Carolina

[Lucas Ribeiro Novaes]

Ao homem foi dada a palavra para esconder seu pensamento
(Padre Malagrida)

Toda tragédia tem seu indício. É como se o destino se sentisse compelido a nos preparar para o pior. Insuspeitadamente o acaso age sobre o tempo e nos coloca na direção do atalho prévio, daquele que irá anunciar o infortúnio. Fechar os olhos e subestimar a má sorte não vai nos eximir do golpe. O fato não hesita! Frente à morte não há saída. O que resta é o que fica.

Assim Antenor liquidou o primeiro parágrafo do conto que pretende escrever. O roteiro fala sobre o atentado que irá cometer contra sua fiel companheira. Antenor não se casou por amor. Na verdade, em matéria de sentimentos, nunca foi além do apego à própria vida. Seu pai era um empreendedor moral e sua mãe, uma santa em território de incrédulos. A sentença paterna era sua única garantia de futuro. Então, quando completou vinte anos, teve que se casar. Segundo seu pai, todo homem precisa arranjar uma mulher para lhe preparar o almoço e lhe dar um filho. Antenor se arranjou com Carolina.

Matar a esposa não havia de ser uma tarefa tão difícil. A julgar por sua fragilidade física e o próprio desprezo que nutre pela vida, Carolina não ofereceria resistência alguma. Mas Antenor acreditava ser um artista e fez do seu suposto talento uma sublimação da vida. Então, como se fosse uma faca, todos os dias empunha o lápis e se recolhe com seu velho caderninho à sombra de um solitário umbuzeiro que resiste nos fundos da casa. Enquanto caminha taciturno, Carolina o observa.

Os dois praticamente não conversam. A falta de diálogo é tamanha que o silêncio incomoda. Às vezes o vento sopra mais forte e entranha pelas frestas das janelas fazendo um redemoinho no meio da sala. A monotonia que alimenta o tédio é de repente usurpada. O vento subjuga o medo da pobre mulher. Indiferente, uma imagem de Nossa Senhora Aparecida presta seu testemunho sobre a mesa. Carolina sempre achou que vento forte fosse prenúncio de coisa ruim. Superstições nunca são óbvias.

O casal não teve filhos. Um ano após o casamento, Dona Herculana, benzedeira que há mais de meio século prestava seus serviços nas redondezas, constatou que Carolina era seca. O diagnóstico não incomodou Antenor. Além da labuta com a terra, ele não alimentava outra ambição que não fosse a publicação do seu livro. Difícil dizer quando foi que essas aspirações literárias se enraizaram em seu peito. A vida monótona e sofrida não lhe parecia um terreno fértil. Como a maioria dos garotos do Caeté, Antenor estudou até a 4ª série. Passou fome, e antes que fosse apresentado aos livros já era íntimo da enxada.

Seu pai, analfabeto, não assinava nem o próprio nome. De instinto desenvolveu uma habilidade com a matemática e isso lhe bastava. Sua mãe chegou a aprender o abecedário e, com algum esforço, além da assinatura, também conseguia soletrar algumas palavras. Definitivamente, Antenor não sabia como explicar aquela estranha vocação. Faltavam-lhe referências. Às vezes refletia sobre o assunto, mas nunca encontrava uma resposta.

Sabe-se lá por qual motivo, ultimamente nosso autor tem andado muito inspirado. O conto de abertura do seu livro evolui sem maiores dificuldades. Ainda não encontrou o título que procura, nem faz ideia de como irá concluir sua trágica narrativa, mas impulsivamente as ideias estão surgindo, organizadas em imagens sequenciais, independentes da sua vontade. É um processo que ele não consegue entender. Certa feita, pensando sobre esse enigma, concluiu que “escrever é estar alheio a si mesmo”. Então escrevia. Estancava, no texto, o tédio.

Sentada, Carolina vagava em pensamentos só seus. Na verdade, difícil saber se ela pensava em algo. Era como um rádio fora de sintonia. Não tinha serventia. Na face, os olhos: adereços inúteis. Carolina não compreendia o que via. Fatigados pelo sol, os lábios nada diziam. Se dissessem, quem ouviria? Uma vida inútil, incapaz de ser medida, sem sentido ou justificativa. Só a lâmina, afiada de uma faca, poderia louvar aquela sina.

Era chegado o dia: Antenor iria matar Carolina. Pressentindo o instante que se anunciava com o vento forte, observava que as folhas das árvores resistiam à tormenta e se mantinham em silêncio, estáticas. Poderia ser uma ilusão, talvez uma idealização romântica da cena, mas foi assim que o nosso autor descreveu a paisagem daquele momento. Aos poucos as imagens idealizadas iam se incorporando às páginas do velho caderninho, e o conto ganhava seu contorno conclusivo.

Deu-se o primeiro golpe. A faca é um instrumento engenhoso. Ajusta-se melhor à mão quando deduz que é matar, o seu ofício. O odor do sangue gotejando no chão de terra batida. A mão firme, sustentando o corpo que se contorcia. O movimento da faca já dentro das tripas, girando, ceifando qualquer tentativa de resistência da vida. Os lábios tremidos e os olhos esbugalhados da vítima. A voz morosa que ensaiava uma capela uníssona, incapaz de ser compreendida. A morte, afeita ao silêncio, interrompe, antes de ser interrompida.

Assim Antenor concluiu o último parágrafo do conto. Fechou o caderninho, pôs o lápis no bolso da camisa e retornou para casa. Sentia-se recompensado. Carolina estava morta e ele permanecia de mãos limpas. Ao reencontrar-se com a esposa, no interior da sala, ajoelhada e rezando diante da imagem de Nossa Senhora Aparecida, resolveu ajoelhar-se ao lado dela e se confessar com Deus.

Lucas Ribeiro Novaes é natural de Jequié, BA, cidade onde reside e da qual, por razões inexplicáveis, nunca pretende sair. Psicólogo de formação, professor e empreendedor cultural. Realizou inúmeros projetos literários em sua terra natal e atualmente administra o Espaço Multicultural “Na Contramão”, centro de atividades artísticas da referida cidade.

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