Bebidas e futebol

Roberto Prado Barbosa Júnior

23:35h, quarta tulipa de chope escuro, duas caipirinhas de abre-alas, porção de fritas com queijo já na saudade, e de repente o Magrão pergunta assim à queima-roupa:

– Tem jogo amanhã lá no estádio, vamos?

O miserável sabe duas coisas importantes sobre mim:

1. Detesto esportes em geral, e futebol em particular, e
2. Topo qualquer coisa depois de três chopes.

– Então combinado, às seis horas da tarde todo mundo em casa e vamos juntos pro estádio.

Ok!, respondemos juntos e pedimos outra rodada de chope. Lá pela uma e pouco da madrugada fomos embora. Acompanhei o Magrão até perto de casa, ele seguiu em frente e eu fui para o meu apartamento. Subi as escadas lenta e tropegamente, tirei as roupas e o sapato. Quando as chaves caíram no chão foi que reparei que havia trocado a ordem das coisas, me dei conta que estava nu no corredor do prédio, e quase arrombando a porta de meu apartamento, entrei. Tomei banho e me enxuguei no lençol da cama…

Acordei sábado, passava do meio-dia, com ressaca. Dirigi-me à cozinha e fiquei a meditar profundamente – na verdade acho que dormi mesmo em pé – no que faria, se café ou almoço, resolvi abrir um pacote de amendoim. Não me fez nada bem.

Voltei ao aconchego da cama.

Toca o telefone, era o Magrão confirmando o futebol de hoje à noite.

– Mas que futebol? E eu lá sou homem de futebol? Quando que em sã consciência… – foi aí que me lembrei, malditos chopes…
– Como fazemos? Você passa aqui ou vou aí? – Pergunto bancando o desentendido.
– Você passa que os lastros vão vir também, tomamos uns aperitivos aqui em casa e vamos calibrados pro estádio.
Importante explicar o que são os lastros. São dois sujeitos dos mais sem importância que andam conosco somente para dar lastro ao carro, sem mais explicações.

Desliguei o telefone, virei de lado e voltei a dormir. Não sei se sonhei, mas acho que os amendoins fizeram uma festa no meu estômago…

Acordei faltando pouco para as cinco da tarde.
Não escapei do banho, mas me enxuguei nas toalhas.

Vesti-me, desci para a rua, cumprimentei o porteiro do prédio que me respondeu com cara de desaprovação… Sei lá o que passa na cabeça desse sujeito. Vou até a calçada e grito:

– Roubaram meu carro! – Faço o espetáculo padrão dos roubados: grito, arranco os cabelos, xingo e por fim vou culpar o porteiro. Por isso ele me olhou daquele jeito, é cúmplice, é cúmplice…

Antes que dissesse qualquer coisa ele me perguntou:

– O senhor esqueceu o carro no bar outra vez?

Meu Deus, esqueci o carro no bar outra vez! A bebida ainda me fará andar de ônibus um dia!

Telefono pro Magrão:

– Vou demorar prá chegar aí, vou passar no bar e pegar o carro.

Sigo a pé até o bar, chegando lá vejo Ivan limpando as mesas e esvaziando os cinzeiros. Quando me vê, abana os braços à guisa de cumprimento e nem bem me aproximo ele grita:

– Esqueceu o carro outra vez, hein?

Todos os outros garçons olham para mim e para uma fileira de carros de luxo ali estacionados. Cabisbaixo, entro no meu fusca azul e crio um anticlímax no bar.

Sigo para a casa do Magrão, os lastros já estão lá. Buzino e logo os três descem cantando alguma coisa que lembra hino religioso e grito de guerra. Trazem quatro buzinas, quatro bandeiras coloridas, quatro chapéus ridículos.

– Onde eu me meti?

– O que foi que você disse? – pergunta o Magrão sacudindo uma bandeira na janela do carro. Nada respondo.

Sigo o engarrafamento até o estádio, e para a minha alegria uma fila imensa já se apresenta na rua.

– Desçam aqui que vou arrumar estacionamento, nos encontramos lá dentro.

O Magrão desce e logo é seguido pelos lastros.
Espero para vê-los entrarem na fila e vou-me embora. Minutos depois entro no bar;

– Ivan, dois chopes! Cumpri minha palavra, combinei de ir ao estádio, e fui “até o estádio”. O Magrão tem muito ainda o que aprender quando o assunto é “levar ao futebol”.

Sorrindo, esvazio a tulipa.

Roberto Prado Barbosa Jr., funcionário público estadual (esperando lentamente pela aposentadoria), tem dois livros publicados pela CBJE.

Leia a seguirCotidiano“.

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8 comentários em “Bebidas e futebol”

  1. hahahahaha eu já estava aqui com meus botões pensando:
    “Não acredito que ele foi assistir um jogo!!!”
    Mas vc não me decepcionou e não foi mais uma vez.
    Mas se rolar algum jogo do Ibis prometo que vou com vc!
    Como sempre uma maravilha de texto.

    Um bjão!!!

  2. Deixando meu comentário mais uma vez!!!
    rsrsrsrsrs
    Por um momento seguindo essas linhas já ia me decepcionar com o Roberto por ir a um estadio assistir um jogo.. Mas mais uma vez ele não decepciona seus seguidores.
    Como sempre um ótimo texto!!
    Parabéns

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