Inacabado

[Marcelo Maio]

Papéis bagunçados dominavam a escrivaninha, alojada no pequeno cômodo ao lado da copa. Em frente ao móvel, uma outra mesa, ainda menor, era o espaço do microcomputador, ligado. Nele, uma página de uma loja online, com uma compra incompleta. Seus campos estavam preenchidos com os dados do comprador e de seu cartão de crédito, mas o cursor do mouse repousava preguiçosamente sobre o botão “confirmar”.

Livros estavam espalhados no colchonete do corredor: alguns abertos; outros, fechados, atravessados por um marcador de página. O aparelho de som tocava alguma canção instrumental. O apito da máquina de lavar anunciava que as roupas já estavam limpas. Um pão cortado, ao lado de uma faca suja da manteiga cujo pote ainda se encontrava aberto, passava a impressão de que alguém não havia terminado a feitura de seu lanche.

Leitura correta a que o alimento transmitia, pois o homenzinho realmente se lembrara de que havia findado o presunto para o seu sanduíche. Resolvera ir rapidamente ao supermercado na calçada em frente à de sua residência, mas o estabelecimento devia a um Fiat preto a não consolidação daquela venda, pois havia sido este o automóvel que atropelara o rapaz, deixando-o fatalmente estendido rente ao meio-fio.

O motorista não parou o veículo. Respondeu posteriormente à acusação de omissão de socorro. Às autoridades, disse que um morto é só um morto, que não havia razões para estacionar, pois imediatamente percebera que a vítima era fatal, não restando, portanto, nenhum propósito em prestar qualquer tipo de socorro. Não se socorrem defuntos, afirmou ele, chocando até os policiais já endurecidos pelo árduo cotidiano.

Igualmente se revoltaram com tal declaração os papéis em cima da escrivaninha, a escrivaninha embaixo dos papéis, o computador em cima da mesa e a mesa embaixo do computador. Este passou dias inutilmente ligado, assim como a máquina de lavar e o aparelho de som. O pão mofou, a manteiga amoleceu e os livros jamais foram reabertos. Todos os objetos se enfureceram com a frieza do condutor – revolta compreensível, é claro, afinal eles ainda estavam vivos.

Marcelo Maio nasceu em 1986, no Rio de Janeiro, cidade onde também cresceu. Aos 24 anos, mudou-se para Brasília, mas atualmente vive em Tóquio. Escreve desde a adolescência e teve contos e poesias premiados em concursos literários. Em 2015, lançou uma coletânea de contos, pela Editora Multifoco, chamada “O cemitério dos solitários”. Mantém o blog Dá uma lida!, onde “A espera” foi originalmente publicado.

Leia a seguir “Espelhos”.

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