Um caso em Sokólniki

[Liudmila Petruchévskaia]

No começo da guerra, havia uma mulher chamada Lida que morava em Moscou. O marido dela era piloto, e ela não gostava muito dele, mas eles viviam muito bem. Quando a guerra começou, deixaram o marido servindo perto de Moscou, e Lida ia encontrá-lo no campo de pouso. Uma vez ela chegou lá e lhe disseram que no dia anterior o avião do marido havia sido derrubado perto do campo de pouso e que o enterro seria no dia seguinte.

Lida foi ao enterro, viu três caixões fechados e depois voltou para o seu quarto em Moscou, e ali esperava por ela uma convocação para cavar valas antitanque. Ela só voltou para casa no começo do outono e passou a notar que estava sendo perseguida por um jovem de aparência muito estranha – magro, pálido, macilento. Ela o encontrava na rua, na loja onde comprava batatas, no caminho para o trabalho. Uma noite a campainha do apartamento tocou, e Lida abriu. À porta estava aquele homem, e ele disse: “Lida, você não está me reconhecendo? Sou eu, seu marido”. Descobriu-se que ele não tinha sido enterrado, de jeito nenhum, tinham enterrado terra; a onda de ar o havia jogado nas árvores e ele resolveu não voltar mais para o front. Lida não perguntou como ele tinha vivido aqueles dois meses e meio entre as árvores, ele disse a ela que havia deixado tudo o que tinha na floresta e conseguido uma roupa de civil numa casa abandonada.

E assim eles continuaram a viver. Lida tinha muito medo de que os vizinhos o reconhecessem, mas tudo correu sem sobressaltos. Naqueles meses, quase todos haviam deixado Moscou. Então, um dia o marido de Lida disse que o inverno estava chegando, era preciso enterrar o uniforme que ele havia deixado nos arbustos, senão alguém poderia encontrar.

Lida pegou emprestada uma pequena pá com a zeladora e eles partiram. Era preciso ir de trem para a região de Sokólniki, depois andar por muito tempo na floresta seguindo um certo riozinho. Ninguém os deteve, e finalmente ao anoitecer eles chegaram a uma ampla clareira em cuja ponta havia uma grande vala. Já estava escurecendo. O marido disse a Lida que estava fraco, mas era preciso encher de terra aquela vala, porque ele lembrou que tinha jogado o uniforme ali. Lida olhou para o fundo e de fato viu lá embaixo algo como um macacão de piloto. Ela começou a jogar terra em cima, e o marido a apressava muito porque já estava escurecendo. Ela passou três horas enchendo a vala aos pouquinhos, depois viu que o marido não estava mais ali. Lida se assustou, começou a procurar, a correr, por pouco não caiu na vala, e então viu que, lá no fundo, o macacão estava se mexendo. Lida saiu correndo. A floresta estava completamente escura, mas mesmo assim ela chegou à estação de trem ao amanhecer, foi para casa e dormiu.

E no sonho o marido apareceu para ela e disse: “Obrigado por me enterrar”.

(Do livro “Era uma vez uma mulher que tentou matar o bebê da vizinha”.)

Comece a ler os contos escolhidos desta edição:Manto ácido“.

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