A literatura não tem problemas, quem tem problemas é o Brasil

Foto: André Viana

Outros Ares: Vamos começar com a já tradicional pergunta inicial aqui da Outros Ares: como e quando você começou a escrever? Em qual gênero você arriscou suas primeiras linhas? Chegou a cometer poesia?

Antonio Carlos Viana: Voltando muito no tempo, me lembro de uns poeminhas que escrevi quando ainda estava no segundo grau, mas coisas muito esparsas, sem nenhuma convicção do que estava fazendo. Era mais uma imitação do que eu lia nos livros didáticos. Depois, já no curso de letras, escrevi minha primeira crônica sobre uma velha sentada numa calçada, que encontrei no meio do caminho. Era meio-dia, o sol muito quente e tive pena dela. Cheguei em casa e botei para fora toda essa pena em forma de palavras. Devia ser uma coisa muito ruim. Tive a coragem de colocar esse texto no jornal da faculdade. Felizmente ninguém o salvou para a posteridade. Quem leu me perguntou se eu lia muito Cony e eu nem sabia ainda quem era Cony. Escrevi ao acaso, sem pensar que estava fazendo um texto literário. A poesia, eu logo abandonei, mas continuei escrevendo uma prosa bem ruinzinha. Um dia juntei os vários escritos que tinha e mostrei a uma colega. Ela simplesmente caiu na risada. Disse que aquilo não era nada, nem conto, nem crônica, nem poesia em prosa. Devia ser mesmo uma bela porcaria. Mas o riso dela não me intimidou. Nesse momento eu já queria escrever algo mais consistente e dei para ler os grandes contistas, mas sem saber que seria um deles algum dia. Foi quando me deparei com “Os cavalinhos de Platipanto”, de José J. Veiga, e vi que um bom conto é capaz de nos deixar tão extasiados quanto um bom romance, um bom poema. José Veiga me deu o impulso que me faltava.

OA: Pode-se dizer que você rodou o mundo: morou no Rio de Janeiro, em Porto Alegre, na França, lugares que são chamados de “centros culturais” do Brasil e do mundo, mas voltou para sua terra natal, Aracaju. É uma pergunta cuja resposta é pessoal demais, mas ainda assim a fazemos: por que não se estabeleceu em um desses outros lugares, que, dizem, são mais propícios à literatura? Por que voltar?

Antonio Carlos Viana: Tive o privilégio de morar em lugares que foram capitais em minha vida. Saí do Rio de Janeiro quando a cidade perdeu o seu encanto e virou um foco de grande violência. Fui para Porto Alegre, onde ainda cheguei a dar aulas na Unisinos, mas motivos familiares me trouxeram de volta a Aracaju. Foi quando apareceu concurso para professor da UFS (Universidade Federal de Sergipe). Sempre quis ser professor universitário e ali estava minha chance. Passei e fiz carreira, como se diz. Voltei a Porto Alegre para fazer o mestrado. Tive o privilégio de ser aluno e orientando da professora Regina Zilberman, que foi uma grande incentivadora da minha carreira como contista. Meu segundo livro, “Em pleno castigo”, foi ela que o indicou a uma editora, a Hucitec, e ainda fez a orelha. Mais privilégio, impossível. Dois anos depois de ter concluído o mestrado, ganhei uma bolsa da CAPES para fazer doutorado na França e foram quatro anos de novas descobertas literárias, sobretudo do pensamento de Paul Valéry. Minha tese versou sobre a poética dele e a a poesia de João Cabral. Gostei, claro, da França, mas jamais moraria no exterior. A sensação de ser sempre estrangeiro magoa, deixa-nos sempre inseguros, inferiorizados. O fato de ter voltado e continuado em Aracaju se deveu muito a esse sentimento de ter o pé no lugar em que me sinto seguro. E aqui continuo até hoje sem nenhuma lamentação. Pelo contrário. A luminosidade de Aracaju me faz muito bem. Não a trocaria por nenhuma outra.

OA: Outra “pergunta padrão” da Outros Ares é a seguinte: Um de nossos entrevistados, o escritor mineiro Jaime Prado Gouvêa, nos disse que há “gente demais e qualidade de menos”. A sensação é de que a quantidade de escritores é inversamente proporcional à qualidade do que é publicado. Por outro lado, com a avalanche de livros publicados, muita coisa boa acaba ficando escondida, não tem a chance de chegar a uma quantidade maior de leitores. Como você vê essa situação?

ACV: A quantidade de gente publicando é enorme mesmo e, como não poderia deixar de ser, há coisas ótimas e coisas muito ruins. O pior é que as resenhas não dão conta dessa produção e nossas escolhas vão meio às cegas, nas livrarias. Muitos livros bons podem ficar escondidos de nossos olhos. Todo ano fico meio angustiado quando vem a lista de livros inscritos no Prêmio Telecom e vejo que li só alguns poucos. Na edição deste ano temos de indicar três obras de cada gênero: poesia, romance, conto/crônica (não entendo por que colocar no mesmo balaio conto e crônica; o Jabuti também faz isso). Assim a premiação ficará mais justa. Quando li a lista deste ano, fiquei perdido. Sei que vou ser injusto com alguém porque não li nem 10% daqueles livros todos. E eu só indico o que li, não vou pelo nome do autor. Então, retomando sua pergunta, não vou dizer que “a quantidade de escritores é inversamente proporcional à qualidade do que é publicado”, porque nunca conseguiremos ler tudo o que se publica. Acho que falta nos jornais mais espaço para a crítica literária a fim de dar conta dessa produção e nos conduzir aos melhores livros. Hoje temos só o “Rascunho”, de Curitiba.

OA: Uma das mais famosas frases de escritores é “Se queres ser universal, comece por pintar a tua aldeia”, de Tolstói. E você consegue fazer isso, abordar temas universais a partir de uma realidade aparentemente restrita, como poucos. Como você faz para escapar do chamado “regionalismo”? É uma preocupação sua?

ACV: Regionalismo é sempre uma preocupação. Quando vejo um livro enfeitado de palavras locais e se compraz com isso, abandono. Há escritores assim, que pensam que devem ser fiéis ao seu lugar de origem e colocar em sua obra só palavras e personagens que tornem sua aldeia conhecida. Se for por aí, vai fracassar. O importante é abrir essa aldeia e dela tirar o que é comum a todos os homens. Fazer com que mesmo o leitor mais distante dela, nela se reconheça porque, no fundo, as questões que nos assomam a existência são sempre as mesmas: a vida, a morte, a luta pela subsistência, os traumas, o amor, a paixão… Lendo um dia desses um conto do nosso Tolstoi, minha admiração por ele cresceu mais ainda. Ele conta a história de um patrão e seu empregado durante uma viagem sob a neve. Como algo que não tem nada a ver conosco como o frio das estepes russas nos toca tão profundamente? Porque, no fundo, o que ele expõe é algo universal: a relação entre patrão e servo, a luta pela vida, o medo da morte. Todos nós passamos por isso com maior ou menor intensidade.

OA: Aproveitando a menção a Tolstói, quais são as suas influências? Quais autores mais o influenciaram e continuam influenciando?

ACV: O importante das influências é você saber quais são para poder se livrar delas. Geralmente começamos a escrever por admirar a forma de determinado escritor. Escrever tem mais a ver com isso do que com vocação. Eu nunca pensei que tinha vocação para contista. Só descobri a vontade de escrever, como já disse mais acima, quando li José J. Veiga. E meus primeiros contos têm muito a ver com o universo infantil que ele explorou tão bem. Mas precisei descobrir a minha forma. Depois foi a vez de Clarice Lispector. “A paixão segundo G.H.” me tirou o sono. Passei a noite lendo. Vi que, por mais que a admirasse, imitá-la era impossível. O máximo a que se pode chegar imitando alguém é fazer uma literatura de segunda linha. Ainda escrevi algumas coisas sob a inspiração dela, mas logo joguei fora. É preciso descobrir a própria voz e isso leva tempo. O bom mesmo é você ter lido um monte de gente e o leitor não descobrir pegadas de ninguém no seu texto.

OA: Outro questionamento “tradicional” da Outros Ares é o seguinte: você compartilha da opinião de que o conto é um gênero menosprezado no Brasil? Se sim, arriscaria dizer por que isso acontece?

ACV: Eu nunca senti que haja esse menosprezo pelo conto. O que acontece é que a nossa produção contística é pequena e nem sempre de boa qualidade. Criou-se o mito de que o conto é apenas um estágio antes do grande momento de escrever um romance. Escrever um bom conto é tão difícil quanto escrever um bom romance, um bom poema, uma boa crônica. Não há gênero fácil quando se busca a perfeição. Vá escrever uma crônica e veja como é difícil transferir para as palavras o tom que se pretende. Quanto às editoras, vejo que elas estão apostando mais nos contistas hoje em dia do que antes. Talvez faltem bons contistas. É que muita gente pensa que escrever um conto é só contar uma boa história. O gênero exige uma carpintaria das mais complicadas.

OA: Você lê os autores brasileiros em atividade? Como vê a nossa literatura hoje? Destacaria alguns escritores que, na sua opinião, são diferenciados? E entre os estrangeiros, quais você tem lido?

ACV: Tenho acompanhado nossa produção literária dentro das minhas possibilidades. Como moro em Aracaju, que só tem duas livrarias de porte médio, nem sempre os lançamentos chegam. Temos que encomendar. Só quando vou a São Paulo é que me abasteço das novidades. Como no ano passado fiz parte do júri do Telecom, deu pra ler muita gente que não conhecia. E descobri muitos escritores ótimos. O vencedor mesmo, Rubens Figueiredo, é excelente. Todo mundo precisa ler “Passageiro do fim do dia”. No Rio Grande do Sul tem um contista fabuloso mas desconhecido no resto do país: Aldyr Garcia Schlee, autor de “Os limites do impossível”. Não dá para falar de todos, a lista é imensa. Na poesia, temos o Paulo Henriques Britto. Seu último livro, “Formas do nada”, é uma obra-prima. Quanto aos estrangeiros, leio muito os americanos, com ênfase na obra de Philip Roth. Para quem nunca o leu, indico “Nêmesis”, um de seus últimos livros. Aos que gostam de uma teoria literária light, aconselho “Como funciona a ficção”, de James Wood. É um livro fundamental tanto para quem lê quanto para quem escreve.

OA: Por fim, mais uma pergunta que fazemos – e continuaremos fazendo – a todos os entrevistados: fala-se muito de baixas vendas, pouco investimento nacional, pouca divulgação a escritores locais e baixa escolaridade – fatores que juntos ou separados formam o “problema” da literatura brasileira atual. Antes de tudo, a literatura tem problemas? Quais são os principais, na sua opinião, e quais seriam as soluções?

ACV: A literatura não tem problemas, quem tem problemas é o Brasil, que investe mal em educação e prepara mal seus professores. Isso vai dar, lógico, em poucos leitores e vendas insignificantes de livros. Quando tivermos uma boa educação, as coisas talvez mudem. Mas até que hoje em dia há muita divulgação da produção literária, haja vista o número de festas e festivais. Mas isso não significa supervenda de livros. Essas festas alimentam mais o ego dos escritores que suas contas bancárias. No entanto, sou a favor delas, porque de qualquer forma se fala da literatura por alguns dias e pode-se assim ganhar um ou outro novo leitor. O despertar para a leitura vem mais da escola e, em segundo lugar, da família. Digo isso porque venho de uma família de não leitores. Foi o bom ensino dos salesianos que me levaram a ler compulsivamente. Minha casa nunca teve estante. Fui leitor de bibliotecas. Este é um outro fator que contribui para o surgimento de novos leitores. Mas sabemos muito bem, com raras exceções, como são as bibliotecas públicas de nosso país: acervo pobre, livros defasados, quase nenhum lançamento. Geralmente só encontramos os clássicos. E sempre digo que não é pelos clássicos que se deve começar a incentivar a leitura dos jovens, mas por algo mais próximo deles, não importa que seja “Harry Potter”. Ler os clássicos é algo bem posterior, quando o sabor da leitura já está consolidado. Se quiser matar nos jovens o gosto pela leitura, obriguem-nos a ler José de Alencar e Machado de Assis aos treze, catorze anos. É tiro mortal.

Leia a seguir um conto de Antonio Carlos Viana:Princesinha“.

Princesinha

Antonio Carlos Viana

Nossa saída foi procurar Jesus, só ele mesmo para nos salvar. O homem chegou e falou que o terreno era dele e tal e tal. Minha mãe botou o dedo melado no papel, ela não sabia assinar nada, nem o nome com letra graúda ela sabia. Ela disse que se fosse sozinha ia ganhar o fim do mundo e desaparecer para sempre, mas tinha aquela récua de filho atrás, uma cruz pra carregar por bem ou por mal. Pra quem só tinha mesmo a roupa do corpo, não foi difícil pegar o caminho sem saber para onde. Nossa irmã filmou tudo com o celular.

Chegar na cidade não foi difícil. Cada um levava sua sacola de plástico com o pouco das coisas que tinha. Entramos na primeira igreja que vimos, aquela coisa no coração, que faz a pessoa ir sem saber como. A mulher não queria chamar o pastor, que ele estava muito ocupado, que a gente ia ter de esperar muito, ele estava em sessão de descarrego. Ela tapava o nariz, como se dissesse que a gente estava fedendo. E estava mesmo.

Depois de muito tempo o pastor apareceu e disse que não tinha onde botar tanta gente, cinco meninos mais uma mãe. “Mas Jesus salva”, ele falou, “é só crer que ele salva”. Logo se encantou com os olhos de minha irmã, que chamou de princesinha. “Como se chama a princesinha?” Aí ele foi lá dentro conversar a mulher que tinha tapado o nariz. Quando voltou, disse que nossa irmã podia ficar, estava precisando de alguém para ajudar na limpeza do salão. “Deixa ela aqui”, ele falou, “dona Iraci toma conta dela direitinho”, a nossa irmã tão bonita, que já estava passando da hora de usar sutiã. “Todos os seus filhos nasceram lá no manguezal?”, ele perguntou. “A última a nascer, a derradeirinha, não vingou, mora hoje num cemiteriozinho de areia fofa, de onde vinha um cheirinho chato quando a gente ia enfeitar a cova.” Foi assim que nossa mãe falou.

O pastor botou a mão na cabeça de cada um de nós, e foi orando, e foi orando, de olhos fechados, a gente sentindo que a mão dele passava uma quentura boa, passava uma calma boa. Mão de santo devia ser assim. Depois abriu os olhos e disse que, se minha mãe aceitasse, a princesinha ficava. Os outros, ela ia achar logo quem quisesse, que a gente tinha cara de menino bom. Choramos mas nos conformamos. Saímos de lá sem nem olhar para trás. Acho que minha irmã nem filmou a gente saindo.

Conto gentilmente cedido pelo autor. Publicado originalmente na Folha de São Paulo, em maio de 2010.

Comece a ler os contos escolhidos desta edição: “O assessor“.

Cachecol e chantilly

Paula Sanches

Era um belo dia ensolarado, isso me encantou e eu me convidei para uma xícara de café bem quente e um prato na cor creme com uma bela fatia de torta de morango com bastante chantilly em um bistrô próximo a uma praça muito charmosa. Apesar dos meus 24 anos, possuía cabelos completamente brancos. Eram fartos e longos e ria ao me olhar no espelho quando beliscava as bochechas, sempre formando círculos rosados, o que me fazia pensar na França do século XVIII. Meus olhos castanhos claros estavam voltados para a praça cheia de árvores e bancos onde as pessoas liam. Estanquei o olhar e comecei a observar um rapaz sentado na grama, encostado em uma árvore. Ele vestia uma camiseta branca lisa, uma calça jeans desbotada e um cachecol listrado nas cores branco e azul claro. Pedi mais uma xícara de café e um pouco mais de chantilly.

Eu estava encostado em uma árvore, sentado na grama macia e fingindo que dormia, sentindo o sol no meu rosto, o restinho de calor que ainda sobrara. Mas não deixei de observar uma garota sentada em uma mesa de um bistrô com os cabelos longos e brancos, tão fartos que não saberia dizer se era de verdade. Ela vestia uma blusa cor de rosa com fitas brancas e mangas bufantes, havia pérolas no decote. A saia era branca com detalhes dourados e pequenas pedras cor de rosa. Ela também usava um colar e brincos ovais na cor turquesa. Os sapatos delicados eram na cor amarela e as meias brancas possuíam babados.

Paguei pelo meu fabuloso lanche e caminhei pela praça em direção ao garoto do cachecol. Sentei em um banco próximo a ele e, como ele parecia dormir, soltei uma pérola da minha blusa e arremessei em sua direção, acertando o seu rosto. Eu estava rindo quando percebi que o garoto olhava para mim. Seu cabelo era tão negro que parecia azul.

O que havia com aquela garota? Ela acabara de jogar uma pérola em meu rosto e estava rindo. Quando me viu com um ar confuso pareceu achar tudo mais engraçado. Foi no momento quando ambos avistamos um esquilo vermelho de olhos verdes.

Olhei para o garoto e ele olhou para mim. Não pensamos duas vezes, acredito, pois estávamos em uma corrida atrás do esquilo vermelho. Corremos tanto que já não sabia onde estava e o garoto também parecia perdido. Havia começado a chover e eu estava ensopada. Espirrei uma, duas, três vezes.

Ela tremia devido a chuva fria. Não conseguia compreender a mudança tão repentina de tempo. Aproximei-me e lhe entreguei meu cachecol. A garota o colocou na cabeça, protegendo-se da chuva e acenou com a cabeça um “obrigada”.

Hmn, o cachecol tinha cheiro de noite e aproximei-o o máximo de mim. Percebemos que o esquilo não voltaria e, para agradecer o garoto, peguei alguns morangos que havia guardado no bolso da minha saia e entreguei a ele.

Peguei os morangos e os guardei no bolso de minha calça. Encontramos uma árvore para nos abrigar da chuva e notei os lábios vermelhos da garota. Eu a beijei suavemente, um beijo de despedida, e senti gosto de morango e chantilly em sua boca. Fomos embora, cada um em direção para suas respectivas casas.

Eu acordei me sentindo gripada, mas precisava trabalhar. Levantei da cama um pouco zonza e percebi ao meu lado um cachecol listrado nas cores branco e azul claro. Não fazia ideia de como aquilo havia parado ali. Não fazia o meu tipo, portanto eu não o teria comprado. Presente? Talvez. Num impulso peguei o cachecol e o cheirei. Cheiro de noite. Agradável. Não era de todo ruim, afinal. Mas eu estava atrasada!

Acordei com o despertador e percebi que meu trem partiria em apenas uma hora! Hoje eu deveria visitar os meus pais. Devia essa visita há muito tempo e sabia que não seria perdoado se faltasse mais uma vez. Levantei depressa, tropeçando na bagunça e ainda tonto caí no chão. Ao me levantar vi que alguma coisa havia caído do bolso da calça do meu pijama, quando peguei o objeto do chão, percebi que eram morangos, já mofados. Que estranho, eu nunca gostei de morangos.

***

Sou bacharel em Design Gráfico e estudante de Letras. Meu primeiro texto impresso será lançado este ano pela Andross Editora, na antologia de contos e crônicas “Entrelinhas – Volume II”, com organização de Helena Gomes. Mantenho o blog Electric Beans.

Cotidiano

Don Soares

O ônibus chegou às 17:25, depois de pouco mais de dez minutos de espera. Não estava lotado, mas provavelmente não haveria cadeiras vagas. Entrei meio desengonçado com a mochila que deveria estar pesando cerca de 15kg e mais uma pasta. Fui um dos últimos a entrar, já sem esperança alguma de ir sentado. Passei da roleta com alguma dificuldade, e, por sorte, uma moça que estava sentada justo no lugar onde eu havia escolhido para me acomodar de pé se levantou para soltar no seu ponto. Sentei imediatamente.

Passei os primeiros momentos da viagem sem olhar muito pra lugar nenhum. Estava muito cansado. A distância até o ponto de ônibus era relativamente grande e eu andara até lá com um peso enorme nas costas e nas mãos. O contrato do meu escritório estava para vencer e eu tinha que sair de lá. Sendo assim, estava pouco a pouco fazendo a mudança da pequena biblioteca que havia instalado por lá. O clima não estava muito bom pra ninguém. Todos perambulando tristonhos, com caixas, mochilas e cansaço pelo escritório de mais um empreendimento meu que não tinha dado certo. Eu não estava triste, nem frustrado, com raiva talvez. Certamente com raiva. Não consigo pensar num motivo específico para a raiva. Acho que às vezes ela é só um mecanismo de emergência do nosso corpo. Eu havia chegado ao ponto de ônibus movido pela raiva. Se não fosse por ela, teria caído de cansaço em menos de 30m de caminhada. Havia muitos dias que não dormia bem, não comia bem, bebia demais, trabalhava demais e o cansaço ia apenas se acumulando. Acho que quando o corpo estava prestes a desmoronar ele deu um toque pro cérebro que começou a me fazer lembrar de todos os meus fracassos. Meus fracassos como pai, como empresário, meus fracassos com as mulheres, com a família. Ia misturando tudo isso com lembranças, com pessoas, com saudades e foi me esquentando o sangue. Me fazendo pôr força no passo. E agora, passageiro sobrevivente no ônibus, sinto aos poucos minha serenidade retornando.

Dos bancos do fundo, chegava a mim o barulho de alguma conversa muito animada entre alguns jovens. Porém, com os barulhos do ônibus não dava pra entender o suficiente para me contextualizar. Olhei para os lados, caçando algo interessante. À minha direita havia um homem com uma criança no colo que parecia ser seu filho. O homem era grandão. Era negro, gordo e devia ser muito alto. Em seus braços, o bebê dormia ignorando completamente o balanço e o barulho do veículo. O pai olhava para o filho e por vezes dava uma cutucada em seu nariz e sorria. Ele olhava meio besta para a criança. De repente a criança acordou e deu um choro de centésimos de segundo enquanto estendia os braços na direção do pai. O homem compreendera o sinal e levantou a criança envolvendo-a com os braços contra o seu corpo e ela, por sua vez, envolveu os braços no pescoço do pai, recostou a cabeça em seu ombro e fechou os olhos novamente. E ficou ali, novamente tranquila, parecendo um coala nos braços daquele homem enorme.

Alguns pontos depois, quando o ônibus começava a esvaziar, entrou uma senhora desfilando em passos que pesavam como sua idade. Os bancos preferenciais estavam ocupados por pessoas que não deveriam estar ali. A maioria dessas pessoas era visivelmente jovem, com algumas exceções. Creio que, além de mim, alguns outros passageiros estavam interessados em saber como se desenrolaria aquela situação. A senhora acomodou-se num espaço do corredor próximo aos lugares preferenciais. Os dois jovens que estavam sentados lá pareciam estar dormindo. Coincidentemente os dois caíram no sono no exato momento em que a senhora entrava no ônibus. Ela, por sua vez, ignorava completamente aqueles dois. Olhava séria através da janela, provavelmente se perguntando onde o respeito e a educação haviam ido parar de três décadas pra cá. Aí um rapaz, de pele bem bem escura, bem trajado, com uma pasta em volta do ombro e que sentava num dos acentos normais, acenou para a senhora e gesticulou alguma coisa. A senhora sorriu de volta e se aproximou. Inverteram os papéis: ele ficou de pé, e ela sentou-se em seu lugar, segurando a pasta no colo. Pude ouvi-la agradecendo, ao que o rapaz respondeu com um aceno de cabeça e um sorriso bem bem branco. Alguns minutos depois, os dois jovens que fingiam dormir “acordaram”.

Mais alguns pontos depois, sobe no ônibus uma linda jovem de rosto delicado e pele branca com cara de bem sedosa. Trajava um vestido floral bem apropriado para o calor que deve ter alcançado os 34 graus lá pelas três da tarde. Dedico alguns segundos do meu tempo para imaginá-la nua. Depois vou observar a janela, à minha esquerda. A moça ao meu lado, num rápido movimento, olha pra mim e depois olha pra frente novamente. Deve ter achado que eu estava olhando pra ela. Respiro fundo. Observo os carros e torço por um acidente, ou pelo fim do mundo, ou que pelo menos eu chegue logo em casa.

Eu tenho 21 anos, nasci em Niterói – RJ, mas atualmente resido em Salvador – BA, onde estudo Letras Vernáculas na Universidade Federal da Bahia. Comecei a escrever poemas aos 16 e contos aos 18. Tenho finalizados quatro livros de poesias e dois de contos.

Leia a seguirCachecol e chantilly“.

Anatomia de um esquecimento

Hudson R. Santos

A constatação de que o processo do meu esquecimento estava na fase final fez-me gritar de espanto. Foi assim: primeiro saiu o som, depois a boca ficou aberta por um longo tempo, esquecida. Em volta tudo permanecia como antes: a sala e suas paredes cansadas de serem observadas, depois a cidade onde naquele momento meu corpo não dava notícias de presença, o globo terreste em volta do sol, nossa galáxia e as outras e depois anos-luz de não se sabe muito bem o que ainda. Quando fechei a boca minha mente foi tomada por ideias um tanto turvas, porém decisivas para o ciclo que se completaria comigo sendo tragado de todas as memórias antes de ser irremediavelmente tragado pelo tempo. Quando percebi – e isso foi o que mais me irritou, pois perceber algo significa tê-lo esquecido até então –, numa noite de insônia (prática atroz de esquecer o sono) em que não recordava outras maneiras de matar o tempo, calor diabólico sem vestígio de vento, entrei num blog de um péssimo sarau que, junto ao maior paquiderme desses encontros cretinos, eu organizava num bar e procurei notícias, sinais de vida, manifestações ontológicas de mim mesmo. Passava, ou estava parado, preso, numa fase delicada e díficil de minha vida. E pensava, quando acessei o blog, justamente se não teria me esquecido pelo caminho, se a melancolia e o acaso não haviam furtado uma parte de mim, pelo menos uma parte que eu ainda quisesse, apesar de tudo. Talvez apenas aquela hipotética alteridade que o deserto da melancolia furtou a Walter Benjamin. Espantosamente não encontrei nada. Confesso que me senti mal e piorei ao perceber que cultuava descaradamente uma vaidade prenhe de sofismas, e também porque me aferrava a esses argumentos para não dar mostras de ressentimento ao estúpido que sou, quando na verdade já estava convencido de não fazer nada a respeito e me deixar à sorte e à deriva. Nem uma palavra, foto ou vídeo quando fiz outra busca, simplesmente havia desaparecido junto com meu nome, havia sido propositalmente esquecido, como na fotografia em que o pai de Paul Auster, que estava no centro, foi recortado e as partes depois coladas para lançá-lo no limbo da solidão. Cheguei a duvidar de minha memória, para piorar as coisas, e tentei convencer-me de que havia inventado aquilo tudo, para tornar minha vida pior do que estava, e trocar (com toda patifaria possível) a questão do meu esquecimento pela do delírio da memória ou alucinação da insônia. Num e-mail para traumatizar-me (suponho), um amigo que frequentava o hipotético sarau garantiu que eu realmente estivera lá em todos os encontros, e perguntou se eu estava bêbado, pois tinha a certeza de que eu organizava os encontros. Tive que conter lágrimas e soluços de eterna gratidão: eu ainda persistia em alguma memória, mesmo que se tratasse de um patife que apenas queria me prejudicar ao dar-me a certeza de que o sarau fora real, portanto, o processo do meu esquecimento também. Amigo? Um canalha que nunca ouviu falar em oftalmologia, ou nos prazeres da naftalina, assim como o calhorda que me apagou da memória virtual do agora quase completamente esquecido sarau. Sinceramente não entendo por que abracei o monitor e chorei entre soluços e risos e quase o joguei pela janela.

O negro do céu pouco a pouco caiu num azul calmo, um avião passou iluminado, algumas luzes acenderam-se nas casas, cores da alvorada ao longe tomavam o horizonte, a lua ficou. Por puro acaso o som do avião me fez pensar em escritores errantes e saturninos e tentei fazer um passeio, porém considerei melhor a questão e optei por fumar, olhar a manhã e pensar, não sei com qual fim, que o esquecimento não se refere à inexistência, mas à vigência do objeto ausente na mente, ou seja: esqueço, logo existo, ou seja, me esquecem porque existo, sem no entanto encontrar qualquer alento nisso. Preferiria que pensassem em mim embora eu não existisse, disse a mim mesmo com melancolia e sentimentalismo fajuto. Pouco antes digitara meu nome no Google e não encontrara nada que se referisse a mim. O Google mais do que pesquisar faz as pessoas esquecerem o que nunca precisavam ter lembrado ou aprendido, pensei, o Google é o Lete contemporâneo. Claro que me irritava que o próprio Lete me esquecesse sem nenhum motivo aparente, como se ele também sofresse daquela grande insônia que assolou Macondo e fez todos esquecerem tudo. Um pouco antes ainda quase me afogara em remorsos ao ler um anúnico publicitário que falava sobre viagens inesquecíveis. Aquilo era uma grande sacanagem, já que eu tinha que me conformar, pelo menos era o que eu dizia a mim mesmo, com meu inominável anonimato na memória dos meus contemporâneos enquanto um bando de patifes levantava voo para usufruir as delícias de serem recordados, ainda que ao custo de algumas prestações e passeios forçados, como o banho de sol dos detentos. Antes disso e antes que amanhecesse, na madrugada, havia esperado um telefonema, algumas batidas na porta, um e-mail ou alguma frágil mensagem telepática, mas constatei que o esquecimento de mim apenas aumentava. Logo eu mesmo me esqueceria completamente e despertaria uma manhã qualquer (quando ludibriasse a insônia) de sonhos intranquilos convertido num abominável outro, com a maior amnésia sobre quem estava ali antes dele: eu, esse sujeito tão esquecível. Percebi que o arcaico desejo que as pessoas cultivam de serem outras daria nesse inferno: serem esquecidas pelo outro que se tornaram. Sem dúvida é um mau negócio desejar ser um eu que me aniquilará, chego a pensar que é uma modalidade de suícidio e que meu problema com o esquecimento me levava a algum lugar, afinal.

Depois que amanheceu e eu fumava, ao tentar recuperar o ponto inicial do meu esquecimento, me deparei em algum labirinto da mente com o filme “Amarcord”, de Fellini, do qual para dizer a verdade só me restava a imagem da dona da tabacaria com os maiores peitos que já vi e algo referente a cigarros. Qual não foi meu espanto ao me dar conta de que os sinais sempre foram claros, apenas esqueci de notá-los: Sempre esqueceram a data do meu aniversário, sempre esqueceram de me felicitar em datas comemorativas como natal ou ano novo; apesar de todos se abraçarem, nunca me notavam ou simplesmente achavam que já haviam me cumprimentado, o que empiricamente dava no mesmo, e metafisicamente também. Evidente que as pessoas esquecem os amantes, filhos, pais e tempo, distâncias, estações, silêncios, mas acho que sou excepcionamente bom em ser esquecido, tenho um dom natural para isso como Walt Whitman, Robert Walser, Baudelaire, Sebald e Rimbaud tinham para caminhar e escrever, saturninos e errantes, pensei, no momento em que o avião iluminado passou e a lua ficou acesa.

Logo depois de ter procurado meus rastros no blog do execrável sarau fui informado por impulsos nervosos que papai foi meu primeiro canalha; quando enfim fechei a boca aberta, esquecida, os seus sucessores seriam apenas cópias imperfeitas, apesar de concluir que o paquiderme do sarau levava alguma vantagem sobre as outras. Lógico que estava incomodado, porque momentos antes havia telefonado para Daniela, ou seria Maria, Vera, Gabriela? Havia apenas o número embaixo de um nome riscado não entendia por quê, mas que terminava com “a” pertencendo hipotéticamente a alguém do gênero feminino, considerei Átila improvável, por supostamente não conhecer nenhum. Como me encontrava assolado pela insônia decidi aventurar-me atrás do nome misteriosamente riscado e senti o sangue gelar quando atenderam e uma voz insofismavelmente feminina perguntou quem eu era. O que seria impossível de responder partindo do pressusposto de que eu não sabia quem ela era e não havia motivos, apesar do telefonema de madrugada, para me indentificar para estranhos, ou pelo menos para falar com conhecidos relapsos que haviam esquecido minha voz, desliguei irritado após sem querer gritar imbecil, não sei se para mim ou para a voz feminina que poderia ter alguma ligação com o nome riscado num guardanapo guardado. Por precaução deixei o fone fora do gancho, gesto em si simples, mas que me trouxe transtornos quando mais tarde esperei que alguém me telefonasse e tive que me contentar em ficar ressentido apenas pelas não batidas na porta, e-mails não recebidos e telepatia sem eficácia. Foi quando olhei para o monitor, diante do qual choraria mais tarde e pensaria em atirá-lo pela janela, com a boca novamente quase aberta e esquecida, sem nenhum sinal do avião iluminado que me faria pensar em escritores errantes, ou da lua que ficou acesa mesmo após o sol erguer-se até que persistiu num palidez prateada até sumir dos ares. Foi exatamente nesse momento que acessei o infame blog e descobri que o outro organizador tal como meu pai era um paquiderme incorrigível.

Papai tinha apenas três paixões na vida: levar-me para passear, beber até acabar o dinheiro e me esquecer em vários lugares diferentes. Esqueceu-me em supermercados, praças, casas de parentes, ruas, campos, perto de rios e do mar. Sua desculpa quando chegava sambando em casa era sempre: “Ué, o menino foi comigo?!”. Não fosse mamãe arrastá-lo para me procurar nunca eu teria sido encontrado. O patife, além de ter me perdido, perdia por muito tempo o meu nome, até sua consciência emergir do lago etílico e encontrá-lo novamente em sua boa, por acaso. Foi justamente essa impressão terrível que me tomou quando não encontrei notícias minhas no blog e consultei o Google, em vão.

Hudson R. Santos é escritor. Editor da seção Outras Vozes da revista de cultura Laboratórios de Poéticas e arte-educador no Fábricas de Cultura. Tem textos publicados na revista eletrônica Zunái e no Literatura em foco.

Leia a seguirBebidas e futebol“.

Bebidas e futebol

Roberto Prado Barbosa Júnior

23:35h, quarta tulipa de chope escuro, duas caipirinhas de abre-alas, porção de fritas com queijo já na saudade, e de repente o Magrão pergunta assim à queima-roupa:

– Tem jogo amanhã lá no estádio, vamos?

O miserável sabe duas coisas importantes sobre mim:

1. Detesto esportes em geral, e futebol em particular, e
2. Topo qualquer coisa depois de três chopes.

– Então combinado, às seis horas da tarde todo mundo em casa e vamos juntos pro estádio.

Ok!, respondemos juntos e pedimos outra rodada de chope. Lá pela uma e pouco da madrugada fomos embora. Acompanhei o Magrão até perto de casa, ele seguiu em frente e eu fui para o meu apartamento. Subi as escadas lenta e tropegamente, tirei as roupas e o sapato. Quando as chaves caíram no chão foi que reparei que havia trocado a ordem das coisas, me dei conta que estava nu no corredor do prédio, e quase arrombando a porta de meu apartamento, entrei. Tomei banho e me enxuguei no lençol da cama…

Acordei sábado, passava do meio-dia, com ressaca. Dirigi-me à cozinha e fiquei a meditar profundamente – na verdade acho que dormi mesmo em pé – no que faria, se café ou almoço, resolvi abrir um pacote de amendoim. Não me fez nada bem.

Voltei ao aconchego da cama.

Toca o telefone, era o Magrão confirmando o futebol de hoje à noite.

– Mas que futebol? E eu lá sou homem de futebol? Quando que em sã consciência… – foi aí que me lembrei, malditos chopes…
– Como fazemos? Você passa aqui ou vou aí? – Pergunto bancando o desentendido.
– Você passa que os lastros vão vir também, tomamos uns aperitivos aqui em casa e vamos calibrados pro estádio.
Importante explicar o que são os lastros. São dois sujeitos dos mais sem importância que andam conosco somente para dar lastro ao carro, sem mais explicações.

Desliguei o telefone, virei de lado e voltei a dormir. Não sei se sonhei, mas acho que os amendoins fizeram uma festa no meu estômago…

Acordei faltando pouco para as cinco da tarde.
Não escapei do banho, mas me enxuguei nas toalhas.

Vesti-me, desci para a rua, cumprimentei o porteiro do prédio que me respondeu com cara de desaprovação… Sei lá o que passa na cabeça desse sujeito. Vou até a calçada e grito:

– Roubaram meu carro! – Faço o espetáculo padrão dos roubados: grito, arranco os cabelos, xingo e por fim vou culpar o porteiro. Por isso ele me olhou daquele jeito, é cúmplice, é cúmplice…

Antes que dissesse qualquer coisa ele me perguntou:

– O senhor esqueceu o carro no bar outra vez?

Meu Deus, esqueci o carro no bar outra vez! A bebida ainda me fará andar de ônibus um dia!

Telefono pro Magrão:

– Vou demorar prá chegar aí, vou passar no bar e pegar o carro.

Sigo a pé até o bar, chegando lá vejo Ivan limpando as mesas e esvaziando os cinzeiros. Quando me vê, abana os braços à guisa de cumprimento e nem bem me aproximo ele grita:

– Esqueceu o carro outra vez, hein?

Todos os outros garçons olham para mim e para uma fileira de carros de luxo ali estacionados. Cabisbaixo, entro no meu fusca azul e crio um anticlímax no bar.

Sigo para a casa do Magrão, os lastros já estão lá. Buzino e logo os três descem cantando alguma coisa que lembra hino religioso e grito de guerra. Trazem quatro buzinas, quatro bandeiras coloridas, quatro chapéus ridículos.

– Onde eu me meti?

– O que foi que você disse? – pergunta o Magrão sacudindo uma bandeira na janela do carro. Nada respondo.

Sigo o engarrafamento até o estádio, e para a minha alegria uma fila imensa já se apresenta na rua.

– Desçam aqui que vou arrumar estacionamento, nos encontramos lá dentro.

O Magrão desce e logo é seguido pelos lastros.
Espero para vê-los entrarem na fila e vou-me embora. Minutos depois entro no bar;

– Ivan, dois chopes! Cumpri minha palavra, combinei de ir ao estádio, e fui “até o estádio”. O Magrão tem muito ainda o que aprender quando o assunto é “levar ao futebol”.

Sorrindo, esvazio a tulipa.

Roberto Prado Barbosa Jr., funcionário público estadual (esperando lentamente pela aposentadoria), tem dois livros publicados pela CBJE.

Leia a seguirCotidiano“.

O assessor

Guilherme Azambuja Castro

Antes de conhecer o doutor Herculano, meu ofício era tomar mate com Halls na praça, todo santo dia. Acordava seis, seis e meia, punha a chaleira no fogão, limpava a bomba com um grampo espichado, deixava a erva inchar na cuia, tudo preparado pra ver o Bom Dia Rio Grande tranquilo; oito, oito e meia, saía. Até a praça dava o quê?, quatro, cinco quadras. Passava na padaria e comprava um pacote de Halls preto – gosto de chupar Halls e tomar mate, dá um choquezinho dentro da boca que é bem bom –, daí tomava meu mate olhando o movimento. Quando não tinha mais bala pra chupar, ia pra casa. Fritava um bife, cozinhava arroz, almoçava tranquilo. Matava duas cumbucas de arroz-de-leite e voltava à praça. Tudo normal.

Defronte à Câmara de Vereadores de Canoa Branca tem um banco, ali eu sentava. Via a chegada dos vereadores, quando tinha sessão. Quando não tinha, assistia a chegada dos funcionários, dava no mesmo; importante importante era o movimento. Certo dia, o Beto, um vereador que fazia questão de ir de bicicleta pra Câmara – tá que o partido proibisse mostrar carro na frente da Câmara, mas ele que era exibido – me disse que o doutor Herculano queria gente pra assessor. Não que precisasse de dinheiro, tenho uma casinha alugada que me basta, todo caso fui até o gabinete do doutor e perguntei sobre esse negócio de ser assessor.

Fez uma cara de agora é que me lembro e me mandou ficar à vontade. Sentei. Abri a mateira. Sevei um mate.

“Sabes bater à máquina, Brizola?” Me chamam assim pelas sobrancelhas, sempre esfiapadas.
“Com um dedo, doutor”, fui sincero.
“Me conta das tuas experiências, então”, ele prosseguiu.
“Olha… Ultimamente tenho mais é tomado mate na praça, doutor.”
“Então és um AMH.”
“Sou?”
“Analista de Movimento Humano”, me explicou.
“Sim, claro”, achei interessante essa coisa.
“Joice, me tira um coelhinho da cartola, sim?”, pelo telefone, ele pediu à secretária, que logo apareceu com uma folha datilografada.
“Assina aqui, meu assessor”, me disse ele, riscando um xis no pé da página.
Termo de Posse, dizia.

Assinei.

“Agora espera que eu te chamo, tá?”

Queria saber do salário, quanto era, mas como ele não tocou no assunto, e nem eu, ficou por isso.

Voltei à praça, tinha a térmica ainda pela metade, isso dava o quê?, cinco, seis mates.

Dia seguinte: seis, seis e meia, acordei. Aqueci água, pus erva pra inchar, limpei a bomba, Sidney Sheldon na mateira; pra mim, escritor é Sidney Sheldon; vi o Bom Dia Rio Grande tranquilo: ia chover em Pelotas. Bom, oito, oito e meia, saí. Tudo normal.

Sentei no banco e logo vi o doutor Herculano chegar à Câmara. Gritei: “Ô, chefe!”. Com as mãos, me mandou esperar; o portão, que fechava sozinho, me foi tirando o doutor de vista. Pensei: bom, mas que sou assessor, isso eu sou, pra mim papel assinado é o que conta. Segui tomando meu mate e chupando Halls.

Por um mês, mais ou menos, eu gritei “ô, chefe!” quando via o doutor chegar à Câmara; e ele, com as mãos, me dizia: “calma, Brizola!”
Um dia, tomava meu mate e lia Sidney Sheldon bem na parte dum incêndio alucinante quando ouvi ele me chamar. Fui até o gabinete.
“Grande Brizola!”, me recebeu com festa. “Joice, traz uns coelhinhos, sim?”.

A Joice trouxe: três. Desenhou o mesmo xis no pé das folhas: Folha Ponto, dizia.

“Assina aqui, meu assessor!”.
Assinei.
“E aqui.”
Assinei.
“Mais aqui.”
Tudo assinadinho.
“Te chamo em seguida, fica tranquilo”, ele disse, e já me deu as costas.

Mas continuei ali, parado, esperando alguma ordem, sei lá, alguma coisa. Então ele tapou o bocal do celular e disse vai embora com outras palavras: “Fica tranquilo!” foi o que ele disse. E de fato fiquei. Pra mim papel assinado é o que vale, e nesse dia assinei três coelhinhos.

Não sou de me queixar, mas teve a primeira vez. É que fim do mês recebia em casa dez pacotes de erva-mate e cinco de Halls como salário; conseguia me manter o quê?, vinte, vinte e um dias, nem isso. Fui ao gabinete.

“Tá me faltando erva, doutor”, desembuchei, todo corajoso. Foi mais fácil que pensei: me deu um aumento na hora; fecharia os trinta e um dias folgado; a partir daí, mês de trinta sobrava o quê?, um pacote inteiro de erva. Ganhando mais, hora de mostrar trabalho, pensei.
O gravador eu já tinha, um portátil da Gradiente; o crachá, mandei imprimir colorido na Canoa Press e ficou assim: AMH em cima, Assessor embaixo, num canto a minha foto três por quatro de terno e gravata. A partir de então, se perguntassem qual era o meu ofício, eu respondia: sou assessor do doutor Herculano, e ainda mostrava o crachá pra quem não acreditasse.

Um dia o doutor mandou dizer pelo Beto que era pra eu me tocar a Pelotas. Me entregou um celular e uma cartola cheia de coelhinhos, Missão de Estado.

Cueca, meia, camisa, calça de brim, japona, três ou quatro potes de Minancora – pra mim, desodorante é Minancora –, joguei tudo na mala; a mateira, já carregava; e o crachá, raramente tirava do pescoço.
“Mando teu salário pelo ônibus, fica tranquilo”, me disse o Beto.

Fiquei mesmo.

Entrei no Embaixador. O ônibus não passava de oitenta, isso dava o quê?, três horas, três horas e meia até Pelotas. Ultrapassado o pórtico de Canoa Branca, os campos de arroz surgiram no para-brisa, um verde uniforme lindo de se ver; nessa hora senti pena de, por causa do meu novo ofício, ter de sair de lá, eu que só deixei a cidade uma vez, quando precisei trazer uma tia-avó de Camaquã e fui dar em Jaguarão. Todo caso, vida de assessor é assim, dura, devia eu desconfiar. Passando o Texaco, fechei a cortina, começava eu a sonhar e um piparote do cobrador me acordou.

“Já estamos chegando?”, perguntei, meio dormindo.
“Vai pra onde, Brizola?”
“Pelotas”, respondi.

“Nem do Taim passamos”, ele respondeu. “Vinte pila até Pelotas”.
O doutor havia me dado o quê?, cem, cento e vinte, mais umas quantas bolsas de supermercado com erva e Halls. Um adiantamento, exigência minha. Paguei os vinte e virei pro lado. Tranquilo.

Pelotas, como toda cidade grande, tem mais auto que gente. Na rodoviária é uma quantidade de táxi esperando realmente que tu pague uma fortuna pra meio-metro de corrida. Me nego. Mesmo. Dar dinheiro eu pra taxista? Saí a pé e achei o Naite Pelotense, um hotel em conta, pegado à rodoviária, bem bonzinho: quinze cruzeiros o pernoite, direito a café da manhã e tudo: pão torrado, café preto, iogurte e uma banana. (Quando que eu ia tomar iogurte, e de garrafinha?) Paguei dois pernoites adiantados à Baronesa, proprietária e moradora do Naite. No quarto, escondi a cartola mais a mateira dentro do boxe, por segurança. E fui dormir com o celular preso ao elástico da cueca, também por segurança; pânico de cidade grande.

Seis, seis e meia, levantei. Crachá no pescoço, gravador com pilha nova que era pro relatório não desandar na minha primeira manhã pelotense. Não vi o Bom Dia Rio Grande – no Naite só tinha rádio –, tomei café, iogurte, e escondi a banana na mateira, pra mais tarde. Oito, oito e meia, perguntei à Baronesa onde era a praça da cidade.

“A mais próxima?”, me perguntou.
“Ah, tem mais de uma…”
“Olha, daqui? Umas doze quadras.”

Coisa muito complicada, e longe, quase que uma Canoa Branca inteira. Resolvi relaxar. Sentei na frente do hotel numa cadeira de praia e sevei o mate. Logo a Baronesa abriu outra cadeira ao lado: “Posso?”, perguntou. E eu vou negaciar? Sevei um mate pra ela. Dia seguinte sevei outro. Fui sevando, sevando, todos os mates que ela pedia eu sevava. Às vezes colocava capim cidró na térmica, só porque ela pedia; tava em Pelotas mesmo… Nenhum conhecido vendo é a conta; porque, pra mim, mate só com Halls.
Mas tinha uns olhos puxados, a Baronesa, tinha uma boca graúda ela, uma bunda que me segurava pra não beliscar quando passava rebolando. A gente foi se conhecendo melhor e, no decorrer do quê?, mês, mês e meio, já chamava ela de Barô, só Barô.

Com mulher no meio a coisa fica mais profissional, organizada, é inevitável isso. Foi ideia dela: passar a limpo e fichar os relatórios em pastinhas: por turno, dia, mês, ano. Foi ideia minha: fixar uma placa de bronze na frente do Naite: Unidade de AMH, dizia. Ela que pagou. Outra ideia, nossa: grampear cartões de visita nos recibos dos hóspedes, que, aliás, eram praticamente dois: seu Alexandre, vendedor itinerante de alpargatas, e eu.

Resgatamos uma escrivaninha de compensado abandonada no porão do Naite. Duas, três pinceladas de tinta branca, ficou como nova. Placa na parede, cartões na praça, unidade pronta. Tirei então da cartola uns quantos coelhinhos pra Barô assinar.

“Que que é isso?”, me perguntou.

Beijei a testa dela e disse: “Fica tranquila, é coisa séria”. Ela amoleceu e começou a assinar, um por um, como uma boa fêmea deve ser, obediente. Todos devidamente assinados, tomei-lhe os coelhinhos e guardei na cartola. “Te ligo em seguida, minha assessora”, disse apressado, porque o Embaixador saía em quê?, uma hora, hora e meia no máximo. E saí a pé. Táxi, me nego.

Guilherme Azambuja Castro nasceu em Santa Vitória do Palmar, Rio Grande do Sul, em 25/12/1979. Radicou-se em Porto Alegre em 1996. Formou-se em Direito na PUCRS, e atua na Agência Nacional de Saúde Suplemendar como Especialista em Regulação. Escreve contos. Participou da oficina literária do escritor Charles Kiefer. Vencedor do 21º Concurso de Contos Luiz Vilela, de 2011. Atualmente, cursa o mestrado em Escrita Criativa na PUCRS. Mantém o blog http://guilhermeazambujacastro.blogspot.com.br/.

Leia a seguirAnatomia de um esquecimento“.