Cada um lê à sua própria maneira

Apesar de “Enquanto os dentes” (Todavia, 2017), primeiro livro do escritor carioca Carlos Eduardo Pereira, ser um romance curto, não consegui lê-lo rapidamente. Mas não pelo fato de a obra ser de difícil leitura, ou de haver obstáculos – tanto internos, ou seja, relativos ao próprio texto, quanto externos, ou seja, questões pessoais – para o avanço da leitura. O motivo da demora em concluir “Enquanto os dentes”, refleti em alguma pausa da leitura, foi a necessidade de um tempo para “digerir” todos os acontecimentos narrados em algumas de suas páginas.

A sensação que eu tinha é a de que o autor conseguiu a proeza de condensar várias páginas em apenas uma, como se ele conseguisse comprimir vários parágrafos em um só. Por preferir ler e escrever contos curtos, confesso que fiquei com inveja do Carlos. Mas uma inveja boa, por favor.

Em “Enquanto os dentes” acompanhamos Antônio, o protagonista, fazer uma travessia de balsa do Rio de Janeiro a Niterói. Mas não é uma simples travessia. No espaço entre uma cidade e outra, nessa distância a ser percorrida em menos de uma hora, a vida de Antônio mudará drasticamente. Ele voltará a viver com os pais, mas isso também não é assim tão simples. Antônio voltará a viver com pais dos quais havia muito estava afastado, principalmente do pai, com quem não fala há anos.

Entre a sua infância e o agora retorno para casa, já à beira dos 40 anos, muita coisa aconteceu. Antônio serviu ao Exército, cursou filosofia, descobriu-se artista, viajou pelo mundo, revelou-se homossexual, sofreu um acidente e perdeu os movimentos das pernas. Nada é simples em “Enquanto os dentes”.

Ou melhor: há, sim, um aspecto simples no romance de Carlos Eduardo Pereira: sua linguagem, sua escrita. Mas, a bem da verdade, é uma simplicidade disfarçada, pois não foi fácil conquistá-la. Foram dois anos de escritura e reescritura. E o resultado é um livro forte e emocionante, que conquistou o público e a crítica.

* * *

Vamos começar com a já tradicional pergunta inicial da Outros Ares: como e quando você começou a escrever? Em qual gênero arriscou suas primeiras linhas? Chegou a cometer poemas?

Em 2011 eu tentei manter um blog, onde eu escrevia sobre as minhas primeiras experiências circulando pelas ruas depois de me tornar cadeirante. A ideia inicial era criar um canal de comunicação com a família e amigos, mas logo percebi que eu tinha a tendência de ficcionalizar todas as postagens, à minha maneira. No ano seguinte eu ingressei na Puc-Rio, que mantém no curso de Letras uma habilitação dedicada à formação de escritores. Lá eles oferecem todo tipo de oficina de escrita, então comecei a produzir meus primeiros contos. Fui aluno do grande poeta Paulo Henriques Britto, numa turma de produção de texto poético, e devo dizer que foi uma das melhores oficinas que fiz. Mas não porque tenha passado a escrever poesia, e sim porque com ele se aprende a ler poesia, o que é fundamental para quem escreve prosa.

Quanto tempo levou a escritura de “Enquanto os dentes”? Como foi o processo de escrita dele? Fiquei com a impressão de que você retrabalhou o livro por um tempo (no mínimo) razoável, para que ele chegasse ao nível de concisão que tem (você parece comprimir várias páginas em apenas uma).

Levei uns dois anos escrevendo (e reescrevendo, claro) o “Enquanto os dentes”, e a maior parte desse tempo foi trabalhando a voz do narrador. Tive a ajuda de muitos amigos generosos durante o processo, que puderam ler e trocar impressões sobre como a coisa estava caminhando. A cada tratamento eu fui percebendo que ainda era possível enxugar o texto aqui e ali, o que, muitas vezes, contribui para potencializar algumas passagens.

Você frequentou algumas oficinas literárias. Com base na sua experiência, qual a importância dessas oficinas para um escritor? Comparando a maneira como você escrevia antes das oficinas e durante/depois delas, o que mudou?

Ainda frequento oficinas literárias, elas me ajudam de muitas maneiras. Nelas consigo manter certa disciplina, respondendo à proposta de produzir algo novo a cada dia. Mas talvez a principal vantagem seja a intensa troca que se faz nesses grupos: temos contato com o trabalho do outro, e somos estimulados a contribuir com esse trabalho. Ao mesmo tempo, recebemos também um retorno sobre o que nós fazemos. É um privilégio.

Quais são os autores que mais te influenciaram/influenciam? Quais os seus livros e autores prediletos?

Eu não tenho uma bagagem grande de leituras, não fui um leitor dos clássicos desde a juventude, então procuro ler o tempo todo para recuperar o tempo perdido (ok, nunca vai ser o suficiente, mas). A faculdade de Letras me ajudou demais nesse sentido, pude conhecer Cervantes, Faulkner, Kafka, Bolaño, César Aira, ainda tive a sorte de me encontrar com o trabalho da Carola Saavedra, da Adriana Lisboa, do Rubens Figueiredo, do Ondjaki, do Paulo Scott, ficaria aqui citando uma lista interminável de autores incríveis. Por isso costumo dizer, se me fazem essa pergunta, que meu livro predileto é a leitura atual: e no momento estou lendo o “Coisas que os homens não entendem”, da grande, grande, grande Elvira Vigna [Nota do Editor: a entrevista foi concedida em março de 2018].

Antônio, o protagonista de “Enquanto os dentes”, é negro. Há alguma ligação entre o destino dele e a cor da pele? Talvez soe estranho levantar uma hipótese sobre um personagem de ficção, mas, sendo mais direto, a pergunta é: se Antônio fosse branco, ele teria tido mais oportunidades e “Enquanto os dentes” seria um livro totalmente diferente?

Tudo conta num romance, toda informação é importante, ajuda na construção da trama. Portanto, o fato de Antônio ser negro é fundamental, sim, para sua composição como personagem. O “Enquanto os dentes” discute muitas questões (pautas que, felizmente, estão na mesa da nossa sociedade atual e devem mesmo ser discutidas, em várias frentes), mas as motivações de Antônio estão ligadas sobretudo aos desencaixes familiares, a seguir em frente apesar das condições adversas. Gosto de pensar que o livro aborda aspectos da condição humana, de forma mais ampla, possíveis de ocorrer com negros ou com brancos, indiferentemente.

Além de negro, Antônio é cadeirante e homossexual, mas em momento algum lemos qualquer discurso panfletário em “Enquanto os dentes”. Enquanto escrevia o livro você pensou sobre essa questão, ou seja, se o romance soaria panfletário?

A última coisa que gostaria é de que o livro soasse panfletário, ou melhor, penúltima, porque pior do que isso seria que ele fosse lido como uma história de superação. Mas o legal na literatura é que o leitor traz para o livro a sua bagagem de experiências pessoais, cada um lê à sua própria maneira. Seria um erro grave se o narrador, ou uma circunstância qualquer, induzisse o leitor a conclusões específicas, e procurei trabalhar para que nada parecido acontecesse.

Depois de uma estreia tão elogiada como a sua, é inevitável não fazer perguntas sobre o próximo trabalho. Li que você já está trabalhando num novo livro, pode falar um pouco sobre ele?

Pois é, estou no meio de um projeto novo, sim. É um romance que trata (entre muitas outras coisas, claro) de racismo. Mas um racismo abordado de uma forma (acho que) diferente da maneira que vejo por aí, um racismo interno a uma família de negros, algo que me toca profundamente. Vamos ver.

Por fim, mais uma pergunta que fazemos – e continuaremos fazendo – a todos os entrevistados: fala-se muito de baixas vendas, pouco investimento nacional, pouca divulgação a escritores locais e baixa escolaridade – fatores que juntos ou separados formam o “problema” da literatura brasileira atual. Antes de tudo, a literatura tem problemas? Quais são os principais, na sua opinião, e quais seriam as soluções?

Muito se fala que no Brasil temos um baixo número de leitores, e eu concordo, claro, mesmo sem ter acesso às pesquisas mais recentes sobre o assunto. Mas gosto de pensar que esse cenário tende a mudar. Primeiro porque tem mais gente escrevendo (e lendo) na internet, e esse fato pode, no médio a longo prazo, transformar a maneira como vemos essa questão nos dias de hoje, a conferir. Outro ponto são as oficinas de escrita (eu acho que) cada vez mais procuradas, o que também tem lá seu potencial de mudar esse jogo. E tenho percebido um (re)surgimento de clubes de leitura espalhados pelo país, em cada cidade parece ter pelo menos um grupo de pessoas se reunindo numa livraria, ou numa biblioteca, ou numa igreja, ou num shopping, em torno da leitura conjunta de um livro, com as propostas mais variadas. Torço muito para que iniciativas/tendências como essas, em conjunto com as ações governamentais, possam gerar resultados positivos para o quadro atual.

Leia a seguir um conto inédito de Carlos Eduardo Pereira.

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