Espelhos

[Rafael Rodrigues]

Chegará o dia em que, tal como Renato Valenzuela, aquele personagem de Mario Benedetti, derrotarei os espelhos. Mas, até lá, seguirei sendo vencido por meu reflexo, que, invariável e frequentemente, me ofende.

Diz ele que sou fraco, idiota, ingênuo e que cedo mui facilmente às tentações. Não necessariamente às da carne, mas a elas também.

Meu reflexo me pergunta, quase todos os dias, por que continuo não ouvindo a minha mãe, que, mesmo estando morta há vários anos, faz ecoar em minha mente seus conselhos.

Me humilham, os espelhos. Todos eles, onde quer que os encontre. Mas me humilha, principalmente, o do meu banheiro, esse espelho desgraçado com o qual convivo diariamente e nunca dividi com ninguém.

(E que, pelo visto, nunca vou dividir.)

Digo aos espelhos que a culpa não é minha. Sou como sou porque assim fui criado. A culpa é dos meus pais (eles estão mortos, então posso culpá-los sem medo). Foram eles que me impediram de viver a vida de maneira libertina, foram eles que me protegeram de tal maneira que, quando partiram, eu não sabia como proceder.

Os espelhos dizem que meus pais sempre quiseram o meu bem, e afirmam que não posso culpá-los por ser quem sou. Tive oportunidades, dizem os espelhos, de seguir outros caminhos, de tomar decisões que me fariam ter uma outra personalidade. Mas, segundo eles, fui e continuo sendo um covarde. Além disso, um canalha, por culpar meus pais por um fracasso que é somente meu.

Às vezes penso que os espelhos são fantasmas que foram enviados para me assombrar. Hoje mesmo disse isso a um deles, que me respondeu o seguinte:

“Se existe alguém que o assombra é você mesmo. Eu sou apenas um espelho. Apenas um espelho.”

Rafael Rodrigues é escritor, revisor, resenhista e editor da Outros Ares. Publicou os livros “O escritor premiado e outros contos” (Multifoco, 2011) e “Mais um para a sua estante” (Casa Impressora de Almería, 2017). Participou das antologias “O livro branco – 19 contos inspirados em músicas dos Beatles + bonus track” (Record, 2012) e “Tardes com anões” (Vento Leste, 2011). Mantém o blog Paliativos e escreve eventualmente para o Huffington Post Brasil. Mora em Feira de Santana, Bahia. “Espelhos” é um dos contos de seu próximo livro.

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