O menino, o velho e o mar

Olavo Berquó

De pés descalços na areia encharcada, eles olhavam a vastidão imponente que se abria à sua frente.

– É de um poder infinito… – Murmurou o velho, com os olhos voltados para muito além de onde realmente podia ver.

– Quem? – Quis saber o menino, inquieto, na ponta dos pés que se afundavam na areia fina.

Por alguns instantes não houve qualquer resposta. O velho parecia perdido na imensidão do mar. Era como se as ondas de um repuxo em desalinho o tivessem tragado e arrastado para bem longe. Traiçoeiras, aquelas moças. Ondas. Tião estava tão absorvido pela magia do lugar e do momento que, por instantes, tinha se esquecido do menino. Ele quase estava menino. A brisa suave e fria de final de tarde arrepiava sua pele enrugada, mas, como a compensar desculpando-se pelo pequeno desconforto, trazia o cheiro de maresia, que Tião sempre gostara. O mar lembrava, o vento lembrava, e as ondas, em reverência de boas vidas, vinham lamber-lhe os pés. Bons momentos. Pensou no menino, mas não recordava como tinham chegado até ali. O esquecimento era um companheiro cada vez mais presente nos últimos tempos. O velho octogenário não tinha certeza se isso era bom ou não. Indecisão, velha acompanhante que se mostrava a cada dia mais íntima e mais frequente e que deixava seus pensamentos trôpegos, como trôpego era o seu andar. Tião agora podia ver a expressão alegre do garoto. Quase sentia aquela alegria… Que saudades.

– Eu queria ir até o outro lado! – Disparou o garoto, apontando para a linha que celebrava o encontro eterno entre céu e mar. Era uma visão bela. O tom avermelhado do final de tarde, que ia se despedindo aos poucos, parecia se lamentar chorando um choro fino, como fina era a chuva da linha do horizonte.

A exclamação vivaz do menino arrancou um leve sorriso no canto dos lábios murchos de Tião. Quem não quer? – Pensou, mas não disse. Ou melhor, quem um dia não quis? – Ponderou, levantando o olhar para acompanhar melhor o sentimento do pequeno companheiro. Ficaram ali por um bom tempo, lado a lado, bem juntinhos, quietos. O menino via aventuras, novas terras, desafios. O velho via o cansaço, a impossibilidade, a prisão de sua fragilidade. Naqueles breves instantes eles viveram a mesma coisa: sonhos. O pequeno sonhava o futuro, o velho sonhava o passado. Tião percebia no brilho dos olhos do garoto algo que conheceu, mas que não conseguia mais sentir. Lutou consigo mesmo, com sua memória. Foram momentos breves de uma luta triste. Tião suplicava a si mesmo por alguns segundos da sensação de menino. Tinha esquecido. O garoto se fora… Não voltaria mais… Talvez em sonho. Somente eles, os sonhos, eram capazes de afastar a solidão do velho do mar. Era um aperto forte num peito oco. Era uma dor tão profunda, vazia e gelada, como se fosse o abismo mais escuro do oceano a sua frente. O velho Tião estava cansado. Ainda gostava do mar, mas preferia o sonho. Mas o sonho não é um mar. E, vencido, ele só queria cerrar os olhos pela última vez e viver num mar… de sonhos.

Sou natural de Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul, bacharel em Direito pela Puc, mas nunca exerci a profissão de advogado. Dedico-me a atividade empresarial no ramo de equipamentos de informática. Comecei na literatura escrevendo o romance “O Mistério de Arghtar”, ainda inédito, passando, logo a seguir, a escrever contos e crônicas. Participo da antologia “Deus Ex Machina – Anjos e Demônios na Era do Vapor” da editora Estronho. Trabalho atualmente no desenvolvimento de um novo romance, ambientado na Cidade Luz, e dedicado aos artistas plásticos do início do século XX.

Leia a seguir o conto Sorriso com dentes.

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