Gilmar nascera predestinado a ser goleiro

Sílvio Teixeira

O pai o batizara com esse nome em homenagem ao grande Gilmar dos Santos Neves, goleiro da seleção brasileira nas copas de 58 e 62.

Quando começou a jogar bola foi para o gol, não como tantos outros goleiros que acabavam nesta posição por serem “ruins de bola”, mas porque era o que ele queria. Corajoso, pegou fama de pegador, pois não titubeava na hora de se atirar nos pés dos atacantes. Nas aulas de educação física era sempre o primeiro a ser escolhido na divisão de times, garantia de tranquilidade na defesa. Seu professor, que também era treinador do principal time de futebol da cidade, logo percebeu o potencial do garoto e o convidou para treinar no Juvenil do Esporte Clube Cerâmica, maior clube da cidade.

O garoto não decepcionou, catava tudo. Se a bola vinha por cima, ele pulava; se vinha por baixo, comia grama; se era forte, espalmava; se era colocada, encaixava. Tinha visão de jogo, lançava com as mãos no meio do campo. Para fazer gol nele não podia chutar direto, e quando tomava um gol não esmorecia, chamava a responsabilidade para si e dava gritos de incentivo para a defesa.

O Cerâmica viveu dias de glória. Apesar de Gilmar estar apenas com 15 anos, já jogava com a equipe Junior em campeonatos amadores estaduais. Quando perguntavam o que pensava do seu futuro a resposta era sempre a mesma:

– Vou ser goleiro do Internacional.

E ninguém duvidava, era só ele ter uma chance que com certeza ele a agarraria, tão fácil quanto as bolas chutadas pelos atacantes.

Então surgiu a oportunidade. A oportunidade única. O velho Abílio, olheiro do Inter de Porto Alegre, iria assistir uma partida do Cerâmica. Não se tinha certeza se ele viera por causa do Gilmar, mas isso não importava, era o velho Abílio dos Reis, o maior descobridor de talentos de todos os tempos. Ele tinha faro pra coisa, um talento natural, bastava ele ver um garoto dar meia dúzia de toques na bola e ele já proferia se o guri ia “dar dos bons”.

A chance não podia ser melhor, o 13 de Maio, maior rival do Cerâmica, que, apesar de não poder contar com o “Pelego”, seu principal jogador, vinha com discurso de que iria arrasar a partida.

O estádio estava lotado, cerca de 300 pessoas se acotovelavam para ver o clássico citadino. Para o velho Abílio, um camarote montado com quatro mesas de dobrar, cortesia da Pizzaria do Gordo. A primeira Antártica já se despedira quando os times finalmente entraram em campo. Lá estava ele, o Gilmar. Uniforme novinho comprado na Paquetá. Fez o sinal da cruz e olhou pro canto do campo, onde estava seu Abílio, tentando segurar seu coração que pulava na garganta.

Apita o árbitro, começa a partida. Os primeiros minutos passam de forma lenta, arrastada, os times se respeitam e se estudam. A segunda Antártica estava melhor que a primeira, estupidamente gelada, mais estúpida só se cuspisse na cara da gente.

O Cerâmica domina a partida, e, para azar do Gilmar, passa a maior parte do tempo no campo de defesa do Treze, que por algum motivo parecia abdicar do ataque. O Cerâmica domina a partida, mas o gol não sai, aparentemente todo mundo queria dar um toquinho a mais, mostrar habilidade e fazer um cartaz pro Seu Abílio. Objetividade mesmo, necas: chegavam na cara do gol e tentavam um lençol ou uma bicicleta.

O primeiro tempo se arrastou. O jogo estava tão ruim que o juiz terminou a primeira etapa aos 43 minutos. Tirando algumas bolas recuadas, Gilmar não tivera trabalho nenhum; na verdade, nem o goleiro adversário.

No intervalo, o treinador não apareceu no vestiário, foi conversar com o Seu Abílio, “trocar umas ideias”, ele disse.

Começa o segundo tempo e Gilmar se enche de esperanças, além de estar próximo ao “camarote” dos olheiros, o Treze voltou com outra disposição, estava baixando a lenha. Aparentemente tinham tomado uma carraspana no intervalo e vinham pra ganhar. “Deixa eles” pensou Gilmar, queria mais é que chutassem todas, para poder mostrar serviço.

Cinco minutos do segundo tempo e o Treze ganha uma falta no bico da área do Cerâmica.

“Droga!”, pensou Gilmar. “Pena que o Pelego não tá em campo, com ele essas faltas vêm no ângulo e eu espalmava de mão trocada.”

Sem o Pelego a bola acabou parando no meio do mato, mato mesmo, pois atrás do muro, três metros adiante da goleira, os maricás cresciam livres.

O tempo ia passando e, apesar de o Treze ter melhorado sensivelmente, os zagueiros do Cerâmica estavam à prova de falhas, querendo mostrar que mereciam uma chance no alvirrubro gaúcho.

Então Gilmar resolveu apelar e enquanto o time atacava chamou o Fernandão, becão “das antiga”, com quase a mesma largura e altura.

– Deixa o cara passar, Fernandão – implorou o Gilmar.

– O quê?

– Deixa o cara passar, eu preciso mostrar serviço, pô!

– Mas aí quem não mostra serviço sou eu! – contestou o beque, surpreendendo com sua lógica simples, mas irrefutável.

– Deixa ele passar que te dou a minha bicicleta!

– Tá louco? Tá de brincadeira?

– Deixa ele passar, é sério, deixa que ela é tua!

– Feito!

Agora vai. Olhou pro canto pra se certificar de que o célebre observador continuava ali e encontrou-o atrás de meia dúzia de faixas azuis, firme, olho de águia, mas com uma cara obviamente entediada.

A merda é que os ataques estavam vindo tudo pela direita, onde não era o Fernandão que marcava, e, como ele só tinha uma bicicleta, não podia fazer mais nada.

Então o ponta-esquerda do Treze foi lançado, veio pra cima do Fernandão que não se fez de rogado, meteu uma perna na frente da outra e se estatelou no chão. Agora era só ele e Deus. Gilmar deu cinco passos pra frente pra fechar o ângulo, girou o pé por sobre o calcanhar para garantir firmeza e flexionou as pernas no ângulo correto, torcia pra que o ponta tentasse encobri-lo, mas podia tentar o drible da vaca também, ele sabia como evitar que acabasse em gol, ele estava preparado, era a sua hora!

Só que o ponta não era o Pelego e não tinha essa habilidade toda, então na risca da grande área meteu o dedão. Não de chapa, não colocada: de bicão mesmo, e Gilmar pulou.

Pulou e viu o sol, nem um segundo, só um instante, um instante onde se decide a vida e a morte, um instante onde se separa as crianças dos homens. Que queimasse sua vista, que o sol inteiro entrasse em seus olhos, ele era o Gilmar, não tremia na frente de ninguém. Então no auge de seu salto cego pelo brilho do sol ele sentiu o gosto do sucesso, suas mãos seguraram firmes e não soltaram aquela que se oferecia em holocausto para que o jovem goleiro brilhasse mais que a luz do sol, aquela por quem ele tinha tanto carinho, aquela, aquela… chuteira.

Gilmar, no chão, percebeu que o ponteiro vibrava pela conquista de um gol que ele não viu. Que o ponta era abraçado e que corria agora com apenas UMA das chuteiras. Traído pelas forças primárias da natureza, Gilmar acabara por apanhar a chuteira do ponta que escapara quando ele chutou a bola. O estádio era um apupo só de risos e de troça.

Bola ingrata, gente ingrata.

Ele levantou os olhos ainda nublados, meio por causa do sol meio por causa das lágrimas que pediam passagem, levantou-se, juntou a toalha no fundo da goleira e saiu. Assim, sem dizer nada pra ninguém, só foi embora.

O treinador, questionado a fazer alguma coisa, só disse:

– Deixa ele. Deixa ele. – E colocou o goleiro reserva para os últimos cinco minutos que faltavam.

Durante muito tempo não se ouviu mais falar do Gilmar. Depois fiquei sabendo que o pai havia lhe dado uma surra por ter perdido a bicicleta e o colocou no seminário. Dizem que se encontrou no caminho religioso, que era muito feliz e que, nos finais de semana, ajudava o time dos padres a ganhar fama de não perder uma partida sequer nos campeonatos presbiterianos, não faziam gol, mas não tomavam também. Até parece que o goleiro era abençoado.

Silvio Teixeira nasceu em Gravataí, cidade vizinha de Porto Alegre, no longínquo ano de 1968, e gastou muito a ponta dos dedos em maquinas de datilografia antes da “invenção” do computador.  Atualmente é editor, redator e tio do cafezinho da revista Press Start, publicação eletrônica sobre Games. Escrever é um hobby que tem desde sempre “Escrevo coisas que eu gostaria de ter lido mas que ninguém tinha escrito ainda, então curto reler várias vezes o que eu mesmo escrevo, sou meu fã!”.

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