Ponto de vista

[Carlos Eduardo Pereira]

Depois que atingi certa idade, ainda mais tendo vivido as experiências que vivi, quando os dias estão como o de hoje, sobretudo as manhãs, manhãs como a de hoje, eu tendo a pensar nessas coisas. Daqui de cima enxergo umas folhas pequenas, milhares delas, ou mais que milhares, que se destacam, talvez pelo seu brilho, talvez porque numerosas desse jeito, elas se destacam, se comparadas aos galhos e troncos que as sustentam, inclusive às raízes, que daqui não consigo ver, mas sei que elas estão por lá, e aposto que são, assim como os galhos e troncos, de uma espécie de marrom barrento. Não há como imaginar essas folhas soltas no ar, como os pássaros que vejo daqui, e não sei de que tipo eles são, ou de que raça, só sei que eles hoje são poucos, e estão no alto, asas abertas quase imóveis, planando em círculos, para dentro e para fora de umas nuvens. As mais que milhares de folhas, que, disso eu tenho alguma certeza, variam na forma e na tonalidade, elas são, de fato, pequenas, cada qual poderia ser esmagada facilmente na mão de um desses garotos do condomínio. Produzem sombra essas folhas. Sem muito esforço, eu posso supor que por baixo da proteção dessas folhas há também mais que milhares de bichos, pequenos e grandes, dependendo da perspectiva, formigas, e cobras, e macacos, e gambás (ouço daqui também cigarras, mas essas só fazem cantar até explodir), bichos que vivem de devorar outros animais, é assim que eles fazem, eles se comem uns aos outros, e agora mesmo uns insetos minúsculos devem estar por aí, caçando alguma coisa para comer, ao mesmo tempo em que emitem grunhidos facilmente identificáveis, mas que são dificílimos de descrever. Sim, as construções. Daqui de cima dá para ver, camuflados, uns pedaços de lajes, ou de caixas d’água, ou de anteninhas parabólicas, ou de tijolos aparentes, de rebocos, ou de canos ou de tubos PVC, ou de buracos nas paredes, ou de telhas, ou de varais (com roupas coloridas penduradas neles, aproveitando o mormaço), ou de gambiarras, e um muro invisível, coberto por uma camada escura e, parece, rugosa, que eu vou chamar de limo, e não sei se é esse mesmo o nome certo, assim como não sei também se ele pode ser chamado de muro de contenção (e digo isso porque existe uma notável diferença de nível entre o lado de lá e o de cá). Posso ver essas coisas, o que não deixa de ser curioso, já que esse cenário aparece desde o pé da montanha e vai terminar num cruzeiro enorme, uma tremenda cruz cravada no topo por alguém, e cujos detalhes o vizinho do décimo sexto é que, ao menos eu penso, deveria ser capaz de enxergar de verdade. Não tem vento nem nada. Se me apetece, hoje eu também posso olhar para o outro lado, o lado direito. Daqui do sétimo, que na verdade nem é sétimo, pois há que se considerar também a portaria, os dois andares-garagem, o playground, portanto décimo primeiro, daqui do, digamos, décimo primeiro andar, da minha varanda, observo, através desta rede, mais que dezenas de prédios iguais. Da minha varanda, no cruzamento da Nossa Senhora com a Avenida Dom Helder. Eu não posso afirmar, mas me parece que há crianças na piscina, aproveitando o mormaço, e há velhos, e as babás dessas crianças, e as cuidadoras desses velhos, formam uma roda em volta dos celulares, e as identifico porque estão todas de branco, e ainda acredito que ali mais para o fundo esteja a praia, e o Cristo Redentor, e a Lagoa Rodrigo de Freitas, e o paredão de rochas que chamam de Pão de Açúcar.

Comece a ler os contos escolhidos desta edição:Luto“.

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