O homem com a menina no colo

Luís Henrique Pellanda

Na Pracinha do Amor, sou eu o homem com a menina no colo. Paramos ali todos os dias, a caminho da creche, para observar o vaivém dos pombos. A menina gosta deles, fazer o quê? Cumprimenta o busto de Romário Martins, manda beijos ao historiador de bronze, ri ao localizar uma garça no telhado da sinagoga, mas um joão-de-barro logo rouba sua atenção, ganha facilmente a preferência do nenê. O bicho corre por baixo de um banco úmido de madeira, se esconde entre tufos de flores que não sei classificar. Funcionárias? Nome triste para uma flor. Os canteiros têm o formato de estrelas, e é fácil enxergá-las do nosso apartamento no nono andar, principalmente no meio do ano, quando as árvores estão secas, as copas, invisíveis, e olhamos mais pela janela.

Além da que está no meu colo, há outra menina na praça. Não se move e, por isso, não chama a atenção da criança que carrego. Deitada na grama, dorme entre duas estrelas floridas. Tem uns dez anos, o cabelo louro-escuro, e veste uma calça de pijama bege, encardida como os pombos, uma blusa de moletom azul-marinho e um boné masculino sobre o rosto apagado. Nos pés, duas sandálias fugitivas, de tiras de borracha, e o clichê das solas sujas, a pele grossa de piche.

A praça está quieta, são oito e meia, posso permanecer ali mais dois minutos. Na esquina da Ébano Pereira com a Saldanha Marinho, descubro a mulher de vestido preto. Confiante, bolsinha de couro no ombro, desfila meio século de batalhas perdidas. Está acima do peso, uns sete, oito quilos, mas adivinho que já teve a cintura fina e a cabeleira viva, e sem querer reconstruo a juventude daquele corpo forte que diagonalmente penetra a Pracinha do Amor. Pressinto peitos ainda sólidos, as panturrilhas atléticas, a bunda confortável onde mais de mil amantes descansaram. Seus passos são firmes e elegantes, a mulher toda é elegante, admito, apesar do excesso de rebolado e maquiagem, apesar da lordose e dos saltos abusivos. De sua figura só destoa, talvez, a sacola de supermercado que traz embolada na garra esquerda.

Curioso, decido me deter aqui mais um instante, mais dois minutinhos, só mais dois, a menina no meu colo tranquila, a aplaudir o voo de um pardal de penacho. Já a mulher que observo observa a menina adormecida. Invade a porção de grama vetada ao passeio dos cidadãos de bem, estaciona ao lado da pequena, abre a sacola plástica e despeja, sobre a outra, todo o seu conteúdo. Demoro cinco segundos para decifrar a natureza daquela chuva colorida, e me surpreendo ao ver que são pétalas, pétalas de rosas vermelhas, pétalas amarelas, pétalas rajadas, punhados e punhados de pétalas brancas, e sussurro, perplexo, ao ouvido da menina no meu colo: pétalas! Estavam na sacola da mulher de preto, e agora cobrem e cercam o corpo da menina que dorme na praça.

A mulher guarda a sacola vazia na bolsa de couro e rapidamente se afasta da cena, sem afobação. Escala o barranco de grama até o petit-pavé da Saldanha e parte sem olhar para trás. Os pombos, acostumados à ceva e ao saque, voam até a menina e buscam, entre seus braços e pernas, entre pétalas e cabelos, algo que lhes seja proveitoso, só isso, algo comestível e minimamente significante. Não encontram nada e se entreolham interrogativos, dúzia emplumada de demônios.

Encantado, acompanho a fuga da mulher de preto, ainda a persigo por meia quadra, sua bunda negra na ladeira, Ébano Pereira acima. Para em frente a um casarão antigo e acende um cigarro. Ela o traga e, antes mesmo de exalar a fumaça, entra no mais novo bordel da rua.

A criança no meu colo acena para os pombos, se despede dos pássaros que prontamente decolam e desaparecem atrás do hotel Vitória Régia. Nós também seguimos adiante. A manhã avança. O vento congela a Pracinha do Amor e nos despenteia, mas não varre as pétalas de rosa, não as move um centímetro, não parece afetar a menina que dorme entre duas estrelas floridas.

* Crônica extraída do livro “Nós passaremos em branco” (Arquipélago Editorial, 2011). Originalmente publicada no extinto site Vida Breve, em 04/11/2010.

Comece a ler os contos escolhidos deste mês: “Bala por chocolate“.

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Meia hora de vida real

Humberto Werneck

Mas o que é que eu vim fazer aqui, e com este pessoal? — me perguntei, mal o resfolegante Lada nos depositou naquele ermo.

Aqui era uma “escuela en el campo”, a uns 40 quilômetros de Havana, e este pessoal, aliás bem simpático, uma freira moderna, dessas que tocam violão, e dois teólogos da libertação. Sem fé religiosa, de certa forma eu não ornava — para usar um verbo bem paulista — com aqueles três. Estaria ali de contrapeso? Na realidade, tinha sido convidado na condição de jornalista estrangeiro. Só não sabia ainda que o papel a mim reservado não seria bem o de repórter.

A diretora da escola nos tangeu até a sala de aula, onde nos esperava uma turma do primeiro grau — três dúzias de meninas e meninos uniformizados à cubana, com lenços vermelhos que lhes conferiam um visual de escoteiros e bandeirantes. À entrada dos compañeros brasileños, puseram-se de pé, amestrados, numa sincronia circense, quase marcial.

A diretora nem precisou pedir silêncio para enveredar por uma arenga sobre a indestrutível amizade Brasil-Cuba, agora ainda mais reforçada pela disposição comum (mais cubana do que brasileira, na verdade) de não pagar a dívida assumida com o mundo capitalista. Em seguida, passou a palavra aos visitantes.

A freira, desembaraçada no papo como deveria ser no violão (depois ela me disse que, de fato, tocava), saiu-se bem na sua fala. O par de teólogos da libertação também se desempenhou a contento, sem decepcionar a meninada com uma conversa a duas vozes à qual não faltaram referências à simpatia de Fidel pelo cristianismo – mas não qualquer um, acudiu a diretora, o autêntico.

Por fim, passou-se a bola para o jornalista — e, sem escapatória, me pus a desfiar obviedades num constrangedor portunhol. Como em poucos minutos me faltasse assunto (por pouco não fui de “não tenho palavras”), apelei para o recurso de socializar o verbo, arremessando a bola, não de volta à diretora, como estava combinado, mas à massa. Sem saber que tema propor, arrisquei esta platitude: qual mensagem vocês gostariam de mandar às crianças brasileiras?

Mal pinguei o ponto de interrogação e se pôs de pé, numa presteza de boneco de mola, aquela feiosinha de óculos que nunca falta na fileira da frente numa sala de aula — a qual, com voz ardida, recitou o slogan da hora:

¡Que la deuda no se deve pagarla!

A diretora se inflou de júbilo, e o visitante, de mal-estar: a criaturinha devia ter a idade do meu filho, uns oito anos, bem Casemiro de Abreu, e o pai não conseguia imaginá-lo a bradar semelhante palavra de ordem. Uma reivindicação de aumento de mesada talvez o motivasse, mas o calote da dívida externa… E agora, como é que eu saio desta? Assim: tudo bem, vou levar esta mensagem para as crianças do meu país, mas… há alguma coisa que vocês queiram saber sobre o Brasil?

Apanhada pelo improviso, a diretora fez um gesto de desagrado. Mas o desastre estava feito. Uma onda de excitação percorreu a sala, estilhaçando o bom comportamento da meninada — e se avolumou ainda mais quando, lá na última fileira (onde, não nego, passei boa parte de minha vida escolar), um garoto espichou um dedinho:

¿Usted conoce a Roberto Carlos?

Mas é claro que conheço! — e, apanhando a deixa salvadora, embarquei na mentiralhada em boa causa. — Acompanho o Roberto desde o começo da carreira, é até amigo meu…

A diretora ainda quis salvar o script, mas o clima de programa de auditório já tomara conta da sala, varrendo a deuda e instaurando um frisson que não tardou a tragar até mesmo a feiosinha da primeira fila. Como era a casa do Roberto Carlos? sua mulher? os filhos? o automóvel? o barco? é verdade que a perna dele?

Sob as sorridentes bênçãos da freira e dos teólogos, a partir daquele instante ninguém deu a mínima para a compañera diretora — que, lá pelas tantas, acabou por entregar pontos: se não chegou a aderir à frenética perguntação do fã clube mirim, pelo menos não tentou impedir que, por boa meia hora, a vida real prevalecesse.

* Crônica extraída do livro “Esse inferno vai acabar” (Arquipélago Editorial, 2011). Originalmente publicada no jornal Brasil Econômico, em 24/04/2010.