nuvens com vista para o mar

[Assis Freitas]

Edyara usava cabelos encaracolados, óculos quadradinhos e tinha uns lábios que sopravam idiossincrasias.

Mariângela eu conheci numa viagem de pesquisa, ela namorava outra garota. Uma noite sonhei que ela estava ao meu lado na cama e que nos beijávamos e transávamos.

Algum tempo depois ela me disse que o sonho acontecera.

As minhas mulheres sempre foram flutuantes, nuvens benfazejas que pairavam no céu. Algumas viraram realidade, outras sempre foram desejo. Mas eu nunca consigo discernir as fronteiras deste paradoxo.

Houve a Goly, Ivonize, Verônica. A Soraya desfilava o corpo bronzeado na praia em frente ao apartamento que eu morava. Tinha passos doces, olhava para as pessoas com ar de realeza. Na vez que cingi aquele corpo delgado
contra o meu pude perceber a delicadeza de coxas, seios e uma boca que aspergia anseios.

Um dia Nívia amanheceu sorrindo estrelas. Deitou desejos sobre a estrada do tempo e me fez contemplar a florescência de loucas luzes. Eu sempre tinha silêncios a oferecer, às vezes uma ou outra palavra de fervor. Mas
a intensidade dos gestos não permitia elucubrações. Era sentir e sentir e sentir. Até se dissiparem todas as amarras dos quereres. Sabe esses ventos que os lábios sopram. Essas delicadezas que brotam das mãos. O úmido recanto da língua em epifania.

Há outras que não posso nomear por puro desconhecimento.

Como a que encontrei no restaurante do hotel durante o café da manhã e enquanto fazíamos o desjejum trocávamos olhares. Horas depois, estava à porta fumando um cigarro e a vi se aproximando no banco traseiro de
um carro que contornava lentamente a curva da avenida.

De repente, ela virou o rosto na minha direção e deixou cair uma bola de papel sorrateiramente. Eu me arrisquei entre os carros e consegui pegar aquele mimo que o vento teimava em distanciar. Quando desfiz a bola de papel, havia um número de telefone desenhado numa caligrafia apressada. Tentei ligar uma vez, mas do outro lado da linha reinou um silêncio de respiração ofegante.

Assis Freitas, poeta, escritor e jornalista, mora em Feira de Santana (BA). É autor de vários livros, sendo o mais recente “há um poema morto na sala”.

Leia a seguirQuaresmal“.

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