária só muitas décadas depois, encarando de frente o gênero romance.

Quais são as suas influências? Quais autores mais a influenciaram e continuam influenciando?

Meu pai era muito culto, adorava ler, sempre interessado por tudo. Aconselhava-me a escrever como a Clarice Lispector. Com medo da influência, nunca li Clarice. Conheço pouco dela. Por outro lado, sempre fui uma leitora compulsiva. Acredito que, de uma forma ainda que inconsciente, guardamos estilos, passagens e até cacoetes dessas leituras. Porém, durante a escrita do meu romance de estréia, “As netas da Ema” – vencedor do Prêmio Sesc de Literatura –, procurei ser absolutamente eu mesma, não me espelhei em ninguém.

Depois do romance publicado, comecei a escrever contos. Um desafio, porque eu pensava não ter nem os enredos nem a técnica necessária, segundo a qual no conto a vitória é por nocaute (contos como os de Lydia Davis ou da Alice Munro não haviam sido publicados no Brasil até então…). Desde moça, admirava os contos da Katherine Mansfield. Reli sua obra. Dissequei os contos de Tchekhov. E tornei a ler os contos da Lygia Fagundes Telles – uma grande escritora, subestimada entre nós. Imagino que essas vozes encontram eco em meus contos, recentemente publicados na coletânea “Harém”, editada pela Patuá e lançada em dezembro passado.

Você foi a vencedora, na categoria Romance, do Prêmio Sesc de 2004, com “As netas da Ema” (Record, 2005). Esse prêmio, de alguma maneira, afetou a sua escrita? Você se sentiu mais pressionada, mais cobrada – ainda que por si mesma?

Vencer o Prêmio Sesc de Literatura resgatou-me de uma incerteza: será que eu escrevo de verdade? Parece que sim… Recebi boas críticas, o livro chegou a uma segunda reimpressão. Mas, o principal: a vitória transformou-se em um bom cartão de visita. Depois dela, quando procurei editoras, para outras obras, ou as redações, para divulgação do meu trabalho, ao menos me atendem ao telefone, ou aceitam minha amizade no Facebook (risos).

Um de nossos entrevistados, o escritor mineiro Jaime Prado Gouvêa, nos disse que há “gente demais e qualidade de menos”. A sensação é de que a quantidade de escritores é inversamente proporcional à qualidade do que é publicado. Por outro lado, com a avalanche de livros publicados, muita coisa boa acaba ficando escondida, não tem a chance de chegar a uma quantidade maior de leitores. Como você vê essa situação?

Publica-se em demasia. Basta uma visita a uma livraria de qualquer capital para conferir a avalanche de títulos. O fenômeno não é brasileiro, é mundial. Publica-se, na maioria das vezes, levando-se em conta o mercado. As editoras colocam-se como empresas. Publica-se muitas vezes de modo precipitado, não se respeitando o tempo de maturação da obra em uma gaveta. No nosso tempo, entretanto, as coisas funcionam assim.

Sim, acredito que muita coisa boa – até ótima – fica submersa, sob uma pilha de bobagens. Meu consolo é indagar se sempre não foi assim (guardadas as proporções): na história, quantas obras importantes ficaram esquecidas – e não só em termos de literatura, mas na pintura, na música –, aguardando a descoberta desavisada de um pesquisador? Em certos casos, nem isso. Um dos riscos da vida.

Nos últimos anos as discussões sobre gênero ganharam força, e, em 2015, foi lançado o projeto “Leia Mulheres”, para difundir a literatura escrita por mulheres e incentivar sua leitura. Você, como escritora, sentiu/sente alguma resistência maior dentro do mercado editorial, ou mesmo por parte dos leitores, por ser mulher? Se sim, o que podemos fazer para mudar essa situação?

Participarei do Mulherio das Letras, em João Pessoa, em outubro. Apoio o movimento #leiamulheresvivas, criado pela professora, pesquisadora e escritora infantil Susana Ventura. A verdade é que as mulheres entraram tarde no jogo. A régua (no sentido de medida) do mundo é masculina.

Este ano, a FLIP está na sua 15ª edição e, pela primeira vez, tem uma curadora, Josélia Aguiar. Foram necessários 15 anos para se darem conta? A posição da mulher na literatura integra um quadro maior, institucional e político. O voto feminino, no Brasil, foi admitido pelo Código Eleitoral de 1933. E até 1961, pelo Código Civil, as mulheres não eram pessoas plenas de direito. Sua capacidade civil era relativa (igual a dos índios). Necessitavam ser assistidas em todos os atos da vida civil (pelo pai, quando solteiras; pelo marido, se casadas; por um irmão ou por um filho maior, quando viúvas). Não poderiam, assim, nem assinar o contrato de edição… Precisa dizer mais alguma coisa?

Nasci em uma família esclarecida. Não tive pai machista nem mãe tradicional. Mas sempre me perseguiu a ideia de que eu precisava ser tão inteligente como um homem. É a introjeção involuntária do modelo masculino. Isso só passou quando eu me tornei mãe: minha filha, uma mulher do século XXI, não merecia esse legado.

Mais um questionamento “tradicional” da Outros Ares: você compartilha da opinião de que o conto é um gênero menosprezado no Brasil? Se sim, arriscaria dizer por que isso acontece?

Dizem que quando um escritor publica um livro de contos depara-se sempre com a pergunta: e quando vem o romance? Nas editoras existe o mito de que conto não vende. Eu não entendo essa discriminação com relação ao gênero. Publiquei um romance, escrevi umas duas dúzias de contos, meu próximo projeto é um romance biográfico, voltei a me interessar por escrever poesia… acredito que os autores não têm que se acomodar, aceitando o fato de que têm que escrever o que realmente tem vontade. E, novamente, correr os riscos.

Por fim, outra pergunta que fazemos – e continuaremos fazendo – a todos os entrevistados: fala-se muito de baixas vendas, pouco investimento nacional, pouca divulgação a escritores locais e baixa escolaridade – fatores que juntos ou separados formam o “problema” da literatura brasileira atual. Antes de tudo, a literatura tem problemas? Quais são os principais, na sua opinião, e quais seriam as soluções?

O Brasil tem aproximadamente 211 milhões de habitantes. Nas grandes editoras, a praxe é fazer edições de 3.000 exemplares. Essa proporção é um absurdo. Um estudo publicado no jornal Folha de São Paulo, em 2016 (estudo esse promovido pelo Instituto Paulo Montenegro e pela ONG Ação Educativa), mostrou que, em nosso país, apenas 8% da população é proficiente (nível mais alto da alfabetização, ou seja, pessoas que se expressam com clareza em diferentes situações e entendem de modo hábil). Nos cursos superiores, pesquisas publicadas no início deste ano indicam que apenas 20% dos alunos entendem os conteúdos em classe e respondem com eficácia e maturidade aquilo que lhes é cobrado.

Nesses números ficam resumidos os problemas que circundam a literatura no Brasil. Pouca verba para educação e para a cultura, ensino sem qualidade, vulnerabilidade econômica. A tudo isso se somam o fascínio do digital e o poder das imagens sobre os jovens. A nova geração tem pressa; é desatenta e indisciplinada para ler um livro. Além disso, nutrem profundo desinteresse por tudo o que foi criado antes da internet.

Hoje, tenho dificuldade de antever uma saída para esses impasses.

Leia a seguir um conto de Eugenia Zerbini:O rei de todos os naipes“.

O rei de todos os naipes

[Eugenia Zerbini]

– Ria, ria. Os homens são assim; não acreditam em nada. Pois saiba que fui, e que ela adivinhou o motivo da consulta, antes mesmo que eu lhe dissesse o que era.
“A cartomante”, Machado de Assis

Cinco vogais. A estrutura de tudo, ou quase tudo. Pelo menos de muita coisa. Ao menos nas línguas latinas, em que cada sílaba é integrada no mínimo por uma vogal.

Esse começo seria outro se estivéssemos falando polonês, onde as consoantes se rebelam e se juntam em sindicatos para fazer comício. Cinco vogais, cinco cartas. A carta do meio, a questão. A da esquerda, o aporte do passado; a da direita, o futuro; a inferior, aquilo que se encontra subjacente à questão; a superior, por fim, o facho de luz que esclarece a jogada.

Desse jeito é que ensinam os manuais. Mas uma das regras que a vida me ensinou é que nem sempre as regras devem ser seguidas. Ainda mais a partir do instante em que você escuta aquele estalo e se dá conta que é possível ter certeza de quando segui-las ou não. Pode demorar um tempo (o que não foi o meu caso). Olhe, algo me diz que, neste momento, o importante é seguir a direção do olhar desses cachorros, que latem debaixo da Lua, olhos fixados para além dos muros e das duas torres.

– Eu vejo aqui uma mudança. Uma mudança significativa. Até imagino que você veio procurar resposta para ela.

A jovem mulher recebia esse alerta de um homem maduro, elegante. Um desses tipos bem familiares para os que frequentam os clubes de campo. Mocassins sem meia, calça cáqui, camiseta branca por baixo do suéter marinho folgado. Contidamente bronzeado no rosto. Os cachorros ladrando à luz da Lua. Ele sorria; a primeira vez que tivera uma premonição, ela fora tão arrebatadora que ele se afastara dos pais e se dirigira para uma desconhecida, em pleno saguão do Hotel Danieli, em Veneza. Catapultado por um impulso que nem ele entendia, avisou que ela não deixasse o marido e abrisse mão do outro homem. Senão, ela seria muito infeliz.

O outro será seu amante, nunca seu novo marido.

Os pais não entenderam. Dez anos, menino de tudo. Embaraçados, queriam morrer de vergonha. Pediram mil desculpas para a senhora. Ela manteve um sorriso impassível, prometendo desculpar a criança se os pais permitissem que ela o levasse para um giretto curto, só para tomar um sorvete perto dali. Ninguém ousou dizer não àquela altura, logo para ela, uma suíça dona de fábrica de relógio, hóspede do Danieli há anos, conhecida do gerente do hotel. Ela tomou o menino pela mão e saíram. Na verdade, à procura de um daqueles quiosques que vendem cigarros no entorno da Piazza San Marco. Lá venderiam também um baralho de cartas. Em seguida, foram apressados para o café Florian. Em uma mesa de canto, ele leu para ela as cartas do Tarocchi. Pela primeira vez na vida.

Deu-se conta então de que todo o segredo era investigar os detalhes, os gestos discretos, as expressões daqueles rostos pintados, aparentemente imóveis. Em que direção apontava o chapéu, os pés ou as mãos do personagem, a pata ou o rabo do animal e, principalmente, os olhos das figuras. Entre colheradas de sorvete de chocolate, advertiu que aquela mulher deveria procurar o marido o quanto antes. Ela estava grávida do amante, e ainda estava em tempo de o esposo enganado aceitar aquele fruto que começava a engoli-la por dentro.

Fitando o rosto da jovem que o consultava no momento, ele pressionou mais uma vez a tecla das mudanças. Os cachorros olhavam para o horizonte, além das torres, e estavam sob os raios lunares. Dos poetas e trovadores. Era assunto relacionado ao coração.

– Não, você está enganado. Vim aqui para saber sobre meu trabalho. Recebi uma proposta de mudança de emprego e estou em dúvida. Aceito ou não?

Para acreditar em mim, o que a mocinha deseja que eu faça?, que com um cigarro aceso, equilibrado no canto da boca, eu assuma um ar desafiador, cigano? Dou minha sugestão, que ela volte para casa, pegue uma folha de papel, liste os prós e contras do novo emprego, em coluna dupla, e que pondere o resultado depois. Bom senso, nada além disso. Agora, embora a moça nem tenha percebido, tem coisa nova entrando em sua vida amorosa. Que de resto é pobre, muito pobre, desértica. Quando me bate essa certeza, é seguro, mesmo. Ainda que eu continue a ignorar a origem dessa certeza. Como naquele dia em Veneza. Atribuo esse dom ao fato de ter dado meus primeiros passos no templo de Borobudur, na Indonésia. Meu pai era diplomata, a família sempre viajou muito.

E assim foi; mamãe, cansada de me carregar no colo, depois de ter circulado por todas aquelas plataformas, umas quadradas, outras redondas, representações do mundo dos desejos, das formas e das não formas, deixou-me recostado, às suas vistas, na base de um dos leões de pedra, sentinelas do templo dos 100 budas. Levantei e andei, feliz da vida, sob o olhar das gárgulas do local, ela gostava de repetir essa história, e hoje sou eu quem gosta de contá-la.

A moça inicia um discurso sobre sua experiência profissional, declama seu currículo e o sem número de planos para a carreira. Meu bem, ninguém está aqui para contratá-la. Fixando-a, com seus olhos claros ainda sonhando com Borobudur, ele estranha aquela mulher de ideias fixas. Poderia até achá-la bonita, se ela o escutasse. Nesses impasses, nada melhor do que oferecer um chá. Ele teria que alcançar a garrafa térmica com água quente e oferecer, além da xícara, a caixa com aquela infinidade de saquinhos individuais de aromas diferentes. Do Earl Grey e do Darjeeling ao Russian Caravan e ao Shanghai Breakfast, cada rótulo aguçando a imaginação, a dele e a da pessoa que o consultava.

Feia ou bonita?, indagava enquanto tomava seu chá. Inexpugnável, como as muralhas da antiga Babilônia (ou de Jericó?), zombavam as criaturinhas que giravam na Roda da Fortuna. Quantas mulheres ele teve na vida, quantas amou, em quantas línguas havia se declarado, com quantas outras o enredo resumiu-se a umas tantas loucuras sussurradas durante o sexo, não importa, a maioria das mulheres que teve entre os braços foi bonita, não que isso fosse vital para ele, espere um pouco, era importante, sim, sentia-se embaraçado em admitir, era importante estar com uma bela mulher, só que ele passava a ver beleza naquelas que o interessavam, como se seu interesse a transformasse, como uma varinha mágica (venha cá, ele nunca precisou de vara de condão, as fadas é que precisam, olhe para a anatomia dos magos, que nascem cada um com sua própria vara entre as pernas, dispensando qualquer outro simulacro para lançar de jeito eficiente suas magias). Os olhares dos cães que latiam haviam se definido por completo. Pairando acima dos muros no horizonte, o valete de copas.

Belo valete, por sinal. Na base de tudo, sustentando o jogo, a carta XI. A Força. Outra mulher, igual à consulente. Olhos votados para a direita. O futuro. Ela empreende um esforço enorme para manter aberta a boca de outro cão. Ou melhor, de um leão. Que nessas alturas jogara fora a juba e encolhera de tamanho, transmutado em canino.

– Estou certo do grande investimento de tempo, energia e dinheiro que você fez na sua carreira, mas eu acho que está no momento de você crescer em outra direção. Indo direto ao ponto, como raras vezes eu vou, está na hora de você cuidar do seu coração.

– Eu não tenho problemas de coração nem de saúde, eu quero esclarecer se…

A moça retomou sua ladainha profissional. Ela não o escutava. Figura obcecada, fugindo do próprio desejo. Passou pela cabeça dele colher um pedaço daquele orgulho obstinado e profissional. Flores brotam nos canteiros para serem colhidas. Calejado, entretanto, ele aprendera a se preservar. Vivia há tempos com uma mulher formidável, violoncelista profissional que tocava na sinfônica e numa orquestra de câmara. Ele simplesmente adorava a vida que levava com ela e seus colegas artistas, assistindo às apresentações nas salas de concerto, acompanhando-a nos jantares e nas conversas espirituosas após os ensaios. Tinham até instalado em casa um estúdio onde ela estudava e ensaiava. A vida colorida e meio boêmia com a qual sempre sonhou. Ele – graduado em Ciência Política por Paris (a mítica Science Po), que depois de tentar o exame para ser diplomata, como o pai, escolheu ser tradutor, trabalhou numa editora, depois fora marchand, mais tarde representante de uma casa internacional de leilões – se fixara. Recebeu a herança dos pais, o que garantia o básico. Tomando coragem de tomar partido de seu dom de criança, o extra ficara por conta das consultas. Uma agenda disputada no boca a boca. “A sorte afeta tudo. Deixe o anzol sempre lançado. No riacho mais improvável haverá peixe.” Quantos cartomantes podem citar Ovídio?

Sua mulher estava no teatro a essa hora, ensaiando o concerto para violoncelo e orquestra de Rautavaara, compositor finlandês contemporâneo. Ele com suas cinco cartas. A mulher com suas sete notas. A jovem que o consultava com uma única dúvida. Única e monocórdia.

Essa história seria uma não-história se narrada em polonês, língua perversa em que todas as consoantes do alfabeto disputam no tapa uma única sílaba. Também não poderia existir em finlandês, em que as vogais colam-se uma nas outras. Como gêmeas xifópagas, compartilhando o mesmo coração, mesmo fígado, mesma coluna vertebral. A mesma sílaba. Rautavaara. O sobrenome do compositor do concerto para cello que a esposa ensaiava. Einojuhani Rautavaara, colega de Paavo Heininen, os dois colegas de conservatório, em Helsinque, discípulos de Aarre Merikanto.

Nada mais tinha a dizer para aquela moça. O Louco, carta final, marcada no alto com o número zero, colocava fim à jogada em sua caminhada infinita, andando distraído em direção ao futuro, com os dentes do cão mordendo o fundilho das calças. O cão, de novo. Instinto e fidelidade. Ele devia fidelidade apenas a seu oráculo.

Levantaram-se ao mesmo tempo, depois que ele recolheu as cartas da mesa, guardando-as no maço. Ela estendeu o dinheiro do pagamento da consulta, disposto dentro de um envelope vermelho. Era exigência do tarólogo, anunciada quando do agendamento da consulta. A explicação, dizia ele, estava em um dos ensinamentos do Feng Shui. Vermelho multiplica o dinheiro. Na verdade, ele ainda lidava mal com o gesto de ser pago por algo que surgira em sua vida de modo tão inexplicável. Irracional. O gesto de receber o envelope com as duas mãos e com uma discreta mesura de cabeça supostamente agradecida inseria-se na liturgia do papel que ele representava. Naquilo que esperavam dele.

Acompanhou a moça até a saída. Será que ele deveria assobiar uma barcarola? Ao abrir a porta do elevador para ela, por um segundo ficaram muito próximos. Chegou a sentir o cheiro dos seus cabelos. Teve desejo de ao menos tocar-lhe com o indicador a testa. Afastou-se. Deu-se conta, então, que outro homem estava no elevador em que a jovem mulher entrava para ir embora. Escutou o último ladrar de um cão.

Comece a ler os contos escolhidos desta edição:O busto do Edgar“.

O busto do Edgar

[Roberto Prado]

As contas não param de chegar. Sobre a mesa, acumula-se uma pilha de cobranças.

Um busto de Poe é usado como peso de papel.

Por baixo da porta entra mais um envelope; agora é a conta de luz, a de água deste mês já está com o autor do “Corvo”.

Falta de tudo na casa, e, sentado na poltrona da sala, o homem arranca os cabelos (metaforicamente falando, é claro). A mulher tenta convencê-lo a não se entregar ao desespero, debalde.

O sujeito se diz escritor, se acha escritor, ficcionista. Já enviou seus escritos para várias editoras, grandes jornais, jornais de bairro, jornais de sindicato, jornais de supermercados… mas nenhuma resposta até agora.

Ela tenta consolá-lo dizendo que uma hora ele será descoberto. Mas, no desespero, ele fica surdo, e entrega-se à depressão, e deprimido ele escreve ainda mais e mais e mais…

E não consegue publicar.

Ele olha para o busto de Poe e se pergunta o que fazer. Nenhuma resposta vem do torso do escritor.

– Nunca mais, nunca mais – grita, feito um corvo – escreverei coisa alguma pelo resto da minha vida!

Só não atirou a estátua pela janela por medo de que o vento espalhasse as contas acumuladas; afinal, ele usava o verso dos envelopes como rascunhos para seus contos.

O papel já estava no fim e não havia dinheiro para comprar mais. Era muita miséria para uma pessoa só. Sua vida de escritor está ficando igual a dos personagens de contos russos, só faltava nevar. Sua espiral descendente de autocomiseração só foi interrompida pelo grito da mulher:

– Benhê! A geladeira queimou!

– Pronto! Minhas preocupações com neve acabaram.

Olhou com ódio para o velho Edgar.

Num último suspiro de razão que ainda lhe restava no fundo da alma, tentou pensar que ele mesmo fazia parte de um conto de Poe. Sim!, só poderia ser isso, ou então não restaria alternativa para ele do que – oh! Deus, isso é pior que ver um gato preto emparedado – prestar concurso e virar servidor público, onde poderia ser pago para escrever, nem que fossem ofícios, memorandos, cartas sem fim…

Outra vez ele olhou para o busto do velho Edgar, que, por poucos segundos, ganhou vida e lhe disse:

– Isso, não! Serviço público, não!

Roberto Prado é tem vários livros publicados, entre eles “Gringa & outras histórias”, “Contos” e “Das doidas desventuras de Doidinho & Dona Dedé”. É Membro Correspondente da Academia de Letras de Teófilo Otoni (MG) e mantém o blog Etc & Basta, onde esse conto foi originalmente publicado.

Leia a seguirO avô e o neto“.

O avô e o neto

[Marcelo Maio]

O menino de 12 anos conversava com seu avô, no quarto do hospital.

– Como foi a sua vida?

– Que pergunta… Parece que já estou morto.

– Não! Não foi o que eu quis dizer!

Mas foi o que ele quis dizer.

Era uma tarde fria de julho, ainda mais gelada no quarto hospitalar.

– Não se preocupe. Eu sei que vou morrer em breve.

– Não fala assim!

– A minha vida foi boa – ele respondeu, por fim. Não teve forças para elaborar mais. Cada palavra enunciada era uma enorme dificuldade.

– Descansa. Dorme um pouco. Não precisa falar.

O médico entrou no quarto. Sempre se surpreendia com a postura do menino, aparentemente maduro para a idade.

– Como estão as dores? – perguntou o doutor.

– Não dói mais nada… Mais nada… – respondeu o doente.

O médico revisou os equipamentos que ainda mantinham vivo o paciente, e logo saiu. Não demorou muito para o enfermo fechar os olhos, ainda não em definitivo.

O neto e o avô ficaram assim por mais de uma hora. Um, dormindo; o outro, encarando o nada, imerso em uma atmosfera de luto antecipado.

– Como ele está? – perguntou uma enfermeira, passado mais algum tempo.

– Bem. Dormindo.

– Estou no corredor. Qualquer coisa, me chama.

O acompanhante concordou. Seu olhar sempre visava a barriga do doente, para se certificar de que ela ainda subia e descia.

Dada hora, o paciente acordou. Com esforço, pronunciando sílaba por sílaba, ainda conseguiu dizer:

– Só quero me despedir. Estou morrendo… Agora.

O outro chorou. Já não podia fazer mais nada para manter com ele uma das pessoas por quem mais tinha amor. Segurou sua mão. Viu a vida se apagar naquele leito.

A cabeça do menino tombou definitivamente para o lado. Aos prantos, o velho saiu do quarto para comunicar a morte de seu amado neto.

Marcelo Maio nasceu em 1986, no Rio de Janeiro, cidade onde também cresceu. Aos 24 anos, mudou-se para Brasília, mas atualmente vive em Tóquio. Escreve desde a adolescência e teve contos e poesias premiados em concursos literários. Em 2015, lançou uma coletânea de contos, pela Editora Multifoco, chamada “O cemitério dos solitários”. Mantém o blog Me lê aí!, onde o esse conto foi originalmente publicado.

Leia a seguirÁguas do meu batismo“.

Águas do meu batismo

[Ernane Catroli]

As cores da manhã e o ruído crescente das ondas na areia. Baixa temporada agora. Seguia pela aleia de cascalho que levava ao casarão de dois andares. Pensão do Farol. Ao abrir a porta, Dona Jovita, o semblante rijo. Mais magra. Cabelos ralos.

Mas é Milena quem emerge do ambiente. Muitas vezes. Milhares de vezes.

Toda a nossa louca juventude e aquela gravidez atropelando os dias.

– Faremos, então, o combinado.

***

O lado do quarto onde permaneço mudo e a voz imperativa de dona Jovita. Milena deitada na cama de solteiro. Os olhos aumentados.

Sobre o criado mudo, a infusão de ervas para ser ingerida aos poucos, conforme recomendação. A pequena maleta aberta sob a luz do abajur.

O início. O meio.

A noite antiga. Azul.

Ouvia-se o mar.

Ernani Catroli é natural de Sant’Anna de Cataguases, MG, onde passou infância e adolescência. Há muitos anos reside no Rio de Janeiro. Bioquímico de formação, exerce atividades científicas e acadêmicas na área de Saúde. Publica regularmente em alguns blogs dedicados à cultura.

Leia a seguirA ameaça comunista“.

A literatura não tem problemas, quem tem problemas é o Brasil

Foto: André Viana

Outros Ares: Vamos começar com a já tradicional pergunta inicial aqui da Outros Ares: como e quando você começou a escrever? Em qual gênero você arriscou suas primeiras linhas? Chegou a cometer poesia?

Antonio Carlos Viana: Voltando muito no tempo, me lembro de uns poeminhas que escrevi quando ainda estava no segundo grau, mas coisas muito esparsas, sem nenhuma convicção do que estava fazendo. Era mais uma imitação do que eu lia nos livros didáticos. Depois, já no curso de letras, escrevi minha primeira crônica sobre uma velha sentada numa calçada, que encontrei no meio do caminho. Era meio-dia, o sol muito quente e tive pena dela. Cheguei em casa e botei para fora toda essa pena em forma de palavras. Devia ser uma coisa muito ruim. Tive a coragem de colocar esse texto no jornal da faculdade. Felizmente ninguém o salvou para a posteridade. Quem leu me perguntou se eu lia muito Cony e eu nem sabia ainda quem era Cony. Escrevi ao acaso, sem pensar que estava fazendo um texto literário. A poesia, eu logo abandonei, mas continuei escrevendo uma prosa bem ruinzinha. Um dia juntei os vários escritos que tinha e mostrei a uma colega. Ela simplesmente caiu na risada. Disse que aquilo não era nada, nem conto, nem crônica, nem poesia em prosa. Devia ser mesmo uma bela porcaria. Mas o riso dela não me intimidou. Nesse momento eu já queria escrever algo mais consistente e dei para ler os grandes contistas, mas sem saber que seria um deles algum dia. Foi quando me deparei com “Os cavalinhos de Platipanto”, de José J. Veiga, e vi que um bom conto é capaz de nos deixar tão extasiados quanto um bom romance, um bom poema. José Veiga me deu o impulso que me faltava.

OA: Pode-se dizer que você rodou o mundo: morou no Rio de Janeiro, em Porto Alegre, na França, lugares que são chamados de “centros culturais” do Brasil e do mundo, mas voltou para sua terra natal, Aracaju. É uma pergunta cuja resposta é pessoal demais, mas ainda assim a fazemos: por que não se estabeleceu em um desses outros lugares, que, dizem, são mais propícios à literatura? Por que voltar?

Antonio Carlos Viana: Tive o privilégio de morar em lugares que foram capitais em minha vida. Saí do Rio de Janeiro quando a cidade perdeu o seu encanto e virou um foco de grande violência. Fui para Porto Alegre, onde ainda cheguei a dar aulas na Unisinos, mas motivos familiares me trouxeram de volta a Aracaju. Foi quando apareceu concurso para professor da UFS (Universidade Federal de Sergipe). Sempre quis ser professor universitário e ali estava minha chance. Passei e fiz carreira, como se diz. Voltei a Porto Alegre para fazer o mestrado. Tive o privilégio de ser aluno e orientando da professora Regina Zilberman, que foi uma grande incentivadora da minha carreira como contista. Meu segundo livro, “Em pleno castigo”, foi ela que o indicou a uma editora, a Hucitec, e ainda fez a orelha. Mais privilégio, impossível. Dois anos depois de ter concluído o mestrado, ganhei uma bolsa da CAPES para fazer doutorado na França e foram quatro anos de novas descobertas literárias, sobretudo do pensamento de Paul Valéry. Minha tese versou sobre a poética dele e a a poesia de João Cabral. Gostei, claro, da França, mas jamais moraria no exterior. A sensação de ser sempre estrangeiro magoa, deixa-nos sempre inseguros, inferiorizados. O fato de ter voltado e continuado em Aracaju se deveu muito a esse sentimento de ter o pé no lugar em que me sinto seguro. E aqui continuo até hoje sem nenhuma lamentação. Pelo contrário. A luminosidade de Aracaju me faz muito bem. Não a trocaria por nenhuma outra.

OA: Outra “pergunta padrão” da Outros Ares é a seguinte: Um de nossos entrevistados, o escritor mineiro Jaime Prado Gouvêa, nos disse que há “gente demais e qualidade de menos”. A sensação é de que a quantidade de escritores é inversamente proporcional à qualidade do que é publicado. Por outro lado, com a avalanche de livros publicados, muita coisa boa acaba ficando escondida, não tem a chance de chegar a uma quantidade maior de leitores. Como você vê essa situação?

ACV: A quantidade de gente publicando é enorme mesmo e, como não poderia deixar de ser, há coisas ótimas e coisas muito ruins. O pior é que as resenhas não dão conta dessa produção e nossas escolhas vão meio às cegas, nas livrarias. Muitos livros bons podem ficar escondidos de nossos olhos. Todo ano fico meio angustiado quando vem a lista de livros inscritos no Prêmio Telecom e vejo que li só alguns poucos. Na edição deste ano temos de indicar três obras de cada gênero: poesia, romance, conto/crônica (não entendo por que colocar no mesmo balaio conto e crônica; o Jabuti também faz isso). Assim a premiação ficará mais justa. Quando li a lista deste ano, fiquei perdido. Sei que vou ser injusto com alguém porque não li nem 10% daqueles livros todos. E eu só indico o que li, não vou pelo nome do autor. Então, retomando sua pergunta, não vou dizer que “a quantidade de escritores é inversamente proporcional à qualidade do que é publicado”, porque nunca conseguiremos ler tudo o que se publica. Acho que falta nos jornais mais espaço para a crítica literária a fim de dar conta dessa produção e nos conduzir aos melhores livros. Hoje temos só o “Rascunho”, de Curitiba.

OA: Uma das mais famosas frases de escritores é “Se queres ser universal, comece por pintar a tua aldeia”, de Tolstói. E você consegue fazer isso, abordar temas universais a partir de uma realidade aparentemente restrita, como poucos. Como você faz para escapar do chamado “regionalismo”? É uma preocupação sua?

ACV: Regionalismo é sempre uma preocupação. Quando vejo um livro enfeitado de palavras locais e se compraz com isso, abandono. Há escritores assim, que pensam que devem ser fiéis ao seu lugar de origem e colocar em sua obra só palavras e personagens que tornem sua aldeia conhecida. Se for por aí, vai fracassar. O importante é abrir essa aldeia e dela tirar o que é comum a todos os homens. Fazer com que mesmo o leitor mais distante dela, nela se reconheça porque, no fundo, as questões que nos assomam a existência são sempre as mesmas: a vida, a morte, a luta pela subsistência, os traumas, o amor, a paixão… Lendo um dia desses um conto do nosso Tolstoi, minha admiração por ele cresceu mais ainda. Ele conta a história de um patrão e seu empregado durante uma viagem sob a neve. Como algo que não tem nada a ver conosco como o frio das estepes russas nos toca tão profundamente? Porque, no fundo, o que ele expõe é algo universal: a relação entre patrão e servo, a luta pela vida, o medo da morte. Todos nós passamos por isso com maior ou menor intensidade.

OA: Aproveitando a menção a Tolstói, quais são as suas influências? Quais autores mais o influenciaram e continuam influenciando?

ACV: O importante das influências é você saber quais são para poder se livrar delas. Geralmente começamos a escrever por admirar a forma de determinado escritor. Escrever tem mais a ver com isso do que com vocação. Eu nunca pensei que tinha vocação para contista. Só descobri a vontade de escrever, como já disse mais acima, quando li José J. Veiga. E meus primeiros contos têm muito a ver com o universo infantil que ele explorou tão bem. Mas precisei descobrir a minha forma. Depois foi a vez de Clarice Lispector. “A paixão segundo G.H.” me tirou o sono. Passei a noite lendo. Vi que, por mais que a admirasse, imitá-la era impossível. O máximo a que se pode chegar imitando alguém é fazer uma literatura de segunda linha. Ainda escrevi algumas coisas sob a inspiração dela, mas logo joguei fora. É preciso descobrir a própria voz e isso leva tempo. O bom mesmo é você ter lido um monte de gente e o leitor não descobrir pegadas de ninguém no seu texto.

OA: Outro questionamento “tradicional” da Outros Ares é o seguinte: você compartilha da opinião de que o conto é um gênero menosprezado no Brasil? Se sim, arriscaria dizer por que isso acontece?

ACV: Eu nunca senti que haja esse menosprezo pelo conto. O que acontece é que a nossa produção contística é pequena e nem sempre de boa qualidade. Criou-se o mito de que o conto é apenas um estágio antes do grande momento de escrever um romance. Escrever um bom conto é tão difícil quanto escrever um bom romance, um bom poema, uma boa crônica. Não há gênero fácil quando se busca a perfeição. Vá escrever uma crônica e veja como é difícil transferir para as palavras o tom que se pretende. Quanto às editoras, vejo que elas estão apostando mais nos contistas hoje em dia do que antes. Talvez faltem bons contistas. É que muita gente pensa que escrever um conto é só contar uma boa história. O gênero exige uma carpintaria das mais complicadas.

OA: Você lê os autores brasileiros em atividade? Como vê a nossa literatura hoje? Destacaria alguns escritores que, na sua opinião, são diferenciados? E entre os estrangeiros, quais você tem lido?

ACV: Tenho acompanhado nossa produção literária dentro das minhas possibilidades. Como moro em Aracaju, que só tem duas livrarias de porte médio, nem sempre os lançamentos chegam. Temos que encomendar. Só quando vou a São Paulo é que me abasteço das novidades. Como no ano passado fiz parte do júri do Telecom, deu pra ler muita gente que não conhecia. E descobri muitos escritores ótimos. O vencedor mesmo, Rubens Figueiredo, é excelente. Todo mundo precisa ler “Passageiro do fim do dia”. No Rio Grande do Sul tem um contista fabuloso mas desconhecido no resto do país: Aldyr Garcia Schlee, autor de “Os limites do impossível”. Não dá para falar de todos, a lista é imensa. Na poesia, temos o Paulo Henriques Britto. Seu último livro, “Formas do nada”, é uma obra-prima. Quanto aos estrangeiros, leio muito os americanos, com ênfase na obra de Philip Roth. Para quem nunca o leu, indico “Nêmesis”, um de seus últimos livros. Aos que gostam de uma teoria literária light, aconselho “Como funciona a ficção”, de James Wood. É um livro fundamental tanto para quem lê quanto para quem escreve.

OA: Por fim, mais uma pergunta que fazemos – e continuaremos fazendo – a todos os entrevistados: fala-se muito de baixas vendas, pouco investimento nacional, pouca divulgação a escritores locais e baixa escolaridade – fatores que juntos ou separados formam o “problema” da literatura brasileira atual. Antes de tudo, a literatura tem problemas? Quais são os principais, na sua opinião, e quais seriam as soluções?

ACV: A literatura não tem problemas, quem tem problemas é o Brasil, que investe mal em educação e prepara mal seus professores. Isso vai dar, lógico, em poucos leitores e vendas insignificantes de livros. Quando tivermos uma boa educação, as coisas talvez mudem. Mas até que hoje em dia há muita divulgação da produção literária, haja vista o número de festas e festivais. Mas isso não significa supervenda de livros. Essas festas alimentam mais o ego dos escritores que suas contas bancárias. No entanto, sou a favor delas, porque de qualquer forma se fala da literatura por alguns dias e pode-se assim ganhar um ou outro novo leitor. O despertar para a leitura vem mais da escola e, em segundo lugar, da família. Digo isso porque venho de uma família de não leitores. Foi o bom ensino dos salesianos que me levaram a ler compulsivamente. Minha casa nunca teve estante. Fui leitor de bibliotecas. Este é um outro fator que contribui para o surgimento de novos leitores. Mas sabemos muito bem, com raras exceções, como são as bibliotecas públicas de nosso país: acervo pobre, livros defasados, quase nenhum lançamento. Geralmente só encontramos os clássicos. E sempre digo que não é pelos clássicos que se deve começar a incentivar a leitura dos jovens, mas por algo mais próximo deles, não importa que seja “Harry Potter”. Ler os clássicos é algo bem posterior, quando o sabor da leitura já está consolidado. Se quiser matar nos jovens o gosto pela leitura, obriguem-nos a ler José de Alencar e Machado de Assis aos treze, catorze anos. É tiro mortal.

Leia a seguir um conto de Antonio Carlos Viana:Princesinha“.