Cachecol e chantilly

Paula Sanches

Era um belo dia ensolarado, isso me encantou e eu me convidei para uma xícara de café bem quente e um prato na cor creme com uma bela fatia de torta de morango com bastante chantilly em um bistrô próximo a uma praça muito charmosa. Apesar dos meus 24 anos, possuía cabelos completamente brancos. Eram fartos e longos e ria ao me olhar no espelho quando beliscava as bochechas, sempre formando círculos rosados, o que me fazia pensar na França do século XVIII. Meus olhos castanhos claros estavam voltados para a praça cheia de árvores e bancos onde as pessoas liam. Estanquei o olhar e comecei a observar um rapaz sentado na grama, encostado em uma árvore. Ele vestia uma camiseta branca lisa, uma calça jeans desbotada e um cachecol listrado nas cores branco e azul claro. Pedi mais uma xícara de café e um pouco mais de chantilly.

Eu estava encostado em uma árvore, sentado na grama macia e fingindo que dormia, sentindo o sol no meu rosto, o restinho de calor que ainda sobrara. Mas não deixei de observar uma garota sentada em uma mesa de um bistrô com os cabelos longos e brancos, tão fartos que não saberia dizer se era de verdade. Ela vestia uma blusa cor de rosa com fitas brancas e mangas bufantes, havia pérolas no decote. A saia era branca com detalhes dourados e pequenas pedras cor de rosa. Ela também usava um colar e brincos ovais na cor turquesa. Os sapatos delicados eram na cor amarela e as meias brancas possuíam babados.

Paguei pelo meu fabuloso lanche e caminhei pela praça em direção ao garoto do cachecol. Sentei em um banco próximo a ele e, como ele parecia dormir, soltei uma pérola da minha blusa e arremessei em sua direção, acertando o seu rosto. Eu estava rindo quando percebi que o garoto olhava para mim. Seu cabelo era tão negro que parecia azul.

O que havia com aquela garota? Ela acabara de jogar uma pérola em meu rosto e estava rindo. Quando me viu com um ar confuso pareceu achar tudo mais engraçado. Foi no momento quando ambos avistamos um esquilo vermelho de olhos verdes.

Olhei para o garoto e ele olhou para mim. Não pensamos duas vezes, acredito, pois estávamos em uma corrida atrás do esquilo vermelho. Corremos tanto que já não sabia onde estava e o garoto também parecia perdido. Havia começado a chover e eu estava ensopada. Espirrei uma, duas, três vezes.

Ela tremia devido a chuva fria. Não conseguia compreender a mudança tão repentina de tempo. Aproximei-me e lhe entreguei meu cachecol. A garota o colocou na cabeça, protegendo-se da chuva e acenou com a cabeça um “obrigada”.

Hmn, o cachecol tinha cheiro de noite e aproximei-o o máximo de mim. Percebemos que o esquilo não voltaria e, para agradecer o garoto, peguei alguns morangos que havia guardado no bolso da minha saia e entreguei a ele.

Peguei os morangos e os guardei no bolso de minha calça. Encontramos uma árvore para nos abrigar da chuva e notei os lábios vermelhos da garota. Eu a beijei suavemente, um beijo de despedida, e senti gosto de morango e chantilly em sua boca. Fomos embora, cada um em direção para suas respectivas casas.

Eu acordei me sentindo gripada, mas precisava trabalhar. Levantei da cama um pouco zonza e percebi ao meu lado um cachecol listrado nas cores branco e azul claro. Não fazia ideia de como aquilo havia parado ali. Não fazia o meu tipo, portanto eu não o teria comprado. Presente? Talvez. Num impulso peguei o cachecol e o cheirei. Cheiro de noite. Agradável. Não era de todo ruim, afinal. Mas eu estava atrasada!

Acordei com o despertador e percebi que meu trem partiria em apenas uma hora! Hoje eu deveria visitar os meus pais. Devia essa visita há muito tempo e sabia que não seria perdoado se faltasse mais uma vez. Levantei depressa, tropeçando na bagunça e ainda tonto caí no chão. Ao me levantar vi que alguma coisa havia caído do bolso da calça do meu pijama, quando peguei o objeto do chão, percebi que eram morangos, já mofados. Que estranho, eu nunca gostei de morangos.

***

Sou bacharel em Design Gráfico e estudante de Letras. Meu primeiro texto impresso será lançado este ano pela Andross Editora, na antologia de contos e crônicas “Entrelinhas – Volume II”, com organização de Helena Gomes. Mantenho o blog Electric Beans.

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