Anatomia de um esquecimento

Hudson R. Santos

A constatação de que o processo do meu esquecimento estava na fase final fez-me gritar de espanto. Foi assim: primeiro saiu o som, depois a boca ficou aberta por um longo tempo, esquecida. Em volta tudo permanecia como antes: a sala e suas paredes cansadas de serem observadas, depois a cidade onde naquele momento meu corpo não dava notícias de presença, o globo terreste em volta do sol, nossa galáxia e as outras e depois anos-luz de não se sabe muito bem o que ainda. Quando fechei a boca minha mente foi tomada por ideias um tanto turvas, porém decisivas para o ciclo que se completaria comigo sendo tragado de todas as memórias antes de ser irremediavelmente tragado pelo tempo. Quando percebi – e isso foi o que mais me irritou, pois perceber algo significa tê-lo esquecido até então –, numa noite de insônia (prática atroz de esquecer o sono) em que não recordava outras maneiras de matar o tempo, calor diabólico sem vestígio de vento, entrei num blog de um péssimo sarau que, junto ao maior paquiderme desses encontros cretinos, eu organizava num bar e procurei notícias, sinais de vida, manifestações ontológicas de mim mesmo. Passava, ou estava parado, preso, numa fase delicada e díficil de minha vida. E pensava, quando acessei o blog, justamente se não teria me esquecido pelo caminho, se a melancolia e o acaso não haviam furtado uma parte de mim, pelo menos uma parte que eu ainda quisesse, apesar de tudo. Talvez apenas aquela hipotética alteridade que o deserto da melancolia furtou a Walter Benjamin. Espantosamente não encontrei nada. Confesso que me senti mal e piorei ao perceber que cultuava descaradamente uma vaidade prenhe de sofismas, e também porque me aferrava a esses argumentos para não dar mostras de ressentimento ao estúpido que sou, quando na verdade já estava convencido de não fazer nada a respeito e me deixar à sorte e à deriva. Nem uma palavra, foto ou vídeo quando fiz outra busca, simplesmente havia desaparecido junto com meu nome, havia sido propositalmente esquecido, como na fotografia em que o pai de Paul Auster, que estava no centro, foi recortado e as partes depois coladas para lançá-lo no limbo da solidão. Cheguei a duvidar de minha memória, para piorar as coisas, e tentei convencer-me de que havia inventado aquilo tudo, para tornar minha vida pior do que estava, e trocar (com toda patifaria possível) a questão do meu esquecimento pela do delírio da memória ou alucinação da insônia. Num e-mail para traumatizar-me (suponho), um amigo que frequentava o hipotético sarau garantiu que eu realmente estivera lá em todos os encontros, e perguntou se eu estava bêbado, pois tinha a certeza de que eu organizava os encontros. Tive que conter lágrimas e soluços de eterna gratidão: eu ainda persistia em alguma memória, mesmo que se tratasse de um patife que apenas queria me prejudicar ao dar-me a certeza de que o sarau fora real, portanto, o processo do meu esquecimento também. Amigo? Um canalha que nunca ouviu falar em oftalmologia, ou nos prazeres da naftalina, assim como o calhorda que me apagou da memória virtual do agora quase completamente esquecido sarau. Sinceramente não entendo por que abracei o monitor e chorei entre soluços e risos e quase o joguei pela janela.

O negro do céu pouco a pouco caiu num azul calmo, um avião passou iluminado, algumas luzes acenderam-se nas casas, cores da alvorada ao longe tomavam o horizonte, a lua ficou. Por puro acaso o som do avião me fez pensar em escritores errantes e saturninos e tentei fazer um passeio, porém considerei melhor a questão e optei por fumar, olhar a manhã e pensar, não sei com qual fim, que o esquecimento não se refere à inexistência, mas à vigência do objeto ausente na mente, ou seja: esqueço, logo existo, ou seja, me esquecem porque existo, sem no entanto encontrar qualquer alento nisso. Preferiria que pensassem em mim embora eu não existisse, disse a mim mesmo com melancolia e sentimentalismo fajuto. Pouco antes digitara meu nome no Google e não encontrara nada que se referisse a mim. O Google mais do que pesquisar faz as pessoas esquecerem o que nunca precisavam ter lembrado ou aprendido, pensei, o Google é o Lete contemporâneo. Claro que me irritava que o próprio Lete me esquecesse sem nenhum motivo aparente, como se ele também sofresse daquela grande insônia que assolou Macondo e fez todos esquecerem tudo. Um pouco antes ainda quase me afogara em remorsos ao ler um anúnico publicitário que falava sobre viagens inesquecíveis. Aquilo era uma grande sacanagem, já que eu tinha que me conformar, pelo menos era o que eu dizia a mim mesmo, com meu inominável anonimato na memória dos meus contemporâneos enquanto um bando de patifes levantava voo para usufruir as delícias de serem recordados, ainda que ao custo de algumas prestações e passeios forçados, como o banho de sol dos detentos. Antes disso e antes que amanhecesse, na madrugada, havia esperado um telefonema, algumas batidas na porta, um e-mail ou alguma frágil mensagem telepática, mas constatei que o esquecimento de mim apenas aumentava. Logo eu mesmo me esqueceria completamente e despertaria uma manhã qualquer (quando ludibriasse a insônia) de sonhos intranquilos convertido num abominável outro, com a maior amnésia sobre quem estava ali antes dele: eu, esse sujeito tão esquecível. Percebi que o arcaico desejo que as pessoas cultivam de serem outras daria nesse inferno: serem esquecidas pelo outro que se tornaram. Sem dúvida é um mau negócio desejar ser um eu que me aniquilará, chego a pensar que é uma modalidade de suícidio e que meu problema com o esquecimento me levava a algum lugar, afinal.

Depois que amanheceu e eu fumava, ao tentar recuperar o ponto inicial do meu esquecimento, me deparei em algum labirinto da mente com o filme “Amarcord”, de Fellini, do qual para dizer a verdade só me restava a imagem da dona da tabacaria com os maiores peitos que já vi e algo referente a cigarros. Qual não foi meu espanto ao me dar conta de que os sinais sempre foram claros, apenas esqueci de notá-los: Sempre esqueceram a data do meu aniversário, sempre esqueceram de me felicitar em datas comemorativas como natal ou ano novo; apesar de todos se abraçarem, nunca me notavam ou simplesmente achavam que já haviam me cumprimentado, o que empiricamente dava no mesmo, e metafisicamente também. Evidente que as pessoas esquecem os amantes, filhos, pais e tempo, distâncias, estações, silêncios, mas acho que sou excepcionamente bom em ser esquecido, tenho um dom natural para isso como Walt Whitman, Robert Walser, Baudelaire, Sebald e Rimbaud tinham para caminhar e escrever, saturninos e errantes, pensei, no momento em que o avião iluminado passou e a lua ficou acesa.

Logo depois de ter procurado meus rastros no blog do execrável sarau fui informado por impulsos nervosos que papai foi meu primeiro canalha; quando enfim fechei a boca aberta, esquecida, os seus sucessores seriam apenas cópias imperfeitas, apesar de concluir que o paquiderme do sarau levava alguma vantagem sobre as outras. Lógico que estava incomodado, porque momentos antes havia telefonado para Daniela, ou seria Maria, Vera, Gabriela? Havia apenas o número embaixo de um nome riscado não entendia por quê, mas que terminava com “a” pertencendo hipotéticamente a alguém do gênero feminino, considerei Átila improvável, por supostamente não conhecer nenhum. Como me encontrava assolado pela insônia decidi aventurar-me atrás do nome misteriosamente riscado e senti o sangue gelar quando atenderam e uma voz insofismavelmente feminina perguntou quem eu era. O que seria impossível de responder partindo do pressusposto de que eu não sabia quem ela era e não havia motivos, apesar do telefonema de madrugada, para me indentificar para estranhos, ou pelo menos para falar com conhecidos relapsos que haviam esquecido minha voz, desliguei irritado após sem querer gritar imbecil, não sei se para mim ou para a voz feminina que poderia ter alguma ligação com o nome riscado num guardanapo guardado. Por precaução deixei o fone fora do gancho, gesto em si simples, mas que me trouxe transtornos quando mais tarde esperei que alguém me telefonasse e tive que me contentar em ficar ressentido apenas pelas não batidas na porta, e-mails não recebidos e telepatia sem eficácia. Foi quando olhei para o monitor, diante do qual choraria mais tarde e pensaria em atirá-lo pela janela, com a boca novamente quase aberta e esquecida, sem nenhum sinal do avião iluminado que me faria pensar em escritores errantes, ou da lua que ficou acesa mesmo após o sol erguer-se até que persistiu num palidez prateada até sumir dos ares. Foi exatamente nesse momento que acessei o infame blog e descobri que o outro organizador tal como meu pai era um paquiderme incorrigível.

Papai tinha apenas três paixões na vida: levar-me para passear, beber até acabar o dinheiro e me esquecer em vários lugares diferentes. Esqueceu-me em supermercados, praças, casas de parentes, ruas, campos, perto de rios e do mar. Sua desculpa quando chegava sambando em casa era sempre: “Ué, o menino foi comigo?!”. Não fosse mamãe arrastá-lo para me procurar nunca eu teria sido encontrado. O patife, além de ter me perdido, perdia por muito tempo o meu nome, até sua consciência emergir do lago etílico e encontrá-lo novamente em sua boa, por acaso. Foi justamente essa impressão terrível que me tomou quando não encontrei notícias minhas no blog e consultei o Google, em vão.

Hudson R. Santos é escritor. Editor da seção Outras Vozes da revista de cultura Laboratórios de Poéticas e arte-educador no Fábricas de Cultura. Tem textos publicados na revista eletrônica Zunái e no Literatura em foco.

Leia a seguirBebidas e futebol“.

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