O assessor

Guilherme Azambuja Castro

Antes de conhecer o doutor Herculano, meu ofício era tomar mate com Halls na praça, todo santo dia. Acordava seis, seis e meia, punha a chaleira no fogão, limpava a bomba com um grampo espichado, deixava a erva inchar na cuia, tudo preparado pra ver o Bom Dia Rio Grande tranquilo; oito, oito e meia, saía. Até a praça dava o quê?, quatro, cinco quadras. Passava na padaria e comprava um pacote de Halls preto – gosto de chupar Halls e tomar mate, dá um choquezinho dentro da boca que é bem bom –, daí tomava meu mate olhando o movimento. Quando não tinha mais bala pra chupar, ia pra casa. Fritava um bife, cozinhava arroz, almoçava tranquilo. Matava duas cumbucas de arroz-de-leite e voltava à praça. Tudo normal.

Defronte à Câmara de Vereadores de Canoa Branca tem um banco, ali eu sentava. Via a chegada dos vereadores, quando tinha sessão. Quando não tinha, assistia a chegada dos funcionários, dava no mesmo; importante importante era o movimento. Certo dia, o Beto, um vereador que fazia questão de ir de bicicleta pra Câmara – tá que o partido proibisse mostrar carro na frente da Câmara, mas ele que era exibido – me disse que o doutor Herculano queria gente pra assessor. Não que precisasse de dinheiro, tenho uma casinha alugada que me basta, todo caso fui até o gabinete do doutor e perguntei sobre esse negócio de ser assessor.

Fez uma cara de agora é que me lembro e me mandou ficar à vontade. Sentei. Abri a mateira. Sevei um mate.

“Sabes bater à máquina, Brizola?” Me chamam assim pelas sobrancelhas, sempre esfiapadas.
“Com um dedo, doutor”, fui sincero.
“Me conta das tuas experiências, então”, ele prosseguiu.
“Olha… Ultimamente tenho mais é tomado mate na praça, doutor.”
“Então és um AMH.”
“Sou?”
“Analista de Movimento Humano”, me explicou.
“Sim, claro”, achei interessante essa coisa.
“Joice, me tira um coelhinho da cartola, sim?”, pelo telefone, ele pediu à secretária, que logo apareceu com uma folha datilografada.
“Assina aqui, meu assessor”, me disse ele, riscando um xis no pé da página.
Termo de Posse, dizia.

Assinei.

“Agora espera que eu te chamo, tá?”

Queria saber do salário, quanto era, mas como ele não tocou no assunto, e nem eu, ficou por isso.

Voltei à praça, tinha a térmica ainda pela metade, isso dava o quê?, cinco, seis mates.

Dia seguinte: seis, seis e meia, acordei. Aqueci água, pus erva pra inchar, limpei a bomba, Sidney Sheldon na mateira; pra mim, escritor é Sidney Sheldon; vi o Bom Dia Rio Grande tranquilo: ia chover em Pelotas. Bom, oito, oito e meia, saí. Tudo normal.

Sentei no banco e logo vi o doutor Herculano chegar à Câmara. Gritei: “Ô, chefe!”. Com as mãos, me mandou esperar; o portão, que fechava sozinho, me foi tirando o doutor de vista. Pensei: bom, mas que sou assessor, isso eu sou, pra mim papel assinado é o que conta. Segui tomando meu mate e chupando Halls.

Por um mês, mais ou menos, eu gritei “ô, chefe!” quando via o doutor chegar à Câmara; e ele, com as mãos, me dizia: “calma, Brizola!”
Um dia, tomava meu mate e lia Sidney Sheldon bem na parte dum incêndio alucinante quando ouvi ele me chamar. Fui até o gabinete.
“Grande Brizola!”, me recebeu com festa. “Joice, traz uns coelhinhos, sim?”.

A Joice trouxe: três. Desenhou o mesmo xis no pé das folhas: Folha Ponto, dizia.

“Assina aqui, meu assessor!”.
Assinei.
“E aqui.”
Assinei.
“Mais aqui.”
Tudo assinadinho.
“Te chamo em seguida, fica tranquilo”, ele disse, e já me deu as costas.

Mas continuei ali, parado, esperando alguma ordem, sei lá, alguma coisa. Então ele tapou o bocal do celular e disse vai embora com outras palavras: “Fica tranquilo!” foi o que ele disse. E de fato fiquei. Pra mim papel assinado é o que vale, e nesse dia assinei três coelhinhos.

Não sou de me queixar, mas teve a primeira vez. É que fim do mês recebia em casa dez pacotes de erva-mate e cinco de Halls como salário; conseguia me manter o quê?, vinte, vinte e um dias, nem isso. Fui ao gabinete.

“Tá me faltando erva, doutor”, desembuchei, todo corajoso. Foi mais fácil que pensei: me deu um aumento na hora; fecharia os trinta e um dias folgado; a partir daí, mês de trinta sobrava o quê?, um pacote inteiro de erva. Ganhando mais, hora de mostrar trabalho, pensei.
O gravador eu já tinha, um portátil da Gradiente; o crachá, mandei imprimir colorido na Canoa Press e ficou assim: AMH em cima, Assessor embaixo, num canto a minha foto três por quatro de terno e gravata. A partir de então, se perguntassem qual era o meu ofício, eu respondia: sou assessor do doutor Herculano, e ainda mostrava o crachá pra quem não acreditasse.

Um dia o doutor mandou dizer pelo Beto que era pra eu me tocar a Pelotas. Me entregou um celular e uma cartola cheia de coelhinhos, Missão de Estado.

Cueca, meia, camisa, calça de brim, japona, três ou quatro potes de Minancora – pra mim, desodorante é Minancora –, joguei tudo na mala; a mateira, já carregava; e o crachá, raramente tirava do pescoço.
“Mando teu salário pelo ônibus, fica tranquilo”, me disse o Beto.

Fiquei mesmo.

Entrei no Embaixador. O ônibus não passava de oitenta, isso dava o quê?, três horas, três horas e meia até Pelotas. Ultrapassado o pórtico de Canoa Branca, os campos de arroz surgiram no para-brisa, um verde uniforme lindo de se ver; nessa hora senti pena de, por causa do meu novo ofício, ter de sair de lá, eu que só deixei a cidade uma vez, quando precisei trazer uma tia-avó de Camaquã e fui dar em Jaguarão. Todo caso, vida de assessor é assim, dura, devia eu desconfiar. Passando o Texaco, fechei a cortina, começava eu a sonhar e um piparote do cobrador me acordou.

“Já estamos chegando?”, perguntei, meio dormindo.
“Vai pra onde, Brizola?”
“Pelotas”, respondi.

“Nem do Taim passamos”, ele respondeu. “Vinte pila até Pelotas”.
O doutor havia me dado o quê?, cem, cento e vinte, mais umas quantas bolsas de supermercado com erva e Halls. Um adiantamento, exigência minha. Paguei os vinte e virei pro lado. Tranquilo.

Pelotas, como toda cidade grande, tem mais auto que gente. Na rodoviária é uma quantidade de táxi esperando realmente que tu pague uma fortuna pra meio-metro de corrida. Me nego. Mesmo. Dar dinheiro eu pra taxista? Saí a pé e achei o Naite Pelotense, um hotel em conta, pegado à rodoviária, bem bonzinho: quinze cruzeiros o pernoite, direito a café da manhã e tudo: pão torrado, café preto, iogurte e uma banana. (Quando que eu ia tomar iogurte, e de garrafinha?) Paguei dois pernoites adiantados à Baronesa, proprietária e moradora do Naite. No quarto, escondi a cartola mais a mateira dentro do boxe, por segurança. E fui dormir com o celular preso ao elástico da cueca, também por segurança; pânico de cidade grande.

Seis, seis e meia, levantei. Crachá no pescoço, gravador com pilha nova que era pro relatório não desandar na minha primeira manhã pelotense. Não vi o Bom Dia Rio Grande – no Naite só tinha rádio –, tomei café, iogurte, e escondi a banana na mateira, pra mais tarde. Oito, oito e meia, perguntei à Baronesa onde era a praça da cidade.

“A mais próxima?”, me perguntou.
“Ah, tem mais de uma…”
“Olha, daqui? Umas doze quadras.”

Coisa muito complicada, e longe, quase que uma Canoa Branca inteira. Resolvi relaxar. Sentei na frente do hotel numa cadeira de praia e sevei o mate. Logo a Baronesa abriu outra cadeira ao lado: “Posso?”, perguntou. E eu vou negaciar? Sevei um mate pra ela. Dia seguinte sevei outro. Fui sevando, sevando, todos os mates que ela pedia eu sevava. Às vezes colocava capim cidró na térmica, só porque ela pedia; tava em Pelotas mesmo… Nenhum conhecido vendo é a conta; porque, pra mim, mate só com Halls.
Mas tinha uns olhos puxados, a Baronesa, tinha uma boca graúda ela, uma bunda que me segurava pra não beliscar quando passava rebolando. A gente foi se conhecendo melhor e, no decorrer do quê?, mês, mês e meio, já chamava ela de Barô, só Barô.

Com mulher no meio a coisa fica mais profissional, organizada, é inevitável isso. Foi ideia dela: passar a limpo e fichar os relatórios em pastinhas: por turno, dia, mês, ano. Foi ideia minha: fixar uma placa de bronze na frente do Naite: Unidade de AMH, dizia. Ela que pagou. Outra ideia, nossa: grampear cartões de visita nos recibos dos hóspedes, que, aliás, eram praticamente dois: seu Alexandre, vendedor itinerante de alpargatas, e eu.

Resgatamos uma escrivaninha de compensado abandonada no porão do Naite. Duas, três pinceladas de tinta branca, ficou como nova. Placa na parede, cartões na praça, unidade pronta. Tirei então da cartola uns quantos coelhinhos pra Barô assinar.

“Que que é isso?”, me perguntou.

Beijei a testa dela e disse: “Fica tranquila, é coisa séria”. Ela amoleceu e começou a assinar, um por um, como uma boa fêmea deve ser, obediente. Todos devidamente assinados, tomei-lhe os coelhinhos e guardei na cartola. “Te ligo em seguida, minha assessora”, disse apressado, porque o Embaixador saía em quê?, uma hora, hora e meia no máximo. E saí a pé. Táxi, me nego.

Guilherme Azambuja Castro nasceu em Santa Vitória do Palmar, Rio Grande do Sul, em 25/12/1979. Radicou-se em Porto Alegre em 1996. Formou-se em Direito na PUCRS, e atua na Agência Nacional de Saúde Suplemendar como Especialista em Regulação. Escreve contos. Participou da oficina literária do escritor Charles Kiefer. Vencedor do 21º Concurso de Contos Luiz Vilela, de 2011. Atualmente, cursa o mestrado em Escrita Criativa na PUCRS. Mantém o blog http://guilhermeazambujacastro.blogspot.com.br/.

Leia a seguirAnatomia de um esquecimento“.

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