A ameaça comunista

[Rafael Rodrigues]

(Brasil, 2017, numa escola sem partido)

“Vocês precisam entender o seguinte: nosso objetivo não é vencer as discussões com argumentos. Não temos o menor interesse em debater com o adversário. O nosso objetivo é vencer o interlocutor pelo cansaço.”

“Professor, uma pergunta: o que é interlocutor?”

“É aquele com quem você está dialogando, Jair. Por exemplo: se você e o Carlos Alberto estão conversando, um é o interlocutor do outro.”

“Ah, tá, obrigado.”

“Continuando, eu quero que vocês entendam o seguinte: o quanto antes o interlocutor desistir da conversa, melhor. Quando isso ocorre, vai ficar a impressão, para os outros, de que a sua palavra prevaleceu, e que o interlocutor ficou sem argumentos, ou seja, que ele foi vencido. Entenderam?”

(Coro) “Sim, professor.”

“Vamos lá, um exemplo prático. Vamos supor que eu publique, no Facebook, o depoimento de um pai falando que seus dois filhos entraram numa onda comunista e que, para resolver a situação, ele decidiu confiscar os celulares, os computadores, os tênis, as roupas de marca dos garotos, e deu-lhes pijamas, sandálias de couro e material para eles fazerem artesanato e vender na rua. E que, após ter feito isso, os garotos desistiram das ideias comunistas. Logo em seguida, um comunista comenta: ‘Isso não é um pai, é uma cavalgadura’. O que vocês fariam?”

“…”

“Ninguém arrisca?”

“…”

“Emílio, Carlos Alberto, Jair?”

“…”

“Ok, vamos lá. As respostas devem ser breves, curtas e enfáticas. O ideal…”

“Professor, o que é enfática?”

“É quando você é taxativo, veemente, Jair.”

“…”

“Firme, Jair. Quando você diz alguma coisa com firmeza, digamos assim.”

“Ah, tá, entendi.”

“Como eu ia dizendo, o ideal é que seu comentário tenha apenas uma linha, para que fique a impressão de que você não tem dúvidas quanto a sua opinião. E também para não arriscar escrever alguma coisa que possa ser utilizada contra você. Além disso, é importante desafiar a paciência do interlocutor. O quanto antes ele perder a paciência e parar de contra argumentar, melhor. Portanto, a resposta ideal nesse caso seria dizer alguma coisa do tipo ‘nem todo herói usa capa’. Entendido?”

“Mas e se a pessoa responder de novo, professor?”

“Bem, digamos que o interlocutor conheça o caso do pai que matou o filho por discordâncias políticas e traga isso à tona. Você…”

“Professor, o que quer dizer ‘traga isso à tona’?”

(Chutando a mesa.) “PORRA, JAIR! PORRA! CARALHO! Trazer à tona significa revelar, mostrar, colocar isso na conversa, cacete.”

“Desculpa, professor, é que eu…”

“É que eu nada, Jair. Você precisa ler mais, porra. Você precisa ler mais. Bem, continuando, vocês devem responder a esse comentário com algo do tipo ‘Por trás de todo jovem comunista tem um pai capitalista dando duro para sustentá-lo’. Percebam que, dizendo isso, vocês levarão a conversa para outro rumo. O post do pai já não será o foco da discussão, e sim o capitalismo e o comunismo. É até possível que, nesse momento, o assunto seja encerrado.”

“Mas e se alguém comentar novamente, professor?”

“Comentar o quê, por exemplo, Reinaldo?”

“Ah, sei lá, algo tipo ‘pai que dá duro não é capitalista, é trabalhador’, por exemplo. Ou que não existe mais comunismo no Brasil.”

“Reinaldo, você está com umas ideias muito perigosas… Precisamos conversar sobre suas leituras e companhias depois. Mas, bem, nesse caso, a melhor resposta seria ‘então o trabalhador não pode ser capitalista?’ ou ‘todo trabalhador é comunista, então?’. A partir daí temos dois cenários: ou o interlocutor desiste da conversa, ou ele insiste e argumenta que o trabalhador pode ser capitalista, desde que monte seu próprio negócio, por exemplo. Percebam que, nesse caso, temos um interlocutor astuto… Inteligente, Jair.

O melhor a fazer, caso a conversa chegue nesse nível, é desviar do assunto e utilizar uma frase infalível, que fará nosso adversário desistir de dialogar e nos deixará com a última palavra. A frase é curta, e vocês já conhecem: ‘o importante é que os heróis de 64 acabaram com os comunistas’. Entenderam?”

(Coro) “Sim, professor.”

“Ótimo. Agora vamos falar sobre a ameaça da invasão russa ao Brasil.”

Rafael Rodrigues, editor da Outros Ares, é autor de “O escritor premiado e outros contos” e “Mais um para a sua estante”.

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O rei de todos os naipes

[Eugenia Zerbini]

– Ria, ria. Os homens são assim; não acreditam em nada. Pois saiba que fui, e que ela adivinhou o motivo da consulta, antes mesmo que eu lhe dissesse o que era.
“A cartomante”, Machado de Assis

Cinco vogais. A estrutura de tudo, ou quase tudo. Pelo menos de muita coisa. Ao menos nas línguas latinas, em que cada sílaba é integrada no mínimo por uma vogal.

Esse começo seria outro se estivéssemos falando polonês, onde as consoantes se rebelam e se juntam em sindicatos para fazer comício. Cinco vogais, cinco cartas. A carta do meio, a questão. A da esquerda, o aporte do passado; a da direita, o futuro; a inferior, aquilo que se encontra subjacente à questão; a superior, por fim, o facho de luz que esclarece a jogada.

Desse jeito é que ensinam os manuais. Mas uma das regras que a vida me ensinou é que nem sempre as regras devem ser seguidas. Ainda mais a partir do instante em que você escuta aquele estalo e se dá conta que é possível ter certeza de quando segui-las ou não. Pode demorar um tempo (o que não foi o meu caso). Olhe, algo me diz que, neste momento, o importante é seguir a direção do olhar desses cachorros, que latem debaixo da Lua, olhos fixados para além dos muros e das duas torres.

– Eu vejo aqui uma mudança. Uma mudança significativa. Até imagino que você veio procurar resposta para ela.

A jovem mulher recebia esse alerta de um homem maduro, elegante. Um desses tipos bem familiares para os que frequentam os clubes de campo. Mocassins sem meia, calça cáqui, camiseta branca por baixo do suéter marinho folgado. Contidamente bronzeado no rosto. Os cachorros ladrando à luz da Lua. Ele sorria; a primeira vez que tivera uma premonição, ela fora tão arrebatadora que ele se afastara dos pais e se dirigira para uma desconhecida, em pleno saguão do Hotel Danieli, em Veneza. Catapultado por um impulso que nem ele entendia, avisou que ela não deixasse o marido e abrisse mão do outro homem. Senão, ela seria muito infeliz.

O outro será seu amante, nunca seu novo marido.

Os pais não entenderam. Dez anos, menino de tudo. Embaraçados, queriam morrer de vergonha. Pediram mil desculpas para a senhora. Ela manteve um sorriso impassível, prometendo desculpar a criança se os pais permitissem que ela o levasse para um giretto curto, só para tomar um sorvete perto dali. Ninguém ousou dizer não àquela altura, logo para ela, uma suíça dona de fábrica de relógio, hóspede do Danieli há anos, conhecida do gerente do hotel. Ela tomou o menino pela mão e saíram. Na verdade, à procura de um daqueles quiosques que vendem cigarros no entorno da Piazza San Marco. Lá venderiam também um baralho de cartas. Em seguida, foram apressados para o café Florian. Em uma mesa de canto, ele leu para ela as cartas do Tarocchi. Pela primeira vez na vida.

Deu-se conta então de que todo o segredo era investigar os detalhes, os gestos discretos, as expressões daqueles rostos pintados, aparentemente imóveis. Em que direção apontava o chapéu, os pés ou as mãos do personagem, a pata ou o rabo do animal e, principalmente, os olhos das figuras. Entre colheradas de sorvete de chocolate, advertiu que aquela mulher deveria procurar o marido o quanto antes. Ela estava grávida do amante, e ainda estava em tempo de o esposo enganado aceitar aquele fruto que começava a engoli-la por dentro.

Fitando o rosto da jovem que o consultava no momento, ele pressionou mais uma vez a tecla das mudanças. Os cachorros olhavam para o horizonte, além das torres, e estavam sob os raios lunares. Dos poetas e trovadores. Era assunto relacionado ao coração.

– Não, você está enganado. Vim aqui para saber sobre meu trabalho. Recebi uma proposta de mudança de emprego e estou em dúvida. Aceito ou não?

Para acreditar em mim, o que a mocinha deseja que eu faça?, que com um cigarro aceso, equilibrado no canto da boca, eu assuma um ar desafiador, cigano? Dou minha sugestão, que ela volte para casa, pegue uma folha de papel, liste os prós e contras do novo emprego, em coluna dupla, e que pondere o resultado depois. Bom senso, nada além disso. Agora, embora a moça nem tenha percebido, tem coisa nova entrando em sua vida amorosa. Que de resto é pobre, muito pobre, desértica. Quando me bate essa certeza, é seguro, mesmo. Ainda que eu continue a ignorar a origem dessa certeza. Como naquele dia em Veneza. Atribuo esse dom ao fato de ter dado meus primeiros passos no templo de Borobudur, na Indonésia. Meu pai era diplomata, a família sempre viajou muito.

E assim foi; mamãe, cansada de me carregar no colo, depois de ter circulado por todas aquelas plataformas, umas quadradas, outras redondas, representações do mundo dos desejos, das formas e das não formas, deixou-me recostado, às suas vistas, na base de um dos leões de pedra, sentinelas do templo dos 100 budas. Levantei e andei, feliz da vida, sob o olhar das gárgulas do local, ela gostava de repetir essa história, e hoje sou eu quem gosta de contá-la.

A moça inicia um discurso sobre sua experiência profissional, declama seu currículo e o sem número de planos para a carreira. Meu bem, ninguém está aqui para contratá-la. Fixando-a, com seus olhos claros ainda sonhando com Borobudur, ele estranha aquela mulher de ideias fixas. Poderia até achá-la bonita, se ela o escutasse. Nesses impasses, nada melhor do que oferecer um chá. Ele teria que alcançar a garrafa térmica com água quente e oferecer, além da xícara, a caixa com aquela infinidade de saquinhos individuais de aromas diferentes. Do Earl Grey e do Darjeeling ao Russian Caravan e ao Shanghai Breakfast, cada rótulo aguçando a imaginação, a dele e a da pessoa que o consultava.

Feia ou bonita?, indagava enquanto tomava seu chá. Inexpugnável, como as muralhas da antiga Babilônia (ou de Jericó?), zombavam as criaturinhas que giravam na Roda da Fortuna. Quantas mulheres ele teve na vida, quantas amou, em quantas línguas havia se declarado, com quantas outras o enredo resumiu-se a umas tantas loucuras sussurradas durante o sexo, não importa, a maioria das mulheres que teve entre os braços foi bonita, não que isso fosse vital para ele, espere um pouco, era importante, sim, sentia-se embaraçado em admitir, era importante estar com uma bela mulher, só que ele passava a ver beleza naquelas que o interessavam, como se seu interesse a transformasse, como uma varinha mágica (venha cá, ele nunca precisou de vara de condão, as fadas é que precisam, olhe para a anatomia dos magos, que nascem cada um com sua própria vara entre as pernas, dispensando qualquer outro simulacro para lançar de jeito eficiente suas magias). Os olhares dos cães que latiam haviam se definido por completo. Pairando acima dos muros no horizonte, o valete de copas.

Belo valete, por sinal. Na base de tudo, sustentando o jogo, a carta XI. A Força. Outra mulher, igual à consulente. Olhos votados para a direita. O futuro. Ela empreende um esforço enorme para manter aberta a boca de outro cão. Ou melhor, de um leão. Que nessas alturas jogara fora a juba e encolhera de tamanho, transmutado em canino.

– Estou certo do grande investimento de tempo, energia e dinheiro que você fez na sua carreira, mas eu acho que está no momento de você crescer em outra direção. Indo direto ao ponto, como raras vezes eu vou, está na hora de você cuidar do seu coração.

– Eu não tenho problemas de coração nem de saúde, eu quero esclarecer se…

A moça retomou sua ladainha profissional. Ela não o escutava. Figura obcecada, fugindo do próprio desejo. Passou pela cabeça dele colher um pedaço daquele orgulho obstinado e profissional. Flores brotam nos canteiros para serem colhidas. Calejado, entretanto, ele aprendera a se preservar. Vivia há tempos com uma mulher formidável, violoncelista profissional que tocava na sinfônica e numa orquestra de câmara. Ele simplesmente adorava a vida que levava com ela e seus colegas artistas, assistindo às apresentações nas salas de concerto, acompanhando-a nos jantares e nas conversas espirituosas após os ensaios. Tinham até instalado em casa um estúdio onde ela estudava e ensaiava. A vida colorida e meio boêmia com a qual sempre sonhou. Ele – graduado em Ciência Política por Paris (a mítica Science Po), que depois de tentar o exame para ser diplomata, como o pai, escolheu ser tradutor, trabalhou numa editora, depois fora marchand, mais tarde representante de uma casa internacional de leilões – se fixara. Recebeu a herança dos pais, o que garantia o básico. Tomando coragem de tomar partido de seu dom de criança, o extra ficara por conta das consultas. Uma agenda disputada no boca a boca. “A sorte afeta tudo. Deixe o anzol sempre lançado. No riacho mais improvável haverá peixe.” Quantos cartomantes podem citar Ovídio?

Sua mulher estava no teatro a essa hora, ensaiando o concerto para violoncelo e orquestra de Rautavaara, compositor finlandês contemporâneo. Ele com suas cinco cartas. A mulher com suas sete notas. A jovem que o consultava com uma única dúvida. Única e monocórdia.

Essa história seria uma não-história se narrada em polonês, língua perversa em que todas as consoantes do alfabeto disputam no tapa uma única sílaba. Também não poderia existir em finlandês, em que as vogais colam-se uma nas outras. Como gêmeas xifópagas, compartilhando o mesmo coração, mesmo fígado, mesma coluna vertebral. A mesma sílaba. Rautavaara. O sobrenome do compositor do concerto para cello que a esposa ensaiava. Einojuhani Rautavaara, colega de Paavo Heininen, os dois colegas de conservatório, em Helsinque, discípulos de Aarre Merikanto.

Nada mais tinha a dizer para aquela moça. O Louco, carta final, marcada no alto com o número zero, colocava fim à jogada em sua caminhada infinita, andando distraído em direção ao futuro, com os dentes do cão mordendo o fundilho das calças. O cão, de novo. Instinto e fidelidade. Ele devia fidelidade apenas a seu oráculo.

Levantaram-se ao mesmo tempo, depois que ele recolheu as cartas da mesa, guardando-as no maço. Ela estendeu o dinheiro do pagamento da consulta, disposto dentro de um envelope vermelho. Era exigência do tarólogo, anunciada quando do agendamento da consulta. A explicação, dizia ele, estava em um dos ensinamentos do Feng Shui. Vermelho multiplica o dinheiro. Na verdade, ele ainda lidava mal com o gesto de ser pago por algo que surgira em sua vida de modo tão inexplicável. Irracional. O gesto de receber o envelope com as duas mãos e com uma discreta mesura de cabeça supostamente agradecida inseria-se na liturgia do papel que ele representava. Naquilo que esperavam dele.

Acompanhou a moça até a saída. Será que ele deveria assobiar uma barcarola? Ao abrir a porta do elevador para ela, por um segundo ficaram muito próximos. Chegou a sentir o cheiro dos seus cabelos. Teve desejo de ao menos tocar-lhe com o indicador a testa. Afastou-se. Deu-se conta, então, que outro homem estava no elevador em que a jovem mulher entrava para ir embora. Escutou o último ladrar de um cão.

Comece a ler os contos escolhidos desta edição:O busto do Edgar“.

O busto do Edgar

[Roberto Prado]

As contas não param de chegar. Sobre a mesa, acumula-se uma pilha de cobranças.

Um busto de Poe é usado como peso de papel.

Por baixo da porta entra mais um envelope; agora é a conta de luz, a de água deste mês já está com o autor do “Corvo”.

Falta de tudo na casa, e, sentado na poltrona da sala, o homem arranca os cabelos (metaforicamente falando, é claro). A mulher tenta convencê-lo a não se entregar ao desespero, debalde.

O sujeito se diz escritor, se acha escritor, ficcionista. Já enviou seus escritos para várias editoras, grandes jornais, jornais de bairro, jornais de sindicato, jornais de supermercados… mas nenhuma resposta até agora.

Ela tenta consolá-lo dizendo que uma hora ele será descoberto. Mas, no desespero, ele fica surdo, e entrega-se à depressão, e deprimido ele escreve ainda mais e mais e mais…

E não consegue publicar.

Ele olha para o busto de Poe e se pergunta o que fazer. Nenhuma resposta vem do torso do escritor.

– Nunca mais, nunca mais – grita, feito um corvo – escreverei coisa alguma pelo resto da minha vida!

Só não atirou a estátua pela janela por medo de que o vento espalhasse as contas acumuladas; afinal, ele usava o verso dos envelopes como rascunhos para seus contos.

O papel já estava no fim e não havia dinheiro para comprar mais. Era muita miséria para uma pessoa só. Sua vida de escritor está ficando igual a dos personagens de contos russos, só faltava nevar. Sua espiral descendente de autocomiseração só foi interrompida pelo grito da mulher:

– Benhê! A geladeira queimou!

– Pronto! Minhas preocupações com neve acabaram.

Olhou com ódio para o velho Edgar.

Num último suspiro de razão que ainda lhe restava no fundo da alma, tentou pensar que ele mesmo fazia parte de um conto de Poe. Sim!, só poderia ser isso, ou então não restaria alternativa para ele do que – oh! Deus, isso é pior que ver um gato preto emparedado – prestar concurso e virar servidor público, onde poderia ser pago para escrever, nem que fossem ofícios, memorandos, cartas sem fim…

Outra vez ele olhou para o busto do velho Edgar, que, por poucos segundos, ganhou vida e lhe disse:

– Isso, não! Serviço público, não!

Roberto Prado é tem vários livros publicados, entre eles “Gringa & outras histórias”, “Contos” e “Das doidas desventuras de Doidinho & Dona Dedé”. É Membro Correspondente da Academia de Letras de Teófilo Otoni (MG) e mantém o blog Etc & Basta, onde esse conto foi originalmente publicado.

Leia a seguirO avô e o neto“.

O avô e o neto

[Marcelo Maio]

O menino de 12 anos conversava com seu avô, no quarto do hospital.

– Como foi a sua vida?

– Que pergunta… Parece que já estou morto.

– Não! Não foi o que eu quis dizer!

Mas foi o que ele quis dizer.

Era uma tarde fria de julho, ainda mais gelada no quarto hospitalar.

– Não se preocupe. Eu sei que vou morrer em breve.

– Não fala assim!

– A minha vida foi boa – ele respondeu, por fim. Não teve forças para elaborar mais. Cada palavra enunciada era uma enorme dificuldade.

– Descansa. Dorme um pouco. Não precisa falar.

O médico entrou no quarto. Sempre se surpreendia com a postura do menino, aparentemente maduro para a idade.

– Como estão as dores? – perguntou o doutor.

– Não dói mais nada… Mais nada… – respondeu o doente.

O médico revisou os equipamentos que ainda mantinham vivo o paciente, e logo saiu. Não demorou muito para o enfermo fechar os olhos, ainda não em definitivo.

O neto e o avô ficaram assim por mais de uma hora. Um, dormindo; o outro, encarando o nada, imerso em uma atmosfera de luto antecipado.

– Como ele está? – perguntou uma enfermeira, passado mais algum tempo.

– Bem. Dormindo.

– Estou no corredor. Qualquer coisa, me chama.

O acompanhante concordou. Seu olhar sempre visava a barriga do doente, para se certificar de que ela ainda subia e descia.

Dada hora, o paciente acordou. Com esforço, pronunciando sílaba por sílaba, ainda conseguiu dizer:

– Só quero me despedir. Estou morrendo… Agora.

O outro chorou. Já não podia fazer mais nada para manter com ele uma das pessoas por quem mais tinha amor. Segurou sua mão. Viu a vida se apagar naquele leito.

A cabeça do menino tombou definitivamente para o lado. Aos prantos, o velho saiu do quarto para comunicar a morte de seu amado neto.

Marcelo Maio nasceu em 1986, no Rio de Janeiro, cidade onde também cresceu. Aos 24 anos, mudou-se para Brasília, mas atualmente vive em Tóquio. Escreve desde a adolescência e teve contos e poesias premiados em concursos literários. Em 2015, lançou uma coletânea de contos, pela Editora Multifoco, chamada “O cemitério dos solitários”. Mantém o blog Me lê aí!, onde o esse conto foi originalmente publicado.

Leia a seguirÁguas do meu batismo“.

Águas do meu batismo

[Ernane Catroli]

As cores da manhã e o ruído crescente das ondas na areia. Baixa temporada agora. Seguia pela aleia de cascalho que levava ao casarão de dois andares. Pensão do Farol. Ao abrir a porta, Dona Jovita, o semblante rijo. Mais magra. Cabelos ralos.

Mas é Milena quem emerge do ambiente. Muitas vezes. Milhares de vezes.

Toda a nossa louca juventude e aquela gravidez atropelando os dias.

– Faremos, então, o combinado.

***

O lado do quarto onde permaneço mudo e a voz imperativa de dona Jovita. Milena deitada na cama de solteiro. Os olhos aumentados.

Sobre o criado mudo, a infusão de ervas para ser ingerida aos poucos, conforme recomendação. A pequena maleta aberta sob a luz do abajur.

O início. O meio.

A noite antiga. Azul.

Ouvia-se o mar.

Ernani Catroli é natural de Sant’Anna de Cataguases, MG, onde passou infância e adolescência. Há muitos anos reside no Rio de Janeiro. Bioquímico de formação, exerce atividades científicas e acadêmicas na área de Saúde. Publica regularmente em alguns blogs dedicados à cultura.

Leia a seguirA ameaça comunista“.

Princesinha

Antonio Carlos Viana

Nossa saída foi procurar Jesus, só ele mesmo para nos salvar. O homem chegou e falou que o terreno era dele e tal e tal. Minha mãe botou o dedo melado no papel, ela não sabia assinar nada, nem o nome com letra graúda ela sabia. Ela disse que se fosse sozinha ia ganhar o fim do mundo e desaparecer para sempre, mas tinha aquela récua de filho atrás, uma cruz pra carregar por bem ou por mal. Pra quem só tinha mesmo a roupa do corpo, não foi difícil pegar o caminho sem saber para onde. Nossa irmã filmou tudo com o celular.

Chegar na cidade não foi difícil. Cada um levava sua sacola de plástico com o pouco das coisas que tinha. Entramos na primeira igreja que vimos, aquela coisa no coração, que faz a pessoa ir sem saber como. A mulher não queria chamar o pastor, que ele estava muito ocupado, que a gente ia ter de esperar muito, ele estava em sessão de descarrego. Ela tapava o nariz, como se dissesse que a gente estava fedendo. E estava mesmo.

Depois de muito tempo o pastor apareceu e disse que não tinha onde botar tanta gente, cinco meninos mais uma mãe. “Mas Jesus salva”, ele falou, “é só crer que ele salva”. Logo se encantou com os olhos de minha irmã, que chamou de princesinha. “Como se chama a princesinha?” Aí ele foi lá dentro conversar a mulher que tinha tapado o nariz. Quando voltou, disse que nossa irmã podia ficar, estava precisando de alguém para ajudar na limpeza do salão. “Deixa ela aqui”, ele falou, “dona Iraci toma conta dela direitinho”, a nossa irmã tão bonita, que já estava passando da hora de usar sutiã. “Todos os seus filhos nasceram lá no manguezal?”, ele perguntou. “A última a nascer, a derradeirinha, não vingou, mora hoje num cemiteriozinho de areia fofa, de onde vinha um cheirinho chato quando a gente ia enfeitar a cova.” Foi assim que nossa mãe falou.

O pastor botou a mão na cabeça de cada um de nós, e foi orando, e foi orando, de olhos fechados, a gente sentindo que a mão dele passava uma quentura boa, passava uma calma boa. Mão de santo devia ser assim. Depois abriu os olhos e disse que, se minha mãe aceitasse, a princesinha ficava. Os outros, ela ia achar logo quem quisesse, que a gente tinha cara de menino bom. Choramos mas nos conformamos. Saímos de lá sem nem olhar para trás. Acho que minha irmã nem filmou a gente saindo.

Conto gentilmente cedido pelo autor. Publicado originalmente na Folha de São Paulo, em maio de 2010.

Comece a ler os contos escolhidos desta edição: “O assessor“.

Cachecol e chantilly

Paula Sanches

Era um belo dia ensolarado, isso me encantou e eu me convidei para uma xícara de café bem quente e um prato na cor creme com uma bela fatia de torta de morango com bastante chantilly em um bistrô próximo a uma praça muito charmosa. Apesar dos meus 24 anos, possuía cabelos completamente brancos. Eram fartos e longos e ria ao me olhar no espelho quando beliscava as bochechas, sempre formando círculos rosados, o que me fazia pensar na França do século XVIII. Meus olhos castanhos claros estavam voltados para a praça cheia de árvores e bancos onde as pessoas liam. Estanquei o olhar e comecei a observar um rapaz sentado na grama, encostado em uma árvore. Ele vestia uma camiseta branca lisa, uma calça jeans desbotada e um cachecol listrado nas cores branco e azul claro. Pedi mais uma xícara de café e um pouco mais de chantilly.

Eu estava encostado em uma árvore, sentado na grama macia e fingindo que dormia, sentindo o sol no meu rosto, o restinho de calor que ainda sobrara. Mas não deixei de observar uma garota sentada em uma mesa de um bistrô com os cabelos longos e brancos, tão fartos que não saberia dizer se era de verdade. Ela vestia uma blusa cor de rosa com fitas brancas e mangas bufantes, havia pérolas no decote. A saia era branca com detalhes dourados e pequenas pedras cor de rosa. Ela também usava um colar e brincos ovais na cor turquesa. Os sapatos delicados eram na cor amarela e as meias brancas possuíam babados.

Paguei pelo meu fabuloso lanche e caminhei pela praça em direção ao garoto do cachecol. Sentei em um banco próximo a ele e, como ele parecia dormir, soltei uma pérola da minha blusa e arremessei em sua direção, acertando o seu rosto. Eu estava rindo quando percebi que o garoto olhava para mim. Seu cabelo era tão negro que parecia azul.

O que havia com aquela garota? Ela acabara de jogar uma pérola em meu rosto e estava rindo. Quando me viu com um ar confuso pareceu achar tudo mais engraçado. Foi no momento quando ambos avistamos um esquilo vermelho de olhos verdes.

Olhei para o garoto e ele olhou para mim. Não pensamos duas vezes, acredito, pois estávamos em uma corrida atrás do esquilo vermelho. Corremos tanto que já não sabia onde estava e o garoto também parecia perdido. Havia começado a chover e eu estava ensopada. Espirrei uma, duas, três vezes.

Ela tremia devido a chuva fria. Não conseguia compreender a mudança tão repentina de tempo. Aproximei-me e lhe entreguei meu cachecol. A garota o colocou na cabeça, protegendo-se da chuva e acenou com a cabeça um “obrigada”.

Hmn, o cachecol tinha cheiro de noite e aproximei-o o máximo de mim. Percebemos que o esquilo não voltaria e, para agradecer o garoto, peguei alguns morangos que havia guardado no bolso da minha saia e entreguei a ele.

Peguei os morangos e os guardei no bolso de minha calça. Encontramos uma árvore para nos abrigar da chuva e notei os lábios vermelhos da garota. Eu a beijei suavemente, um beijo de despedida, e senti gosto de morango e chantilly em sua boca. Fomos embora, cada um em direção para suas respectivas casas.

Eu acordei me sentindo gripada, mas precisava trabalhar. Levantei da cama um pouco zonza e percebi ao meu lado um cachecol listrado nas cores branco e azul claro. Não fazia ideia de como aquilo havia parado ali. Não fazia o meu tipo, portanto eu não o teria comprado. Presente? Talvez. Num impulso peguei o cachecol e o cheirei. Cheiro de noite. Agradável. Não era de todo ruim, afinal. Mas eu estava atrasada!

Acordei com o despertador e percebi que meu trem partiria em apenas uma hora! Hoje eu deveria visitar os meus pais. Devia essa visita há muito tempo e sabia que não seria perdoado se faltasse mais uma vez. Levantei depressa, tropeçando na bagunça e ainda tonto caí no chão. Ao me levantar vi que alguma coisa havia caído do bolso da calça do meu pijama, quando peguei o objeto do chão, percebi que eram morangos, já mofados. Que estranho, eu nunca gostei de morangos.

***

Sou bacharel em Design Gráfico e estudante de Letras. Meu primeiro texto impresso será lançado este ano pela Andross Editora, na antologia de contos e crônicas “Entrelinhas – Volume II”, com organização de Helena Gomes. Mantenho o blog Electric Beans.