A literatura brasileira, por um desejo de raridade, não forma leitores

Outros Ares: Vamos começar com a já tradicional pergunta inicial aqui da Outros Ares: como e quando você começou a escrever? Em qual gênero você arriscou suas primeiras linhas?

Como boa parte dos escritores brasileiros, comecei escrevendo poemas, nas crises da adolescência, mas eu já queria escrever romance naquela época. Faltava a vida, faltava a linguagem. O internato, estudei em colégio agrícola, me jogou no mundo, depois morei sozinho no Mato Grosso, em Curitiba e em Florianópolis, e estas experiências longe do solo familiar me deram alguma bagagem. Meu primeiro livro foi “Inscrições a giz”, de poesia, e ganhou o Prêmio Nacional Luis Delfino de 1989, da Fundação Catarinense de Cultura. Eu já escrevia contos neste período. Mas minha estreia só aconteceu de fato com o romance “Chove sobre minha infância” (Record, 2000). Foi quando comecei a me sentir escritor.

OA: Você é um dos mais prolíficos escritores em atividade no Brasil. De onde vêm tantas ideias para tantas histórias? Você tem muitos originais prontos, guardados? Se sim, como lida com a ansiedade para vê-los publicados, se é que tem essa ansiedade?

Sou uma pessoa disciplinada, escrevo todos os dias, leio todos os dias, tomo nota de possíveis cenas ou de histórias e tenho alguma capacidade imaginativa. E como também colaboro em jornais e revistas, sempre há textos escritos que podem se organizar em forma de livro. Mas não sou ansioso. Antes não resistia a convites para publicar, agora estou selecionando mais. Cada livro tem um editor certo, é preciso esperar que se dê o encontro. Se não sou ansioso, também não tenho medo de publicar.

OA: Sobre isso de “cada livro tem um editor certo”, você vem sendo publicado por algumas das maiores editoras do país, o grupo Record e a editora Objetiva. Mas também foi publicado pela pequena Arte e Letra (“Primeiros contos”, 2008). Como é esse processo de escolha de editora ou convites que são feitos? Você poderia falar um pouco sobre o métier literário? E poderia também dar alguns conselhos para autores ainda não publicados sobre como publicar seus livros? A autopublicação é uma boa saída ou ainda é melhor ter um pouco mais de paciência e procurar uma editora?

A primeira decisão de um escritor é se ele quer ser profissional ou não. Há escritores deslumbrantes e que recusam ou recusaram editoras comerciais. Um exemplo aqui no Paraná é o falecido Jamil Snege, autor de uma obra pequena e de alta qualidade, e que nunca quis ser editado por outros, dizia que era e gostava de ser um autor autoimpresso. No meu caso, eu sei exatamente qual livro meu tem alguma chance de venda e qual não tem. Justamente por escrever em vários gêneros, e não abrir mão desta possibilidade, eu posso percorrer toda a pirâmide editorial. Há livros que funcionam bem em pequenas editoras; e outros que só funcionam em grandes. “Um camponês na capital”, publicado pela curitibana Aymará, foi comprado pelo PNBE e talvez nem tivesse despertado o interesse de uma editora maior. Agora, vamos lançar minha poesia reunida pela Ficções – a expectativa inicial é vender de 300 a 500 exemplares. No meu caso, optei ser um escritor profissional em pequena e em média escala. Ou seja, não vou escrever ao gosto do público apenas para vender, mas tento ter um perfil minimamente rentável.

OA: Interessante você comentar sobre a escolha de Jamil Snege, porque existem diversos autores talentosos que têm aquilo que passou a ser chamado de “síndrome” ou “mal” “de Salinger”, que vem a ser a escolha pela reclusão. Exemplos clássicos são Rubem Fonseca e Dalton Trevisan (a quem você conhece muito bem…). Um outro exemplo é Luiz Vilela, e poderíamos citar outros tantos. Nos casos citados, todos são donos de obras consolidadas, e não “precisam” aparecer em eventos, dar entrevistas, porque já têm seus leitores fieis (além de seus livros já serem adotados em vestibulares…). Dito isso, fica a pergunta: o escritor do século XXI, além de escrever obras de qualidade, precisa ser uma espécie “showman”?

Esses são casos diferentes. Rubem e Dalton não dão entrevistas, mas continuam escrevendo, o que me parece um pouco fácil, pois bombardeiam o mundo e não querem ser incomodados. Vilela, de quem sou amigo, apenas vive longe da vida literária, mas não foge ao debate, e está sempre disposto ao diálogo. Acredito que o escritor, na sua condição de homem público, deve se expor em seus livros e ao vivo, e que é fundamental que ele aceite a sua condição de alguém que intervém socialmente. Ficar escondido mandando torpedos contra o mundo me parece comodismo. No caso do Jamil, ele apenas não queria entrar no processo comercial do livro. Matinha um romantismo típico dos anos 70, quando escrever era resistir ao sistema capitalista. Mas ele dava entrevista, participava das discussões. Hoje, quando quase não há crítica literária, quando o jornalismo está interessado apenas no entretenimento audiovisual, o escritor deve assumir-se como uma voz que se dirige aos auditórios os mais diversos. Ou ele se faz um showman ou a própria literatura desaparece.

OA: Outra “pergunta padrão” da Outros Ares é a seguinte: Como você vê a atual situação da literatura brasileira? Um de nossos entrevistados, o escritor mineiro Jaime Prado Gouvêa, nos disse que há “gente demais e qualidade de menos”. A sensação é de que a quantidade de escritores é inversamente proporcional à qualidade do que é publicado. Por outro lado, com a avalanche de livros publicados, muita coisa boa acaba ficando escondida, não tem a chance de chegar a uma quantidade maior de leitores. Como você vê essa situação?

Quanto mais gente escrevendo, melhor, pois há mais possibilidade de surgir o grande, o novo, o incontornável. Então, quantidade não é pecado. O que é pecado é a ansiedade. Todo mundo quer fazer sucesso, viver de literatura, viajar pelo mundo sempre em disponibilidade artística. Mas o ideal de um jovem escritor é estar no meio das forças ativas da sociedade, estar num trabalho, qualquer que seja ele, para conhecer a vida por dentro. Esta ideia do sucesso instantâneo, sim, é criminosa, pois suspende os princípios éticos, incomoda as pessoas e cria ilusões. Sobre os livros de qualidade, ninguém esconde por muito tempo um livro de qualidade. Uma hora ou outra ele aparece. É preciso apenas fazer o melhor que se pode fazer, buscando ombrear-se com os grandes. E deixar que o mundo abra um pequeno caminho até o seu livro, mesmo que ele esteja na mais remota estante de um sebo.

OA: Os intelectuais brasileiros de uma forma geral, especialmente os escritores, vêm sendo “acusados”, já há algum tempo, de fugirem do debate do político, de não se engajarem mais em alguma causa. Como você vê essa questão do engajamento? Essa cobrança por uma maior atuação política dos escritores faz sentido?

O engajamento do escritor se dá não pela adesão a ideias, mas pela adesão a linguagens. Quando eu escolho usar uma linguagem mais próxima da oralidade dos personagens, quando eu coloco um menino favelado falando, ou um homossexual contando sua história, ou um interiorano relatando a sua vida na cidade grande, e faço isso dotando-os de discursos que lhe são próprios, estou me engajando pela palavra, e não por ideologias. O escritor não deve se ligar a propostas políticas, mas deve se sentir solicitado a assumir uma linguagem outra a cada livro que escreve. É aí que ele se faz mais político, mais atuante socialmente. Guimarães Rosa, ao usar a linguagem dos sertanejos, ampliando-a estilisticamente, foi mais engajado do que um Jorge Amado, que queria expressar o drama dos excluídos. É a linguagem que determina o lugar social do escritor, e não suas crenças políticas.

OA: Outro questionamento “tradicional” da Outros Ares é o seguinte: você compartilha da opinião de que o conto é um gênero menosprezado no Brasil? Se sim, arriscaria dizer por que isso acontece?

Não, não é um gênero menosprezado, há uma produção contínua de contos, uma estrutura de oficinas e publicações literárias com espaço para ele. Poderíamos até dizer que, desde Machado de Assis, o conto é o gênero mais aclimatado ao Brasil. Sempre tivemos mestres em abundância nesta área. O que ocorre é que o conto não tem um mercado igual ao do romance. E isso não é culpa nossa. O romance se tornou o gênero da integração do planeta pelo consumo. Formatados por narrativas mais longas (telenovelas, séries televisivas e filmes), o consumidor não especializado de literatura se identifica com o romance, e tem dificuldade para acompanhar outros formulários narrativos. É um problema de época e não de país. É um problema de código. A tendência do conto, no entanto, é atingir o leitor mais literário, criando audiências mais seletas. Estas audiências podem ser ampliadas, mas serão sempre numericamente inferiores ao grande público do romance.

OA: É quase impossível fazer uma entrevista com você e não fazer uma pergunta sobre Dalton Trevisan, que inspirou um dos personagens principais do seu último romance “Chá das cinco com o vampiro”. Considerado um dos maiores contistas brasileiros de todos os tempos, Trevisan influenciou e ainda influencia muitos autores. Mas e você, que conviveu com ele durante algum tempo, em que você foi influenciado – tanto para o bem quanto para o “mal”?

Eu sofri muita influência de Dalton Trevisan. Alguns textos de “Primeiros contos” (Arte e Letra, 2008) pagam tributo ao contista. Conheço bem a obra dele, absorvi muitas opiniões dele sobre literatura, e por um tempo tentei corresponder ao seu ideal de vida e de arte. O preço disso era a anulação de minha voz. Eu resolvi não pagar este preço, construindo um estilo próprio, apostando em coisas que não tinham valor para ele. Mudei de gênero literário, iniciando-me no romance depois de um desejo inicial de ser apenas contista. A tese básica da psicologia é que temos que matar os pais, principalmente os pais simbólicos. Ao publicar “Chá das cinco com o vampiro”, que não trata diretamente de Dalton Trevisan, e sim de alguns arquétipos de escritores, eu matei este pai. Mas é claro que sou ainda muito devedor. Mantenho preferências literárias herdadas de Trevisan. Uma delas é Charles Bukowski, de quem comecei a gostar por intermédio dele. O importante neste processo de relacionamento com obras muito poderosas, como é o caso da obra de Trevisan, é saber herdar sem se anular. Caso contrário, tornamo-nos epígonos.

OA: Por fim, mais uma pergunta que fazemos – e continuaremos fazendo – a todos os entrevistados: fala-se muito de baixas vendas, pouco investimento nacional, pouca divulgação a escritores locais e baixa escolaridade – fatores que juntos ou separados formam o “problema” da literatura brasileira atual. Antes de tudo, a literatura tem problemas? Quais são os principais, na sua opinião, e quais seriam as soluções?

O principal problema é que, no Brasil, acreditamos que escrever é se afastar da linguagem e das tensões do homem comum. Ou seja, nossos livros, em geral, não querem ser confundidos com as pessoas que habitam o nosso país. Nós escrevemos ainda para um leitor ideal, como na época do Brasil colônia. Escrevemos para os que estão num lá inalcançável, nos países onde localizamos a nossa alma. A literatura em geral tem dificuldade de se aceitar como uma linguagem ao rés do chão. Com isso, elevamos o tom de nossos livros e nos afastamos dos leitores comuns, da grande massa que poderia ser o nosso público. Ou seja, a literatura brasileira, por um desejo de raridade, não forma leitores. O gênero que forma leitores no Brasil é a crônica. Mas a poesia e a literatura de ficção querem se afastar do tom de crônica. Querem experimentações. Querem linguagens artificiais. Querem distinção. São sequelas de uma mentalidade elitista visível mesmo naqueles que se julgam de esquerda. Um exemplo: a universidade pública brasileira, essencialmente de esquerda, insiste em valorizar apenas a linguagem de exceção. Não vejo solução para isso, pois o sistema literário brasileiro tem esta marca. E já destruiu tantos autores que lutaram contra a literaturalização do texto. O maior mártir foi sem dúvida Lima Barreto, que se opôs programaticamente a isso. Esta outra literatura brasileira, a que dialoga com a linguagem real de homens comuns, tem em Lima Barreto o seu mestre, e não em Machado de Assis. Dizer isso, é claro, soa como heresia.

Leia a seguir “Memória da escrita“, conto de Miguel Sanches Neto.

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