Manto ácido

[Ernane Catroli]

O gorgolejar do sangue nas carótidas infladas. E o que me vem de porões. Maquiados porões. Nomes. Lista de nomes. Nomes que até hoje. E conchavos. Conchavos e terror. Também furor abissal. Irrefreável. Era isso que era? Era algo mais. Por vias tortuosas, encasquetei de encontrar o general tantos anos depois. Tínhamos notícias vagas por intermédio de um caminhoneiro, que o encontrou numa cidadezinha do Espírito Santo, onde ele morava e tinha família. O quarto de janelas abertas. E outras tantas janelas abertas não bastariam. Ele abriu os olhos e me encarou como se vasculhasse imagens sem cor. Ele agora deitado naquela cama de ferro. A sua mão sobre o lençol. Havia nele um resto da minha lembrança dele. Um resto. E um mantra desde a minha infância até a divulgação dos resultados da Comissão Nacional da Verdade com aquela cara no jornal: era ele! Pai. Pai. Pai. Baixei a cabeça. Olhei minhas próprias mãos e estremeci como se atingido por um fluxo de lava. De lava. Um fluxo. Mas ainda procurei o seu rosto. Ele já olhava em outra direção. O seu perfil. Torturado o seu perfil.

Ernane Catroli é natural de Sant’Anna de Cataguases, MG, onde passou infância e adolescência. Há muitos anos reside no Rio de Janeiro. Bioquímico de formação, exerce atividades científicas e acadêmicas na área de Saúde. Publica regularmente em alguns blogs dedicados à cultura.

Leia a seguir “A espera”.

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