Barão do Rio Branco, 1016

Sergio Maciel

Entrei no ônibus. Mal humorado. Cara fechada. Ranzinza. Fitava fixamente o chão. Metido no meu autismo. Percebi que alguém me olhava. Não gostei. Não gosto que me olhem. Levantei os olhos e vi uma mulher me olhando. Gostosa. Tinha os seios quase pulando da blusa. Me olhava por quê? Não gosto que me olhem. Tentei fitar o chão novamente. Mas sabia que estava sendo observado. Me incomodava. Resolvi olhá-la. Olhos nos olhos por alguns instantes. Me irritei. Levantei e fui pro fundo do ônibus. Tinha um lugar vago do lado dela. Sentei. Falei que não queria que me olhasse. Não gostava. Ela não disse nada. Perguntei se queria alguma coisa.

– Te dar.

– Vai à merda.

– É viado? – Ela disse, rindo.

– Não. Só como mulher que gosto.

– Viado. – Ela falou, rindo novamente.

– Teu pai.

– Então me come. – Ela disse, apertando os seios. Levantei e apertei a campainha. Desci. Ela veio atrás.

– O que quer de mim?

– Te dar.

– Eu já não te mandei a merda?

– Sim.

– Então!

– Se não me comer, vou pensar que é viado.

– Pense o que quiser.

– Me acha feia, é isso?

Filha da puta. Mulher sempre consegue o que quer.

– Se eu te comer, me deixa em paz?

– Sim.

Peguei-a pelo braço e levei até um cortiço ali na Barão do Rio Branco.

– Aqui é sujo.

– Pra te comer serve.

Paguei sete reais pelo quarto. Lugar feio. Cobertor vermelho. Parede azul. Janela emperrada. Tirei a roupa e joguei-a na cama. Fodemos. Não gemi. Não a beijei. Nem sequer olhei para ela. Fiquei deitado, olhando para o teto. Ela gritava. Rebolava. Dizia barbaridades. Louca. Quando acabou, levantei e comecei a me vestir. Ela, nua, com as pernas abertas, dizia que queria mais.

– Não. Disse que se eu te comesse me deixaria em paz.

Ela ria.

– Qual é o seu nome?

– …

– Quantos anos você tem?

– …

– Faz o que da vida?

– Cale a boca. Você fala demais.

Ela perguntou se me veria novamente. Acendi meu cigarro e saí. Quando passei pela recepção, um sujeito disse que não podia fumar ali dentro. Mandei-o à merda. Olhei no relógio. Já eram oito horas da noite.

– Merda. Estou atrasado.

Apertei o passo. Apaguei o cigarro. Virei na Amintas de Barros e vi Leônidas, parado na esquina, me esperando.

– Oi.

– Por que demorou?

– Vim andando.

Dei-lhe um beijo e fomos para casa.

Tenho dezenove anos e sou graduando de Letras pela Universidade Federal do Paraná. Há um ano iniciei a carreira de leitor com “Dom Casmurro”. Há seis meses comecei a rabiscar palavras contra papéis.

Leia a seguir: “De pombos“.

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