Ligeia

[Roberto Prado]

Caríssimo, desculpe-me a ausência, mas essa missiva traz-lhe boas novas.

Conheci acidentalmente uma moça muita linda. Encontrei-a numa inesperada ida minha à praia. Sabe bem o bom amigo sobre o que penso do sol na cabeça, isso me remete à desgraça de Mersault, mas o Destino – sim, com “D” maiúsculo – sempre nos prega peças… Sim, estava a andar a esmo, pensando na falta de sentido da vida, quando – Louvado seja Deus! – a vi dentro d’água (quase ouso dizer que eu a ouvi antes de vê-la)!

Sem pensar e sem dar por mim, me vi pulando ondas, mergulhando, nadando como se tivesse feito isso toda a minha vida. Não sei por quanto tempo dei braçada e mais braçadas até que me aproximei dela – e ela cheirava a sal…

Faltam-me palavras, verbos, substantivos, adjetivos, falta-me toda uma gramática, um alfabeto para descrevê-la (dominasse eu o grego!), e por isso não o farei aqui e nem em meu último suspiro, por isso peço-lhe: SIMPLESMENTE CREIA EM MIM!

Ficamos horas a conversar boiando nas ondas, mas meus olhos, minha alma, todo meu eu afundava-se naqueles olhos verdes…

Nesse mister passou-se todo o meu dia, e somente ao pôr do sol despedi-me dela.

Perguntei onde ela morava, como poderia encontrá-la outra vez, e ela, olhando para o horizonte sem fim, respondia com doces negativas e um sorriso que levaria qualquer outro homem à loucura. Qualquer outro homem que não este seu amigo versado em ciências do absurdo e do oculto à vista de todos…

Arrisquei-me a inquirir seu nome. A resposta veio junto com um sorriso lindo:

– Ligeia.

O sol já começava a se pôr, seu reflexo na água me ofuscava, e quando cheguei perto para abraçá-la, num pirueta mergulhou e desapareceu… As gaivotas grasnavam em coro, elas riam de minha angústia, de minha dor, e lembrei-me nesse instante a razão de minha antipatia pelo mar.

Caríssimo, esse tempo sumido se deve à minha insensata busca por ela. Ando de praia em praia, ora gritando:

– Ligeia!

Ora murmurando:

– Ligeia!

Assim passo meus dias n’água, ando mais enrugado do que deveria nessa minha provecta idade. Acho que já estou ficando com meus cabelos verdes… Meu bronzeado já está transformando minha pele em papiro. Há vezes em que, chegando em casa após o dia inteiro na praia, não me reconheço em frente ao espelho.

Caríssimo, o amor na nossa idade é realmente um risco fatal!

Minha vida mudou, estou irreconhecível, e, sem perceber, alterei drasticamente meu modo de viver e de me alimentar. Duvida?

Veja a receita que lhe envio:

SALADA DE ALGAS E PEPINO

Ingredientes:
– 25g de mistura de algas secas
– 1 pepino pequeno
– 75ml de mirin
– 75ml de vinagre de vinho de arroz
– 2 colheres de sopa de açúcar amarelo
– 2 colheres de sopa de sumo de limão

Faça assim:

1. Ponha as algas de molho numa taça com água fria e deixe repousar 15-20 minutos para amolecerem;

2. Corte o pepino ao meio no sentido do comprimento e depois em meias-luas muito finas; em seguida, ponha as algas, grosseiramente picadas, e o pepino numa tigela;

3. Misture o mirin com o vinagre de vinho de arroz e o açúcar num tacho pequeno e leve a lume brando até o açúcar dissolver. Retire do lume e deixe arrefecer. Junte-lhe o sumo de limão;

4. Deite o molho de vinagre sobre as algas e o pepino e envolva cuidadosamente. Sirva em taças pequenas ou pratos individuais.

A princípio você deve estranhar, mas com o tempo e uma paixão avassaladora, logo se adaptará.

Caríssimo, estou um homem muito velho para tais emoções. Enquanto traço estas linhas, uma voz doce canta em meus ouvidos, a dúvida me rói. Será Ligeia? Será a loucura que já me come pelas beiradas?

Aguardo resposta.

P.S.: Envio-lhe estas conchinhas. Uma de cada praia a que vou.
P.S².: Espero que goste da salada.

Abraços salgados.

Roberto Prado tem vários livros publicados, entre eles “Gringa & outras histórias”, “Contos” e “Das doidas desventuras de Doidinho & Dona Dedé”. É Membro Correspondente da Academia de Letras de Teófilo Otoni (MG) e mantém o blog Etc & Basta.

Leia a seguirDependência literária“.

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5 comentários em “Ligeia”

  1. Incrível como sempre.
    Previsível é estarmos todos morando nas suas loucuras … “(…) Será a loucura que já me come pelas beiradas?(…)”
    … O que será de nós?!

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