Três narrativas de Lydia Davis

O pelo do cachorro

O cachorro se foi. Temos saudades dele. Quando toca a campainha, ninguém late. Quando chegamos tarde em casa, não tem ninguém nos esperando. Ainda encontramos seus pelos brancos pela casa e nas nossas roupas. Catamos todos os pelos que encontramos. Deveríamos jogar tudo fora. Mas é só o que nos resta dele. Não jogamos os pelos fora. Temos uma esperança irracional – a de que se conseguirmos juntar bastante pelo, conseguiremos remontar o cachorro pelo a pelo.
[página 16]

Homens

Há também homens no mundo. Nos esquecemos, às vezes, e pensamos haver apenas mulheres – infinitas colinas e planícies de mulheres lassas. Fazemos piadinhas e nos consolamos umas às outras e nossa vida passa fugaz. Mas de vez em quando, é verdade, um homem emerge inesperadamente entre nós, como um pinheiro, e nos olha selvagem, e nos dispersa correndo, claudicantes, desaguando em enchentes, escondendo-nos em cavernas e desfiladeiros até que ele parta.
[página 116]

Escrever

A vida é séria demais para eu continuar a escrever. A vida era mais fácil antigamente, e também mais agradável, e na época escrever era bom, mesmo que também parecesse sério. Hoje, a vida tornou-se muito séria e a escrita, por comparação, parece tolice. Escrever nem sempre é sobre coisas reais e, mesmo quando é, muitas vezes toma o lugar da realidade. Escrever é muitas vezes sobre pessoas que não dão conta de sua vida. Agora, me tornei uma dessas pessoas. O que eu deveria fazer, em vez de escrever sobre pessoas que não dão conta de sua vida, é parar de escrever e tratar de dar conta. E prestar mais atenção na vida. O único jeito de eu ficar mais inteligente é parar de escrever. Deveria estar fazendo outras coisas em vez de escrever.
[página 266]

(Do livro “Nem vem”, tradução de Branca Vianna.)

Comece a ler os contos escolhidos desta edição:nuvens com vista para o mar“.

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nuvens com vista para o mar

[Assis Freitas]

Edyara usava cabelos encaracolados, óculos quadradinhos e tinha uns lábios que sopravam idiossincrasias.

Mariângela eu conheci numa viagem de pesquisa, ela namorava outra garota. Uma noite sonhei que ela estava ao meu lado na cama e que nos beijávamos e transávamos.

Algum tempo depois ela me disse que o sonho acontecera.

As minhas mulheres sempre foram flutuantes, nuvens benfazejas que pairavam no céu. Algumas viraram realidade, outras sempre foram desejo. Mas eu nunca consigo discernir as fronteiras deste paradoxo.

Houve a Goly, Ivonize, Verônica. A Soraya desfilava o corpo bronzeado na praia em frente ao apartamento que eu morava. Tinha passos doces, olhava para as pessoas com ar de realeza. Na vez que cingi aquele corpo delgado
contra o meu pude perceber a delicadeza de coxas, seios e uma boca que aspergia anseios.

Um dia Nívia amanheceu sorrindo estrelas. Deitou desejos sobre a estrada do tempo e me fez contemplar a florescência de loucas luzes. Eu sempre tinha silêncios a oferecer, às vezes uma ou outra palavra de fervor. Mas
a intensidade dos gestos não permitia elucubrações. Era sentir e sentir e sentir. Até se dissiparem todas as amarras dos quereres. Sabe esses ventos que os lábios sopram. Essas delicadezas que brotam das mãos. O úmido recanto da língua em epifania.

Há outras que não posso nomear por puro desconhecimento.

Como a que encontrei no restaurante do hotel durante o café da manhã e enquanto fazíamos o desjejum trocávamos olhares. Horas depois, estava à porta fumando um cigarro e a vi se aproximando no banco traseiro de
um carro que contornava lentamente a curva da avenida.

De repente, ela virou o rosto na minha direção e deixou cair uma bola de papel sorrateiramente. Eu me arrisquei entre os carros e consegui pegar aquele mimo que o vento teimava em distanciar. Quando desfiz a bola de papel, havia um número de telefone desenhado numa caligrafia apressada. Tentei ligar uma vez, mas do outro lado da linha reinou um silêncio de respiração ofegante.

Assis Freitas, poeta, escritor e jornalista, mora em Feira de Santana (BA). É autor de vários livros, sendo o mais recente “há um poema morto na sala”.

Leia a seguirQuaresmal“.

Quaresmal

[Ernane Catroli]

(…) to live with my mother in her old age, and mine.
(Raymond Carver)

Conhece-os de outras paragens e os procura pelos cômodos da casa. Tão pálidos. Espectros. E trazem todos as mãos ocupadas. Uma gaiola, um anzol, uma bússola, um isqueiro aceso. Borboletas de asas urticantes voejam ou pousam nas paredes, nos móveis. Já antes, as estampas de santos em molduras, entremeadas de espinhos e cacos de vidro – como dentes afiados – no chão que pisava. E não sei se já lhe disse que tomamos conta de um menino! Um menino inquieto. Agora ele deve estar na escola.  E não esqueça que preciso ir para a minha casa. Por que ainda estamos aqui?

Que perdeu dois filhos, a coragem, os dentes, o brilho dos olhos. Dois filhos. Era tarde avançada quando fui buscá-los seguindo a linha do trem até aquela primeira meia curva. Tinham saído muito cedo para pescar e armar arapuca para passarinhos. Paixão por passarinhos. Passava muito da hora do almoço. O bambuzal tombado pelo vento. O zumbido do vento. Um temporal. Ainda assim os meus gritos. Quanto às alianças de noivado, ali mesmo na loja colocamos nos dedos. Sábado. Manhã de sábado. Agora elas estão aqui. Dentro da minha viuvez. Dentro do pesadelo.

Antes de dobrar a esquina me virei. Ela acenava da entrada do beco sob a luz amarela de um poste da avenida. Madrugada. Último horário do ônibus.  E o Rio. O Rio quando ainda os visitantes não haviam chegado.

Anoitecia quando deixamos o consultório do médico. Enquanto esperávamos um táxi, ela baixou a cabeça, brincou com um botão frouxo da minha camisa; secou uma lágrima. Depois procurou meus olhos. De mãos dadas ficamos em silêncio. Um misto de dor e compaixão. O amor mais forte agora.  A revolta. Também ódio. E o medo maior. Algo muito grave nos aconteceu. Foi quando comecei a me despedir.

Ernani Catroli é natural de Sant’Anna de Cataguases, MG, onde passou infância e adolescência. Há muitos anos reside no Rio de Janeiro. Bioquímico de formação, exerce atividades científicas e acadêmicas na área de Saúde. Publica regularmente em alguns blogs dedicados à cultura.

Leia a seguirLigeia“.

Ligeia

[Roberto Prado]

Caríssimo, desculpe-me a ausência, mas essa missiva traz-lhe boas novas.

Conheci acidentalmente uma moça muita linda. Encontrei-a numa inesperada ida minha à praia. Sabe bem o bom amigo sobre o que penso do sol na cabeça, isso me remete à desgraça de Mersault, mas o Destino – sim, com “D” maiúsculo – sempre nos prega peças… Sim, estava a andar a esmo, pensando na falta de sentido da vida, quando – Louvado seja Deus! – a vi dentro d’água (quase ouso dizer que eu a ouvi antes de vê-la)!

Sem pensar e sem dar por mim, me vi pulando ondas, mergulhando, nadando como se tivesse feito isso toda a minha vida. Não sei por quanto tempo dei braçada e mais braçadas até que me aproximei dela – e ela cheirava a sal…

Faltam-me palavras, verbos, substantivos, adjetivos, falta-me toda uma gramática, um alfabeto para descrevê-la (dominasse eu o grego!), e por isso não o farei aqui e nem em meu último suspiro, por isso peço-lhe: SIMPLESMENTE CREIA EM MIM!

Ficamos horas a conversar boiando nas ondas, mas meus olhos, minha alma, todo meu eu afundava-se naqueles olhos verdes…

Nesse mister passou-se todo o meu dia, e somente ao pôr do sol despedi-me dela.

Perguntei onde ela morava, como poderia encontrá-la outra vez, e ela, olhando para o horizonte sem fim, respondia com doces negativas e um sorriso que levaria qualquer outro homem à loucura. Qualquer outro homem que não este seu amigo versado em ciências do absurdo e do oculto à vista de todos…

Arrisquei-me a inquirir seu nome. A resposta veio junto com um sorriso lindo:

– Ligeia.

O sol já começava a se pôr, seu reflexo na água me ofuscava, e quando cheguei perto para abraçá-la, num pirueta mergulhou e desapareceu… As gaivotas grasnavam em coro, elas riam de minha angústia, de minha dor, e lembrei-me nesse instante a razão de minha antipatia pelo mar.

Caríssimo, esse tempo sumido se deve à minha insensata busca por ela. Ando de praia em praia, ora gritando:

– Ligeia!

Ora murmurando:

– Ligeia!

Assim passo meus dias n’água, ando mais enrugado do que deveria nessa minha provecta idade. Acho que já estou ficando com meus cabelos verdes… Meu bronzeado já está transformando minha pele em papiro. Há vezes em que, chegando em casa após o dia inteiro na praia, não me reconheço em frente ao espelho.

Caríssimo, o amor na nossa idade é realmente um risco fatal!

Minha vida mudou, estou irreconhecível, e, sem perceber, alterei drasticamente meu modo de viver e de me alimentar. Duvida?

Veja a receita que lhe envio:

SALADA DE ALGAS E PEPINO

Ingredientes:
– 25g de mistura de algas secas
– 1 pepino pequeno
– 75ml de mirin
– 75ml de vinagre de vinho de arroz
– 2 colheres de sopa de açúcar amarelo
– 2 colheres de sopa de sumo de limão

Faça assim:

1. Ponha as algas de molho numa taça com água fria e deixe repousar 15-20 minutos para amolecerem;

2. Corte o pepino ao meio no sentido do comprimento e depois em meias-luas muito finas; em seguida, ponha as algas, grosseiramente picadas, e o pepino numa tigela;

3. Misture o mirin com o vinagre de vinho de arroz e o açúcar num tacho pequeno e leve a lume brando até o açúcar dissolver. Retire do lume e deixe arrefecer. Junte-lhe o sumo de limão;

4. Deite o molho de vinagre sobre as algas e o pepino e envolva cuidadosamente. Sirva em taças pequenas ou pratos individuais.

A princípio você deve estranhar, mas com o tempo e uma paixão avassaladora, logo se adaptará.

Caríssimo, estou um homem muito velho para tais emoções. Enquanto traço estas linhas, uma voz doce canta em meus ouvidos, a dúvida me rói. Será Ligeia? Será a loucura que já me come pelas beiradas?

Aguardo resposta.

P.S.: Envio-lhe estas conchinhas. Uma de cada praia a que vou.
P.S².: Espero que goste da salada.

Abraços salgados.

Roberto Prado tem vários livros publicados, entre eles “Gringa & outras histórias”, “Contos” e “Das doidas desventuras de Doidinho & Dona Dedé”. É Membro Correspondente da Academia de Letras de Teófilo Otoni (MG) e mantém o blog Etc & Basta.

Leia a seguirDependência literária“.

Dependência literária

[Rafael Rodrigues]

Se as grandes nações realmente se preocupassem com o bem-estar de todos, já existiria algum tipo de terapia — ou mesmo clínicas de reabilitação — para dependentes literários.

E ela seria importada por psicólogos brasileiros, é claro. Haveria até mesmo um Globo Repórter dedicado ao tema. O que é a dependência literária? Quem pode ser acometido por ela? Como vivem os dependentes? O que vestem? Do que se alimentam?

“A dependência literária, ou o vício desenfreado em livros”, diria a repórter, “é um transtorno obsessivo compulsivo que se apodera de praticamente todo apaixonado por literatura”. “Os atingidos por esse distúrbio têm como lema”, revelaria a jornalista, “uma frase do filósofo holandês Erasmo de Roterdã: ‘Quando tenho um pouco de dinheiro, compro livros. Se sobrar algum, compro roupas e comida’”.

Em seguida, seria mostrado o primeiro depoimento da matéria. O rosto da dependente seria mantido em segredo com um efeito de luz e sombra. Sua voz também seria alterada. Como uma pata rouca, ela diria: “Eu ia comprar um sapato mas, em vez de comprar um de duzentos, trezentos reais, comprava um de setenta, oitenta, no máximo cem. O resto eu gastava na livraria. Fazia isso de quinze em quinze dias”.

Um corte de imagem e a jornalista agora estaria numa livraria. Ela mostraria um expositor de livros de bolso e faria as contas: “com duzentos reais um dependente pode comprar de dez a vinte livros”.

Mais um corte e a pata rouca falaria novamente: “Da última vez, eu comprei doze livros de bolso. O sapato eu comprei para ir a uma festa, nem sei quando vou usar de novo. Esses livros vão passar o resto da minha vida comigo. Eu amo meus livros”.

Novo corte. Um outro repórter estaria numa cidade do interior de algum estado. Ele não revelaria a localidade para não comprometer a identidade do dependente que seria entrevistado. Também com o rosto escondido e a voz alterada para a tonalidade do que poderia ser um urso de boca cheia, ele diria: “Como aqui não tem livraria, eu compro muito pela internet. O carteiro passou a entregar tanto pacote que às vezes já chegava reclamando. Ele dizia que a nossa casa fica fora do roteiro, mas isso não é problema meu”.

A reportagem prosseguiria, e o rapaz faria outra denúncia: “Depois de um tempo, os Correios começaram a me boicotar. Não é paranoia: nunca mais encontrei frete grátis para a minha cidade, faz um tempão que eu não compro nada. O último pedido que eu fiz tem quase dois meses! E só comprei porque o site estava em promoção”.

A equipe do jornal solicitaria aos Correios um pronunciamento sobre as acusações do rapaz. A empresa afirmaria, em nota, que a empresa “busca servir a comunidade da melhor maneira possível” e que não comentaria “a atitude do carteiro”. No último parágrafo, a nota destacaria que “esse rapaz necessita de ajuda psicológica”.

Novo corte e a equipe do Globo Repórter agora entrevistaria um psicólogo. “Como curar a dependência literária?”, perguntaria o repórter. O psicólogo responderia: “O primeiro passo é o paciente admitir que tem um problema. O segundo é querer passar pelo tratamento. Nos casos mais graves, é mesmo necessário ser internado em uma clínica de reabilitação. Lá, eles têm acesso à internet, mas apenas para se comunicar com a família. Os computadores são bloqueados para acessar sites de jornais, livrarias, redes sociais e até mesmo blogs literários — sejam eles nacionais ou estrangeiros”.

Enquanto o psicólogo fala, seriam veiculadas imagens da área de recreação da clínica, repleta de homens e mulheres atônitos, com o olhar fixo no horizonte. De repente, um deles se desesperaria e gritaria “Amazon! Submarino! Saraiva! Americanas! Estante Virtuaaaaaaalllllll” e sairia correndo, numa tentativa de fuga, mas os enfermeiros o deteriam, mesmo que não houvesse necessidade: os muros e portões seriam altíssimos, intransponíveis.

A imagem voltaria para o psicólogo: “O terceiro passo é desintoxicar os pacientes. Para isso, eles são submetidos a sessões diárias de audições de trechos de livros ruins. É preciso deixar claro que essas leituras são realizadas por uma gravação. Jamais submeteríamos nossos profissionais ao contato diário com obras desse tipo. Além disso, os pacientes são submetidos a audições dos piores lançamentos da música nacional e internacional. E também a sessões de filmes vencedores do Framboesa de Ouro, aquele prêmio concedido aos piores filmes do ano. Porque não se trata apenas de livros. Um dependente literário geralmente também é viciado em filmes e músicas ‘cult’. O processo de desintoxicação pode parecer desumano, para alguns, mas é absolutamente necessário”.

“Esse tratamento tem dado resultados?”, questionaria o repórter. “Sim”, responderia o psicólogo, “temos um alto índice de reabilitados. Meu filho, inclusive, passou por esse tratamento. Foi um choque para mim e para a minha esposa, mas não tivemos escolha. Ele só comprava CDs e DVDs originais, só queria ouvir Radiohead, Belle and Sebastian, Interpol e bandas desse tipo, só assistia a filmes de Terrence Malick, Charlie Kaufman, Paul Thomas Anderson e outros cineastas melancólicos. Foi uma fase muito complicada para nós, mas conseguimos superar. Hoje, ele já consegue assistir a filmes de comédia”.

O programa encerraria com uma mensagem de otimismo, conclamando aos pais e amigos dos dependentes literários a convencê-los a procurar ajuda. E os créditos finais subiriam com as imagens de um paciente recuperado assistindo, empolgado, a um show de música pop.

Rafael Rodrigues, editor da Outros Ares, nasceu em Feira de Santana (BA), onde vive. “Dependência literária” é parte integrante do livro “Mais um para a sua estante”.

A ameaça comunista

[Rafael Rodrigues]

(Brasil, 2017, numa escola sem partido)

“Vocês precisam entender o seguinte: nosso objetivo não é vencer as discussões com argumentos. Não temos o menor interesse em debater com o adversário. O nosso objetivo é vencer o interlocutor pelo cansaço.”

“Professor, uma pergunta: o que é interlocutor?”

“É aquele com quem você está dialogando, Jair. Por exemplo: se você e o Carlos Alberto estão conversando, um é o interlocutor do outro.”

“Ah, tá, obrigado.”

“Continuando, eu quero que vocês entendam o seguinte: o quanto antes o interlocutor desistir da conversa, melhor. Quando isso ocorre, vai ficar a impressão, para os outros, de que a sua palavra prevaleceu, e que o interlocutor ficou sem argumentos, ou seja, que ele foi vencido. Entenderam?”

(Coro) “Sim, professor.”

“Vamos lá, um exemplo prático. Vamos supor que eu publique, no Facebook, o depoimento de um pai falando que seus dois filhos entraram numa onda comunista e que, para resolver a situação, ele decidiu confiscar os celulares, os computadores, os tênis, as roupas de marca dos garotos, e deu-lhes pijamas, sandálias de couro e material para eles fazerem artesanato e vender na rua. E que, após ter feito isso, os garotos desistiram das ideias comunistas. Logo em seguida, um comunista comenta: ‘Isso não é um pai, é uma cavalgadura’. O que vocês fariam?”

“…”

“Ninguém arrisca?”

“…”

“Emílio, Carlos Alberto, Jair?”

“…”

“Ok, vamos lá. As respostas devem ser breves, curtas e enfáticas. O ideal…”

“Professor, o que é enfática?”

“É quando você é taxativo, veemente, Jair.”

“…”

“Firme, Jair. Quando você diz alguma coisa com firmeza, digamos assim.”

“Ah, tá, entendi.”

“Como eu ia dizendo, o ideal é que seu comentário tenha apenas uma linha, para que fique a impressão de que você não tem dúvidas quanto a sua opinião. E também para não arriscar escrever alguma coisa que possa ser utilizada contra você. Além disso, é importante desafiar a paciência do interlocutor. O quanto antes ele perder a paciência e parar de contra argumentar, melhor. Portanto, a resposta ideal nesse caso seria dizer alguma coisa do tipo ‘nem todo herói usa capa’. Entendido?”

“Mas e se a pessoa responder de novo, professor?”

“Bem, digamos que o interlocutor conheça o caso do pai que matou o filho por discordâncias políticas e traga isso à tona. Você…”

“Professor, o que quer dizer ‘traga isso à tona’?”

(Chutando a mesa.) “PORRA, JAIR! PORRA! CARALHO! Trazer à tona significa revelar, mostrar, colocar isso na conversa, cacete.”

“Desculpa, professor, é que eu…”

“É que eu nada, Jair. Você precisa ler mais, porra. Você precisa ler mais. Bem, continuando, vocês devem responder a esse comentário com algo do tipo ‘Por trás de todo jovem comunista tem um pai capitalista dando duro para sustentá-lo’. Percebam que, dizendo isso, vocês levarão a conversa para outro rumo. O post do pai já não será o foco da discussão, e sim o capitalismo e o comunismo. É até possível que, nesse momento, o assunto seja encerrado.”

“Mas e se alguém comentar novamente, professor?”

“Comentar o quê, por exemplo, Reinaldo?”

“Ah, sei lá, algo tipo ‘pai que dá duro não é capitalista, é trabalhador’, por exemplo. Ou que não existe mais comunismo no Brasil.”

“Reinaldo, você está com umas ideias muito perigosas… Precisamos conversar sobre suas leituras e companhias depois. Mas, bem, nesse caso, a melhor resposta seria ‘então o trabalhador não pode ser capitalista?’ ou ‘todo trabalhador é comunista, então?’. A partir daí temos dois cenários: ou o interlocutor desiste da conversa, ou ele insiste e argumenta que o trabalhador pode ser capitalista, desde que monte seu próprio negócio, por exemplo. Percebam que, nesse caso, temos um interlocutor astuto… Inteligente, Jair.

O melhor a fazer, caso a conversa chegue nesse nível, é desviar do assunto e utilizar uma frase infalível, que fará nosso adversário desistir de dialogar e nos deixará com a última palavra. A frase é curta, e vocês já conhecem: ‘o importante é que os heróis de 64 acabaram com os comunistas’. Entenderam?”

(Coro) “Sim, professor.”

“Ótimo. Agora vamos falar sobre a ameaça da invasão russa ao Brasil.”

Rafael Rodrigues, editor da Outros Ares, é autor de “O escritor premiado e outros contos” e “Mais um para a sua estante”.

O rei de todos os naipes

[Eugenia Zerbini]

– Ria, ria. Os homens são assim; não acreditam em nada. Pois saiba que fui, e que ela adivinhou o motivo da consulta, antes mesmo que eu lhe dissesse o que era.
“A cartomante”, Machado de Assis

Cinco vogais. A estrutura de tudo, ou quase tudo. Pelo menos de muita coisa. Ao menos nas línguas latinas, em que cada sílaba é integrada no mínimo por uma vogal.

Esse começo seria outro se estivéssemos falando polonês, onde as consoantes se rebelam e se juntam em sindicatos para fazer comício. Cinco vogais, cinco cartas. A carta do meio, a questão. A da esquerda, o aporte do passado; a da direita, o futuro; a inferior, aquilo que se encontra subjacente à questão; a superior, por fim, o facho de luz que esclarece a jogada.

Desse jeito é que ensinam os manuais. Mas uma das regras que a vida me ensinou é que nem sempre as regras devem ser seguidas. Ainda mais a partir do instante em que você escuta aquele estalo e se dá conta que é possível ter certeza de quando segui-las ou não. Pode demorar um tempo (o que não foi o meu caso). Olhe, algo me diz que, neste momento, o importante é seguir a direção do olhar desses cachorros, que latem debaixo da Lua, olhos fixados para além dos muros e das duas torres.

– Eu vejo aqui uma mudança. Uma mudança significativa. Até imagino que você veio procurar resposta para ela.

A jovem mulher recebia esse alerta de um homem maduro, elegante. Um desses tipos bem familiares para os que frequentam os clubes de campo. Mocassins sem meia, calça cáqui, camiseta branca por baixo do suéter marinho folgado. Contidamente bronzeado no rosto. Os cachorros ladrando à luz da Lua. Ele sorria; a primeira vez que tivera uma premonição, ela fora tão arrebatadora que ele se afastara dos pais e se dirigira para uma desconhecida, em pleno saguão do Hotel Danieli, em Veneza. Catapultado por um impulso que nem ele entendia, avisou que ela não deixasse o marido e abrisse mão do outro homem. Senão, ela seria muito infeliz.

O outro será seu amante, nunca seu novo marido.

Os pais não entenderam. Dez anos, menino de tudo. Embaraçados, queriam morrer de vergonha. Pediram mil desculpas para a senhora. Ela manteve um sorriso impassível, prometendo desculpar a criança se os pais permitissem que ela o levasse para um giretto curto, só para tomar um sorvete perto dali. Ninguém ousou dizer não àquela altura, logo para ela, uma suíça dona de fábrica de relógio, hóspede do Danieli há anos, conhecida do gerente do hotel. Ela tomou o menino pela mão e saíram. Na verdade, à procura de um daqueles quiosques que vendem cigarros no entorno da Piazza San Marco. Lá venderiam também um baralho de cartas. Em seguida, foram apressados para o café Florian. Em uma mesa de canto, ele leu para ela as cartas do Tarocchi. Pela primeira vez na vida.

Deu-se conta então de que todo o segredo era investigar os detalhes, os gestos discretos, as expressões daqueles rostos pintados, aparentemente imóveis. Em que direção apontava o chapéu, os pés ou as mãos do personagem, a pata ou o rabo do animal e, principalmente, os olhos das figuras. Entre colheradas de sorvete de chocolate, advertiu que aquela mulher deveria procurar o marido o quanto antes. Ela estava grávida do amante, e ainda estava em tempo de o esposo enganado aceitar aquele fruto que começava a engoli-la por dentro.

Fitando o rosto da jovem que o consultava no momento, ele pressionou mais uma vez a tecla das mudanças. Os cachorros olhavam para o horizonte, além das torres, e estavam sob os raios lunares. Dos poetas e trovadores. Era assunto relacionado ao coração.

– Não, você está enganado. Vim aqui para saber sobre meu trabalho. Recebi uma proposta de mudança de emprego e estou em dúvida. Aceito ou não?

Para acreditar em mim, o que a mocinha deseja que eu faça?, que com um cigarro aceso, equilibrado no canto da boca, eu assuma um ar desafiador, cigano? Dou minha sugestão, que ela volte para casa, pegue uma folha de papel, liste os prós e contras do novo emprego, em coluna dupla, e que pondere o resultado depois. Bom senso, nada além disso. Agora, embora a moça nem tenha percebido, tem coisa nova entrando em sua vida amorosa. Que de resto é pobre, muito pobre, desértica. Quando me bate essa certeza, é seguro, mesmo. Ainda que eu continue a ignorar a origem dessa certeza. Como naquele dia em Veneza. Atribuo esse dom ao fato de ter dado meus primeiros passos no templo de Borobudur, na Indonésia. Meu pai era diplomata, a família sempre viajou muito.

E assim foi; mamãe, cansada de me carregar no colo, depois de ter circulado por todas aquelas plataformas, umas quadradas, outras redondas, representações do mundo dos desejos, das formas e das não formas, deixou-me recostado, às suas vistas, na base de um dos leões de pedra, sentinelas do templo dos 100 budas. Levantei e andei, feliz da vida, sob o olhar das gárgulas do local, ela gostava de repetir essa história, e hoje sou eu quem gosta de contá-la.

A moça inicia um discurso sobre sua experiência profissional, declama seu currículo e o sem número de planos para a carreira. Meu bem, ninguém está aqui para contratá-la. Fixando-a, com seus olhos claros ainda sonhando com Borobudur, ele estranha aquela mulher de ideias fixas. Poderia até achá-la bonita, se ela o escutasse. Nesses impasses, nada melhor do que oferecer um chá. Ele teria que alcançar a garrafa térmica com água quente e oferecer, além da xícara, a caixa com aquela infinidade de saquinhos individuais de aromas diferentes. Do Earl Grey e do Darjeeling ao Russian Caravan e ao Shanghai Breakfast, cada rótulo aguçando a imaginação, a dele e a da pessoa que o consultava.

Feia ou bonita?, indagava enquanto tomava seu chá. Inexpugnável, como as muralhas da antiga Babilônia (ou de Jericó?), zombavam as criaturinhas que giravam na Roda da Fortuna. Quantas mulheres ele teve na vida, quantas amou, em quantas línguas havia se declarado, com quantas outras o enredo resumiu-se a umas tantas loucuras sussurradas durante o sexo, não importa, a maioria das mulheres que teve entre os braços foi bonita, não que isso fosse vital para ele, espere um pouco, era importante, sim, sentia-se embaraçado em admitir, era importante estar com uma bela mulher, só que ele passava a ver beleza naquelas que o interessavam, como se seu interesse a transformasse, como uma varinha mágica (venha cá, ele nunca precisou de vara de condão, as fadas é que precisam, olhe para a anatomia dos magos, que nascem cada um com sua própria vara entre as pernas, dispensando qualquer outro simulacro para lançar de jeito eficiente suas magias). Os olhares dos cães que latiam haviam se definido por completo. Pairando acima dos muros no horizonte, o valete de copas.

Belo valete, por sinal. Na base de tudo, sustentando o jogo, a carta XI. A Força. Outra mulher, igual à consulente. Olhos votados para a direita. O futuro. Ela empreende um esforço enorme para manter aberta a boca de outro cão. Ou melhor, de um leão. Que nessas alturas jogara fora a juba e encolhera de tamanho, transmutado em canino.

– Estou certo do grande investimento de tempo, energia e dinheiro que você fez na sua carreira, mas eu acho que está no momento de você crescer em outra direção. Indo direto ao ponto, como raras vezes eu vou, está na hora de você cuidar do seu coração.

– Eu não tenho problemas de coração nem de saúde, eu quero esclarecer se…

A moça retomou sua ladainha profissional. Ela não o escutava. Figura obcecada, fugindo do próprio desejo. Passou pela cabeça dele colher um pedaço daquele orgulho obstinado e profissional. Flores brotam nos canteiros para serem colhidas. Calejado, entretanto, ele aprendera a se preservar. Vivia há tempos com uma mulher formidável, violoncelista profissional que tocava na sinfônica e numa orquestra de câmara. Ele simplesmente adorava a vida que levava com ela e seus colegas artistas, assistindo às apresentações nas salas de concerto, acompanhando-a nos jantares e nas conversas espirituosas após os ensaios. Tinham até instalado em casa um estúdio onde ela estudava e ensaiava. A vida colorida e meio boêmia com a qual sempre sonhou. Ele – graduado em Ciência Política por Paris (a mítica Science Po), que depois de tentar o exame para ser diplomata, como o pai, escolheu ser tradutor, trabalhou numa editora, depois fora marchand, mais tarde representante de uma casa internacional de leilões – se fixara. Recebeu a herança dos pais, o que garantia o básico. Tomando coragem de tomar partido de seu dom de criança, o extra ficara por conta das consultas. Uma agenda disputada no boca a boca. “A sorte afeta tudo. Deixe o anzol sempre lançado. No riacho mais improvável haverá peixe.” Quantos cartomantes podem citar Ovídio?

Sua mulher estava no teatro a essa hora, ensaiando o concerto para violoncelo e orquestra de Rautavaara, compositor finlandês contemporâneo. Ele com suas cinco cartas. A mulher com suas sete notas. A jovem que o consultava com uma única dúvida. Única e monocórdia.

Essa história seria uma não-história se narrada em polonês, língua perversa em que todas as consoantes do alfabeto disputam no tapa uma única sílaba. Também não poderia existir em finlandês, em que as vogais colam-se uma nas outras. Como gêmeas xifópagas, compartilhando o mesmo coração, mesmo fígado, mesma coluna vertebral. A mesma sílaba. Rautavaara. O sobrenome do compositor do concerto para cello que a esposa ensaiava. Einojuhani Rautavaara, colega de Paavo Heininen, os dois colegas de conservatório, em Helsinque, discípulos de Aarre Merikanto.

Nada mais tinha a dizer para aquela moça. O Louco, carta final, marcada no alto com o número zero, colocava fim à jogada em sua caminhada infinita, andando distraído em direção ao futuro, com os dentes do cão mordendo o fundilho das calças. O cão, de novo. Instinto e fidelidade. Ele devia fidelidade apenas a seu oráculo.

Levantaram-se ao mesmo tempo, depois que ele recolheu as cartas da mesa, guardando-as no maço. Ela estendeu o dinheiro do pagamento da consulta, disposto dentro de um envelope vermelho. Era exigência do tarólogo, anunciada quando do agendamento da consulta. A explicação, dizia ele, estava em um dos ensinamentos do Feng Shui. Vermelho multiplica o dinheiro. Na verdade, ele ainda lidava mal com o gesto de ser pago por algo que surgira em sua vida de modo tão inexplicável. Irracional. O gesto de receber o envelope com as duas mãos e com uma discreta mesura de cabeça supostamente agradecida inseria-se na liturgia do papel que ele representava. Naquilo que esperavam dele.

Acompanhou a moça até a saída. Será que ele deveria assobiar uma barcarola? Ao abrir a porta do elevador para ela, por um segundo ficaram muito próximos. Chegou a sentir o cheiro dos seus cabelos. Teve desejo de ao menos tocar-lhe com o indicador a testa. Afastou-se. Deu-se conta, então, que outro homem estava no elevador em que a jovem mulher entrava para ir embora. Escutou o último ladrar de um cão.

Comece a ler os contos escolhidos desta edição:O busto do Edgar“.