Dependência literária

[Rafael Rodrigues]

Se as grandes nações realmente se preocupassem com o bem-estar de todos, já existiria algum tipo de terapia — ou mesmo clínicas de reabilitação — para dependentes literários.

E ela seria importada por psicólogos brasileiros, é claro. Haveria até mesmo um Globo Repórter dedicado ao tema. O que é a dependência literária? Quem pode ser acometido por ela? Como vivem os dependentes? O que vestem? Do que se alimentam?

“A dependência literária, ou o vício desenfreado em livros”, diria a repórter, “é um transtorno obsessivo compulsivo que se apodera de praticamente todo apaixonado por literatura”. “Os atingidos por esse distúrbio têm como lema”, revelaria a jornalista, “uma frase do filósofo holandês Erasmo de Roterdã: ‘Quando tenho um pouco de dinheiro, compro livros. Se sobrar algum, compro roupas e comida’”.

Em seguida, seria mostrado o primeiro depoimento da matéria. O rosto da dependente seria mantido em segredo com um efeito de luz e sombra. Sua voz também seria alterada. Como uma pata rouca, ela diria: “Eu ia comprar um sapato mas, em vez de comprar um de duzentos, trezentos reais, comprava um de setenta, oitenta, no máximo cem. O resto eu gastava na livraria. Fazia isso de quinze em quinze dias”.

Um corte de imagem e a jornalista agora estaria numa livraria. Ela mostraria um expositor de livros de bolso e faria as contas: “com duzentos reais um dependente pode comprar de dez a vinte livros”.

Mais um corte e a pata rouca falaria novamente: “Da última vez, eu comprei doze livros de bolso. O sapato eu comprei para ir a uma festa, nem sei quando vou usar de novo. Esses livros vão passar o resto da minha vida comigo. Eu amo meus livros”.

Novo corte. Um outro repórter estaria numa cidade do interior de algum estado. Ele não revelaria a localidade para não comprometer a identidade do dependente que seria entrevistado. Também com o rosto escondido e a voz alterada para a tonalidade do que poderia ser um urso de boca cheia, ele diria: “Como aqui não tem livraria, eu compro muito pela internet. O carteiro passou a entregar tanto pacote que às vezes já chegava reclamando. Ele dizia que a nossa casa fica fora do roteiro, mas isso não é problema meu”.

A reportagem prosseguiria, e o rapaz faria outra denúncia: “Depois de um tempo, os Correios começaram a me boicotar. Não é paranoia: nunca mais encontrei frete grátis para a minha cidade, faz um tempão que eu não compro nada. O último pedido que eu fiz tem quase dois meses! E só comprei porque o site estava em promoção”.

A equipe do jornal solicitaria aos Correios um pronunciamento sobre as acusações do rapaz. A empresa afirmaria, em nota, que a empresa “busca servir a comunidade da melhor maneira possível” e que não comentaria “a atitude do carteiro”. No último parágrafo, a nota destacaria que “esse rapaz necessita de ajuda psicológica”.

Novo corte e a equipe do Globo Repórter agora entrevistaria um psicólogo. “Como curar a dependência literária?”, perguntaria o repórter. O psicólogo responderia: “O primeiro passo é o paciente admitir que tem um problema. O segundo é querer passar pelo tratamento. Nos casos mais graves, é mesmo necessário ser internado em uma clínica de reabilitação. Lá, eles têm acesso à internet, mas apenas para se comunicar com a família. Os computadores são bloqueados para acessar sites de jornais, livrarias, redes sociais e até mesmo blogs literários — sejam eles nacionais ou estrangeiros”.

Enquanto o psicólogo fala, seriam veiculadas imagens da área de recreação da clínica, repleta de homens e mulheres atônitos, com o olhar fixo no horizonte. De repente, um deles se desesperaria e gritaria “Amazon! Submarino! Saraiva! Americanas! Estante Virtuaaaaaaalllllll” e sairia correndo, numa tentativa de fuga, mas os enfermeiros o deteriam, mesmo que não houvesse necessidade: os muros e portões seriam altíssimos, intransponíveis.

A imagem voltaria para o psicólogo: “O terceiro passo é desintoxicar os pacientes. Para isso, eles são submetidos a sessões diárias de audições de trechos de livros ruins. É preciso deixar claro que essas leituras são realizadas por uma gravação. Jamais submeteríamos nossos profissionais ao contato diário com obras desse tipo. Além disso, os pacientes são submetidos a audições dos piores lançamentos da música nacional e internacional. E também a sessões de filmes vencedores do Framboesa de Ouro, aquele prêmio concedido aos piores filmes do ano. Porque não se trata apenas de livros. Um dependente literário geralmente também é viciado em filmes e músicas ‘cult’. O processo de desintoxicação pode parecer desumano, para alguns, mas é absolutamente necessário”.

“Esse tratamento tem dado resultados?”, questionaria o repórter. “Sim”, responderia o psicólogo, “temos um alto índice de reabilitados. Meu filho, inclusive, passou por esse tratamento. Foi um choque para mim e para a minha esposa, mas não tivemos escolha. Ele só comprava CDs e DVDs originais, só queria ouvir Radiohead, Belle and Sebastian, Interpol e bandas desse tipo, só assistia a filmes de Terrence Malick, Charlie Kaufman, Paul Thomas Anderson e outros cineastas melancólicos. Foi uma fase muito complicada para nós, mas conseguimos superar. Hoje, ele já consegue assistir a filmes de comédia”.

O programa encerraria com uma mensagem de otimismo, conclamando aos pais e amigos dos dependentes literários a convencê-los a procurar ajuda. E os créditos finais subiriam com as imagens de um paciente recuperado assistindo, empolgado, a um show de música pop.

Rafael Rodrigues, editor da Outros Ares, nasceu em Feira de Santana (BA), onde vive. “Dependência literária” é parte integrante do livro “Mais um para a sua estante”.

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