É por isso que estou aqui

[G.H.]

Era o tênis que ele mais gostava, sabe? Eu até lembro do dia em que o compramos. Foi pouco depois de ele começar a trabalhar na loja de vocês lá na cidade. Ele me disse que precisava de um calçado mais confortável, já que trabalhava em pé e tinha que andar prum lado e pro outro da loja. Aí um colega dele, acho que nem trabalha mais pra vocês, recomendou esse modelo. Como ele ainda não tinha recebido o primeiro salário, me pediu pra comprar o tênis no meu cartão de crédito, e disse que pagaria assim que recebesse o dinheiro. Falei pra ele que não precisaria me pagar, que seria um presente.

Ele até comprou outros tênis depois desse, inclusive dessa mesma marca, Adidas. Mas nenhum deles era tão confortável como esse, ele dizia.

Perdi a conta de quantas vezes falei pra ele parar de usar esse tênis, porque já estava bem gasto, mas ele dizia que, mesmo velhinho, era o melhor tênis que tinha.

Uma vez perguntei se não teria como comprar outro igual, mas ele disse que esse modelo não era mais fabricado. Mas o senhor sabe, né? O que uma mãe não faz, ou pelo menos tenta fazer, por um filho?

E é por isso que estou aqui. Uma vez, brincando comigo, porque falei que o tênis estava velho demais pra ele continuar calçando, ele disse que iria usar até quando estivesse velhinho – não o tênis, que já estava velho, mas ele mesmo –, e que ia pedir pra ser cremado com ele – com o tênis, no caso.

Ele tinha essa mania besta de se apegar a algumas coisas. Tinha uma calça, por exemplo, que ele nem usava mais, mas não me deixava doar. Dizia que ela tinha muita história, muitas lembranças, e que lembrava de tudo quando olhava pra ela. Com o tênis era a mesma coisa. Por isso é que ele gostava tanto desse tênis.

E ele morreu ontem, moço. Quer dizer, mataram o meu filho ontem, só porque ele estava andando de mãos dadas com o namorado. E ainda roubaram as coisas dele, levaram até o tênis! Um monte de gente passando e ninguém ajudou meu menino… Que mundo é esse, meu Deus? Desculpa, moço, mas é que a dor é grande demais…

Mas não quero atrapalhar o senhor, não. O motivo de eu ter vindo até aqui é que eu queria saber se vocês não teriam em algum lugar da fábrica um tênis do mesmo modelo que ele gostava tanto. Se adiantar de alguma coisa, sei o ano em que compramos, e também sei cada detalhe do tênis. Eu só quero que ele seja cremado do jeito que ele pediu. Será que o senhor pode me ajudar?

G.H. é professora de literatura e mora em São Paulo.

Leia a seguirCarolina“.

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