O sonho de meu pai

Marcondes Araujo

 

– E aí, vai ser ou não um doutor quando crescer? Hein?! Hein?! Hein?!

Meu pai perguntava isto sacolejando-me sobre sua perna e dando-me tapinhas nas costas. E depois dizia para os colegas, sentados em torno da mesa:

Este vai ser advogado do bom. Vai ser o que eu sempre quis, mas não pude. Vai ou não vai? Hein!? Hein!?

Eu mordia o lábio superior, encabulado, e balançava afirmativamente a cabeça. Os colegas de meu pai diziam: É isso aí, menino. Estude mesmo, pra dar gosto ao seu pai e se dar bem na vida.

A cena se repetia quase todos os fins de semana, quando meu pai juntava os colegas de trabalho no quintal de casa para tomar cerveja e comer churrasco: Careca, Anselmo e Adonias. Grandes amigos de meu pai, trabalhavam com ele na linha ferroviária. Minha mãe atendia, pressurosa, às visitas, cortando a carne, preparando o vinagrete, levando a cerveja até a mesa. Lembro de Careca, o mais velho, fumando um cigarro Gaivota atrás do outro e dizendo: Você é um homem de sorte, Eduardo.  Dona Márcia é uma grande mulher.  E minha mãe intercedia: Vitória também é, Careca. Tome vergonha e elogie sua esposa. E Careca dizia: Não é não, dona Márcia. Aquilo não é uma vitória, aquilo foi minha derrota. E os outros colegas davam gargalhadas. Você é um homem de sorte. Tem uma mulher de verdade, um menino que promete ser um grande homem, e duas filhas muito bonitas. Os outros concordavam: É verdade, Eduardo, suas filhas são muito bonitas, você é um homem de sorte.

Referiam-se a minhas irmãs Rosineide e Cristiane, que na época tinham dezesseis e dezoito anos. Ficavam dentro de casa, assistindo à televisão, e quando iam, cheias de timidez, ao quintal, eram tratadas com muito respeito pelos colegas de meu pai, que as chamavam de senhoritas.

Quando não fazia farra nos fins de semana, meu pai passava um tempão comigo jogando pega-vareta, deitado no chão da sala de estar. Morreu de repente, do coração. Acabaram-se as farras no quintal, passei a jogar pega-vareta sozinho. Na parede, um retrato dele, sorrindo, me vigiava.

O tempo, quando a gente é criança, demora muito a passar, por isso não lembro quantos meses transcorreram, até que minha mãe começasse a se lamentar. Faltava dinheiro para tudo; a pensão do meu pai, sem os bicos e as horas extras que ele fazia, não dava para nada. Minhas irmãs reclamavam que não podiam sair, comprar uma roupa nova, eu mesmo sentia muita falta de novos brinquedos, de ir ao parque de diversões, e fui tirado da escola particular e matriculado numa escola pública.

Minha mãe começou a brigar comigo por qualquer bobagem, coisa que nunca fizera quando meu pai era vivo. Minhas irmãs largaram os estudos, dizendo que o certo mesmo era trabalhar, mas nunca conseguiam arranjar emprego, nem mesmo como balconistas no comércio da cidade.

Um dia, ao voltar da escola, vi dois homens abrindo um enorme buraco na parede da frente da minha casa, e perguntei a minha mãe o que eles estavam fazendo: São uns pedreiros, vão abrir a frente da casa, para eu montar um bar. Perguntei por que ia fazer isto em nossa casa, e ela respondeu: Pra ganhar dinheiro, meu filho, pra ter dignidade, pra não passar vergonha na frente dos outros.

O bar substituiu a sala onde eu jogava pega-vareta. No lugar do retrato do meu pai, um enorme calendário com a foto de uma mulher pelada. Minha mãe atendia aos fregueses auxiliada por minhas irmãs. Na rua ouvi alguns adultos se referindo à minha casa como o bar da viúva.

Não demorou muito tempo para Careca, Anselmo e Adonias aparecerem. No começo ainda chamavam minha mãe de dona Márcia e minhas irmãs de senhoritas. Careca ainda me botou uma vez sentado em sua perna, para sacolejar-me, dar-me tapinhas nas costas, e perguntar-me se eu ainda estava disposto a ser doutor. Eu nada respondi. Na segunda vez rejeitei seu afago, incomodado pelo cheiro do cigarro Gaivota. Minha mãe chamou-me de mal educado.

Depois eles passaram a chamar minha mãe apenas de Márcia, e minhas irmãs de Rose e de Cris, ou simplesmente cabrochas. A mim, sempre se referiam como o doutorzinho. Ficavam até mais tarde no bar, depois dos outros fregueses saírem. Minha mãe e minhas irmãs começaram a comprar roupas novas, e eu ganhei uma bicicleta, promessa antiga nunca cumprida por meu pai.

Minha mãe sempre me mandava dormir bem cedo, no quarto do fundo, onde antes era a despensa, alegando que lá eu não seria incomodado pelo barulho do bar. Um dia acordei de madrugada e fui beber água na cozinha. O bar já havia fechado. A casa estava às escuras, senti o cheiro forte do Gaivota espalhado no ar, e ouvi vozes que vinham dos quartos. As risadinhas abafadas de minhas irmãs se misturavam com risadas contidas e graves. E, do quarto de minha mãe, ouvi um gemido, acompanhado por um sussurro: Devagar, seu doido, pra não acordar o doutorzinho.

Sou jornalista, 49 anos, baiano de Senhor do Bonfim, moro em Feira de Santana há 21 anos, onde trabalho como editor de texto na TV Subaé, afiliada da Rede Globo. Tenho três livros de contos na gaveta: “Peter Pan às avessas – Histórias crueis da infância”, “A proibição da morte”, e “A embriaguês do jumento e outros contos hemorrágicos”, do qual faz parte “Piolhos-de-cobra”. Tive contos publicados no jornal Rascunho, do Paraná, revista Iararana, de Salvador, e Tribuna Cultural, de Feira de Santana.

Anúncios

Uma consideração sobre “O sonho de meu pai”

  1. Grande Marcondes Araújo!!! Relíquia do Sertão! Beleza de conto real, que mostra os caminhos “tortuosos” pelos quais nós, seres humanos, passamos em nossa jornada do nascimento à morte. PARABÉNS! Que esse “veterano” sempre possa contribuir com sua sabedoria e inspiração, para o Brasil e o Mundo. Boa Sorte! Rosa Dantas

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s