A espera

[Rafael Gobbo]

Era uma manhã chuvosa e enevoada. Ele mal podia enxergar um palmo à frente. Estava na plataforma da estação de trem, esperando o próximo comboio. Depois de anos sem ver a mãe, decidiu finalmente reencontrá-la. Não sem o temor de que pudesse ocorrer entre eles um embate. Uma colisão. Ambicionava a superação de todas as brigas e discussões que tiveram, mas temia um possível choque; receava mais uma pancada. Mesmo assim optou por revê-la. Afinal de contas, eram da mesma carne, mesmo sangue.

O trem estava meia hora atrasado, e ele nunca fora uma pessoa paciente. Começou a lembrar-se da infância e da casa onde cresceu, enquanto checava, incessantemente, seu relógio de pulso, na esperança de tomar o trem e chegar, antes de escurecer, na casa em que morou com a família quando criança. Teve uma ideia: iria à pequena loja (tão conhecida e frequentada na meninice) que ficava do outro lado da rua, saindo da estação, para comprar um suvenir para a mãe.

Enquanto se dirigia para a saída, a passos largos e ligeiros, distraía-se com pensamentos e devaneios que invadiam sua mente e nem se deu conta do ronco do motor do grande e extenso veículo que se aproximava. Logo que deu o primeiro passo em direção à rua, descendo a calçada, o ônibus veio ao seu encontro e o acertou com força. Uma baita pancada! Seu corpo foi arremessado cinco metros à frente.

Em casa, a mãe fazia os preparativos para receber o filho. A mesa já estava posta, com os mesmos utensílios, apetrechos e louças usados há anos. Só a toalha que cobria a mesa é que era nova. Aquecia a água para o café, que tomaria enquanto esperasse aquele que um dia já fora seu menino, e que hoje possivelmente deveria ser um estranho. Já são quinze pras cinco, será que ele não vem?

A cada gota da torneira mal fechada que caía na pia da cozinha da casa da mãe, o filho, estirado no meio da rua, inalava, com dificuldade, o pouco de ar que ainda entrava em seus pulmões. Uma gota; expiração e inspiração eram ofegantes e mais espaçadas entre si. Mais uma gota; sentiu o gosto ferroso de sangue na boca. Mais uma gota; mal conseguia respirar, o ar que entrava e saía era quase inexistente. Mais uma gota; as forças se esvaíram, perdeu os sentidos.

A mãe, já incomodada com o barulho da goteira, se levantou e correu à cozinha para fechá-la, deixando cair apenas mais uma gota. Uma gota. A derradeira gota. Nenhuma mais. O coração dele parou de vez. Voltou a se sentar junto à mesa, na mesma cadeira (já posicionada em direção à porta de entrada), ansiosa, à espera do filho. Teria ele chegado à casa da mãe se não acabasse estatelado e rígido no meio da rua? Não mudaria de ideia no meio do caminho? Como saber agora?

O café esfriara e trazia um gosto mais amargo que o de costume à boca. A mãe esperou sentada por horas na cadeira da mesa da cozinha, até se dar conta de que ele não viria.

Rafael Gobbo é escritor, jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero e pós-graduado em comunicação empresarial pela Universidade Metodista de São Paulo. Atualmente trabalha com comunicação em órgão público. “A espera” é um dos contos de “Pancadas” (Viseu, 2017), primeiro livro do autor.

Leia a seguir “Inacabado”.

Uma consideração sobre “A espera”

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