O castigo

César Cardoso

Eu não devo conversar com a minha colega do lado durante a aula.

Eu não devo perguntar como foi o fim de semana da minha colega do lado durante a aula.

Eu não devo morrer de vergonha e confessar que passei a tarde de sábado deitado na cama pensando na minha colega do lado durante a aula.

Eu não devo escrever meu nome no caderno da minha colega do lado nem deixar o coração disparar quando ela me olhar com seus olhos verdes, virar para a frente e tornar a olhar durante a aula.

Eu não devo abaixar os olhos nem sentir uma quentura se espalhando pelo rosto nem desejar pousar a cabeça nas coxas da minha colega do lado nem pegar a borracha na outra mesa só para roçar os dedos bem de leve, quase sem tocar, nos pêlos lisinhos do braço dela durante a aula.

Eu não devo devolver a borracha, emprestar a caneta de três cores – azul, vermelha e preta, olha só! -, deixar cair tudo e, enquanto cato sem jeito, segurar os braços da minha colega do lado e puxá-los mesmo sem muita força, porque ela nem resistiu e veio para o meu lado com tanto impulso que nós quase caímos das cadeiras e deu uma vontade de rir danada durante a aula.

Eu não devo pedir à professora para ir ao banheiro, ouvir ela dizer que a minha colega do lado já foi e eu sei muito bem que só vai um aluno de cada vez, não adianta insistir que estou apertado, que ela foi no banheiro das meninas e eu vou no meu, porque a professora já está berrando que eu sou metido a engraçadinho mas ela não está achando graça nenhuma e eu devia era ficar calado durante a aula.

Eu não devo fazer um bilhete para a minha colega do lado nem ficar com a mão tremendo tanto que mal consigo escrever e não saber mais se faço ou não faço o bilhete, acabar fazendo assim mesmo, todo tremido, de um jeito que ninguém vai conseguir ler o que está escrito, muito menos ela, que até usa óculos, uns óculos que fazem ela ficar mais bonita ainda quando franze os olhos verdes e tenta ler o que eu escrevi durante a aula.

Eu não devo arrancar o bilhete das mãos dela, me abaixar na carteira e dizer que não adianta ela fazer cosquinha porque eu não vou dizer o que está escrito ali, ela não vai saber nunca, não conto, pode desistir, nem adianta puxar meus braços, apertar minha mão, minhas bochechas, e quer saber o que eu vou fazer?, vou fechar os olhos e encostar de leve meus lábios e minha língua nos lábios e na língua da  minha colega do lado durante a aula.

Eu não devo me assustar com o grito da minha colega do lado nem com a professora berrando de novo comigo que dessa vez eu passei dos limites, nem dizer que eu não passei limite nenhum, professora, nós estávamos só conversando e eu não entendo por que a minha colega do lado começa a chorar e a dizer que eu vivo implicando, perturbando, fazendo bilhetinhos e que ela só gritou porque eu a beijei à força, à força, professora!, e eu nem devo quase começar a chorar também e jurar que não beijei ninguém, é mentira, enquanto a professora vem até aqui, me pega pelo braço e me leva pra fora de sala junto com o bilhete que eu fiz para a minha colega do lado durante a aula.

Eu não devo tornar a sentir uma quentura se espalhando pelo rosto, só que dessa vez de tanta raiva da minha colega do lado, nem chamar o Beto, o Doda e o Codorna e combinar com eles para me esperarem lá detrás das três mangueiras no final do recreio, nem pedir desculpas para a minha colega do lado, que não quer conversa, então eu abaixo a cabeça, me desculpo novamente, ofereço um pedaço do meu lanche pra ela, que sorri, dá uma mordida no sanduíche de pão com mortadela e nós saímos conversando lá para os lados das três mangueiras, onde o Beto, o Doda e o Codorna aparecem e nós agarramos a minha colega do lado, tapamos sua boca enquanto ela se debate, eu acendo um cigarro, sopro a brasa, encosto bem pertinho daquele olho verde e falso e ela fica quietinha, enquanto nós levantamos a sua saia, tiramos a sua calcinha, deitamos ela no chão de terra, eu abaixo a calça e a cueca, me deito por cima dela, desajeitado, vou tentando cada vez com mais força, mais força, e conto que sempre sonhei que minha primeira vez seria com ela e sinto que o meu pau por fim entra naquela carne macia e gozo dentro da minha colega do lado e digo que ela não deve contar nada para ninguém durante a aula.

Nasci em 1955 e me formei em Letras pela UFRJ. Sou escritor, roteirista e fotógrafo e tenho um blog literário, o PATAVINA’S (www.cesarcar.blogspot.com). Esse ano lancei o livro infantil “O Que É Que Não É?”, pela Editora Biruta. O conto “O Castigo” faz parte do livro “As Primeiras Pessoas”, ainda inédito.

Leia a seguir Piolhos-de-Cobra.

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Uma consideração sobre “O castigo”

  1. Fantástico! A froma de “escreva 100 vezes eu não devo…” remeteu à uma infância que logo se avizinha de uma adolescência distorcida pelos “eu não devo”.
    Parabéns

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