Fiapo, o amargo

Mayrant Gallo

E então estávamos lá, naquele bar de beira de estrada, sem nem uma alma, eu e Fiapo. No balcão, o proprietário lia o jornal e, no extremo oposto, sentado numa cadeira à porta de entrada, com o peito firmado no espaldar, o único garçom presente aparava as unhas. Eu repassava as perguntas com o Fiapo, enquanto o câmera e o iluminador ajeitavam o equipamento. Na mesa ao lado, diante do vídeo, a produtora acertava os últimos detalhes para o início da entrevista. Nosso programa ia ao ar toda segunda-feira, às 22 horas. Era um sumário de esportes diferente. Depois de uma passagem rápida pelos resultados da semana, nas modalidades mais populares, cumpríamos uma pauta de recuos históricos, com ênfase em grandes jogos, jogadas inesquecíveis e ídolos que ficaram.

Quando a entrevista começou, Fiapo, como num passe de mágica, perdeu o nervosismo. Foi como se voltasse aos velhos tempos, na lateral-esquerda. Ele fora um dos primeiros, antes de Marinho Chagas e Júnior, a fazer daquela estreita faixa de campo confinada à defesa uma via expressa para o ataque. Fiapo não queria falar de clubes, de nenhum dos três em que jogara e não fora feliz. Eram as suas condições, e tivemos de acatá-las. No vídeo, seus gestos são precisos, quase aristocráticos. E a dicção, a serviço da objetividade e da economia, é perfeita, sem hesitações nem deslizes. Ao fim, nada a corrigir ou cortar. Pelo contrário: material suficiente para duas entrevistas de quinze minutos, o que nos fez pensar num quadro rapidíssimo, na forma de vinhetas, em que aproveitássemos duas ou três falas breves e interessantes, não incluídas na edição final.

Comecei por perguntar o que representara para ele o futebol. Um meio de ganhar a vida, só. Tal fleuma talvez explicasse por que Fiapo, ao completar trinta anos, no decurso do campeonato nacional, abandonou para sempre o futebol. Um bafafá danado na imprensa da época. Debates quase filosóficos nas mesas-redondas de domingo à noite. Comentaristas defendendo o clube, o cumprimento do contrato à força, de modo que “o precedente não se tornasse uma regra”. “Hoje sou mais feliz”, Fiapo concluiu. Quis saber o que ele entendia por felicidade. “A vida comum”, respondeu, “no anonimato, livre de compromissos, de concentração, viagens, hotéis, público e, principalmente, tevê…” Rimos, todos, o câmera chegou a tremer; e a produtora disse, exultante: “Muito bom! Muito bom!” Sim, claro, bem de acordo com o espírito do programa, que pretendia ser o mais verdadeiro possível: frouxo, ousado, sem atavios e com um baixo nível de controle. Quando voltamos à polêmica do seu abandono, ele me interrompeu e disse: “O clube foi ou não foi campeão? Então! Não fiz falta!”.

Nas perguntas de praxe, ele foi ainda mais lacônico e fleumático. Parecia orientado por um estoicismo de acadêmico, surpreendente num ídolo do esporte, sobretudo do futebol. “Um momento inesquecível? Não, nenhum no futebol, que, a rigor, é um esporte de canalhas, com traições, falcatruas, velhacarias, roubos.” “Nenhum, portanto?”, insisti. “O nascimento de minha filha…”, respondeu, de forma seca, liberto de qualquer emoção. E depois de uma pausa acrescentou: “E, claro, a morte de minha esposa, oito anos mais tarde”. Ficamos quietos, constrangidos, estupefatos. “A morte de sua esposa?”, gaguejei. “É, não consigo esquecer isso. Mais de quinze anos se passaram e lembro cada segundo daquele dia: o que fiz, o que li, o que pensei e, por fim, a notícia de sua morte… Inesquecível, portanto, já que não consigo esquecer.” (Esta última frase, com duas conjunções associadas, foi tomada como exemplo por um gramático no seu famoso programa que não ensinava nada, mas tirava muitas dúvidas…)

“E o gol inesquecível?” Sua resposta foi breve e áspera: “Nenhum”. Mas logo em seguida se corrigiu: “Talvez aquele de mão”. Perguntei por que motivo ele escolhera exatamente aquele gol tão polêmico, que rendera muita discussão na imprensa esportiva e nos bastidores do futebol, inclusive com a punição do juiz e do bandeirinha. “Porque, embora irregular, foi validado, o que prova que no futebol tudo é possível. E eu confessei que a bola batera em minha mão… Mesmo assim o juiz confirmou o gol…”.

A questão seguinte, tradicional no programa, dizia respeito à vida que Fiapo levava agora, mais de vinte anos depois de largar o futebol. Para o nosso espanto, ele disparou a falar, mas, como disse no início, sem atropelo, em tom limpo, dicção precisa, sintaxe enxuta. Acabara de escrever um livro de memórias. Dividido em três partes: 1) A verdadeira vida (representando a infância, expressão que ele retirou de uma citação de André Breton), 2) Boladaria inútil (o período do futebol, com todas as suas mazelas) e, por fim, 3) A vida recuperada (seu momento atual, marcado pelos estudos, pelo amor à filha e pela lembrança da esposa morta). O título da obra, que se encontrava no prelo (São Paulo: Hemus, 1993), era A vida de Fiapo, o amargo, por ele próprio. Não quis nos adiantar muita coisa do livro; quase nada, na verdade. Limitou-se a falar das dificuldades que enfrentou ao escrevê-lo. Praticamente foi obrigado a reaprender a ler e escrever, o que acabou por acentuar o seu rancor pelo futebol.

O garçom lixava as unhas, e o proprietário do bar passava as páginas do seu jornal, ambos alheios à entrevista, que chegava ao seu trecho final. Lá fora, um ônibus escolar parou e despejou no estacionamento um grupo barulhento de vinte a trinta adolescentes. Dois times inteiros de vôlei, masculino e feminino, que voltavam de uma competição qualquer. Antes que entrassem, fiz mais duas perguntas a Fiapo, que as respondeu consultando o relógio, impaciente. Não, ele não quis jogar no exterior porque dinheiro não é tudo na vida. E, além do mais, era muito jovem na época, teve medo, muito medo, um medo horroroso: do clima, do idioma, das pessoas, tão estranhos a ele! Quanto à seleção brasileira, não poderia mesmo ser titular, jogar com frequência. Havia grandes laterais-esquerdos naquela década. Daí porque pediu para não ser convocado nunca mais, uma reação inédita então e que, mais tarde, alguns jogadores, por simples pose, começaram a imitar, voltando atrás depois de algum tempo de impasse e sempre diante das câmeras…

Os jovens tinham acabado de entrar no bar e passaram por nós, rumo às mesas do fundo. Dois ou três nos olharam com curiosidade, uma expressão de fascínio. Depois que Fiapo saiu, fui aos garotos e os entrevistei. Perguntei se conheciam Fiapo, o amargo. Só um se lembrava dele, de ter ouvido falar. Perguntei o que ele ouvira, e ele então respondeu que seu tio sempre se referia a Fiapo como um jogador idiota, que se achava mais inteligente que Pelé… E que o máximo que fizera no futebol fora um polêmico gol de mão, validado pelo juiz.

* Conto gentilmente cedido pelo autor. Parte integrante do livro “O gol esquecido”, no prelo.

Comece a ler os contos escolhidos deste mês: “Menina ansiosa“.

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