1 79’91”16

Carolina Vianna

Conferir os bolsos. Lavar as mãos. Sempre três vezes para ter a certeza de estarem limpas. Andar até a parada de ônibus com muito cuidado. Cuidado com as listras. Lembrar dos remédios. Tomar bastante água. Dois goles de cada vez. Respirar fundo. Contar.

Às vezes parece estranho. Para os outros, loucura. Para mim, rotina. Um. Dois. Três. Quatro. Cinco. Cinco pessoas com blusa azul antes das 12h. Hoje deve chover.

Tudo está relacionado. Basta saber ler os sinais. As pessoas se desconectaram do mundo. Não entendem. Três carros vermelhos indo na mesma direção. Receberei um telefonema antes das 17h.

Ando e sorrio. Sorriem de volta. Presságio de boa sorte. Não falo. Dizem-me bom dia. Respondo apenas na quinta vez. Nunca antes. Nunca no quarto. O número quatro é sinal de mau agouro.

Certa vez, tive uma cadela. Emprenhou. Quatro filhotes. Até então, eu não sabia de nada. Morreu. Prova de que o número quatro traz má sorte. Depois morreram os filhotes. Não soube cuidar. Não sabia cuidar nem de mim.

Dez aviões vermelhos enquanto tomo café. Ah, se eu tivesse ligado. Se eu tivesse convidado-o para sair. A resposta seria sim, eu sei. Dez aviões? Era sim na certa! Os aviões sempre trazem boas notícias.

Nem tudo que voa é assim. Certa vez, entrou uma borboleta na minha casa. Sobrevoou a mesa de jantar e saiu. Papai morreu naquela noite. Odeio borboletas.

Chuva! Não disse? Basta saber ler os sinais. Mais tarde alguém vai morrer. Vi duas borboletas hoje.

Vivo só. Um dia de cada vez. O moço disse que tem de ser assim. Disse, também, que não é tão complicado. Não concordo. Preciso contar. Relacionar. E, só assim, existir.

Existo porque alguém esperou nove meses por isso. E desde então são números.

Dou aulas de matemática todos os dias. Não, minto. Não dou aulas às quartas. Não preciso explicar o motivo. Converso com o moço às quartas.

49576 é meu aluno preferido. Ele não fala. Nasceu assim. Adotei um sistema para decorar os nomes deles. Transformo tudo em números, inclusive os nomes. Acho que assim eles se sentem incluídos em um grupo. Eu me sentiria.

À noite, sinto-me só. As grades incomodam um pouco. São 43 barras verticais. Três barras horizontais.

Regime semi-aberto, o moço disse. Falou, também, que era o melhor que poderia fazer devido à minha condição.

Sou bacharel em Artes Cênicas pela Faculdade de Artes Dulcina de Moraes. Publico textos nos sites Recanto das Letras, Portal Literal, colaboro com crônicas semanais para o site Mulheres no Poder e mantenho o blog Escolhas. Apaixonada pelas artes, sou também fotógrafa e diretora de teatro.

Leia a seguir: O jantar.

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Crônica de pouco amor

Carolina Vianna

Escritas ao sabor de Guinness
numa noite onde esquecer
um grande amor não era um desejo
mas uma necessidade

Daí eu revelei o segredo. Depois de anos de suspense. Ela não deu a mínima. Tratou como se estivéssemos comentando cena de novela. E eu lá, estilhaçada, morrendo de vontade de gritar “Porra, você não vê que isso destruiu a minha vida?”.

Mas não gritei. Não falei mais nada. O que mais havia a ser dito? Ela voltou ao seu tricô. Eu, aos livros. Como se nada tivesse acontecido. Mas tinha. Eu estava quebrada. Mais infeliz e solitária do que jamais fora. Por dentro. E sorria. Por fora.

Foi ali que a raiva nasceu. Era só uma sensação incômoda no começo. Não gostava quando nossos olhares encontravam-se. Eu fugia. Chamava-me de furtiva. Levei anos para entender o sentido da palavra. Mas me sentia culpada.

As discussões aumentaram ao ponto de se tornarem insuportáveis. O respeito não existia há tempo. Só faltava agressão física, eu pensava. Se ela me bater, eu revido. Planejava em segredo.

Nesse tempo ainda tinha uma faísca. Um desejo, eu digo. Bem pequeno, mas tinha. Eu sonhava – secretamente – com a reconciliação. Ainda era só raiva contida. O ódio veio bem depois. E o reconhecimento dele, mais tarde.

Só notei quando me peguei imaginando sua morte. Mais de uma vez. Veneno. Desastre aéreo. Mal súbito. Doenças venéreas. Aneurisma. Enfarte. Asfixia. Carbonização. Engasgo com coxinha de posto de gasolina.

Os finais trágicos eram os mais divertidos. Quanto ao funeral, nenhuma variação. Vazio. Eu e mais ninguém. Nenhuma lágrima. Nem flores. Eu e o caixão.

Depois disso, sublimei. Pouco contato. Conversas amenas. Total indiferença. Fui me afastando sem que notassem. Ela reclamava. Pra fazer gênero, eu acho.

Consegui um emprego fora. Morando em outro país você pode fazer qualquer coisa, mas – invariavelmente – vira motivo de orgulho. O pessoal entra numas de achar que tudo que tem fora é melhor. Eu só reforcei. Nessa época, não me sentia nem culpada. Era importante.

A volta foi complicada. Ela queria que eu fosse pra casa. Eu preferia morar com o diabo e ser escrava dele. Fiquei em casa de amigos por uns tempos, até me arranjar. Ela sempre dava um jeito de jogar isso na minha cara. “Prefere os amigos à própria mãe!”. Eu ficava calada.

Sempre fui assim. Calada. Soturna. Introspectiva. Personalidade, né? Os amigos mais íntimos diziam “reservada”. Achava chique.

Um dia eu gritei. Finalmente, gritei:

– Você deveria ter me PROTEGIDO! Deveria ter ME escolhido! EU era um pedaço de você! Ele, não.

Ainda enxugando as lágrimas, acendi as velas e depositei o maço de flores no cimento frio.

Voltei pra casa às pressas, precisava fazer o jantar.

Sou bacharel em Artes Cênicas pela Faculdade de Artes Dulcina de Moraes. Publico textos nos sites Recanto das Letras, Portal Literal, colaboro com crônicas semanais para o site Mulheres no Poder e mantenho o blog Escolhas. Apaixonada pelas artes, sou também fotógrafa e diretora de teatro.

Leia a seguir: A caixa de vinhos.

Coisas simples

Carolina Vianna

Coisas simples, é por aí que devo começar. Cuidar de uma planta, depois de um bicho, depois de uma gente. Uma gente, assim, do meu tamanho. Se cumprir as tarefas simples com destreza, aí, sim, pensar em reproduzir uma miniatura de gente.

– Por que tanta gente pula todas essas etapas, dá conta de tudo, e eu não posso?
– Por causa do seu histórico.

Ele nunca dá as repostas que eu quero ouvir. Diz que deve me fazer pensar, que esse é o trabalho dele. Trabalho chato, isso é o que eu penso.

Coisas simples, ele disse. Então comprei a planta no primeiro dia. Um cacto. Cactus? Cactos? Não sei. Bom, achei que seria a planta mais simples para se cuidar. Dei nome, coloquei na janela pra pegar sol e até conversava com ele de vez em quando. Godofredo morreu em uma semana. Afogado, disse o rapaz da floricultura, e tratou logo de me vender uma violeta.

– Essa é resistente.
– Tá certo, obrigada.

Durou um mês. Pensei em dar nome, mas resolvi que seria melhor esperar uns três meses pra ver se iria vingar mesmo, sabe? Estou tentando evitar envolvimento emocional. Fiquei triste com o que aconteceu com Godofredo. Um cactos morrer afogado é, definitivamente, um assassinato de planta. Pois bem, tive o maior cuidado pra não afogar a violeta. Qual foi o resultado? Morreu seca!

Desde pequena, doutor, ela sempre foi oito ou oitenta, minha mãe diz. Até hoje não sei por que ela tem de vir às sessões comigo. Uma com ela, outra sem. Prefiro as que ela não vem, é claro! Ele diz que é importante o apoio familiar. Importante pra quem? Eu penso.

Quase nunca falo, me limito a perguntar coisas do cotidiano. Um dia eu disse que estava escrevendo. Ele se animou e pediu pra ver. Enrolei três sessões com isso. Conversávamos sobre o que eu poderia escrever, o tanto que iria me fazer bem e, quando ele pedia pra ver, eu mudava de assunto. Disse que era muito tímida, ele acreditou.

No início da quarta sessão ele praticamente me obrigou a mostrar o bloquinho. Entreguei uma lista de feira. Ele ficou tão nervoso que terminou a sessão quinze minutos mais cedo. Achei que ele ia me colocar num cantinho pra pensar, igual minha mãe fazia, e ri. Ele não viu.

Plantei alecrim, sálvia e manjericão. O manjericão completou seis meses de idade essa semana. Não vai ganhar nome, por mais que dure. Não quero apego, senão vou acabar me sentindo mal por comer partes dele todos os domingos. É, domingo é dia de macarronada na casa da minha mãe, e eu, agora, sou a responsável pelos temperos. Quero dizer, pelo tempero, porque só o manjericão conseguiu sobreviver.

Minha mãe diz que é bom ter responsabilidades, diz que isso deixa a gente mais atenta. Não sei se me deixa mesmo mais atenta, mas lenta, isso com certeza. Duas vezes eu tive que voltar pra buscar o manjericão, de ônibus, no domingo. Imagina a hora que saiu o almoço! Era tarde até pra almoço de domingo.

Ninguém falou nada. Eles me olham como se sentissem pena de mim. Condescendente, eu disse. Nenhum comentário sobre o assunto, elogiaram “o emprego da palavra”, pode? Eles pensam que sou retardada. Eu não falo nada.

Guardei dinheiro pra comprar um cachorro, mas acabei pegando um vira-latas que achei na rua. Não foi por causa do dinheiro, não. Eu não ligo pra essas coisas. É que ele tinha um olhar tão triste, tão perdido, tão inocente que pensei estar me vendo no espelho. Se eu tivesse um irmão gêmeo, com certeza seria aquele cachorro. Ah, não, eu tive um irmão gêmeo. Ele morreu. Caiu no chão quando era pequeno.

Foi sem querer, eu disse.

Sou bacharel em Artes Cênicas pela Faculdade de Artes Dulcina de Moraes. Publico textos nos sites Recanto das Letras, Portal Literal, colaboro com crônicas semanais para o site Mulheres no Poder e mantenho o blog Escolhas (http://escolha1.blogspot.com). Apaixonada pelas artes, sou também fotógrafa e diretora de teatro.

Leia a seguir O menino, o velho e o mar.