Todo dia era tudo sempre igual

Roberta Caldo

Todo dia ela faz tudo sempre igual.
Ele odeia esta música que o pai adora.
Sai de casa, caminha 15 minutos, entra na estação do Metrô. Itaquera. Para na plataforma. Espera, no cercadinho. Entra, desencana de sentar. No último volume, as músicas armazenadas no celular pré-pago.

E vai enchendo.
De gente, o vagão. De pensamentos, a cabeça. De vontades, o coração.
Estação Sé. Empurrado, esmagado – quem mandou ser mirrado? – sai junto com a turba.

Segue as placas, Jabaquara. Acha que o nome lembra cobras.
Sobe, encosta na porta, desce. Liberdade.
Que nome esquisito. Porque, pra ele, é prisão.
Coloca o quimono preto com aqueles riscos sem sentido, a faixa na testa. Não importa que é filho de amazonense com paraibano. Paulista não liga pra estas coisas em restaurante japonês.
Sonha em trabalhar num dos ikis caros mas, atualmente, faz frituras engorduradas num fast food onde juntam turistas do interior e motoboys. Moradores do bairro? Descolados? Nem pensar.
Enquanto frita um tempurá, pensa na Divina.

Olha se isto não é nome de mulher bonita… bonita, gostosa, cheirosa, o tesão da vida dele. Adoram-se. Conversam, saem juntos, trocam ideias sobre problemas e bobagens. Às vezes, se agarram. Mas ela, Divina, é taxativa: quer marido formado ou concursado, futuro tranquilo, um ou dois filhos, sogra amável.

Todo dia era tudo sempre igual.

Ele não é formado, não quer ser funcionário público, se não for Divina não transa com mais ninguém e tem uma mãe chata pra caramba.
E um pai que fica ouvindo esta música do Chico,
E a mãe permanentemente interpretando a letra.

Yaksobas, Tepaniakis, frita, empana, cozinha, empala.
Sua, sofre, chora, ri mas não fala. Nada.

Três da tarde, tira a faixa, o quimono, sai da gaiola envidraçada onde passou o dia se sentindo uma puta holandesa (alguém contou que é assim em Amsterdam).

Fazer o quê?
Pensa na Divina.
Ela, linda, maravilhosa. Sorrindo.
Mas não é pra ele.
Dentes branquinhos, peitos que cabem na sua mão, bunda pequena, mas ele gosta assim. Ela não faz chapinha, ele gosta daqueles cabelos encaracolados, indomados.
E ela sorri, mas não é pra ele.
Sobe a ladeira, passa catraca, para na plataforma, entra no vagão.

Todo dia ele faz tudo sempre igual.

Troca de estação na Sé, encosta na porta e depois de umas três paradas, consegue sentar.
Divina.
A moça ali no canto parece com ela.
Decide parar na pastelaria antes de chegar em casa.
Cinco da tarde, ele dobra a esquina.

– De carne e um suco de acerola.
Dentada a dentada, espiando atrás do balcão, enquanto a gordura pinga no tênis boa pinta.
(Merda, isto sempre acontece)
O suco, congelado. O pastel, plissado.
E ela, Divina, não está atrás do balcão.
Paga um real e 50 centavos com moedas catadas nos bolsos do jeans rebaixados do quadril.

Na porta, para um segundo, quem sabe.
Ela, Divina, vem dos fundos, encosta no ombro dele, olhando pra fora:

– Todo dia você faz tudo sempre igual.

Ele arrepia, apruma. E provoca:

– Vamos?

Jornalista, viajante. Trabalhei mais de dez anos em TV e outra década em frilas e assessoria de imprensa, onde escrevo matérias, artigos e quetais, só pra contrariar a tese de que o pessoal de TV não sabe escrever. Não tenho blog nem livro nem site, algumas fotos navegam por aí e rascunho nas redes sociais. Pensando em juntar contos num livro no ano que vem. Paulista, moro em Brasília, sou feliz.

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6 comentários em “Todo dia era tudo sempre igual”

  1. Rô; Bom dia! Só hoje li esta cronica sua. Achei-a bonita e inteligente. Você tem cabedal para produzir muita coisa mais. Vá em frente.
    Quando se começa a escrever, não se quer mais parar. Gostei demais
    do seu texto. Parabéns. Continuo torcendo por muito, mas muito mais mesmo de Você.
    Grande beijo – do papi guga
    05-12-2011

  2. Minha linda: já tinha lido esse conto que vc.me enviou antes, em primeira mão. Li tudo de novo e de novo adorei !
    Têm uma cadência que eu curto pra caramba…
    Vai fundo,escreva muitos contos mais. bjs. Cléa

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