A crônica é uma conversa aparentemente fiada

Outros Ares: Vamos começar com a já tradicional pergunta inicial aqui da Outros Ares: como e quando você começou a escrever? Em qual gênero você arriscou suas primeiras linhas? Chegou a cometer poemas?

Humberto Werneck: Comecei aos 15 anos. Fazia contos inteiramente esquecíveis – um deles, para que se tenha uma ideia, era ambientado no Nordeste, região que eu não conhecia. O camponês Matias (vê se isso é nome de camponês brasileiro…), homem puro e batalhador, era vilmente explorado pelo horrendo latifundiário. Felizmente já tinha superado essa fase de literatura “participante” quando, aos 17 anos, fiz minha estreia tipográfica – no jornalzinho do Colégio Estadual de Minas Gerais, “A Inúbia”, no qual escrevera anos antes o ex-aluno Fernando Sabino. A notável peça literária chamava-se “Férias no Paraíso”. Poemas? Vários. Quando aprendi metrificação, desandei a fazer sonetos, e desembestei ao descobrir, na obra de Augusto Frederico Schmidt, que rimar não era obrigatório. Volta e meia me assombra a ideia de que andei transcrevendo meus versos em cadernos de recordação de moças, alguns dos quais podem ainda estar por aí…

OA: Outro questionamento “tradicional” da Outros Ares é o seguinte: você compartilha da opinião de que o conto é um gênero menosprezado no Brasil? Se sim, arriscaria dizer por que isso acontece? E a crônica? Ela parece que vem sendo mais valorizada nos últimos anos, depois de um período em baixa, não?

Humberto Werneck: Em toda parte, e não só no Brasil, há uma tendência a ver o conto como um gênero situado degraus abaixo do romance. Como se tamanho fosse documento. Como se um conto fosse um romancinho. Já a crônica, o prestígio dela é ainda menor que o do conto. Para muita gente, esse é um gênero vira-lata. Não vejo utilidade nessa conversa, que provavelmente nunca terá fim. Apenas constato que no Brasil a crônica – importada da França na metade do século 19 – se aclimatou maravilhosamente. Não inventamos o gênero, mas demos a ele uma cintura muito especial. Um pouco como o futebol, que foi inventado pela rígida cintura dos ingleses e aqui veio a ganhar uma ginga. Brasileiro adora crônica, este é um fato. Quanto a estar sendo revalorizada… será? Nunca mais tivemos outra safra como aquela, notável, dos anos 50 e 60 – Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino, Antônio Maria, Drummond, Nelson Rodrigues, Rachel de Queiroz, Manuel Bandeira, Clarice, Stanislaw Ponte Preta, Carlos Heitor Cony… Toda semana a revista Manchete trazia quatro cronistas: Braga, Sabino, Paulo Mendes Campos e, menorzinho, Henrique Pongetti. A revista concorrente, O Cruzeiro, tinha Rachel de Queiroz. Hoje, temos muito colunista – e pouco cronista.

OA: Você poderia nos dizer quais são os cronistas, e também os contistas, que mais admira?

Humberto Werneck: Várias das minhas admirações estão no time acima citado. Em especial, Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino e Antônio Maria. Do pessoal hoje em atividade, gosto muito do Ivan Angelo, do Luis Fernando Verissimo, do Joaquim Ferreira dos Santos, do Antonio Prata e do Luiz Henrique Pellanda, de quem acaba de sair uma coletânea muito boa, “Nós passaremos em branco”. Em Belo Horizonte tem o Eduardo Almeida Reis. Em Pernambuco, o Joca Sousa Leão. E deve ter mais gente boa por aí.

OA: Certa vez, parafraseando Mário de Andrade, Fernando Sabino disse que “crônica é tudo aquilo que o autor chama de crônica”. Qual seria, em sua opinião, a melhor definição para esse gênero tão peculiar? Para você a crônica deve ser estritamente real, relatar algo que realmente aconteceu, ou pode ter algo de ficcional, ficando no limiar entre a crônica e o conto?

Humberto Werneck: Estou para ver uma boa definição de crônica. Perguntado, Rubem Braga jogou a toalha e saiu-se com esta maravilha: quando não é aguda, é crônica. Logo ele, agudíssimo. Antonio Candido, autor de um ensaio notável sobre o gênero, disse que a crônica é “uma conversa aparentemente fiada”. É um pouco por aí. Sem a pretensão de definir, vejo a crônica como uma boa conversa, uma conversa amigável em que se estabelece um clima de cumplicidade entre autor e leitor. A leitura de uma crônica genuína me dá a impressão de que o autor está sentado a meu lado num meio-fio. Bem diferente do artigo ou do editorial que tantas vezes é vendido como sendo crônica, cujo autor fala comigo do alto de um caixotinho. A crônica, por seu caráter subjetivo, pega uma contramão dentro da objetividade jornalística.

OA: Por fim, mais uma pergunta que fazemos – e continuaremos fazendo – a todos os entrevistados: fala-se muito de baixas vendas, pouco investimento nacional, pouca divulgação a escritores locais e baixa escolaridade – fatores que juntos ou separados formam o “problema” da literatura brasileira atual. Antes de tudo, a literatura tem problemas? Quais são os principais, na sua opinião, e quais seriam as soluções?

Humberto Werneck: Não sei se o panorama é muito diferente em outros países, mesmo os desenvolvidos. Também lá, uma tiragem inicial costuma estar em torno dos 3.000 exemplares. E olha que a escolaridade, nesses países, é bem mais elevada. O fato é que no Brasil se lê muito pouco. Diante do volume de texto que desaba o tempo todo nos blogs e sites, chego a me perguntar se o pessoal não lê pouco porque está ocupado em escrever…

Leia a seguir: entrevista com Luís Henrique Pellanda.

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Meia hora de vida real

Humberto Werneck

Mas o que é que eu vim fazer aqui, e com este pessoal? — me perguntei, mal o resfolegante Lada nos depositou naquele ermo.

Aqui era uma “escuela en el campo”, a uns 40 quilômetros de Havana, e este pessoal, aliás bem simpático, uma freira moderna, dessas que tocam violão, e dois teólogos da libertação. Sem fé religiosa, de certa forma eu não ornava — para usar um verbo bem paulista — com aqueles três. Estaria ali de contrapeso? Na realidade, tinha sido convidado na condição de jornalista estrangeiro. Só não sabia ainda que o papel a mim reservado não seria bem o de repórter.

A diretora da escola nos tangeu até a sala de aula, onde nos esperava uma turma do primeiro grau — três dúzias de meninas e meninos uniformizados à cubana, com lenços vermelhos que lhes conferiam um visual de escoteiros e bandeirantes. À entrada dos compañeros brasileños, puseram-se de pé, amestrados, numa sincronia circense, quase marcial.

A diretora nem precisou pedir silêncio para enveredar por uma arenga sobre a indestrutível amizade Brasil-Cuba, agora ainda mais reforçada pela disposição comum (mais cubana do que brasileira, na verdade) de não pagar a dívida assumida com o mundo capitalista. Em seguida, passou a palavra aos visitantes.

A freira, desembaraçada no papo como deveria ser no violão (depois ela me disse que, de fato, tocava), saiu-se bem na sua fala. O par de teólogos da libertação também se desempenhou a contento, sem decepcionar a meninada com uma conversa a duas vozes à qual não faltaram referências à simpatia de Fidel pelo cristianismo – mas não qualquer um, acudiu a diretora, o autêntico.

Por fim, passou-se a bola para o jornalista — e, sem escapatória, me pus a desfiar obviedades num constrangedor portunhol. Como em poucos minutos me faltasse assunto (por pouco não fui de “não tenho palavras”), apelei para o recurso de socializar o verbo, arremessando a bola, não de volta à diretora, como estava combinado, mas à massa. Sem saber que tema propor, arrisquei esta platitude: qual mensagem vocês gostariam de mandar às crianças brasileiras?

Mal pinguei o ponto de interrogação e se pôs de pé, numa presteza de boneco de mola, aquela feiosinha de óculos que nunca falta na fileira da frente numa sala de aula — a qual, com voz ardida, recitou o slogan da hora:

¡Que la deuda no se deve pagarla!

A diretora se inflou de júbilo, e o visitante, de mal-estar: a criaturinha devia ter a idade do meu filho, uns oito anos, bem Casemiro de Abreu, e o pai não conseguia imaginá-lo a bradar semelhante palavra de ordem. Uma reivindicação de aumento de mesada talvez o motivasse, mas o calote da dívida externa… E agora, como é que eu saio desta? Assim: tudo bem, vou levar esta mensagem para as crianças do meu país, mas… há alguma coisa que vocês queiram saber sobre o Brasil?

Apanhada pelo improviso, a diretora fez um gesto de desagrado. Mas o desastre estava feito. Uma onda de excitação percorreu a sala, estilhaçando o bom comportamento da meninada — e se avolumou ainda mais quando, lá na última fileira (onde, não nego, passei boa parte de minha vida escolar), um garoto espichou um dedinho:

¿Usted conoce a Roberto Carlos?

Mas é claro que conheço! — e, apanhando a deixa salvadora, embarquei na mentiralhada em boa causa. — Acompanho o Roberto desde o começo da carreira, é até amigo meu…

A diretora ainda quis salvar o script, mas o clima de programa de auditório já tomara conta da sala, varrendo a deuda e instaurando um frisson que não tardou a tragar até mesmo a feiosinha da primeira fila. Como era a casa do Roberto Carlos? sua mulher? os filhos? o automóvel? o barco? é verdade que a perna dele?

Sob as sorridentes bênçãos da freira e dos teólogos, a partir daquele instante ninguém deu a mínima para a compañera diretora — que, lá pelas tantas, acabou por entregar pontos: se não chegou a aderir à frenética perguntação do fã clube mirim, pelo menos não tentou impedir que, por boa meia hora, a vida real prevalecesse.

* Crônica extraída do livro “Esse inferno vai acabar” (Arquipélago Editorial, 2011). Originalmente publicada no jornal Brasil Econômico, em 24/04/2010.