A régua do mundo é masculina

Vamos começar com a já tradicional pergunta inicial aqui da Outros Ares: como e quando você começou a escrever? Em qual gênero você arriscou suas primeiras linhas? Chegou a cometer poesia?

Antes de ser alfabetizada, já sonhava em ser escritora. Liam muito para mim em casa e bastante cedo entrei em contato com o poder encantatório das palavras. Eu viajava com elas e logo me imaginei tecendo meu próprio tapete mágico.

Comecei a escrever pequena. Aos nove anos, pelo que me lembro: uns poeminhas de rimas fáceis e historietas de fadas. Eu tocava piano e compus, nessa época, várias peças de tom erudito. Uma delas, “A cavalgada das vassouras” – um misto de Wagner e Paul Dukas, versão Disney, do “Aprendiz de Feiticeiro”. Aos 12, escrevi uma peça para teatro, fortemente influenciada pelo clássico “Mulherzinhas”, da norte americana Louisa May Alcott. Aos 13 anos, aprendi violão e compunha canções de protesto. Aos 17 anos, época do cursinho, deixei a música.

Entrei para a Faculdade de Direito da USP, a legendária São Francisco, tão importante para o romantismo brasileiro, com Castro Alves e Álvares de Azevedo entre os alunos. Aos 19 anos fui admitida na Academia de Letras da Faculdade, na cadeira 13, cujo patrono era exatamente este último, o mais byroniano dos românticos. Do concurso de admissão constavam duas provas (além da arguição oral). Um ensaio (escrevi o meu sobre a poesia simbolista no Brasil) e uma produção artística. Apresentei um conjunto de poemas, inspirados na leitura dos “Quatro Quartetos” de T.S. Elliot. Pretensão e água benta… Passei a escrever poesia de modo compulsivo.

Depois de uns meses, um colega pediu para ler meus versos. Era o Regis Bonvicino, que desancou meus poemas, do começo ao fim. Nunca mais escrevi poesia nem nada. Voltei à escrita literária só muitas décadas depois, encarando de frente o gênero romance.

Quais são as suas influências? Quais autores mais a influenciaram e continuam influenciando?

Meu pai era muito culto, adorava ler, sempre interessado por tudo. Aconselhava-me a escrever como a Clarice Lispector. Com medo da influência, nunca li Clarice. Conheço pouco dela. Por outro lado, sempre fui uma leitora compulsiva. Acredito que, de uma forma ainda que inconsciente, guardamos estilos, passagens e até cacoetes dessas leituras. Porém, durante a escrita do meu romance de estréia, “As netas da Ema” – vencedor do Prêmio Sesc de Literatura –, procurei ser absolutamente eu mesma, não me espelhei em ninguém.

Depois do romance publicado, comecei a escrever contos. Um desafio, porque eu pensava não ter nem os enredos nem a técnica necessária, segundo a qual no conto a vitória é por nocaute (contos como os de Lydia Davis ou da Alice Munro não haviam sido publicados no Brasil até então…). Desde moça, admirava os contos da Katherine Mansfield. Reli sua obra. Dissequei os contos de Tchekhov. E tornei a ler os contos da Lygia Fagundes Telles – uma grande escritora, subestimada entre nós. Imagino que essas vozes encontram eco em meus contos, recentemente publicados na coletânea “Harém”, editada pela Patuá e lançada em dezembro passado.

Você foi a vencedora, na categoria Romance, do Prêmio Sesc de 2004, com “As netas da Ema” (Record, 2005). Esse prêmio, de alguma maneira, afetou a sua escrita? Você se sentiu mais pressionada, mais cobrada – ainda que por si mesma?

Vencer o Prêmio Sesc de Literatura resgatou-me de uma incerteza: será que eu escrevo de verdade? Parece que sim… Recebi boas críticas, o livro chegou a uma segunda reimpressão. Mas, o principal: a vitória transformou-se em um bom cartão de visita. Depois dela, quando procurei editoras, para outras obras, ou as redações, para divulgação do meu trabalho, ao menos me atendem ao telefone, ou aceitam minha amizade no Facebook (risos).

Um de nossos entrevistados, o escritor mineiro Jaime Prado Gouvêa, nos disse que há “gente demais e qualidade de menos”. A sensação é de que a quantidade de escritores é inversamente proporcional à qualidade do que é publicado. Por outro lado, com a avalanche de livros publicados, muita coisa boa acaba ficando escondida, não tem a chance de chegar a uma quantidade maior de leitores. Como você vê essa situação?

Publica-se em demasia. Basta uma visita a uma livraria de qualquer capital para conferir a avalanche de títulos. O fenômeno não é brasileiro, é mundial. Publica-se, na maioria das vezes, levando-se em conta o mercado. As editoras colocam-se como empresas. Publica-se muitas vezes de modo precipitado, não se respeitando o tempo de maturação da obra em uma gaveta. No nosso tempo, entretanto, as coisas funcionam assim.

Sim, acredito que muita coisa boa – até ótima – fica submersa, sob uma pilha de bobagens. Meu consolo é indagar se sempre não foi assim (guardadas as proporções): na história, quantas obras importantes ficaram esquecidas – e não só em termos de literatura, mas na pintura, na música –, aguardando a descoberta desavisada de um pesquisador? Em certos casos, nem isso. Um dos riscos da vida.

Nos últimos anos as discussões sobre gênero ganharam força, e, em 2015, foi lançado o projeto “Leia Mulheres”, para difundir a literatura escrita por mulheres e incentivar sua leitura. Você, como escritora, sentiu/sente alguma resistência maior dentro do mercado editorial, ou mesmo por parte dos leitores, por ser mulher? Se sim, o que podemos fazer para mudar essa situação?

Participarei do Mulherio das Letras, em João Pessoa, em outubro. Apoio o movimento #leiamulheresvivas, criado pela professora, pesquisadora e escritora infantil Susana Ventura. A verdade é que as mulheres entraram tarde no jogo. A régua (no sentido de medida) do mundo é masculina.

Este ano, a FLIP está na sua 15ª edição e, pela primeira vez, tem uma curadora, Josélia Aguiar. Foram necessários 15 anos para se darem conta? A posição da mulher na literatura integra um quadro maior, institucional e político. O voto feminino, no Brasil, foi admitido pelo Código Eleitoral de 1933. E até 1961, pelo Código Civil, as mulheres não eram pessoas plenas de direito. Sua capacidade civil era relativa (igual a dos índios). Necessitavam ser assistidas em todos os atos da vida civil (pelo pai, quando solteiras; pelo marido, se casadas; por um irmão ou por um filho maior, quando viúvas). Não poderiam, assim, nem assinar o contrato de edição… Precisa dizer mais alguma coisa?

Nasci em uma família esclarecida. Não tive pai machista nem mãe tradicional. Mas sempre me perseguiu a ideia de que eu precisava ser tão inteligente como um homem. É a introjeção involuntária do modelo masculino. Isso só passou quando eu me tornei mãe: minha filha, uma mulher do século XXI, não merecia esse legado.

Mais um questionamento “tradicional” da Outros Ares: você compartilha da opinião de que o conto é um gênero menosprezado no Brasil? Se sim, arriscaria dizer por que isso acontece?

Dizem que quando um escritor publica um livro de contos depara-se sempre com a pergunta: e quando vem o romance? Nas editoras existe o mito de que conto não vende. Eu não entendo essa discriminação com relação ao gênero. Publiquei um romance, escrevi umas duas dúzias de contos, meu próximo projeto é um romance biográfico, voltei a me interessar por escrever poesia… acredito que os autores não têm que se acomodar, aceitando o fato de que têm que escrever o que realmente tem vontade. E, novamente, correr os riscos.

Por fim, outra pergunta que fazemos – e continuaremos fazendo – a todos os entrevistados: fala-se muito de baixas vendas, pouco investimento nacional, pouca divulgação a escritores locais e baixa escolaridade – fatores que juntos ou separados formam o “problema” da literatura brasileira atual. Antes de tudo, a literatura tem problemas? Quais são os principais, na sua opinião, e quais seriam as soluções?

O Brasil tem aproximadamente 211 milhões de habitantes. Nas grandes editoras, a praxe é fazer edições de 3.000 exemplares. Essa proporção é um absurdo. Um estudo publicado no jornal Folha de São Paulo, em 2016 (estudo esse promovido pelo Instituto Paulo Montenegro e pela ONG Ação Educativa), mostrou que, em nosso país, apenas 8% da população é proficiente (nível mais alto da alfabetização, ou seja, pessoas que se expressam com clareza em diferentes situações e entendem de modo hábil). Nos cursos superiores, pesquisas publicadas no início deste ano indicam que apenas 20% dos alunos entendem os conteúdos em classe e respondem com eficácia e maturidade aquilo que lhes é cobrado.

Nesses números ficam resumidos os problemas que circundam a literatura no Brasil. Pouca verba para educação e para a cultura, ensino sem qualidade, vulnerabilidade econômica. A tudo isso se somam o fascínio do digital e o poder das imagens sobre os jovens. A nova geração tem pressa; é desatenta e indisciplinada para ler um livro. Além disso, nutrem profundo desinteresse por tudo o que foi criado antes da internet.

Hoje, tenho dificuldade de antever uma saída para esses impasses.

Leia a seguir um conto de Eugenia Zerbini:O rei de todos os naipes“.

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