Lances esquisitos

Reginaldo Pujol Filho

O lance dele eram grávidas. E isso é um problema, na medida em que, via de regra, as grávidas têm um cara que é o lance delas. E ele não era nenhum desses caras. Na verdade, na verdade, o lance dele não eram só grávidas, era também uma estúpida falta de superego e mais um monte de coisinhas que culminavam nisso. Mas disso ele não sabia. Só sabia que o lance dele eram grávidas.

Ela não sabia, nem tinha culpa nem nada com isso. Apenas entrara no ônibus. O ônibus que pegava pra visitar a mãe. O ônibus que ele pegava pra sentar no fundo e ficar cuidando pra ver se aparecia uma grávida do jeito que ele gostava. Bom, se ela não tinha culpa do lance dele serem grávidas, agora ela tinha alguma coisa com isso. Era grávida e tinha um mesmo ônibus a dividir.

E uma mesma parada onde desceram. Ela não viu que desceram, só que desceu. Ele viu que desceram e correu. E alcançou. E tentou uma conversa. Um Puxa, que barrigão. Outro Não quer que te acompanhe? E também o Acho lindo mulheres grávidas. Não recebeu nada em troca. Só observou-a acelerar o passo e ficou a pensar que ela bota roupa justa, fica desfilando e depois quer se fazer de difícil.

Foi bem na frente do terreno baldio que ele agarrou o braço dela e disse alguma coisa que significasse que agora ela ia ver, ou escutar, ou sei lá. Mas isso tudo pra arrastá-la a força pro fundo do mato.

Eis que lembro do que esqueci. Esqueci de contar que o lance dela eram porradas. Fazer o quê, tem quem goste. Mas não uns tapinhas. Porrada mesmo, de fazer plaft. E ela não tomava umas desde que o cara que batia nela sumiu, deixando de lembrança um olho roxo, uma luxação e um filho na barriga. Bom, e, assim como é difícil encontrar uma grávida quando o teu lance são grávidas, é difícil encontrar alguém pra te dar porrada, quando se está grávida e teu lance são porradas.

Digo então que não resistiu muito não. A abstinência de porrada era grande, e parecia que o cara cujo lance eram grávidas estava disposto a ofertar-lhe uma boa dosagem. E o fez. Um tapa. Um fica quieta. Um empurrão. Um tapa. Um não se mexe. Um tesão. Mútuo.

Somados os lances, o todo foi bom para ambos. Tanto que ela queria mais. Mas ele queria ir embora. Quando ela tentou segurar-lhe o braço, tomou mais um tapa. Gamou. E pediu seu nome, telefone, ofereceu o seu. Foi aí que começou a confusão.

Porque o lance dele, de fato, eram grávidas e, na maioria das vezes, as conseguia do modo como obtivera esta em questão. E, nas raras vezes em que conseguira de outro modo, não era menos truculento no lidar com as moças. De modo que, desde que conhecera esta sua peculiaridade, as únicas pessoas que tentaram descobrir telefone, endereço, paradeiro, identidade e RG dele foram os tiras. Motivo pelo qual se sentiu confuso. Não que ele já não fosse.

E um cara confuso que fica confuso faz coisas confusas, certo? Como dar o número pra ela. Ela que sentiu paixão no ar. Ele sentiu algo estranho no ar. Despediu-se sem beijo. Mas com violenta indiferença.

O que lhe custou um telefonema no dia seguinte e alguns Não consegui parar de pensar em ti e outros patatis e patatás de mesmo quilate. Além de um convite para visitá-la. Já que o lance dele eram grávidas, topou. Perder uma grávida assim de mão beijada?

Foi. Encontrou-a toda amor, toda beijos; ele esquisitando tanto carinho com ele. Então ele empurrão e Desgruda daqui. Ela Mais e gruda ali. Ele empurrão mais forte. Ela caída Vem, me bate, me amassa, me chama de carne de segunda, meu amor. Ele Meu amor? Ela Vem, meu homem. Ah!

Ele não era homem de ninguém, nunca de mulher nenhuma, mandou um palavrão e não lhe deu tapas, nem socos, nem pontapés. Apenas costas. Ela perdia mais um homem, não levou porrada, nem safanão, nem um beliscão. Só suas mãos ao peito e um suspiro.

A porta bateu.

Ele foi sem entender qual era o lance dela. Ela ficou a pensar qual era o lance dele.

Reginaldo Pujol Filho é de Porto Alegre, mas está estudando em Lisboa. Publicou “Azar do personagem” e “Quero ser Reginaldo Pujol Filho” pela Não Editora. Escreve no blogue Por Causa dos Elefantes e tem o www.reginaldopujolfilho.wordpress.com

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3 comentários em “Lances esquisitos”

  1. Oi, menino, que conto horrível/ótimo!

    Estou precisando falar com você, mas sei que você está em Portugal e provavelmente o seu endereço e-mail antigo (pro qual já escrevi sem retorno) já era… me dê um toque pra eu te achar. Bj. MValéria

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