De pombos

Roberto Prado Barbosa Junior

…passado o calor da batalha, que batalha, me perguntam? Qualquer uma de qualquer guerra, guerras as temos de mãos cheias, então escolham uma, abram um mapa e de olhos fechados estiquem o dedo indicador e pousem sobre ele, com certeza ali há de haver uma guerra.

Corpos espalhados pelos campos, fumaça, o cheiro acre de pólvora, abutres voando em círculo no céu nublado. Sim, nublado o céu fica melhor nesse texto, aliás, vamos colocar um chuvisco fino e um frio chegando junto com o entardecer.

(Ótimo, agora o quadro ficou digno de Bruegel.)

Aproximando um pouco a nossa câmera, veremos entre os mortos uns poucos sobreviventes que gemem, choram e soluçam. Acho bárbaro ver um soldado moribundo chorando e soluçando, seria melhor ainda se um deles tivesse à mão uma foto. Seja lá a foto da mãe, da filha, da namorada, ainda virgem (desculpem a minha licença poética, não resisti a uma namorada virgem!), ou quem sabe a foto do cachorro… (Nada mais comovente que a foto do fiel totó; penso ouvir um suspiro na plateia.)

Vemos então que um dos soldados, arrastando-se na lama, não falei antes que havia muita lama? Desculpem, mas há muita lama, um lamaçal dos infernos (?). Voltemos ao soldado que, empastelado de lodo, sujo e com as lágrimas desenhando trilhas de brancura nas faces (essa foi uma pontada no coração, não foi?) segura, abraça e ampara um irmão de armas, tenta incutir-lhe um pouco de esperança na chegada de reforços, na ajuda médica, afinal esperança de que algo suja para tirar-lhe dali.

O soldado mais ferido tenta falar algo, esboçar um sorriso, mas a tosse aguda o impede. (Nesse momento quase ouvimos uma música triste tocar.)

(Tosse.)

Desesperado, o amigo, sim, nessa hora todos tornam-se amigos e irmão, graceja e diz que tudo isso vai passar e logo-logo estarão rindo disso, ele ia ver.

Enfim escurece, a chuva fina engrossa e o frio piora. O primeiro soldado acende um cigarro e o divide com o companheiro que piora a olhos vistos. Ao longe um trovão sacode a terra, ou seria um tiro de canhão? Assustam-se, o segundo soldado piora, engasga-se com a fumaça… Escurece e, exaustos, enfim dormem…

O amanhecer os encontra abraçados, trêmulos de frio e cobertos de lama que já começa a secar. O primeiro soldado olha para o céu e em voz alta agradece a Deus por ter sobrevivido a essa noite, ele sorri e chama o companheiro agonizante para uma prece de ação de graças.

(Fosse isso um filme e eu o diretor, nesse momento mandaria a produção soltar uns mil pombos, para aumentar a dramaticidade do momento, mas como não sou, segue a história.)

– Viu? Eu não disse que tudo daria certo? Aqui estamos nós vivinhos, e tenho certeza que logo o socorro chegará. Olhe lá!

Com esforço ele levanta a cabeça do moribundo e vira (penso ouvir um crec) para o outro lado, onde se avista no horizonte uma fila de soldados chegando.

– Olhe, olhe, olhe, a ajuda está chegando, veja são os nossos homens chegando – diz chorando de emoção incontida.

Arrebatado, ele salta e começa a gritar, gritar com toda a força de seus pulmões.

(Lembram-se dos pombos que falei acima? Se eles estivessem nessa história, agora voariam assustados com os gritos.)

– Hei, hei, heeeeeeeeeeeeeeeeeeeiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!

(Entra outra uma trilha sonora, de preferência do Ennio Morricone, triste de fazer partir um coração de pedra.)

Fim, perguntarão vocês?

Um Happy End?

Não!

(Olhem que beleza seria ter os pombos nessa história. Agora que o fim se aproxima, eles voariam para o horizonte, que lindo seria!)

Mas sigamos…

Ele, decepcionado, arrasado, triste, vê o batalhão virar para a direita (ou esquerda, tanto faz, o importante é que seguiram para outra direção) e deixa-se cair como um pacote abandonado sobre o corpo inerme e já frio do companheiro morto. (Sim, ele morreu com o pescoço quebrado.)

Sentado sobre o cadáver, ele se entrega, rende-se à sua desgraça. Olha para cima e vê o dia clarear, o solo secar e mais um dia perdido começar.

Sobre sua cabeça os pombos voltam a revoar.

Bruscamente ele ergue-se de sobre a carcaça enlameada e com uma pistola na mão põe-se a disparar contra as pobres e inocentes aves columbinas…

E então do nada surgem, em fade-in, as palavras:

THE END

Leia a seguir: “Gato das sete mortes“.

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3 comentários em “De pombos”

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