A gente combate os problemas assim: suando a palavra

Outros Ares: Mais uma vez as perguntas clássicas: como e quando você começou a escrever? Em qual gênero você arriscou suas primeiras linhas?

Marcelino Freire: Eta! Eu comecei escrevendo poesias. Muito ruins. E tuberculosas. Tudo por causa do MANUEL BANDEIRA. Quando conheci a poesia dele, lá pelos dez anos de idade, eu quis ser Bandeira, eu quis ser doente. Na mesma época, comecei a fazer teatro na escola. Meus primeiros textos foram peças infantis. Até hoje, o teatro influencia a minha escrita. Eu escrevo sempre pensando em algum ator, atriz…

OA: Antes de morar em São Paulo você morou em Recife, onde se formou em Letras, foi isso? Com que idade você foi para Recife? Como aconteceu essa mudança? E depois, para São Paulo?

Marcelino Freire: Eu tenho o curso de Letras incompleto. Não aguentei ir até o final. Aí, nesse tempo, peguei meus panos de bunda e vim para São Paulo. Cheguei em 1991. Agora em julho farei 20 anos de São Paulo. Minha trajetória é bem retirante. Nasci em Sertânia em 1967. Aos 3 anos, a minha família mudou para Paulo Afonso, na Bahia. Cheguei ao Recife com 8 anos. Morei no Recife até os 23 anos. Esse trânsito, esse movimento, esse não-pertencimento a lugar algum está presente nos meus contos. Meus personagens estão sempre deslocados, saindo, chegando…

OA: A famosa “Geração 90” realmente existiu em termos de “escola literária”? O que você achou da recente polêmica com o crítico literário Alcir Pécora, que acusou os escritores de formarem grupos para se autoelogiar?

 Marcelino Freire: “Geração 90” foi um conceito que o NELSON DE OLIVEIRA forjou, assumidamente. Ele já falava dessa “pegadinha” na época em que organizou as duas antologias. Foi uma provocação importante. Veja lá os nomes que participaram, muitos deles hoje autores premiados. Inclusive, as antologias de Nelson são estudadas dentro e fora do país. Já publiquei lá fora por causa do contato que alguns estudiosos tiveram com o meu trabalho primeiro via antologias dessa “Geração”. Sobre o Pécora, Cristo, que preguiça! Pécora está querendo atenção. E elogio: vai um elogio para ele, então: “Pécora, você é um pedaço de mau caminho”. Pronto. Feito isto, deixa eu elogiar os meus amigos. Eu tenho culpa se eles são bons? Sou leitor e fã do Marçal Aquino, do Lourenço Mutarelli, do Joca Reiners Terron, do Nelson de Oliveira, da Ivana Arruda Leite, da Andréa Del Fuego, do Miró… Porra! É tanta gente aí, na luz. E na luta…

OA: Sua literatura tem muito do ritmo e do universo nordestino. Quais são as suas influências literárias? Como foi a recepção para a sua literatura no eixo Rio-SP, que é onde estão as principais editoras do país?

Marcelino Freire: Eu escrevo rimado, cordelizado. Eu vou atrás dos sons, muito mais do que das histórias. Tudo influenciado pelo que ouço, pela cantoria dentro da minha casa, no Recife, pela fala da minha mãe. Essa articulação sonora chamou, sim, a atenção para o meu trabalho – esse estilo que, dizem, prega no juízo do leitor. João Alexandre Barbosa, crítico literário que me deu a maior força, dizia que eu tinha um vexame, que essa “música” que eu escrevia era o meu tesouro. Sobretudo para quem vem viver em São Paulo, essa “música” me resgata, me coloca em ligação constante com a minha terra, dizia ele.

OA: Recentemente, depois das eleições, ocorreu um surto de preconceito contra nordestinos principalmente em São Paulo, o que você acha disso? Sentiu preconceito ao chegar a São Paulo?

Marcelino Freire: Esses surtos são constantes. Uma hora ou outra, sempre tem alguém atirando o verbo, a pedra, o ódio. Eu me defendo escrevendo. Nunca senti diretamente preconceito, creio porque eu seja alto, branco, quase holandês. É uma merda isto. Sempre me falam assim: “nosso, você faz tempo que mora em São Paulo e ainda não perdeu o sotaque?”. Caralho, eu respondo: “vocês querem que eu perca o que eu tenho de mais precioso?”. Nunca, nunquinha perderei a minha fala, o meu sangue, a minha única linguagem no mundo…

OA: Anos atrás você começou a escrever um romance, mas o projeto não foi adiante. O que aconteceu? Você, tal como Murilo Rubião e Antonio Carlos Vianna, entre outros, nasceu destinado ao conto?

Marcelino Freire: Eu não tenho disciplina, ainda não encontrei um jeito de dirigir um caminhão. Digo assim: eu não sei dirigir carro. Não tenho carteira. Mas comparo: estou habilitado para o conto. Meu fôlego é curto, embora tenha, aos poucos, ganhado oxigênio. Agora, enfrentar uma carreta, um romanção, ainda estou treinando. Não consigo dormir com personagens. Escrevo um conto, termino e pronto. No romance, a gente termina um capítulo e vai dormir com os outros que ainda não escreveu. Mas enfim… Tenho parágrafos engavetados. Quem sabe um dia pego essa estrada, encontro um jeito de guiar algo maior?

OA: Você também compartilha da opinião de que o Conto é um gênero menosprezado no Brasil? Se sim, arriscaria a dizer por que isso acontece?

Marcelino Freire: Não vejo que o conto seja menosprezado… Aqui e ali, de fato, indagam: “por que você não escreve um romance?”. Dizem: “o romance é melhor aceito lá fora”. Mas quem disse que eu estou preocupado com o que vou dizer lá fora? Estou escrevendo aqui, na minha terra. Primeiro, é preciso que eu fale para os leitores daqui. E fale com sinceridade, com força. É o que eu tento. Meus livros todos de contos estão em terceira, quarta edição. Tenho aí meus cúmplices fiéis. Por eles, não sou menosprezado. E é o que vale.

OA: Além de contista, agitador cultural, organizador da Balada Literária, você também dá várias oficinas literárias. É possível ensinar a escrever? Como você estrutura as oficinas? Já teve de falar para alguém que “a literatura não era para ele/ela”?

Marcelino Freire: Tenho gostado cada vez mais de dar oficina. Porque aprendo muito, apreendo muito. Minhas oficinas são uma grande conversa, em que falo com renovada paixão. E sou meio vampiro. Procuro vampirizar quem por lá aparece. Quero que o cara se descubra, se solte, mergulhe fundo, procure sua própria voz, ganhe personalidade. Escrever se aprende escrevendo, já dizia Clarice Lispector. O problema, geralmente, é que o cara quer ser escritor mas não quer escrever. Quer publicar, não quer escrever. Aí o cara vai descobrindo, nas oficinas, que a coisa é séria. O ofício não pode ser negligenciado. Tem de dar tudo de si. Enfim… A gente vai descobrindo juntos isso, unindo força, se encorajando em grupo… Se a literatura não for a do cara, ele naturalmente descobre, fica sabendo, ali, na roda de leituras, nas conversas…

OA: Apesar de ter lançado livros pela Record, recentemente você partiu para um trabalho mais independente, inclusive lançando a Edith, uma editora que publica novos autores e pela qual lançará seu novo livro. Conte um pouco por que optou por isso, qual é o projeto da Edith e, se puder, fale um pouco sobre como será o próximo livro.

Marcelino Freire: Eta! A EDITH é projeto antigo meu. Queria criar um selo que dissesse isto: “Edith agora ou se cale para sempre”. Aí encontrei a turma ideal, um pessoal muito talentoso que fez oficinas comigo e que precisava sair do casulo, ir para a próxima etapa, a de colocar a bunda na janela, o parágrafo à mostra. E é um grupo que tem fotógrafa, cineasta, artista plástico… Grandes romancistas, contistas. Aí a gente se reuniu e eu me senti muito revigorado. Se eu sou importante para eles, eles também me enchem de ânimo e ousadia. Gosto disto. Mas nada disto seria viável e possível sem a presença do VANDERLEY MENDONÇA. Ele entendeu essa mensagem apaixonada e veio ser editor, comigo, da EDITH. Nada mais natural que eu pegasse meu original de contos e trouxesse para dentro da EDITH, para dentro deste espírito. Escrevi para a Editora Record, agradeci os dois livros lindos que fiz por lá, mas eu queria que esse meu novo livro de contos tivesse essa cara, essa proposta. E o livro está lindo. Chama-se “Amar É Crime”. Lá, há contos sobre começo de relação, final de relação, amor, morte. E esperança – por incrível que pareça. Há esperança… Esse projeto da EDITH, mesmo, é esperançoso. Quer saber mais, faça uma visita à gente. É só acessar: visiteedith.com. A EDITH, inclusive, está com um concurso “SÓ PARA ESCRITORAS”. Queremos revelar uma nova autora no gênero poesia, conto, romance, crônica. É só enviar o livro. A vencedora vai ter seu original publicado e ainda participará como convidada da BALADA LITERÁRIA 2011.

OA: Fala-se muito de baixas vendas, pouco investimento nacional, pouca divulgação a escritores locais e baixa escolaridade – fatores que juntos ou separados formam o “problema” da literatura brasileira atual. Antes de tudo, a literatura tem problemas? Quais são os principais, na sua opinião, e quais seriam as soluções?

Marcelino Freire: O problema é o cara ficar com a bunda na cadeira e reclamando o tempo todo. Eu sempre fico lembrando a mim mesmo, martelando de que eu sou um escritor contemporâneo em um país em que se lê muito pouco. Aí vou à luta. Faço circular a literatura por aí. Organizo festas literárias, a duras batalhas. Pego inspiração na energia dos saraus que acontecem na periferia de São Paulo. Eu me irmano com poetas como Binho, Sérgio Vaz, Pezão e tanta gente que eu tenho conhecido circulando por aí. A gente combate os problemas assim, saindo do casulo, suando a palavra, permanentemente. É este o segredo: escrever, viver, escrever, viver. E botar para quebrar.

Leia a seguir o conto Acompanhante, inédito de Marcelino Freire.

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