O busto do Edgar

[Roberto Prado]

As contas não param de chegar. Sobre a mesa, acumula-se uma pilha de cobranças.

Um busto de Poe é usado como peso de papel.

Por baixo da porta entra mais um envelope; agora é a conta de luz, a de água deste mês já está com o autor do “Corvo”.

Falta de tudo na casa, e, sentado na poltrona da sala, o homem arranca os cabelos (metaforicamente falando, é claro). A mulher tenta convencê-lo a não se entregar ao desespero, debalde.

O sujeito se diz escritor, se acha escritor, ficcionista. Já enviou seus escritos para várias editoras, grandes jornais, jornais de bairro, jornais de sindicato, jornais de supermercados… mas nenhuma resposta até agora.

Ela tenta consolá-lo dizendo que uma hora ele será descoberto. Mas, no desespero, ele fica surdo, e entrega-se à depressão, e deprimido ele escreve ainda mais e mais e mais…

E não consegue publicar.

Ele olha para o busto de Poe e se pergunta o que fazer. Nenhuma resposta vem do torso do escritor.

– Nunca mais, nunca mais – grita, feito um corvo – escreverei coisa alguma pelo resto da minha vida!

Só não atirou a estátua pela janela por medo de que o vento espalhasse as contas acumuladas; afinal, ele usava o verso dos envelopes como rascunhos para seus contos.

O papel já estava no fim e não havia dinheiro para comprar mais. Era muita miséria para uma pessoa só. Sua vida de escritor está ficando igual a dos personagens de contos russos, só faltava nevar. Sua espiral descendente de autocomiseração só foi interrompida pelo grito da mulher:

– Benhê! A geladeira queimou!

– Pronto! Minhas preocupações com neve acabaram.

Olhou com ódio para o velho Edgar.

Num último suspiro de razão que ainda lhe restava no fundo da alma, tentou pensar que ele mesmo fazia parte de um conto de Poe. Sim!, só poderia ser isso, ou então não restaria alternativa para ele do que – oh! Deus, isso é pior que ver um gato preto emparedado – prestar concurso e virar servidor público, onde poderia ser pago para escrever, nem que fossem ofícios, memorandos, cartas sem fim…

Outra vez ele olhou para o busto do velho Edgar, que, por poucos segundos, ganhou vida e lhe disse:

– Isso, não! Serviço público, não!

Roberto Prado é tem vários livros publicados, entre eles “Gringa & outras histórias”, “Contos” e “Das doidas desventuras de Doidinho & Dona Dedé”. É Membro Correspondente da Academia de Letras de Teófilo Otoni (MG) e mantém o blog Etc & Basta, onde esse conto foi originalmente publicado.

Leia a seguirO avô e o neto“.

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3 comentários em “O busto do Edgar”

  1. …lembrei de minha irma (Nice) … tem o costume de escrever em envelopes de correspondencias qdo aparece de repente alguma receita ou assunto interessante na tv.
    É herança genetica… minha mamãe ..tbm tem o mesmo costume!

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