Não educamos as pessoas para ler

Outros Ares: Vamos começar com a já tradicional pergunta inicial aqui da Outros Ares: como e quando você começou a escrever? Em qual gênero você arriscou suas primeiras linhas?

Comecei ainda criança, recontando para colegas de escola os episódios das séries de tevê; alguns eu inventava, porque nem sempre eu havia assistido ao episódio e não queria decepcioná-los. Na escrita, minha “estreia” foi mais tarde um pouco, na adolescência, com meus primeiros poemas.

OA: Atualmente você é Diretor do Livro e da Leitura da Fundação Pedro Calmon, na Bahia. Você poderia nos contar um pouco sobre o seu trabalho e da Fundação como um todo? Quais as conquistas e quais os dissabores de se trabalhar com a difusão do livro e da leitura no Brasil?

Basicamente a Diretoria do Livro e da Leitura tem uma única atribuição: fomentar, promover e divulgar o livro e a leitura. Estamos conseguindo, através de Feiras de Livros, encontros com escritores, publicação de livros raros e administração de editais de Pontos de Leitura, Agentes de Leitura, Biblioteca Comunitárias e Modernização de Bibliotecas Municipais, fazer com que os baianos descubram seus autores e suas editoras e, com isso, despertem para a leitura, que é fonte de conhecimento e prazer… Mas não é algo fácil, já que, ao menos na Bahia, o livro não é prioridade. Prioridade é o Carnaval, a praia, a novela das nove, o Bahia (e também o Vitória), a gravidez da Ivete Sangalo, o novo-mesmo hit do Chiclete com Banana, os quilos a mais da Cláudia Leitte etc.

OA: Como você vê a atual situação da literatura brasileira? E a literatura baiana? Um de nossos entrevistados, o escritor mineiro Jaime Prado Gouvêa, nos disse que há “gente mais e qualidade de menos”. A sensação é de que a quantidade de escritores é inversamente proporcional à qualidade do que é publicado. Por outro lado, com a avalanche de livros publicados, muita coisa boa acaba ficando escondida, não tem a chance de chegar a uma quantidade maior de leitores. Como você vê essa situação?

A impressão que tenho é a de que hoje muitas pessoas estão escrevendo porque é “algo solene ser escritor”, “algo chique, que sempre comparece aos filmes estrangeiros, notadamente aos de Woody Allen”; estão escrevendo para ter o nome “impresso em letras garrafais” na capa do livro e pela badalação que isso pode suscitar, não necessariamente por vocação. Escrever, e em especial escrever Literatura, requer talento, dedicação extrema, escolhas nem sempre agradáveis, leituras intermináveis ao longo de anos, muito trabalho, resignações e, sobretudo, abdicação da vaidade pessoal em favor do texto. De resto, sempre foi assim: milhares de escritores e, entre eles, os poucos necessários que, naturalmente deslocados da Literatura para o campo da Cultura, serão lidos em geral por todos os leitores: Jorge Amado, Drummond, Saramago, Pessoa, Bandeira, Cecília, Clarice, Quintana, Zé Lins, Erico Verissimo, Graciliano, Machado de Assis… Entre os que estão entre nós, vivos, creio que já possuem este “passaporte para a eternidade” Sérgio Faraco, Rubem Fonseca, Ronaldo Correia de Brito, Antônio Carlos Viana, Miguel Sanches Neto, Nelson de Oliveira, Iacyr Anderson Freitas e Ruy Espinheira Filho. São autores que brilham, entre os demais. Mas obviamente que não li todos os autores brasileiros da atualidade. E estes que cito representam meu gosto pessoal.

OA: Você vem publicando livros há mais de vinte anos (o primeiro foi “Pequena antologia antecipada”, de 1989, confere?), por editoras pequenas, médias e grandes. Nessas duas décadas, quais os avanços e os recuos do mercado editorial brasileiro, em sua opinião?

Gostaria de resumir minha resposta dizendo que o autor brasileiro é sempre tratado como “artigo secundário”, tanto pelos editores quanto pelos leitores. E que Paulo Coelho tornou-se um mal absoluto, não pelo que escreve, que é irrelevante, mas porque, com a sua “aparição”, passou-se a exigir que todo autor brasileiro alcance o que ele alcançou, em fama e venda de livros. Ora, começa que ele nem faz Literatura. E, por fim, se é para sermos iguais a ele, o simulacro dele, é melhor não escrevermos. Foi o que eu disse a um editor que me perguntou se eu não possuía “algo como o Paulo Coelho, algo de autoajuda”. Falei que eu preferia me autoajudar, não sendo Paulo Coelho.

OA: Agora uma pergunta mais amena: quais autores você mais admira? Quais mais te influenciaram e influenciam?

São muitos. Muitos mesmo. E de muitos países! Mas o autor que mudou minha vida foi Albert Camus, com “O estrangeiro”, que li numa tarde de verão, aos 18 anos, e à noite já era outra pessoa, sabia que seria escritor, ou melhor, literato, mas também sabia que o percurso seria muito árduo, como é. A Humanidade não brinca. Mas tento extrair o melhor disso, com a consciência de que a satisfação do autor está na criação do texto, no seu trabalho solitário com as palavras. Tudo o mais, para o bem e para o mal, é consequência daquele instante.

OA: Outro questionamento “tradicional” da Outros Ares é o seguinte: você compartilha da opinião de que o conto é um gênero menosprezado no Brasil? Se sim, arriscaria dizer por que isso acontece?

Menosprezado? Não. Apenas não é muito lido. O leitor cultural e o leitor eventual preferem romances. Só o leitor ideal, de Literatura, aprecia os contos. Mas isso é compreensível: um romancista muda de tom e de ritmo, de dicção e forma, de um romance para outro e, ao fim de uma vida, ele “terá sido dez autores diferentes”, ao passo que o contista se transforma de um conto para outro, tornando-se inúmeros, uma Legião, o que exige dos leitores muito mais concentração e uma grande capacidade de adaptação às diferenças de registro verbal. E, psicologicamente, o leitor comum quer ler “sempre o mesmo livro”, como as crianças, que eventualmente dizem “me conta aquela história”, a história que ela já conhece… Talvez o leitor de literatura ainda esteja, no Brasil, em estado primitivo, infantil.

OA: Por fim, mais uma pergunta que fazemos – e continuaremos fazendo – a todos os entrevistados: fala-se muito de baixas vendas, pouco investimento nacional, pouca divulgação a escritores locais e baixa escolaridade – fatores que juntos ou separados formam o “problema” da literatura brasileira atual. Antes de tudo, a literatura tem problemas? Quais são os principais, na sua opinião, e quais seriam as soluções?

Não é um problema da Literatura Brasileira atual. É um problema da Educação. Não educamos as pessoas para ler, mas para servir ou subir na escala social. E isso é pouco. Eu me contentaria, naturalmente, em ser sempre pobre, ganhar apenas o suficiente para o meu sustento, contanto que estivesse, como estou, cercado de livros, meus e alheios. A qualquer momento, posso ir à estante e pegar a esmo um ótimo livro para ler, como fiz recentemente, e estou alternando a releitura de “Quincas Borba”, que é maravilhoso, um tratado delicioso sobre a existência humana, com a leitura dos contos de Simenon. Aliás, Machado e Simenon são para mim dois dos mais benéficos vícios existentes, pois são ao mesmo tempo tão simples e tão brilhantes, tão fluidos e tão poéticos, tão incomuns e tão exatos. Borges estava certo. Provavelmente, o Paraíso é uma biblioteca. Ou, como disse Dalila Machado recentemente: a biblioteca é um paraíso.

Comece a ler os contos escolhidos deste mês: “1 79’91”16“.

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2 comentários em “Não educamos as pessoas para ler”

  1. Que Beleza!!! Seres Humanos “amantes de livros” é tudo o que se que. Parabéns! Que todos “acordem” para a boa leitura, de forma independente, espontânea, já que não há estímulo externo para ler.Obrigada pela excelente lembrança e dica do “Quincas Borba”.Abração.Rosa

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