A literatura não tem problemas, quem tem problemas é o Brasil

Foto: André Viana

Outros Ares: Vamos começar com a já tradicional pergunta inicial aqui da Outros Ares: como e quando você começou a escrever? Em qual gênero você arriscou suas primeiras linhas? Chegou a cometer poesia?

Antonio Carlos Viana: Voltando muito no tempo, me lembro de uns poeminhas que escrevi quando ainda estava no segundo grau, mas coisas muito esparsas, sem nenhuma convicção do que estava fazendo. Era mais uma imitação do que eu lia nos livros didáticos. Depois, já no curso de letras, escrevi minha primeira crônica sobre uma velha sentada numa calçada, que encontrei no meio do caminho. Era meio-dia, o sol muito quente e tive pena dela. Cheguei em casa e botei para fora toda essa pena em forma de palavras. Devia ser uma coisa muito ruim. Tive a coragem de colocar esse texto no jornal da faculdade. Felizmente ninguém o salvou para a posteridade. Quem leu me perguntou se eu lia muito Cony e eu nem sabia ainda quem era Cony. Escrevi ao acaso, sem pensar que estava fazendo um texto literário. A poesia, eu logo abandonei, mas continuei escrevendo uma prosa bem ruinzinha. Um dia juntei os vários escritos que tinha e mostrei a uma colega. Ela simplesmente caiu na risada. Disse que aquilo não era nada, nem conto, nem crônica, nem poesia em prosa. Devia ser mesmo uma bela porcaria. Mas o riso dela não me intimidou. Nesse momento eu já queria escrever algo mais consistente e dei para ler os grandes contistas, mas sem saber que seria um deles algum dia. Foi quando me deparei com “Os cavalinhos de Platipanto”, de José J. Veiga, e vi que um bom conto é capaz de nos deixar tão extasiados quanto um bom romance, um bom poema. José Veiga me deu o impulso que me faltava.

OA: Pode-se dizer que você rodou o mundo: morou no Rio de Janeiro, em Porto Alegre, na França, lugares que são chamados de “centros culturais” do Brasil e do mundo, mas voltou para sua terra natal, Aracaju. É uma pergunta cuja resposta é pessoal demais, mas ainda assim a fazemos: por que não se estabeleceu em um desses outros lugares, que, dizem, são mais propícios à literatura? Por que voltar?

Antonio Carlos Viana: Tive o privilégio de morar em lugares que foram capitais em minha vida. Saí do Rio de Janeiro quando a cidade perdeu o seu encanto e virou um foco de grande violência. Fui para Porto Alegre, onde ainda cheguei a dar aulas na Unisinos, mas motivos familiares me trouxeram de volta a Aracaju. Foi quando apareceu concurso para professor da UFS (Universidade Federal de Sergipe). Sempre quis ser professor universitário e ali estava minha chance. Passei e fiz carreira, como se diz. Voltei a Porto Alegre para fazer o mestrado. Tive o privilégio de ser aluno e orientando da professora Regina Zilberman, que foi uma grande incentivadora da minha carreira como contista. Meu segundo livro, “Em pleno castigo”, foi ela que o indicou a uma editora, a Hucitec, e ainda fez a orelha. Mais privilégio, impossível. Dois anos depois de ter concluído o mestrado, ganhei uma bolsa da CAPES para fazer doutorado na França e foram quatro anos de novas descobertas literárias, sobretudo do pensamento de Paul Valéry. Minha tese versou sobre a poética dele e a a poesia de João Cabral. Gostei, claro, da França, mas jamais moraria no exterior. A sensação de ser sempre estrangeiro magoa, deixa-nos sempre inseguros, inferiorizados. O fato de ter voltado e continuado em Aracaju se deveu muito a esse sentimento de ter o pé no lugar em que me sinto seguro. E aqui continuo até hoje sem nenhuma lamentação. Pelo contrário. A luminosidade de Aracaju me faz muito bem. Não a trocaria por nenhuma outra.

OA: Outra “pergunta padrão” da Outros Ares é a seguinte: Um de nossos entrevistados, o escritor mineiro Jaime Prado Gouvêa, nos disse que há “gente demais e qualidade de menos”. A sensação é de que a quantidade de escritores é inversamente proporcional à qualidade do que é publicado. Por outro lado, com a avalanche de livros publicados, muita coisa boa acaba ficando escondida, não tem a chance de chegar a uma quantidade maior de leitores. Como você vê essa situação?

ACV: A quantidade de gente publicando é enorme mesmo e, como não poderia deixar de ser, há coisas ótimas e coisas muito ruins. O pior é que as resenhas não dão conta dessa produção e nossas escolhas vão meio às cegas, nas livrarias. Muitos livros bons podem ficar escondidos de nossos olhos. Todo ano fico meio angustiado quando vem a lista de livros inscritos no Prêmio Telecom e vejo que li só alguns poucos. Na edição deste ano temos de indicar três obras de cada gênero: poesia, romance, conto/crônica (não entendo por que colocar no mesmo balaio conto e crônica; o Jabuti também faz isso). Assim a premiação ficará mais justa. Quando li a lista deste ano, fiquei perdido. Sei que vou ser injusto com alguém porque não li nem 10% daqueles livros todos. E eu só indico o que li, não vou pelo nome do autor. Então, retomando sua pergunta, não vou dizer que “a quantidade de escritores é inversamente proporcional à qualidade do que é publicado”, porque nunca conseguiremos ler tudo o que se publica. Acho que falta nos jornais mais espaço para a crítica literária a fim de dar conta dessa produção e nos conduzir aos melhores livros. Hoje temos só o “Rascunho”, de Curitiba.

OA: Uma das mais famosas frases de escritores é “Se queres ser universal, comece por pintar a tua aldeia”, de Tolstói. E você consegue fazer isso, abordar temas universais a partir de uma realidade aparentemente restrita, como poucos. Como você faz para escapar do chamado “regionalismo”? É uma preocupação sua?

ACV: Regionalismo é sempre uma preocupação. Quando vejo um livro enfeitado de palavras locais e se compraz com isso, abandono. Há escritores assim, que pensam que devem ser fiéis ao seu lugar de origem e colocar em sua obra só palavras e personagens que tornem sua aldeia conhecida. Se for por aí, vai fracassar. O importante é abrir essa aldeia e dela tirar o que é comum a todos os homens. Fazer com que mesmo o leitor mais distante dela, nela se reconheça porque, no fundo, as questões que nos assomam a existência são sempre as mesmas: a vida, a morte, a luta pela subsistência, os traumas, o amor, a paixão… Lendo um dia desses um conto do nosso Tolstoi, minha admiração por ele cresceu mais ainda. Ele conta a história de um patrão e seu empregado durante uma viagem sob a neve. Como algo que não tem nada a ver conosco como o frio das estepes russas nos toca tão profundamente? Porque, no fundo, o que ele expõe é algo universal: a relação entre patrão e servo, a luta pela vida, o medo da morte. Todos nós passamos por isso com maior ou menor intensidade.

OA: Aproveitando a menção a Tolstói, quais são as suas influências? Quais autores mais o influenciaram e continuam influenciando?

ACV: O importante das influências é você saber quais são para poder se livrar delas. Geralmente começamos a escrever por admirar a forma de determinado escritor. Escrever tem mais a ver com isso do que com vocação. Eu nunca pensei que tinha vocação para contista. Só descobri a vontade de escrever, como já disse mais acima, quando li José J. Veiga. E meus primeiros contos têm muito a ver com o universo infantil que ele explorou tão bem. Mas precisei descobrir a minha forma. Depois foi a vez de Clarice Lispector. “A paixão segundo G.H.” me tirou o sono. Passei a noite lendo. Vi que, por mais que a admirasse, imitá-la era impossível. O máximo a que se pode chegar imitando alguém é fazer uma literatura de segunda linha. Ainda escrevi algumas coisas sob a inspiração dela, mas logo joguei fora. É preciso descobrir a própria voz e isso leva tempo. O bom mesmo é você ter lido um monte de gente e o leitor não descobrir pegadas de ninguém no seu texto.

OA: Outro questionamento “tradicional” da Outros Ares é o seguinte: você compartilha da opinião de que o conto é um gênero menosprezado no Brasil? Se sim, arriscaria dizer por que isso acontece?

ACV: Eu nunca senti que haja esse menosprezo pelo conto. O que acontece é que a nossa produção contística é pequena e nem sempre de boa qualidade. Criou-se o mito de que o conto é apenas um estágio antes do grande momento de escrever um romance. Escrever um bom conto é tão difícil quanto escrever um bom romance, um bom poema, uma boa crônica. Não há gênero fácil quando se busca a perfeição. Vá escrever uma crônica e veja como é difícil transferir para as palavras o tom que se pretende. Quanto às editoras, vejo que elas estão apostando mais nos contistas hoje em dia do que antes. Talvez faltem bons contistas. É que muita gente pensa que escrever um conto é só contar uma boa história. O gênero exige uma carpintaria das mais complicadas.

OA: Você lê os autores brasileiros em atividade? Como vê a nossa literatura hoje? Destacaria alguns escritores que, na sua opinião, são diferenciados? E entre os estrangeiros, quais você tem lido?

ACV: Tenho acompanhado nossa produção literária dentro das minhas possibilidades. Como moro em Aracaju, que só tem duas livrarias de porte médio, nem sempre os lançamentos chegam. Temos que encomendar. Só quando vou a São Paulo é que me abasteço das novidades. Como no ano passado fiz parte do júri do Telecom, deu pra ler muita gente que não conhecia. E descobri muitos escritores ótimos. O vencedor mesmo, Rubens Figueiredo, é excelente. Todo mundo precisa ler “Passageiro do fim do dia”. No Rio Grande do Sul tem um contista fabuloso mas desconhecido no resto do país: Aldyr Garcia Schlee, autor de “Os limites do impossível”. Não dá para falar de todos, a lista é imensa. Na poesia, temos o Paulo Henriques Britto. Seu último livro, “Formas do nada”, é uma obra-prima. Quanto aos estrangeiros, leio muito os americanos, com ênfase na obra de Philip Roth. Para quem nunca o leu, indico “Nêmesis”, um de seus últimos livros. Aos que gostam de uma teoria literária light, aconselho “Como funciona a ficção”, de James Wood. É um livro fundamental tanto para quem lê quanto para quem escreve.

OA: Por fim, mais uma pergunta que fazemos – e continuaremos fazendo – a todos os entrevistados: fala-se muito de baixas vendas, pouco investimento nacional, pouca divulgação a escritores locais e baixa escolaridade – fatores que juntos ou separados formam o “problema” da literatura brasileira atual. Antes de tudo, a literatura tem problemas? Quais são os principais, na sua opinião, e quais seriam as soluções?

ACV: A literatura não tem problemas, quem tem problemas é o Brasil, que investe mal em educação e prepara mal seus professores. Isso vai dar, lógico, em poucos leitores e vendas insignificantes de livros. Quando tivermos uma boa educação, as coisas talvez mudem. Mas até que hoje em dia há muita divulgação da produção literária, haja vista o número de festas e festivais. Mas isso não significa supervenda de livros. Essas festas alimentam mais o ego dos escritores que suas contas bancárias. No entanto, sou a favor delas, porque de qualquer forma se fala da literatura por alguns dias e pode-se assim ganhar um ou outro novo leitor. O despertar para a leitura vem mais da escola e, em segundo lugar, da família. Digo isso porque venho de uma família de não leitores. Foi o bom ensino dos salesianos que me levaram a ler compulsivamente. Minha casa nunca teve estante. Fui leitor de bibliotecas. Este é um outro fator que contribui para o surgimento de novos leitores. Mas sabemos muito bem, com raras exceções, como são as bibliotecas públicas de nosso país: acervo pobre, livros defasados, quase nenhum lançamento. Geralmente só encontramos os clássicos. E sempre digo que não é pelos clássicos que se deve começar a incentivar a leitura dos jovens, mas por algo mais próximo deles, não importa que seja “Harry Potter”. Ler os clássicos é algo bem posterior, quando o sabor da leitura já está consolidado. Se quiser matar nos jovens o gosto pela leitura, obriguem-nos a ler José de Alencar e Machado de Assis aos treze, catorze anos. É tiro mortal.

Leia a seguir um conto de Antonio Carlos Viana:Princesinha“.

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