Como as mulheres podem ser cruéis

Fábio Farias

Ela sorria. Um leve aceno. Chego perto. Sento ao seu lado. Cabelos pretos longos, olhos puxados, um belo sorriso. Usava um vestido vermelho. “Ano do coelho, traz prosperidade”, diz. Maquiagem nos olhos, um sapato baixo, com um frufru no encaixe do pé. Perfume não muito doce e usado com sobriedade. Formava um belo conjunto. Harmônico.

Ela olha e sei que está analisando. A primeira coisa: segurança. Homens têm que demonstrar que estão seguros de si e do que falam. Segunda coisa: conjunto. Mulheres são detalhistas. Unha cortada, barba pode ser levemente mal aparada, tríade tênis-calça-camiseta deve combinar. De preferência nada muito extravagante. Demonstrar inteligência significa pontuar bem.

Ela fala. Deixo falar. Mulheres gostam de ser ouvidas. Mexe no cabelo: bom sinal. Sorri muito, espreme os olhos quando o faz, fica mais bonita. Reparo no colar que usa, uma pimenta. “Para afastar mau olhado”, rimos. Pontuação está alta. Temo ter demonstrado alguma insegurança. Um erro pode ser fatal. Nesse sentido elas são cruéis, não perdoam.

Uma amiga se aproxima. Olha de cima abaixo. Murmura algo no ouvido dela. Saem para o banheiro. É o momento da análise. As duas conversam sobre mim. A amiga com um relatório, um dossiê, aconselha. Ali elas julgarão se ele é apto ou não.

Penso como seria se me cassasse com ela. Se ela sorriria daquela forma depois de anos de relacionamento. Continuaria sendo tão bonita? Faríamos um belo casal? Penso nos problemas que devemos ter. Ela pode ser excessivamente ciumenta. Ou talvez não suportasse minha desorganização. Implicasse com os livros espalhados, as roupas desarrumadas.

Teríamos filhos? Seríamos felizes?

Ela volta. Já não sorri tanto. Temo pelo resultado do julgamento. Demonstra desconforto. Tento ser divertido, mas sou ridículo. A amiga a puxa pelo braço. Saem. Pergunto se ela volta. Me pede para esperar um pouco. Ansiedade. “Estava gostando dela, o que deu de errado?”, penso. Intuição aponta: não passei.

Daria uma boa namorada. Gostos parecidos. A mesma música preferida. Poderíamos ver filmes juntos. Tomar sorvete nos domingos quentes. Dormir juntos nas segundas-feiras frias. Compartilhar as frustrações da vida, do emprego, do trabalho. Fazer as posições do kama-sutra. Viajar pelo interior. Conhecer praias.

Ela seria uma boa companhia. Uma companheira.

Volta. Diz que precisa ir embora. Em pé, com a bolsa no ombro. Já não sorri mais. Levanto. Puxo ela pela cintura. Sinto o hálito quente da boca. Aproximo. Boca próxima da boca. Respiração próxima de respiração.

Um segundo e hesito.

Ela ruboriza. Vira-se. Não fala nada.

Vai embora.

Fábio Farias é jornalista, editor da Revista Eletrônica Catorze, 23 anos de idade. Nascido em Brasília em uma noite chuvosa de março, mora em Natal há 10 anos. Gosta de escrever histórias, reais e irreais. Foi fotógrafo, repórter, analista de mídias sociais e assessor de imprensa. Nas folgas, assiste a filmes e lê. Odeia azeitona. 

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