Cotidiano

Don Soares

O ônibus chegou às 17:25, depois de pouco mais de dez minutos de espera. Não estava lotado, mas provavelmente não haveria cadeiras vagas. Entrei meio desengonçado com a mochila que deveria estar pesando cerca de 15kg e mais uma pasta. Fui um dos últimos a entrar, já sem esperança alguma de ir sentado. Passei da roleta com alguma dificuldade, e, por sorte, uma moça que estava sentada justo no lugar onde eu havia escolhido para me acomodar de pé se levantou para soltar no seu ponto. Sentei imediatamente.

Passei os primeiros momentos da viagem sem olhar muito pra lugar nenhum. Estava muito cansado. A distância até o ponto de ônibus era relativamente grande e eu andara até lá com um peso enorme nas costas e nas mãos. O contrato do meu escritório estava para vencer e eu tinha que sair de lá. Sendo assim, estava pouco a pouco fazendo a mudança da pequena biblioteca que havia instalado por lá. O clima não estava muito bom pra ninguém. Todos perambulando tristonhos, com caixas, mochilas e cansaço pelo escritório de mais um empreendimento meu que não tinha dado certo. Eu não estava triste, nem frustrado, com raiva talvez. Certamente com raiva. Não consigo pensar num motivo específico para a raiva. Acho que às vezes ela é só um mecanismo de emergência do nosso corpo. Eu havia chegado ao ponto de ônibus movido pela raiva. Se não fosse por ela, teria caído de cansaço em menos de 30m de caminhada. Havia muitos dias que não dormia bem, não comia bem, bebia demais, trabalhava demais e o cansaço ia apenas se acumulando. Acho que quando o corpo estava prestes a desmoronar ele deu um toque pro cérebro que começou a me fazer lembrar de todos os meus fracassos. Meus fracassos como pai, como empresário, meus fracassos com as mulheres, com a família. Ia misturando tudo isso com lembranças, com pessoas, com saudades e foi me esquentando o sangue. Me fazendo pôr força no passo. E agora, passageiro sobrevivente no ônibus, sinto aos poucos minha serenidade retornando.

Dos bancos do fundo, chegava a mim o barulho de alguma conversa muito animada entre alguns jovens. Porém, com os barulhos do ônibus não dava pra entender o suficiente para me contextualizar. Olhei para os lados, caçando algo interessante. À minha direita havia um homem com uma criança no colo que parecia ser seu filho. O homem era grandão. Era negro, gordo e devia ser muito alto. Em seus braços, o bebê dormia ignorando completamente o balanço e o barulho do veículo. O pai olhava para o filho e por vezes dava uma cutucada em seu nariz e sorria. Ele olhava meio besta para a criança. De repente a criança acordou e deu um choro de centésimos de segundo enquanto estendia os braços na direção do pai. O homem compreendera o sinal e levantou a criança envolvendo-a com os braços contra o seu corpo e ela, por sua vez, envolveu os braços no pescoço do pai, recostou a cabeça em seu ombro e fechou os olhos novamente. E ficou ali, novamente tranquila, parecendo um coala nos braços daquele homem enorme.

Alguns pontos depois, quando o ônibus começava a esvaziar, entrou uma senhora desfilando em passos que pesavam como sua idade. Os bancos preferenciais estavam ocupados por pessoas que não deveriam estar ali. A maioria dessas pessoas era visivelmente jovem, com algumas exceções. Creio que, além de mim, alguns outros passageiros estavam interessados em saber como se desenrolaria aquela situação. A senhora acomodou-se num espaço do corredor próximo aos lugares preferenciais. Os dois jovens que estavam sentados lá pareciam estar dormindo. Coincidentemente os dois caíram no sono no exato momento em que a senhora entrava no ônibus. Ela, por sua vez, ignorava completamente aqueles dois. Olhava séria através da janela, provavelmente se perguntando onde o respeito e a educação haviam ido parar de três décadas pra cá. Aí um rapaz, de pele bem bem escura, bem trajado, com uma pasta em volta do ombro e que sentava num dos acentos normais, acenou para a senhora e gesticulou alguma coisa. A senhora sorriu de volta e se aproximou. Inverteram os papéis: ele ficou de pé, e ela sentou-se em seu lugar, segurando a pasta no colo. Pude ouvi-la agradecendo, ao que o rapaz respondeu com um aceno de cabeça e um sorriso bem bem branco. Alguns minutos depois, os dois jovens que fingiam dormir “acordaram”.

Mais alguns pontos depois, sobe no ônibus uma linda jovem de rosto delicado e pele branca com cara de bem sedosa. Trajava um vestido floral bem apropriado para o calor que deve ter alcançado os 34 graus lá pelas três da tarde. Dedico alguns segundos do meu tempo para imaginá-la nua. Depois vou observar a janela, à minha esquerda. A moça ao meu lado, num rápido movimento, olha pra mim e depois olha pra frente novamente. Deve ter achado que eu estava olhando pra ela. Respiro fundo. Observo os carros e torço por um acidente, ou pelo fim do mundo, ou que pelo menos eu chegue logo em casa.

Eu tenho 21 anos, nasci em Niterói – RJ, mas atualmente resido em Salvador – BA, onde estudo Letras Vernáculas na Universidade Federal da Bahia. Comecei a escrever poemas aos 16 e contos aos 18. Tenho finalizados quatro livros de poesias e dois de contos.

Leia a seguirCachecol e chantilly“.

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Menina ansiosa

Don Soares

A menina sentada no banco insistia em me questionar sobre o fato de a vida ser tão efêmera: “A vida passa tão rápido, né?”. E eu não sabia o porquê de sua ansiedade. “Baby, o que você vai fazer amanhã?” – eu perguntei, entre tragos do cigarro. “Não sei, ué!” – ela me respondeu, surpresa. A menina não sabia… e isso me deixou mais confuso do que ela. “Se você acha que a vida passa rápido assim, por que que você não tem ideia do que fazer amanhã?”. Ela ficou meio pensativa. “Se você não se preocupa com o amanhã, então tá tudo bem sobre a vida… Se você acha que a vida passa rápido, vai fazer alguma coisa antes que ela termine de passar!”. Ela ainda estava pensativa. Fiquei pensando se o que eu disse causara um choque muito maior do que deveria ou se, na verdade, não causara efeito algum e ela estava pensando “Meu Deus! O que que esse energúmeno tá querendo dizer!?”. De qualquer forma, apaguei o cigarro no chão, me despedi e fui embora. Pus-me a descer a ladeira com as mãos no bolso. “Por que será que eu insisto em fazer isso? A dar lições sobre coisas que eu sequer entendo?”. Continuei descendo a ladeira enquanto padecia da mesma angústia que aquela menina.

Leia a seguir “Staplaft“.

Gato das sete mortes

Don Soares

Ele andava pelas ruas com a mão nos bolsos do casaco. Estava frio. Além disso, era um hábito. Algumas pessoas sorriam e davam um boa tarde. A tarde não era boa para ele. Mas ele respondia com educação. Fazer o que? Era uma cidade pequena. Todos se conheciam.

Chegou no bar. Pediu uma vodka. Pagou na hora, antes que o dono imaginasse que ele não pagaria. Não era um bom pagador… Então fazer o que? Era uma cidade pequena. Bebeu até quando pôde – pagar. Tentou conversar com os bêbados uma ou duas vezes. Mas ninguém se importou com seus problemas. Fazer o que? Era uma cidade pequena. Preocupada com problemas pequenos.

Chegou em casa, botou comida para o gato. Ligou a TV… Desligou a TV. Foi até a janela. Acendeu um cigarro… Procurou por mudanças no horizonte. E notou um muro sendo erguido; notou que uma casa fora repintada; notou que dois mendigos conversavam com O mendigo – antes só havia um. Pequenas mudanças para uma cidade pequena.

Jogou o cigarro na rua. Pegou uma garrafa já quase vazia de conhaque. Bebeu. O gato apareceu para comer. O gato não tinha nome. E era muito triste. Uma cidade tão entediante. Um gato com sete vidas… E sem nenhum motivo pelo qual viver.

O rapaz foi dormir.

Ao acordar, colocou comida para o gato. Fumou seu cigarro. O gato não apareceu. Abriu a porta, pegou o jornal no chão. E logo na capa viu a manchete “Gato morre atropelado por comboio de sete caminhões”. Caminhou para dentro de casa, pegou a tigela de comida e jogou o conteúdo no lixo. Ele gostava muito do gato.

Um novo dia ensolarado chegou, tão chato quanto o anterior e certamente o seguinte. A velhinha abriu a porta e pegou o jornal que estava no chão. Logo leu a manchete “Dono do gato atropelado por comboio se mata”. A velhinha se sentiu mal. No dia anterior tinha dado boa tarde ao rapaz. O rapaz havia respondido “Boa tarde”. Embora a tarde da velhinha também não tivesse sido boa. Não conhecia o rapaz. Eram apenas companheiros de boa tarde. De repente se achou forte. Pois mesmo tendo visto a morte de todos os seus parentes, ela seguira em frente. Talvez tivesse algum objetivo. Mas o único objetivo do rapaz era dar comida ao gato. Objetivos pequenos de uma cidade pequena.

Todos foram ao enterro. Afinal, era uma cidade pequena.

Longe dali o gato revirava lixo atrás de comida. O último caminhão não o acertara em cheio.