Sorriso com dentes

Alexandre Bóide

São Lourenço da Prata resiste a tipificações geográficas. Se recusa a mostrar seu relevo, suas coordenadas. Mas deve ser cortada por um rio. Era assim que surgiam as cidades, antes das estradas e ferrovias. Talvez fique em um vale, no meio de um mar de morros. Precisa ter uma pracinha, uma igreja. O calçamento pode ser de pedra.

O ano é 2010, data de fantasias futuristas. Fica difícil explicar por que a rodoviária da cidade parece um bar de duas portas em uma rua pacata, com chão de ladrilho vermelho, uma geladeira velha com cerveja de lata e refrigerante de garrafa, uma estufa de salgados com ovo cozido e torresmo e uma mesa de bilhar empenada com o pano verde desbotado. Vende passagens preenchidas à mão para ônibus que saem duas vezes por dia da praça principal, e só para as localidades mais próximas.

Ele não tem muito a dizer sobre os passageiros, nem sobre os habitantes da cidade em si. Não sabe quem foi São Lourenço, mas prata ele tem certeza de que nunca existiu por lá. As pessoas talvez não gostem de admitir, mas o lugar deve ter esse nome por causa da banana. Banana prata. A base da economia local.

Uma cidade pode viver só de banana? Ele não sabe. Foi criado em cidade grande, de onde quase nunca saiu, a não ser para outras cidades grandes. Mas o impulso é irresistível. As cidades imaginárias estão lá, em todas aquelas histórias que ele não consegue esquecer. Santa Fé, Comala, Santa Maria, Macondo, Yoknapatawpha. Talvez ele não seja escritor. Não consegue imaginar pessoas, apenas construções. Para ele só existem pessoas reais. Como as das fotos.

A idade do apartamento fica evidente em todos os cômodos. Portas, janelas, torneiras, louças sanitárias, o revestimento de madeira na parede de um dos quartos. Ótimo para colar coisas. Com durex. As fotografias guardadas nos álbuns dentro do guarda-roupa. Ele encontra um vidrinho no armário do banheiro do quarto, com um líquido transparente, sem rótulo. Tem um cheiro forte. Leva com ele para a cama.

Testa o gosto com o dedo na ponta da língua. Uma gota cai sobre uma foto. Borra um rosto idoso emoldurado por um capacete de laquê. Ele gosta do efeito. Borra os outros rostos da foto. Cola na parede. Molha o dedo no vidrinho. Borra outra foto. Lambe o dedo. Cola na parede. Tira as que já estavam coladas. Molha. Borra. Lambe. Cola.

Ele vomita na cama. Duas vezes. Sente falta de alguém que segure seu cabelo e ponha a mão nas suas costas. Como ele fez na adolescência com uma menina que tomou um porre de vinho. Ela gostou da demonstração de consideração. Ficou sorrindo para ele, com um olhar que ele não conseguiu entender. Parecia totalmente concentrada nele, no fundo dos olhos dele, como se nada mais existisse no mundo. E sorria, mostrando quase todos os dentes. E era linda. Ruiva. O rosto todo enfeitado de sardas.

No dia seguinte, continuava sorrindo para ele, mas sem mostrar os dentes, como se fosse uma coisa fingida, ou então como se não quisesse sorrir. Mas os olhos ainda estavam lá, vidrados nos dele. Ele não soube o que fazer. Não sabia nem que as pessoas eram capazes de sorrir com os olhos, muito menos o que isso queria dizer. Nas fotos todos são só dentes. Aniversários. Batizados. Casamentos. Formaturas. Deveria estar incluído no convite. Traje: formal. Estado de espírito: feliz. Nas fotos todos têm a obrigação da felicidade. Quem não mostra os dentes ao sorrir se torna imediatamente o centro das atenções, o estranho no meio de todas aquelas pessoas felizes.

Poderia ter acontecido em São Lourenço da Prata. Uma menina sorrindo para um garoto desconcertado. Ela pode ser plantadora de banana. Mas por quê? Só porque vive no interior? Ele não sabe. E por que ele não pode criar uma grande cidade fictícia? As únicas metrópoles imaginárias que conhece são povoadas por bandidos fantasiados que não se contentam com o lucro imediato, querem acabar com o mundo inteiro. E acabam detidos por sujeitos vestidos com malhas colantes e capas esvoaçantes.

Ele dorme em cima do vômito. Acorda ainda mais indisposto. Já amanheceu. Ele pode ir. O porteiro da manhã já deve ter assumido o posto, não vai saber quem ele é, nem quando entrou, nem como entrou, nem em que apartamento estava. Quer sair para a rua e se perder pela cidade. Depois pode subir em um ônibus e chegar à praia. Qualquer praia. A partir da orla ele sabe se orientar. Sente vontade de voltar ao mesmo apartamento à noite. Melhor não. Melhor sair às cegas e esquecer o caminho. Melhor esquecer São Lourenço da Prata, esse lugar maldito.

Nasci em 1979 na cidade de São Paulo. Trabalho no mercado editorial desde 2003. Hoje atuo como freelancer, fazendo traduções, preparações, revisões, releases e orelhas de livros, pareceres, negociações de direitos autorais e o que mais for preciso e possível. Quando sobra um tempinho, respondo e-mails e escrevo uma coisa ou outra.

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