O jantar

Luiz Portella

Eu disse isto é coração partido, e ela disse não, boceta partida. Aquilo era estranho, pois as bocetas são naturalmente partidas. Ela concordou e sorriu de leve. Apenas de leve.

Ela quis dar para um cara e não aconteceu, foi isso, foi o que ela me contou da festa da noite anterior. Eu sabia que ela agora estava só, sem seu amado, que a dispensou. Ela não me disse coisa alguma sobre seu rompimento. Eu não tinha maiores detalhes sobre isso, e não perguntaria nem sob tortura.

Mesmo curioso detestei ter falado de coração partido, foi sem querer. Passamos a falar sobre outras coisas. E quando fez-se um silêncio e eu ia falar umas coisas, falei para mim mesmo deixa eu ficar calado. É bom dizer sem palavras que você entende, dar um abraço amigo, mas eu não fiz isto. Vou comprar o suco que esqueci de trazer foi a única coisa que disse, e tomei o rumo da porta.

A casa sempre meio bagunçada havia sido toda recém faxinada, eu notei isto e fiquei apreensivo, ela tinha decidido algo importante. Especialmente os desleixados com limpeza não saem limpando tudo à toa, nunca se faz isso só pelo resultado.

Minha cabeça estava nas nuvens. Se o convite fosse daquele mesmo dia, então a decisão dela era anunciar o fim do tempo pedido há meses. Isso não estava totalmente descartado só porque o jantar foi acertado antes do rompimento, há duas semanas, quis acreditar. Poderia não ser bem uma decisão, poderia ser apenas uma aceitação, a aceitação do fim de seu relacionamento. Pior que isto era o mais provável. Eu me senti não-sei-como, não sabia se ficava triste ou feliz.

Naquela hora só haveria um mercadinho aberto. A rua do mercadinho era capilar, sinuosa e de poucos carros, se viesse um, ele viria bem devagar. Eu ia pelo meio da rua, medindo os passos com as mãos nos bolsos.

O refrigerador era vertical, com porta de vidro e iluminado. Eu fiquei em sua frente por um longo tempo, até me lembrar do suco. Embora um litro fosse suficiente, qual eu levaria?, então minha decisão foi levar uma caixa de cada um, que por fim deu cinco litros.

Quando voltei ela já havia começado a preparar o jantar. Eu fiquei um tempo sem fazer nada, em pé com o ombro apoiado na parede, só observando. Não demorou para que a gente começasse a falar e rir de idiotices. Nós não ríamos de curvar como de costume, apenas moderadamente.

Eu perguntei por que a vaca corre atrás do carro? Ela disse para pegar o vácuo. E completou, indo do riso para o sorriso, alguém tinha contado, eu já conhecia. Na hora eu não sabia, meio minuto depois lembrei-me, eu havia contado para ela anos atrás, no dia em que nos conhecemos. Eu senti uma coisa no peito, ela voltou para a cozinha.

Era treze de julho, iria acontecer uma festa do dia do roque que eu tinha pensado em ir, mas este plano foi adiado em um ano. Nada grave.

Estava frio e ventando muito, com assovios. O inverno havia atrasado, só por aqueles dias chegou a primeira frente fria para valer. Eu fui para a sacada, tinha lua e nuvens correndo. Ela pediu me ajuda com a mesa? Não respondi prontamente. As nuvens corriam muito, e parecia que a lua também tinha resolvido correr, para o lado oposto.

Sou físico, professor, admirador de Rubem Fonseca, Guimarães Rosa e Amilcar Bettega Barbosa, dentre outros.

Leia a seguir: O gato pardo.

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