Escritores querem revelar a verdade

A ideia de entrevistar Liudmila Petruchévskaia veio naturalmente, logo após terminar de ler “Era uma vez uma mulher que tentou matar o bebê da vizinha”, primeiro livro da autora publicado no Brasil (pela editora Companhia das Letras e traduzido direto do russo por Cecília Rosas).

Como afirmo em uma das perguntas, os contos de “Era uma vez…” mais parecem misturar fantasia com realidade, em vez do contrário. Nesse caso, a ordem dos fatores altera, sim, o produto. Há uma grande diferença entre ler uma história cujo cenário é real, verossímil, e de repente deparar com um elemento fantástico, e ler um conto cuja atmosfera, desde seu início, é soturna, misteriosa, às vezes beirando o místico, e de repente a realidade vir à tona, puxando o nosso tapete. Assim são os contos de Liudmila.

São contos fantásticos, apesar de a realidade estar lá, muito presente, viva. E o estranhamento que essa mistura em ordem e dosagens diferentes causa no leitor é muito marcante. Os contos de Liudmila são encantadores, mas num sentido quase perverso. Mas faço questão de frisar: eu escrevi “quase”, porque os contos de Liudmila também são maravilhosos, de extrema qualidade literária. E, como diz a autora numa das respostas abaixo, são muito simples.

Na entrevista que você lerá a seguir, Liudmila fala sobre sua passagem por sanatórios quando criança, por causa de uma tuberculose; sobre a censura que sofreu, e ainda sofre, na Rússia; sobre de onde vêm suas histórias; dá uma alfinetada em Nabokov e outras coisas mais.

Não seria possível entrevistar Liudmila sem a ajuda inestimável de J.G., sua agente literária. Quando entrei em contato, por e-mail, com J.G., perguntei se a autora poderia conceder uma entrevista em inglês. Ela respondeu que não, mas que eu poderia enviar as perguntas em inglês, ela traduziria para o russo, Liudmila responderia em russo, J.G. traduziria do russo para o inglês e me enviaria. Ou seja: sem J.G. esta entrevista talvez não fosse possível. A ela, fica aqui meu agradecimento público, externado mais de uma vez em privado.

Para encerrar este preâmbulo, uma curiosidade: quando fiquei sabendo que Liudmila Petruchévskaia seria uma das convidadas da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), pensei que J.G. pudesse vir ao Brasil acompanhando a autora, e enviei um e-mail perguntando se ela estaria aqui. A resposta foi negativa, e ela explicou que Liudmila seria acompanhada por um de seus filhos, Fedor, que, e agora vem a curiosidade, é apaixonado pelo Brasil, e é um dos maiores responsáveis pela publicação de Liudmila em nosso país.

Agora deixo você, caro(a) leitor(a), com Liudmila Petruchévskaia.

Vamos começar com a tradicional pergunta da Outros Ares: como e quando você começou a escrever? Em qual gênero escreveu as primeiras linhas?

Comecei a escrever aos 12 anos, num sanatório para crianças tuberculosas, longe de casa. Eu costumava abandonar ou perder tudo, era ridicularizada pelas crianças e até apanhei de uns garotos. Mas então, de repente, para a minha própria surpresa, escrevi um verso patriótico na véspera de um feriado nacional: “nós somos soviéticos e somos pela paz no mundo”. Passei a ser muito respeitada depois disso. Poetas patriotas geralmente são respeitados tanto pelas autoridades quanto pelas pessoas comuns. Mas isso aconteceu apenas uma vez. Depois disso, eu só escrevi textos pelos quais fui banida e censurada, e passei muito tempo sem ser publicada.

Em vez de misturar realidade com uma dose de fantasia, os contos de “Era uma vez uma mulher que tentou matar o bebê da vizinha” parecem misturar o fantástico com uma dose de realidade. De onde veio sua inspiração para escrever essas histórias?

Eu tive tuberculose quando criança, e passei muito tempo da minha infância em diversos sanatórios. As meninas costumavam dormir na enfermaria, e era comum contarmos histórias assustadoras antes do anoitecer – muitas vezes sobre homens mortos e uma mão negra. Eu costumava contar essas histórias. Ninguém precisava ou desejava a realidade, porque a realidade era muito entediante: escola, caminhadas, disciplina. Essas histórias assustadoras eram uma maneira de fugirmos para um mundo diferente, para um mundo de mortes e salvações milagrosas.

Além de escritora, você é cantora, compositora e pintora. Lendo suas histórias, é possível ver nelas uma musicalidade e imagens, cenas que parecem ter sido pintadas. Existe mesmo uma mistura de artes em seus contos ou estou “inventando” isso?

Um crítico uma vez escreveu que meus contos são como poemas, versos livres. Uma vez tentei estruturar um de meus contos como se fosse um poema, e deu certo. No entanto, seria um poema muito longo. Eu ri de mim mesma. Poemas devem ser curtos, eu acho.

No início da sua carreira você teve livros censurados pelo governo. Poderia falar um pouco sobre isso? E como é ser uma escritora na Rússia de hoje? Até onde vai a liberdade artística na Rússia atualmente?

Fui alvo de censura durante toda a minha vida. Meu primeiro livro foi publicado quando eu fiz cinquenta anos. Recentemente um político exigiu publicamente que um livro meu fosse proibido. Nesse livro há uma história sobre adolescentes que são tentados pelo demônio para consumir álcool e drogas, então ele faz uma festa para esses jovens, que são curiosos por experimentar tudo, e ela acaba tragicamente com um incêndio (o título dela é “A Bug”*). O Ministério da Educação censurou o livro como uma obra que contém apologia às drogas, e agora ele não pode fazer parte do acervo de nenhuma biblioteca do país. Dei inúmeras entrevistas explicando a diferença entre falar sobre certas coisas e fazer propaganda delas, o que não é o caso da minha história, mas não tive sucesso.

[*Nota do Editor: para traduzir corretamente o título “A Bug”, seria necessário ler o conto, pois há vários sentidos para a palavra “bug” em inglês.]

“Era uma vez uma mulher que tentou matar o bebê da vizinha” é o seu primeiro livro publicado no Brasil, e espero que outros sejam publicados logo, logo. Se você pudesse escolher os próximos dois livros seus a serem publicados aqui, quais seriam?

Eu escolheria a coletânea de contos “Two Kingdoms” (“Dois Reinos”) e a coletânea de histórias místicas para a família (de adolescentes a idosos) “The Testament of An Old Monk” (“O testamento de um velho monge”).

Quais escritores você mais lê? Quais autores mais te influenciaram?

Eu li os principais livros, russos e estrangeiros. Desde “A Ilíada” até os clássicos do século XX. E agora eu gosto de ler memórias, diários e, ainda que seja estranho, histórias de mistérios (de detetives). Recentemente publiquei dois novos livros com histórias de detetives: “Travellings On the Occasion of Death” (“Viagens em casos de mortes”) e “Kidnapped: The History of Crimes” (“Sequestrado: A história dos crimes”). Outra publicação recente é meu livro de memórias “The Little Girl from the Metropol Hotel” (“A garotinha do Hotel Metropol”), cujo título em russo é “Needed by No-One and Free” (“Necessária para ninguém e Livre”).

No Brasil, com algumas exceções, os contos não são populares entre os leitores, e nós – escritores, editores, jornalistas – não sabemos exatamente o porquê. E na Rússia? Os contos são populares entre os leitores?

Aqui é a mesma coisa. Os leitores preferem os romances longos. Eles gostam de mergulhar nas vidas de estranhos e “vivê-las” durante um tempo. Eu sempre escrevi contos. Contos são como uma facada no coração. Eu retrato a realidade horrível que chega a mim através dessas histórias. Pessoas que eu conheço sempre me contam histórias de suas vidas – extraordinárias, horríveis, como elas acontecem. Ninguém pensa em descrever sua rotina diária. Elas vêm e falam “Você sabe o que aconteceu comigo?”, e o que contam não tem nada a ver com suas rotinas. São incidentes que as descolaram de suas vidas ordinárias, incidentes com causas e efeitos, narrados por pessoas que encontrei no trem, por colegas de trabalho ou por meus vizinhos.

E lá estão: uma história de um homem que se matou depois de a esposa o abandonar; ou a história de uma garota que fugiu de casa depois que seu pai começou a estuprá-la (após a morte de sua mãe) e, nas ruas, foi forçada a se tornar prostituta. Eu conto, através de meus livros, uma história secreta da cobiça do meu país, uma verdadeira história do meu país. Escrevo de maneira muito simples, sem diálogos, sem comparações, metáforas, epítetos. Como se uma mulher contasse uma história a uma amiga. Ela não diria algo como “Era um lindo dia de primavera, o céu prometia brisa e sol, as árvores celebravam um casamento, rindo e dançando”. Ela diria “Olha, não sei, mas ela pode estar morta agora. Apesar de não terem acontecido funerais em nossa vizinhança recentemente”. É assim que começa o meu conto “A Girl, a World’s Consiousness” (“Uma garota, uma consciência do mundo”). Editores acharam a história tão assustadora que ela só foi publicada vinte anos depois de escrita. Esse é o meu destino: o destino de uma historiadora, fazendo anotações sobre o ontem. No entanto, a história se espalhou entre os leitores. As pessoas a digitavam em máquinas de escrever e compartilhavam secretamente.

A Rússia nos deu alguns dos maiores escritores de todos os tempos: Dostoiévski, Tolstói, Tchekhov, Gógol, Górki, Turguêniev, Nabokov, Búnin… A lista é enorme. Em sua opinião, por que essa lista de grandes escritores russos é tão grande? Por que a Rússia tem uma tradição literária tão forte?

Isso acontece porque as pessoas sofrem. E porque os escritores têm consciências perturbadas. Porque os escritores querem revelar a verdade. No entanto, eu excluiria Nabokov dessa lista. Ele tem apenas um grande livro, “Other Shores” (“Outras margens”).

Para você, a literatura pode ser sinônimo de esperança? O que é a literatura, para você?

Para mim, literatura é como dar à luz a um filho. Você não pode cancelá-lo quando ele está nascendo. E o que meus filhos podem fazer no mundo é algo sobre o que eu não tenho poder.

Leia a seguir um conto de Liudmila Petruchévskaia.

Um caso em Sokólniki

[Liudmila Petruchévskaia]

No começo da guerra, havia uma mulher chamada Lida que morava em Moscou. O marido dela era piloto, e ela não gostava muito dele, mas eles viviam muito bem. Quando a guerra começou, deixaram o marido servindo perto de Moscou, e Lida ia encontrá-lo no campo de pouso. Uma vez ela chegou lá e lhe disseram que no dia anterior o avião do marido havia sido derrubado perto do campo de pouso e que o enterro seria no dia seguinte.

Lida foi ao enterro, viu três caixões fechados e depois voltou para o seu quarto em Moscou, e ali esperava por ela uma convocação para cavar valas antitanque. Ela só voltou para casa no começo do outono e passou a notar que estava sendo perseguida por um jovem de aparência muito estranha – magro, pálido, macilento. Ela o encontrava na rua, na loja onde comprava batatas, no caminho para o trabalho. Uma noite a campainha do apartamento tocou, e Lida abriu. À porta estava aquele homem, e ele disse: “Lida, você não está me reconhecendo? Sou eu, seu marido”. Descobriu-se que ele não tinha sido enterrado, de jeito nenhum, tinham enterrado terra; a onda de ar o havia jogado nas árvores e ele resolveu não voltar mais para o front. Lida não perguntou como ele tinha vivido aqueles dois meses e meio entre as árvores, ele disse a ela que havia deixado tudo o que tinha na floresta e conseguido uma roupa de civil numa casa abandonada.

E assim eles continuaram a viver. Lida tinha muito medo de que os vizinhos o reconhecessem, mas tudo correu sem sobressaltos. Naqueles meses, quase todos haviam deixado Moscou. Então, um dia o marido de Lida disse que o inverno estava chegando, era preciso enterrar o uniforme que ele havia deixado nos arbustos, senão alguém poderia encontrar.

Lida pegou emprestada uma pequena pá com a zeladora e eles partiram. Era preciso ir de trem para a região de Sokólniki, depois andar por muito tempo na floresta seguindo um certo riozinho. Ninguém os deteve, e finalmente ao anoitecer eles chegaram a uma ampla clareira em cuja ponta havia uma grande vala. Já estava escurecendo. O marido disse a Lida que estava fraco, mas era preciso encher de terra aquela vala, porque ele lembrou que tinha jogado o uniforme ali. Lida olhou para o fundo e de fato viu lá embaixo algo como um macacão de piloto. Ela começou a jogar terra em cima, e o marido a apressava muito porque já estava escurecendo. Ela passou três horas enchendo a vala aos pouquinhos, depois viu que o marido não estava mais ali. Lida se assustou, começou a procurar, a correr, por pouco não caiu na vala, e então viu que, lá no fundo, o macacão estava se mexendo. Lida saiu correndo. A floresta estava completamente escura, mas mesmo assim ela chegou à estação de trem ao amanhecer, foi para casa e dormiu.

E no sonho o marido apareceu para ela e disse: “Obrigado por me enterrar”.

(Do livro “Era uma vez uma mulher que tentou matar o bebê da vizinha”.)

Comece a ler os contos escolhidos desta edição:Manto ácido“.

Manto ácido

[Ernane Catroli]

O gorgolejar do sangue nas carótidas infladas. E o que me vem de porões. Maquiados porões. Nomes. Lista de nomes. Nomes que até hoje. E conchavos. Conchavos e terror. Também furor abissal. Irrefreável. Era isso que era? Era algo mais. Por vias tortuosas, encasquetei de encontrar o general tantos anos depois. Tínhamos notícias vagas por intermédio de um caminhoneiro, que o encontrou numa cidadezinha do Espírito Santo, onde ele morava e tinha família. O quarto de janelas abertas. E outras tantas janelas abertas não bastariam. Ele abriu os olhos e me encarou como se vasculhasse imagens sem cor. Ele agora deitado naquela cama de ferro. A sua mão sobre o lençol. Havia nele um resto da minha lembrança dele. Um resto. E um mantra desde a minha infância até a divulgação dos resultados da Comissão Nacional da Verdade com aquela cara no jornal: era ele! Pai. Pai. Pai. Baixei a cabeça. Olhei minhas próprias mãos e estremeci como se atingido por um fluxo de lava. De lava. Um fluxo. Mas ainda procurei o seu rosto. Ele já olhava em outra direção. O seu perfil. Torturado o seu perfil.

Ernane Catroli é natural de Sant’Anna de Cataguases, MG, onde passou infância e adolescência. Há muitos anos reside no Rio de Janeiro. Bioquímico de formação, exerce atividades científicas e acadêmicas na área de Saúde. Publica regularmente em alguns blogs dedicados à cultura.

Leia a seguir “A espera”.

A espera

[Rafael Gobbo]

Era uma manhã chuvosa e enevoada. Ele mal podia enxergar um palmo à frente. Estava na plataforma da estação de trem, esperando o próximo comboio. Depois de anos sem ver a mãe, decidiu finalmente reencontrá-la. Não sem o temor de que pudesse ocorrer entre eles um embate. Uma colisão. Ambicionava a superação de todas as brigas e discussões que tiveram, mas temia um possível choque; receava mais uma pancada. Mesmo assim optou por revê-la. Afinal de contas, eram da mesma carne, mesmo sangue.

O trem estava meia hora atrasado, e ele nunca fora uma pessoa paciente. Começou a lembrar-se da infância e da casa onde cresceu, enquanto checava, incessantemente, seu relógio de pulso, na esperança de tomar o trem e chegar, antes de escurecer, na casa em que morou com a família quando criança. Teve uma ideia: iria à pequena loja (tão conhecida e frequentada na meninice) que ficava do outro lado da rua, saindo da estação, para comprar um suvenir para a mãe.

Enquanto se dirigia para a saída, a passos largos e ligeiros, distraía-se com pensamentos e devaneios que invadiam sua mente e nem se deu conta do ronco do motor do grande e extenso veículo que se aproximava. Logo que deu o primeiro passo em direção à rua, descendo a calçada, o ônibus veio ao seu encontro e o acertou com força. Uma baita pancada! Seu corpo foi arremessado cinco metros à frente.

Em casa, a mãe fazia os preparativos para receber o filho. A mesa já estava posta, com os mesmos utensílios, apetrechos e louças usados há anos. Só a toalha que cobria a mesa é que era nova. Aquecia a água para o café, que tomaria enquanto esperasse aquele que um dia já fora seu menino, e que hoje possivelmente deveria ser um estranho. Já são quinze pras cinco, será que ele não vem?

A cada gota da torneira mal fechada que caía na pia da cozinha da casa da mãe, o filho, estirado no meio da rua, inalava, com dificuldade, o pouco de ar que ainda entrava em seus pulmões. Uma gota; expiração e inspiração eram ofegantes e mais espaçadas entre si. Mais uma gota; sentiu o gosto ferroso de sangue na boca. Mais uma gota; mal conseguia respirar, o ar que entrava e saía era quase inexistente. Mais uma gota; as forças se esvaíram, perdeu os sentidos.

A mãe, já incomodada com o barulho da goteira, se levantou e correu à cozinha para fechá-la, deixando cair apenas mais uma gota. Uma gota. A derradeira gota. Nenhuma mais. O coração dele parou de vez. Voltou a se sentar junto à mesa, na mesma cadeira (já posicionada em direção à porta de entrada), ansiosa, à espera do filho. Teria ele chegado à casa da mãe se não acabasse estatelado e rígido no meio da rua? Não mudaria de ideia no meio do caminho? Como saber agora?

O café esfriara e trazia um gosto mais amargo que o de costume à boca. A mãe esperou sentada por horas na cadeira da mesa da cozinha, até se dar conta de que ele não viria.

Rafael Gobbo é escritor, jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero e pós-graduado em comunicação empresarial pela Universidade Metodista de São Paulo. Atualmente trabalha com comunicação em órgão público. “A espera” é um dos contos de “Pancadas” (Viseu, 2017), primeiro livro do autor.

Leia a seguir “Inacabado”.

Inacabado

[Marcelo Maio]

Papéis bagunçados dominavam a escrivaninha, alojada no pequeno cômodo ao lado da copa. Em frente ao móvel, uma outra mesa, ainda menor, era o espaço do microcomputador, ligado. Nele, uma página de uma loja online, com uma compra incompleta. Seus campos estavam preenchidos com os dados do comprador e de seu cartão de crédito, mas o cursor do mouse repousava preguiçosamente sobre o botão “confirmar”.

Livros estavam espalhados no colchonete do corredor: alguns abertos; outros, fechados, atravessados por um marcador de página. O aparelho de som tocava alguma canção instrumental. O apito da máquina de lavar anunciava que as roupas já estavam limpas. Um pão cortado, ao lado de uma faca suja da manteiga cujo pote ainda se encontrava aberto, passava a impressão de que alguém não havia terminado a feitura de seu lanche.

Leitura correta a que o alimento transmitia, pois o homenzinho realmente se lembrara de que havia findado o presunto para o seu sanduíche. Resolvera ir rapidamente ao supermercado na calçada em frente à de sua residência, mas o estabelecimento devia a um Fiat preto a não consolidação daquela venda, pois havia sido este o automóvel que atropelara o rapaz, deixando-o fatalmente estendido rente ao meio-fio.

O motorista não parou o veículo. Respondeu posteriormente à acusação de omissão de socorro. Às autoridades, disse que um morto é só um morto, que não havia razões para estacionar, pois imediatamente percebera que a vítima era fatal, não restando, portanto, nenhum propósito em prestar qualquer tipo de socorro. Não se socorrem defuntos, afirmou ele, chocando até os policiais já endurecidos pelo árduo cotidiano.

Igualmente se revoltaram com tal declaração os papéis em cima da escrivaninha, a escrivaninha embaixo dos papéis, o computador em cima da mesa e a mesa embaixo do computador. Este passou dias inutilmente ligado, assim como a máquina de lavar e o aparelho de som. O pão mofou, a manteiga amoleceu e os livros jamais foram reabertos. Todos os objetos se enfureceram com a frieza do condutor – revolta compreensível, é claro, afinal eles ainda estavam vivos.

Marcelo Maio nasceu em 1986, no Rio de Janeiro, cidade onde também cresceu. Aos 24 anos, mudou-se para Brasília, mas atualmente vive em Tóquio. Escreve desde a adolescência e teve contos e poesias premiados em concursos literários. Em 2015, lançou uma coletânea de contos, pela Editora Multifoco, chamada “O cemitério dos solitários”. Mantém o blog Dá uma lida!, onde “A espera” foi originalmente publicado.

Leia a seguir “Espelhos”.

Espelhos

[Rafael Rodrigues]

Chegará o dia em que, tal como Renato Valenzuela, aquele personagem de Mario Benedetti, derrotarei os espelhos. Mas, até lá, seguirei sendo vencido por meu reflexo, que, invariável e frequentemente, me ofende.

Diz ele que sou fraco, idiota, ingênuo e que cedo mui facilmente às tentações. Não necessariamente às da carne, mas a elas também.

Meu reflexo me pergunta, quase todos os dias, por que continuo não ouvindo a minha mãe, que, mesmo estando morta há vários anos, faz ecoar em minha mente seus conselhos.

Me humilham, os espelhos. Todos eles, onde quer que os encontre. Mas me humilha, principalmente, o do meu banheiro, esse espelho desgraçado com o qual convivo diariamente e nunca dividi com ninguém.

(E que, pelo visto, nunca vou dividir.)

Digo aos espelhos que a culpa não é minha. Sou como sou porque assim fui criado. A culpa é dos meus pais (eles estão mortos, então posso culpá-los sem medo). Foram eles que me impediram de viver a vida de maneira libertina, foram eles que me protegeram de tal maneira que, quando partiram, eu não sabia como proceder.

Os espelhos dizem que meus pais sempre quiseram o meu bem, e afirmam que não posso culpá-los por ser quem sou. Tive oportunidades, dizem os espelhos, de seguir outros caminhos, de tomar decisões que me fariam ter uma outra personalidade. Mas, segundo eles, fui e continuo sendo um covarde. Além disso, um canalha, por culpar meus pais por um fracasso que é somente meu.

Às vezes penso que os espelhos são fantasmas que foram enviados para me assombrar. Hoje mesmo disse isso a um deles, que me respondeu o seguinte:

“Se existe alguém que o assombra é você mesmo. Eu sou apenas um espelho. Apenas um espelho.”

Rafael Rodrigues é escritor, revisor, resenhista e editor da Outros Ares. Publicou os livros “O escritor premiado e outros contos” (Multifoco, 2011) e “Mais um para a sua estante” (Casa Impressora de Almería, 2017). Participou das antologias “O livro branco – 19 contos inspirados em músicas dos Beatles + bonus track” (Record, 2012) e “Tardes com anões” (Vento Leste, 2011). Mantém o blog Paliativos e escreve eventualmente para o Huffington Post Brasil. Mora em Feira de Santana, Bahia. “Espelhos” é um dos contos de seu próximo livro.

Cada um lê à sua própria maneira

Apesar de “Enquanto os dentes” (Todavia, 2017), primeiro livro do escritor carioca Carlos Eduardo Pereira, ser um romance curto, não consegui lê-lo rapidamente. Mas não pelo fato de a obra ser de difícil leitura, ou de haver obstáculos – tanto internos, ou seja, relativos ao próprio texto, quanto externos, ou seja, questões pessoais – para o avanço da leitura. O motivo da demora em concluir “Enquanto os dentes”, refleti em alguma pausa da leitura, foi a necessidade de um tempo para “digerir” todos os acontecimentos narrados em algumas de suas páginas.

A sensação que eu tinha é a de que o autor conseguiu a proeza de condensar várias páginas em apenas uma, como se ele conseguisse comprimir vários parágrafos em um só. Por preferir ler e escrever contos curtos, confesso que fiquei com inveja do Carlos. Mas uma inveja boa, por favor.

Em “Enquanto os dentes” acompanhamos Antônio, o protagonista, fazer uma travessia de balsa do Rio de Janeiro a Niterói. Mas não é uma simples travessia. No espaço entre uma cidade e outra, nessa distância a ser percorrida em menos de uma hora, a vida de Antônio mudará drasticamente. Ele voltará a viver com os pais, mas isso também não é assim tão simples. Antônio voltará a viver com pais dos quais havia muito estava afastado, principalmente do pai, com quem não fala há anos.

Entre a sua infância e o agora retorno para casa, já à beira dos 40 anos, muita coisa aconteceu. Antônio serviu ao Exército, cursou filosofia, descobriu-se artista, viajou pelo mundo, revelou-se homossexual, sofreu um acidente e perdeu os movimentos das pernas. Nada é simples em “Enquanto os dentes”.

Ou melhor: há, sim, um aspecto simples no romance de Carlos Eduardo Pereira: sua linguagem, sua escrita. Mas, a bem da verdade, é uma simplicidade disfarçada, pois não foi fácil conquistá-la. Foram dois anos de escritura e reescritura. E o resultado é um livro forte e emocionante, que conquistou o público e a crítica.

* * *

Vamos começar com a já tradicional pergunta inicial da Outros Ares: como e quando você começou a escrever? Em qual gênero arriscou suas primeiras linhas? Chegou a cometer poemas?

Em 2011 eu tentei manter um blog, onde eu escrevia sobre as minhas primeiras experiências circulando pelas ruas depois de me tornar cadeirante. A ideia inicial era criar um canal de comunicação com a família e amigos, mas logo percebi que eu tinha a tendência de ficcionalizar todas as postagens, à minha maneira. No ano seguinte eu ingressei na Puc-Rio, que mantém no curso de Letras uma habilitação dedicada à formação de escritores. Lá eles oferecem todo tipo de oficina de escrita, então comecei a produzir meus primeiros contos. Fui aluno do grande poeta Paulo Henriques Britto, numa turma de produção de texto poético, e devo dizer que foi uma das melhores oficinas que fiz. Mas não porque tenha passado a escrever poesia, e sim porque com ele se aprende a ler poesia, o que é fundamental para quem escreve prosa.

Quanto tempo levou a escritura de “Enquanto os dentes”? Como foi o processo de escrita dele? Fiquei com a impressão de que você retrabalhou o livro por um tempo (no mínimo) razoável, para que ele chegasse ao nível de concisão que tem (você parece comprimir várias páginas em apenas uma).

Levei uns dois anos escrevendo (e reescrevendo, claro) o “Enquanto os dentes”, e a maior parte desse tempo foi trabalhando a voz do narrador. Tive a ajuda de muitos amigos generosos durante o processo, que puderam ler e trocar impressões sobre como a coisa estava caminhando. A cada tratamento eu fui percebendo que ainda era possível enxugar o texto aqui e ali, o que, muitas vezes, contribui para potencializar algumas passagens.

Você frequentou algumas oficinas literárias. Com base na sua experiência, qual a importância dessas oficinas para um escritor? Comparando a maneira como você escrevia antes das oficinas e durante/depois delas, o que mudou?

Ainda frequento oficinas literárias, elas me ajudam de muitas maneiras. Nelas consigo manter certa disciplina, respondendo à proposta de produzir algo novo a cada dia. Mas talvez a principal vantagem seja a intensa troca que se faz nesses grupos: temos contato com o trabalho do outro, e somos estimulados a contribuir com esse trabalho. Ao mesmo tempo, recebemos também um retorno sobre o que nós fazemos. É um privilégio.

Quais são os autores que mais te influenciaram/influenciam? Quais os seus livros e autores prediletos?

Eu não tenho uma bagagem grande de leituras, não fui um leitor dos clássicos desde a juventude, então procuro ler o tempo todo para recuperar o tempo perdido (ok, nunca vai ser o suficiente, mas). A faculdade de Letras me ajudou demais nesse sentido, pude conhecer Cervantes, Faulkner, Kafka, Bolaño, César Aira, ainda tive a sorte de me encontrar com o trabalho da Carola Saavedra, da Adriana Lisboa, do Rubens Figueiredo, do Ondjaki, do Paulo Scott, ficaria aqui citando uma lista interminável de autores incríveis. Por isso costumo dizer, se me fazem essa pergunta, que meu livro predileto é a leitura atual: e no momento estou lendo o “Coisas que os homens não entendem”, da grande, grande, grande Elvira Vigna [Nota do Editor: a entrevista foi concedida em março de 2018].

Antônio, o protagonista de “Enquanto os dentes”, é negro. Há alguma ligação entre o destino dele e a cor da pele? Talvez soe estranho levantar uma hipótese sobre um personagem de ficção, mas, sendo mais direto, a pergunta é: se Antônio fosse branco, ele teria tido mais oportunidades e “Enquanto os dentes” seria um livro totalmente diferente?

Tudo conta num romance, toda informação é importante, ajuda na construção da trama. Portanto, o fato de Antônio ser negro é fundamental, sim, para sua composição como personagem. O “Enquanto os dentes” discute muitas questões (pautas que, felizmente, estão na mesa da nossa sociedade atual e devem mesmo ser discutidas, em várias frentes), mas as motivações de Antônio estão ligadas sobretudo aos desencaixes familiares, a seguir em frente apesar das condições adversas. Gosto de pensar que o livro aborda aspectos da condição humana, de forma mais ampla, possíveis de ocorrer com negros ou com brancos, indiferentemente.

Além de negro, Antônio é cadeirante e homossexual, mas em momento algum lemos qualquer discurso panfletário em “Enquanto os dentes”. Enquanto escrevia o livro você pensou sobre essa questão, ou seja, se o romance soaria panfletário?

A última coisa que gostaria é de que o livro soasse panfletário, ou melhor, penúltima, porque pior do que isso seria que ele fosse lido como uma história de superação. Mas o legal na literatura é que o leitor traz para o livro a sua bagagem de experiências pessoais, cada um lê à sua própria maneira. Seria um erro grave se o narrador, ou uma circunstância qualquer, induzisse o leitor a conclusões específicas, e procurei trabalhar para que nada parecido acontecesse.

Depois de uma estreia tão elogiada como a sua, é inevitável não fazer perguntas sobre o próximo trabalho. Li que você já está trabalhando num novo livro, pode falar um pouco sobre ele?

Pois é, estou no meio de um projeto novo, sim. É um romance que trata (entre muitas outras coisas, claro) de racismo. Mas um racismo abordado de uma forma (acho que) diferente da maneira que vejo por aí, um racismo interno a uma família de negros, algo que me toca profundamente. Vamos ver.

Por fim, mais uma pergunta que fazemos – e continuaremos fazendo – a todos os entrevistados: fala-se muito de baixas vendas, pouco investimento nacional, pouca divulgação a escritores locais e baixa escolaridade – fatores que juntos ou separados formam o “problema” da literatura brasileira atual. Antes de tudo, a literatura tem problemas? Quais são os principais, na sua opinião, e quais seriam as soluções?

Muito se fala que no Brasil temos um baixo número de leitores, e eu concordo, claro, mesmo sem ter acesso às pesquisas mais recentes sobre o assunto. Mas gosto de pensar que esse cenário tende a mudar. Primeiro porque tem mais gente escrevendo (e lendo) na internet, e esse fato pode, no médio a longo prazo, transformar a maneira como vemos essa questão nos dias de hoje, a conferir. Outro ponto são as oficinas de escrita (eu acho que) cada vez mais procuradas, o que também tem lá seu potencial de mudar esse jogo. E tenho percebido um (re)surgimento de clubes de leitura espalhados pelo país, em cada cidade parece ter pelo menos um grupo de pessoas se reunindo numa livraria, ou numa biblioteca, ou numa igreja, ou num shopping, em torno da leitura conjunta de um livro, com as propostas mais variadas. Torço muito para que iniciativas/tendências como essas, em conjunto com as ações governamentais, possam gerar resultados positivos para o quadro atual.

Leia a seguir um conto inédito de Carlos Eduardo Pereira.

Ponto de vista

[Carlos Eduardo Pereira]

Depois que atingi certa idade, ainda mais tendo vivido as experiências que vivi, quando os dias estão como o de hoje, sobretudo as manhãs, manhãs como a de hoje, eu tendo a pensar nessas coisas. Daqui de cima enxergo umas folhas pequenas, milhares delas, ou mais que milhares, que se destacam, talvez pelo seu brilho, talvez porque numerosas desse jeito, elas se destacam, se comparadas aos galhos e troncos que as sustentam, inclusive às raízes, que daqui não consigo ver, mas sei que elas estão por lá, e aposto que são, assim como os galhos e troncos, de uma espécie de marrom barrento. Não há como imaginar essas folhas soltas no ar, como os pássaros que vejo daqui, e não sei de que tipo eles são, ou de que raça, só sei que eles hoje são poucos, e estão no alto, asas abertas quase imóveis, planando em círculos, para dentro e para fora de umas nuvens. As mais que milhares de folhas, que, disso eu tenho alguma certeza, variam na forma e na tonalidade, elas são, de fato, pequenas, cada qual poderia ser esmagada facilmente na mão de um desses garotos do condomínio. Produzem sombra essas folhas. Sem muito esforço, eu posso supor que por baixo da proteção dessas folhas há também mais que milhares de bichos, pequenos e grandes, dependendo da perspectiva, formigas, e cobras, e macacos, e gambás (ouço daqui também cigarras, mas essas só fazem cantar até explodir), bichos que vivem de devorar outros animais, é assim que eles fazem, eles se comem uns aos outros, e agora mesmo uns insetos minúsculos devem estar por aí, caçando alguma coisa para comer, ao mesmo tempo em que emitem grunhidos facilmente identificáveis, mas que são dificílimos de descrever. Sim, as construções. Daqui de cima dá para ver, camuflados, uns pedaços de lajes, ou de caixas d’água, ou de anteninhas parabólicas, ou de tijolos aparentes, de rebocos, ou de canos ou de tubos PVC, ou de buracos nas paredes, ou de telhas, ou de varais (com roupas coloridas penduradas neles, aproveitando o mormaço), ou de gambiarras, e um muro invisível, coberto por uma camada escura e, parece, rugosa, que eu vou chamar de limo, e não sei se é esse mesmo o nome certo, assim como não sei também se ele pode ser chamado de muro de contenção (e digo isso porque existe uma notável diferença de nível entre o lado de lá e o de cá). Posso ver essas coisas, o que não deixa de ser curioso, já que esse cenário aparece desde o pé da montanha e vai terminar num cruzeiro enorme, uma tremenda cruz cravada no topo por alguém, e cujos detalhes o vizinho do décimo sexto é que, ao menos eu penso, deveria ser capaz de enxergar de verdade. Não tem vento nem nada. Se me apetece, hoje eu também posso olhar para o outro lado, o lado direito. Daqui do sétimo, que na verdade nem é sétimo, pois há que se considerar também a portaria, os dois andares-garagem, o playground, portanto décimo primeiro, daqui do, digamos, décimo primeiro andar, da minha varanda, observo, através desta rede, mais que dezenas de prédios iguais. Da minha varanda, no cruzamento da Nossa Senhora com a Avenida Dom Helder. Eu não posso afirmar, mas me parece que há crianças na piscina, aproveitando o mormaço, e há velhos, e as babás dessas crianças, e as cuidadoras desses velhos, formam uma roda em volta dos celulares, e as identifico porque estão todas de branco, e ainda acredito que ali mais para o fundo esteja a praia, e o Cristo Redentor, e a Lagoa Rodrigo de Freitas, e o paredão de rochas que chamam de Pão de Açúcar.

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Luto

[Ernane Catroli]

Depois. Depois aguardei o teu sinal à sombra da casa onde me deste à luz. Os novos moradores olhos arregalados diante daquela figura esquálida. E nem demorou a aragem tépida nas plantas do jardim, volteios de folhas secas aos meus pés, um silêncio prolongado que insistiu e o portão à minha direita que rangeu entreaberto para o que viceja em mistério e sob códigos. Os nossos códigos. Acho que te dei um piscar de olho. Acho. Mas tenho certeza que te fiz um aceno.

Ernani Catroli é natural de Sant’Anna de Cataguases, MG, onde passou infância e adolescência. Há muitos anos reside no Rio de Janeiro. Bioquímico de formação, exerce atividades científicas e acadêmicas na área de Saúde. Publica regularmente em alguns blogs dedicados à cultura.

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12º round

[Rafael Gobbo]

Ever tried. Ever failed. No matter. Try Again. Fail again. Fail better.
(Samuel Beckett)

José Aguerrido de Oliveira caiu pela terceira vez. Sua visão estava comprometida e embaçada. Três malditas quedas em menos de vinte minutos. Não era nada bom, nem um pouco!

Suas pernas e braços já exaustos, no entanto ainda tinha o controle. O vigor e o bom condicionamento físico da mocidade já se foram há muito. O corpo inteiro dolorido. Lutar aos quarenta e oito anos é burrice, pensava. Mas fazer o quê? A necessidade era grande, se impunha. Boxeador: era só o que sabia ser. Seus ídolos: Muhammad Ali, Mike Tyson, Éder Jofre e Popó Freitas. Fazia parte da estatística social brasileira: era um negro corpulento, de um metro e oitenta e dois, que crescera em uma família pobre. Não teve incentivos e nem se interessou por estudar. Mas sabia bater, isso sabia. A hipoteca da casa atrasada dois meses, contas e mais contas a vencer. Não tinha jeito. Receber murros para se sustentar era algo que já fazia há muitos anos, talvez aguentasse mais um. Era o que esperava.

Estavam no décimo primeiro assalto, e o adversário, apesar de ostentar a força e disposição da juventude, não sabia se poupar. Chegara muito afoito no começo da luta e mostrava sinais de cansaço. Já vira muitos fazerem isso, inclusive ele mesmo, quase trinta anos atrás. Sabia que o mais importante era manter-se em pé e se movimentar, aproveitando todas as dimensões do ringue. Mesmo para o perdedor, a quantia a ser embolsada era razoável, mas não poderia ser derrotado antes do último assalto, o décimo segundo, ou perderia muito dinheiro.

Jab, direto; jab, jab, direto; gancho, cruzado. Droga, pugilar com fome é foda! José nem viu de onde veio a pancada. No queixo. Bem no meio da porra do queixo! Não ambicionava muito, só não queria cair mais uma vez antes do último assalto, não aguentaria mais uma queda. A visão se fechou. Enquanto perdia os sentidos, anestesiado pelo golpe, indo em direção à lona, fez um instantâneo balanço de sua vida até agora: teve dois casamentos fracassados, foi pai ausente, e aguardava a iminente ordem de despejo que viria. Que merda, ia beijar o chão!

O som do corpo ao atingir o solo foi duro e seco. Um. Que bom, não perdi a consciência. Dois. Abra os olhos e pisque algumas vezes. Três. Preciso levantar. Quatro. Essa carcaça velha parece chumbo de tão pesada. Cinco. Isso, um pé de cada vez. Seis. Suba firme e devagar. Sete. Já enxergo melhor. Oito. Estou de pé, vejam, estou de pé! O juiz o avaliou minuciosamente com seu olhar inquisidor e contraiu levemente o rosto, esboçando o que parecia ser um sorriso, quase imperceptível, e deu prosseguimento ao combate.

Os últimos segundos do assalto passaram voando. O gongo tocou. José nem lembra como foi o décimo segundo. Perdeu por unanimidade, mas não por nocaute. Parte do orgulho ainda estava intacto. Tinha aguentado!

No caminho de volta pra casa, a pé (precisava de cada centavo que ganhou e não iria desperdiçá-los com ônibus ou metrô), José divagava. O rosto todo fodido e inchado, as pernas latejando de cansaço, as juntas das mãos inflamadas, nada disso matava o tiquinho de esperança e a sensação de dever cumprido. Almejava sua cama e o sono merecido, mas não conseguiria dormir de uma vez, estava feliz!

Depois de passar por vários cruzamentos, avenidas e ruelas, estava a quarteirões do apartamento onde morava, localizado num prédio velho, sujo e malcuidado, quase caindo aos pedaços, no centro da cidade. Mais um entre tantos outros edifícios da vizinhança. Há anos, desde que saiu da liga profissional por chegar aos quarenta anos e aceitou participar de lutas clandestinas, José faz o mesmo trajeto de volta pra casa após trocar socos. Ao subir na calçada já tão familiar, a uma esquina de sua paupérrima e decadente residência, se perguntava: Será que consigo alguma luta semana que vem?

Rafael Gobbo é escritor, jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero e pós-graduado em comunicação empresarial pela Universidade Metodista de São Paulo. Atualmente trabalha com comunicação em órgão público. “12º round” é um dos contos de “Pancadas” (Viseu, 2017), primeiro livro do autor.

Leia a seguirÉ por isso que estou aqui“.