Gato das sete mortes

Don Soares

Ele andava pelas ruas com a mão nos bolsos do casaco. Estava frio. Além disso, era um hábito. Algumas pessoas sorriam e davam um boa tarde. A tarde não era boa para ele. Mas ele respondia com educação. Fazer o que? Era uma cidade pequena. Todos se conheciam.

Chegou no bar. Pediu uma vodka. Pagou na hora, antes que o dono imaginasse que ele não pagaria. Não era um bom pagador… Então fazer o que? Era uma cidade pequena. Bebeu até quando pôde – pagar. Tentou conversar com os bêbados uma ou duas vezes. Mas ninguém se importou com seus problemas. Fazer o que? Era uma cidade pequena. Preocupada com problemas pequenos.

Chegou em casa, botou comida para o gato. Ligou a TV… Desligou a TV. Foi até a janela. Acendeu um cigarro… Procurou por mudanças no horizonte. E notou um muro sendo erguido; notou que uma casa fora repintada; notou que dois mendigos conversavam com O mendigo – antes só havia um. Pequenas mudanças para uma cidade pequena.

Jogou o cigarro na rua. Pegou uma garrafa já quase vazia de conhaque. Bebeu. O gato apareceu para comer. O gato não tinha nome. E era muito triste. Uma cidade tão entediante. Um gato com sete vidas… E sem nenhum motivo pelo qual viver.

O rapaz foi dormir.

Ao acordar, colocou comida para o gato. Fumou seu cigarro. O gato não apareceu. Abriu a porta, pegou o jornal no chão. E logo na capa viu a manchete “Gato morre atropelado por comboio de sete caminhões”. Caminhou para dentro de casa, pegou a tigela de comida e jogou o conteúdo no lixo. Ele gostava muito do gato.

Um novo dia ensolarado chegou, tão chato quanto o anterior e certamente o seguinte. A velhinha abriu a porta e pegou o jornal que estava no chão. Logo leu a manchete “Dono do gato atropelado por comboio se mata”. A velhinha se sentiu mal. No dia anterior tinha dado boa tarde ao rapaz. O rapaz havia respondido “Boa tarde”. Embora a tarde da velhinha também não tivesse sido boa. Não conhecia o rapaz. Eram apenas companheiros de boa tarde. De repente se achou forte. Pois mesmo tendo visto a morte de todos os seus parentes, ela seguira em frente. Talvez tivesse algum objetivo. Mas o único objetivo do rapaz era dar comida ao gato. Objetivos pequenos de uma cidade pequena.

Todos foram ao enterro. Afinal, era uma cidade pequena.

Longe dali o gato revirava lixo atrás de comida. O último caminhão não o acertara em cheio.

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7 comentários em “Gato das sete mortes”

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