Piolhos-de-cobra

Marcondes Araújo

Lulus Sabulosus Cilindroiulus é o nome científico do artrópode popularmente conhecido como piolho-de-cobra, e que nós aqui chamamos de gongo. Criaturinha insignificante e sorrateira, que caminha com centenas de perninhas quase imperceptíveis e se enrodilha na forma de espiral ao sentir-se ameaçada, e faz um barulhinho de crosh, semelhante ao da casca de ovo, quando inadvertida ou propositalmente esmagada por um pé.  E aí transforma-se numa pequena posta de massa branca misturada a fragmentos pretos e luzidios, que são os restos de sua frágil couraça estilhaçada. Pois são esses seres, até uma segunda apreciação inúteis, que infestavam o casarão de minha avó. Espalhavam-se aos milhares pelo quintal, invadiam a cozinha, o corredor, os quartos, os banheiros, a sala de estar, subindo pelas paredes, escondendo-se em frestas, ou se enrodilhando embaixo dos móveis. “Tirem esses malditos gongos daqui!”, gritava minha avó, à beira de um ataque de nervos. E lá ia meu avô, meu pai, meus tios ou a empregada passar os pés ou a vassoura nos gongos, chutando ou varrendo os espirais incômodos e inofensivos de volta para o quintal.

Minha avó era uma mulher de gênio forte, voluntariosa, orgulhosa e independente. Meu avô não a suportou mais e morreu do coração. Os filhos trataram muito cedo de se casar e se dispersaram pelo mundo. Raramente a visitavam. Ela ficou sozinha no casarão. Eu que sempre a procurava, insistindo para que desse um passeio comigo pela cidade. Recusava com firmeza e mau humor. Comprei para ela uma cadeira de balanço, um aparelho de televisão de 29 polegadas e uma antena parabólica. As duas últimas, despesas inúteis. Todas as vezes que a visitava encontrava-a recostada na cadeira de balanço, na sala de estar, com a televisão desligada. Entrava pela porta dos fundos, que ela só fechava na hora de dormir, atravessava a cozinha e chegava no imenso corredor, cheio de quartos vazios e trancafiados. De longe a avistava, balançando-se levemente na cadeira, os olhos fechados, cochilando, ou olhando para dentro de si, quem sabe remoendo mágoas do passado. Aproximava-me lenta e silenciosamente, para não acordá-la, mas sempre era denunciado pelos gongos, que se espalhavam aos montes por toda a casa, sem que a velha tivesse mais forças e disposição para expulsá-los. Um passo em falso e eu pisava num deles: crosh. O barulhinho, que em qualquer outro ambiente passaria totalmente despercebido, reverberava no corredor, no silêncio do casarão, e minha avó despertava dos sonhos acalentados pela solidão infinita. “Sou eu, minha avó”, apressava-me em me anunciar. “Esses malditos gongos!”, era só o que respondia. Eu sentava ao seu lado, perguntava sobre sua saúde, se precisava de alguma coisa. “Só quero que tirem daqui esses gongos imundos”, respondia. Nunca perguntava pelos filhos, pelos outros netos. Mas me dirigia um mal disfarçado olhar de gratidão quando me despedia. “Não se preocupe comigo. Sei muito bem como me defender”, dizia, com um ar soturno.

Compreendi, finalmente, o que queria dizer. Um dia, ao chegar ao casarão, ouvi, ainda do lado de fora, o estampido de um tiro. Abri o portão com violência, corri pelo oitão, cheguei no quintal, encontrei, como sempre, a porta da cozinha aberta e entrei, alcançando num salto o corredor. E vi o que tinha ocorrido: minha avó estava lá, recostada na cadeira de balanço, olhando para mim. E um homem caído no meio do corredor. Aproximei-me com cuidado, o coração palpitando de medo e apreensão, acendi a luz do corredor e vi o corpo do homem, ainda segurando uma navalha e com um buraco de bala no meio da testa. Aos seus pés, a posta branca de um gongo estilhaçado. Olhei para minha avó: ainda saia fumaça pelo cano do 38 niquelado que ela segurava com as duas mãos. “Salva pelo gongo, vovó”, balbuciei. “Não, salva pelo silêncio, o silêncio da solidão”, respondeu-me.

 

Sou jornalista, 49 anos, baiano de Senhor do Bonfim, moro em Feira de Santana há 21 anos, onde trabalho como editor de texto na TV Subaé, afiliada da Rede Globo. Tenho três livros de contos na gaveta: “Peter Pan às avessas – Histórias crueis da infância”, “A proibição da morte”, e “A embriaguês do jumento e outros contos hemorrágicos”, do qual faz parte “Piolhos-de-cobra”. Tive contos publicados no jornal Rascunho, do Paraná, revista Iararana, de Salvador, e Tribuna Cultural, de Feira de Santana.

Leia a seguir Inatingível.

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3 comentários em “Piolhos-de-cobra”

  1. Meu Deus! me deixou sem ar! Fiz tantas leituras paralelas! O significado dos gongos, do embalo da cadeira, da negação de entrar na vida… Nem sei o que te dizer então vai esta palavra pequena demais para leitura tão grande. Fantástico.

  2. Essa avó que olha para dentro de si, tem olhar soturno, odeia, crosh, gongo e ainda por cima dá cabo de bandido através do silêncio da solidão, é demais…Sá para quem realmente é, marcondeano mesmo.

  3. Maravilha de literatura realística! Pesquisando os que estão infestando minha horta, repentinamente vejo com uma história que tem algumas semelhanças com a minha. 68 anos, viúvo desde 14:30 horas do dia 30 de Julho de 2003, quando em uma pequena cirurgia de Hérnia discal, minha esposa então com 50 anos teve algo como um bronco espasmo.Como a anestesista por negligência estava ausente, assistindo por por curiosidade outra cirurgia, não viu é claro a consequente parada na minha esposa. Ressuscitação pelo neurologista, UTI, e conforme por escrito minha esposa deixou, doação dos órgãos possíveis. Sete pessoas foram beneficiadas graças ao empenho de de muitas pessoas, inclusive o então governador Aécio que disponibilizou o avião 22 horas do dia 3 de Agosto. A doação não me consola mas, o fato de ter dado sobrevida a outros sim. 10 anos de solidão absoluta, trabalho com vídeos até 12 horas por dia. Raramente vejo meus netos e filhos. A tragédia da minha vida se resume no que escrevi: NOSSO AMOR TRANSCENDERÁ A MORTE E NOS ENCONTRAREMOS NA ETERNIDADE. Ilario Nicio Araxá MG

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